quarta-feira, 10 de junho de 2020

Tesouros Cinéfilos - Letra e Música (Music and Lyrics)

De: Marc Lawrence. Com Hugh Grant, Drew Barrymore, Haley Bennet, Kristen Johnson e Brad Garrett. Comédia romântica, EUA, 2007, 106 minutos.

Letra e Música (Music and Lyrics) não é apenas uma das mais engraçadas comédias românticas deste milênio: é também uma grande homenagem aos anos 80, seu estilo, figurinos, bandas e canções. E talvez uma coisa esteja relacionada a outra: é um filme divertido porque também é nostálgico, mexe com a nossa memória. E é por isso que, para este jornalista que vos escreve, a obra do diretor Marc Lawrence começa de forma não menos do que genial (sim, genial): em poucos segundos somos transportados para algum lugar do passado, lá pelo ano de 1986, onde assistimos a um clipe de uma banda fictícia chamada PoP, de uma canção que leva o nome de Pop Goes My Heart! Bom, quem já parou para navegar no Youtube em busca de clipes de coletivos como Outfield, Oingo Boingo, Mr. Mister e Spandau Ballet já viu essa cena antes: um grupo de caras mal vestidos pra caceta, de cabelo esquisito, mas com pose de maior símbolo sexual da última semana, cantando alguma canção aleatória, de letra melosa, cheia de sintetizadores e MUITO grudenta.

É dessa forma que o jogo já começa meio ganho. Até mesmo porque, vamos combinar, todo mundo sabe como acontece uma comédia romântica: mocinho conhece mocinha, eles parecem meio desajeitados em suas diferenças, buscando algum lugar no mundo e, talvez, a felicidade no amor. Após algum tempo se aproximam, se apaixonam, brigam por algum motivo estapafúrdio mas, no final, em algum instante redentor, reconhecem que devem ficar juntos e que não podem viver sem o outro. E se os personagens forem carismáticos, se nos importarmos com eles e, o principal, TORCERMOS por eles e acreditarmos neles, a chance de dar certo é muito grande. Portanto não caia no discurso óbvio de que comédia romântica é tudo igual e, portanto, sem graça, repetitiva. A meu ver é muito pelo contrário: é justamente pela previsibilidade, que devemos valorizar aquelas obras que nos comovem. Não podemos, afinal, ignorar nossos sentimentos. Como disse o crítico de cinema Pablo Villaça, em um curso: como posso falar mal de uma comédia que me fez rir? Esse é o cerne de uma comédia. Quase seu sentido de existir: fazer as pessoas gargalharem.


Então, dada toda essa reflexão, o que eu costumo fazer é não "brigar" com esse filme, porque ele é simplesmente adorável. Na trama Hugh Grant é Alex Fletcher, que integrava nos anos anos 80 a tal banda PoP, citada lá no primeiro parágrafo. Em meados dos anos 2000 ele é apenas uma figura de meia idade, esquecida pela imprensa musical, vivendo de apresentações em feiras agrícolas ou eventos de empresas, sendo convidado aqui e ali por emissoras de TV, para participar de programas de variedades apelativos. Já a Drew Barrymore é Sophie Fisher, garota postulante a escritora de poesias que surge meio que por acaso na casa de Fletcher para cuidar de suas plantas, substituindo outra pessoa. A oportunidade para uma maior aproximação de ambos se dá quando a excêntrica cantora pop juvenil Cora Corman (Haley Bennett) convida Fletcher para um dueto (ela era fã do PoP na infância). O porém: o antigo astro precisa compor uma nova canção em pouco mais de três dias. O que poderá ser viabilizado com a ajuda de... Sophie, claro!

Vencendo as inseguranças iniciais, a dupla conseguirá fazer uma composição nova e entregar para a mais nova estrela, nos fazendo rir e se emocionar no decorrer do percurso. Rir porque são MUITAS as piadas divertidas, que podem ser desde a capa de CD clichê da carreira solo de Fletcher - vendido a preço de banana em um balaião - até o fato de o filme ter meio que antecipado, de forma quase premonitória, a existência do "jovem místico" que hoje em dia é tão visto nas redes sociais (e juro que só faltou Cora oferecer a sua nova dupla de compositores uma sessão de reiki à distância para lhes auxiliar no intento). Já a emoção se dá na natureza da própria percepção do poder da arte em si. Nesse sentido, vale observar a reação de Sophie ao ouvir pela primeira vez a música composta por ela sendo tocada por Fletcher ao piano. São instantes não apenas de ternura, mas que denunciam um cuidado na composição das personagens - suas reações, expressões, gestos - MESMO em uma comédia romântica. Não, não vai mudar o mundo. Mas cumpre seu papel. Tem boa história, ótimas piadas, instantes de leveza, excelentes personagens secundários (a Kristin Johnson é SEMPRE ótima) e um roteiro que amarra nostalgia, música e romance na medida certa. Para quem procura uma comédia romântica bacana para o Dia dos Namorados. É só dar play. Está lá na Netflix.

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