De: Nabil Ayouch. Com Nisrin Erradi, Joud Chamihy e Lahcen Razzougui. Drama, Marrocos / França / Dinamarca / Noruega / Países Baixos / Bélgica, 2024, 102 minutos.
Não são necessários nem dez minutos de Todos Amam Touda (Al-djamí iu-ríb Tuda) - o enviado do Marrocos para a edição do Oscar do ano passado e que está disponível para aluguel na Amazon Prime -, para que as contradições do País, que fica na região noroeste da África, apareçam. Os letreiros da abertura da obra dirigida por Nabil Ayouch já fornecem alguns detalhes: "No século 19 as 'aitas' ergueram-se das planícies do Marrocos em direção às montanhas pela primeira vez. As mulheres ousaram cantá-lo em público em suas aldeias, lutando contra a injustiça, enfrentando os poderosos. Elas cantavam sem vergonha ou constrangimento, celebrando o prazer carnal. Elas ficaram conhecidas como sheikhats. Ao mesmo tempo idolatradas e desprezadas, a era moderna tentou destruí-las. Mas algumas resistiram, para que o poder de seu aita possa continuar a ressoar...".
Corta para uma dessas montanhas e surge em cena a carismática Touda (Nisrin Erradi), que insiste em tentar a vida como uma sheikhat, utilizando seu canto no sentido de preservar as tradições marroquinas, especialmente aquelas ligadas a já citada aita - que é uma forma de poesia cantada, que combina voz, percussão e dança. Sua apresentação é hipnótica, potente e sensual. Algo quase transcendental, como se corpo e alma, carne e natureza funcionassem como uma espécie de grito contra abusos de poder, injustiças sociais, de conflitos familiares, emancipação das mulheres e resistência política. Ao cabo, não demora para que percebamos que, para essas artistas, a luta se dá por meio da tradição oral. Um chamado público de denúncia contra os poderosos. A sequência é concluída com Touda sendo perseguida mata adentro por um trio de homens bêbados, repugnantes. Que abusam da força para estuprá-la. É agoniante. E ainda está no começo.
Sim, como em muitos países patriarcais, em que os homens se sentem à vontade e legitimados para associar à depravação ou a ilegalidade mulheres independentes, que quebram as normas sociais ou o status quo - o sonho molhadíssimo da extrema direita global, diga-se -, aqui a violência à elas e, por consequência, à Touda, parece emergir de todos os cantos, de todas as frestas. E não apenas quando ela canta e dança, em ambientes públicos, como bares, cabarés e festas da burguesia, mas em sua rotina, no foro íntimo, na vida doméstica. Ao cabo, Touda se empenha para manter as contas em dia, mesmo depois de ser abusada sexualmente. Tendo de recolher os cacos, até mesmo por ser uma mãe solo que cria um menino surdo e mudo de nome Yassine (Joud Chamihy). O que representa uma série de outras barreiras e preconceitos cotidianos, com o simples fato de, por exemplo, encontrar uma escola adequada, se tornar algo complicado.
Bem conduzida, entre o vibrante e o melancólico, o iluminado e o desalentador, a produção mostra como Touda tem de preservar o sorriso no rosto e o ânimo, mesmo estando devastada por dentro - e não deixa de ser fascinante o trabalho de Erradi, capaz de alternar em poucos segundos o estado de espírito, mesmo em meio a condições precárias, desiguais. No caminho da protagonista, um policial casado com quem ela se relaciona adiciona ainda o componente da instabilidade afetiva, por mais que ela tente se manter forte. E depois de passar por uma série de inseguranças no vilarejo em que mora, com apresentações canceladas - especialmente após confrontar determinadas humilhações -, ela resolve ir a grande Casablanca. Onde perceberá que a arte pode, de fato, ser um caminho para a salvação. A vida das sheikhats não irá se resolver - até por serem estigmatizadas, mesmo se mantendo relevantes. Mas ao furar a bolha e contar essa história para o mundo, Todos Amam Touda mostra que o machismo, a misoginia, a necessidade de controle do corpo e da sexualidade feminina (inclusive por meio da religião) e a falta de respeito às mulheres e ao local que ocupam como um todo no tecido social, devem ser combatidos de todas as formas. Especialmente com cultura, tradição, poesia, corpo, dança e luta. E não há nada mais político do que essa combinação.
Nota: 7,5

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