quarta-feira, 3 de junho de 2020

Lasquinha do Bernardo - A Primeira Vez de Um Homem ou (Punk Mesmo é Falar de Amor)

Texto: Bernardo Siqueira

Há certos chamados do destino que não podemos ignorar. Não lembro com exatidão o dia, o mês ou até mesmo o ano, mas lembro do local e das pessoas. Antigamente, quando nos era permitida a liberdade, havia um cantinho especial em Lajeado, hoje já revitalizado e frequentado por outro público. Antes da construção do teatro da Univates, alguns amigos se encontravam ali com frequência quase religiosa. Vou preservar o nome das personagens, poderia revelar suas identidades, contudo, fica aqui apenas o capricho do autor. O pequeno grupo de pessoas tinha uma finalidade nobre com fim em si mesmo, a amizade. Não é preciso descrever os encontros, a não ser um aspecto comum entre tantos outros encontros: o violão, o cantor e as músicas. O repertório era diverso e imprevisível, lembro-me de uma famosa versão de Dívida do Ultramen declamada (isso mesmo, declamada) com muita propriedade em espanhol, em tradução livre, como os leitores podem imaginar. Não raro, porém, recebíamos alguma “estrela móvel”, um pedestre que por ali passava, alguém que saíra do trabalho ou um amigo de outro amigo que não conhecíamos. Em uma dessas inúmeras noites às margens da Avelino Talini, conheci o homem com o violão, mas não era nosso cantor oficial, nem o mesmo violão e muito menos a mesma música.

A letra que capturou a minha atenção contava sobre um triângulo amoroso e uma flor. Nada mais clichê do que canções de amor, mas essa não era apenas uma canção de amor. Era dramática, era triste, era a minha cara. A dor de um foi a glória do outro. Quando a música acabou, meu primeiro reflexo foi perguntar se aquela era uma obra autoral, não era. O leitor mais próximo já deve ter percebido que escrevo sobre A Flor da banda carioca Los Hermanos que, a partir daquele primeiro acorde, é figurinha mais do que carimbada na minha vida. O resto é história. Comprar os quatro álbuns, ganhar DVDs dos amigos, baixar toda a discografia (aqui não escondo minha idade) e fazer todo o esforço possível para ir ao show, anos depois, em Porto Alegre no Pepsi On Stage. Aquele domingo foi marcante, como toda primeira vez.


No último dia 14, a banda liderada por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante lançou nas plataformas de streaming um álbum contendo músicas ao vivo executadas durante os shows de 2019, celebrando os vinte anos de lançamento do seu primeiro disco. Foi a desculpa perfeita para ouvir e vibrar novamente com toda a poesia, sentimentalismo e melancolia que são características dos quatro barbudos. Dia desses, após um episódio do podcast do Picanha sobre Guilty Pleasures a questão retornou das cinzas: é vergonhoso gostar de Los Hermanos? É certo que banda carrega uma legião de fãs pelo Brasil, mas percebo muitos amigos e muitos desconhecidos pelos confins da internet desmerecendo o trabalho ou pior, reduzindo toda obra construída em Anna Júlia que, justiça seja feita, é uma ótima música.

A primeira análise óbvia é que há pessoas que não gostam das músicas e ponto final. Não é nesta direção que me dirijo. Uma possível explicação para o demérito seja a própria trajetória da banda, que surge com um ska-punk-rock romântico para fazer inveja aos ultrarromânticos no primeiro disco e vai, aos poucos, se tornando mais intimista, mais reflexiva e mais madura, nas composições e nas narrativas. Talvez encontremos ainda alguém que encha os pulmões para dizer que “eles traíram o movimento!”. Outra tentativa de explicarmos o hate seja a complexidade das letras que foram se modificando à medida que a banda traçava sua trajetória. O fato é que sempre vai ter alguém para proferir o tal “Loser-manos”. Deixar de lado o som frenético, incorporar sensibilidade, ressignificar o amor romântico nas composições não são características de um perdedor, mas sempre haverá aquele que ainda não está pronto para ter essa conversa.


E aqui fica o acerto de contas. Punk mesmo é ter coragem para falar de amor. Atitude rock’n’roll de verdade é poder sentir, é entender que podemos estar tristes e, tudo bem. E não tem problema não entender aquela letra, é estranha mesmo. Há beleza também na dor. Um dia acordarás acreditando ser a pessoa mais sentimental do mundo e podes ficar tranquilo. Olharás o espelho e verás um cara estranho, deslocado, sem saber para onde ir. Não é preciso correr atrás da aprovação dos outros vencedores, seja rebelde, seja punk de verdade. Teu machismo, disfarçado de preconceito musical, precisa acabar.

Afinal, todo carnaval tem seu fim. 

3 comentários:

  1. Impossível ouvir Los Hermanos e não lembrar de ti!

    ResponderExcluir
  2. Saudades daquelas noites na Talini.
    Saudades de falar sobre Los hermanos contigo."Pra nós todo amor do mundo"

    ResponderExcluir
  3. machismo é gostar do marcelo camelo depois de saber toda historia com a menor de idade e as músicas também serem sobre isso. é de se pensar. fora que as músicas realmente são repetitivas e chatas, mas gosto não se discute, certo? abraços e fica a reflexão.

    ResponderExcluir