terça-feira, 23 de junho de 2020

Pérolas da Netflix - Quatro Minutos (Vier Minuten)

De: Chris Klaus. Com Hannah Herzprung, Monica Bleibtreau, Sven Pippig e Stefan Kurt. Drama, Alemanha, 2006, 112 minutos. 

De um lado uma professora de piano. Figura sisuda, de poucas palavras. De outro, uma jovem detenta em um presídio feminino. Uma pessoa intempestiva, imprevisível, violenta. Em comum entre as duas: a paixão pela música. Paixão, talvez, adormecida. Mas que emergirá a superfície de forma meio "torta", a partir do encontro de ambas. Quatro Minutos (Vier Minuten) é uma obra sobre busca de sentido na vida a partir das artes - e que passa raspando por temas como ressocialização de presos, traumas de guerra e superação de dificuldades. A pessoa que está presa é Jenny (Hannah Herzprung), uma assassina que não parece ter qualquer remorso em relação à violência praticada. Mas ela tem uma surpreendente habilidade para o piano, cabendo a veterana professora octogenária Traude (Monica Bleibtreau) a tarefa de "domar a fera": e de ainda tentar levá-la para um concurso de talentos da música. O que significará enfrentar traumas, reviver memórias, tirar esqueletos do armário.

Trata-se de um filme alemão extremamente bem conduzido. A narrativa linear não significa obviedades. Pelo contrário: desde o começo da película nos deparamos com rimas visuais e outras figuras que servem para dar conta das circunstâncias que envolvem às personagens que acompanharemos nas próximas duas horas (caso da cena com peixes que lutam para sobreviver fora de um aquário). Quando Jenny toca o piano pela primeira vez, a câmera lenta parece fazer o som se espalhar de forma mais evocativa, intensa: é uma trilha sonora selvagem, inquieta, urgente, bem ao estilo da personalidade que a conduz. Nesse instante, a presa acaba de atacar um policial que lhe provocava - o ótimo Mütze (Sven Pippig). É a deixa para que saibamos que música bem tocada se mistura com fúria assassina, descabida, sem lógica. Traude caminha pelo presídio, desce uma escada. Sua expressão é de horror e preocupação: o trabalho vai ser árduo.


Mas como acontece em filmes desse estilo, haverá conquistas - e o carisma e a química da dupla central fará com que celebremos cada uma delas. Às turras, Jenny vencerá a primeira etapa de um show de talentos meio aleatório (com uma mão nas costas, é bom que se diga). Assim, perceberemos que o piano fez parte da sua infância e de parte de sua juventude, estando diretamente relacionado à traumas do passado. Por meio de flashbacks, retornaremos à Segunda Guerra Mundial, descobrindo que Traude, a professora, também tem abalos emocionais do passado, o que envolve inclusive um segredo. Nesse sentido, não demorará para que percebamos que ambas as protagonistas - professora e e aluna - possuem muito mais coisas em que comum do que parece, a despeito da grane diferença entre elas. Andar à margem da sociedade, afinal, parece algo que prescinde de idade: e essas pequenas descobertas estreitarão os laços entre elas. O que gerará, inclusive, sequências bonitas como aquela em que ambas dançam juntas.

Sim, trata-se de uma película que equilibra raiva e sensibilidade, intensidade e introspecção. Nada será fácil e quase tudo ocorrerá em meio à beligerância de um presídio e da violência emanada pelo local - que pode partir de diretores, de policiais ou até de outros detentos. Acreditar que seja possível reabilitar alguém a partir das artes também é um dos méritos do filme. Mas qual o limite que separa uma artista de uma assassina? A sociedade estará disposta a acolher um talento da música que tenha cometido um crime? Ou dependerá da natureza deste? Com ótima execução técnica - a fotografia granulada, meio esmaecida sempre causa uma sensação de "urgência urbana" meio difícil de definir -, o filme ainda conta com as boas interpretações como um de seus trunfos. E certamente o filme não seria tão legal se nós não nos comovêssemos junto com a dupla central, a cada avanço, cada risada, ou cada choro juntos. Perdidinho lá na Netflix, Quatro Minutos fica quase discreto demais. Mas quem encontra ele, se encanta como se estivesse diante de uma furiosa peça musical tocada com intensidade e fúria.

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