Há uma boa chance de o Brasil estar representado na edição desse ano do Oscar. E não estamos falando de Bacurau (2019) e, sim, do curta metragem de animação Umbrella, que tem feito um belo papel em festivais mundo afora e chega com fortes possibilidades em sua categoria. A trama do filme de pouco mais de sete minutos é baseada em fatos reais e conta a história de um menino que mora em um orfanato e que sonha em "ter" um guarda-chuva amarelo. Cheia de simbolismos e executada com grande apuro técnico - do traço do desenho a escolha da trilha sonora -, a obra é daquelas que arrancam lágrimas com facilidade. "[...]...eu espero que o Umbrella possa florescer esse sentimento de empatia nas pessoas e esquente um pouco o coração delas. E que as pessoas possam pensar, mesmo, que a gente quer ajudar o próximo e não podemos julgar sem conhecer o que o outro está passando" destacou a diretora Helena Hilario, em entrevista ao site Scream & Yell. Cem por cento brasileiro, ainda que executado em inglês, o projeto levou oito anos para ser concluído e foi realizado pelo estúdio Stratostorm. O curta, que conta com co-direção de Mario Pece está disponível no Youtube até o dia 21 de janeiro. Corre que ainda dá tempo!
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Novidades no Now/VOD - Pacarrete
De: Allan Deberton. Com Marcélia Cartaxo, João Miguel, Soia Lira e Zezita Matos. Comédia dramática, Brasil, 2019, 97 minutos.
Talvez de forma meio involuntária, Pacarrete acaba sendo uma grande homenagem àquelas figuras pitorescas que habitam as pequenas cidades Brasil afora. Cada qual tem a sua - figuras excêntricas, extravagantes, cheias de idiossincrasias que ajudam a formam o folclore municipal. Quem mora aqui em Lajeado, no Rio Grande do Sul, sabe que também temos as nossas - quem não se recorda do falecido Aldino e seu carrinho de mão? Vivida de forma visceral pela premiada Marcélia Cartaxo, a Pacarrete do título é uma professora de dança aposentada, que mora em um casarão cheio de penduricalhos com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e com a empregada Maria (Soia Lira). Maníaca por limpeza, rigorosa e ranzinza, a protagonista passa os dias às turras com os demais moradores - especialmente as crianças da vizinhança de Russas, Ceará (onde se passa a ação) -, enquanto se empenha em manter a calçada de sua casa asseadíssima e as floreiras bem organizadas. É o tipo de figura da burguesia decadente que mantém hábitos elegantes que, para muitos, podem soas apenas arrogantes ou presunçosos.
Mas mesmo estando em constante briga com a comunidade, Pacarrete pretende presenteá-la com uma apresentação de balé que deverá ocorrer (ou deveria, ao menos), durante a ampla agenda que marca as festividades dos 200 anos de emancipação política do município. Só que para conseguir o aval para que o seu show possa ser incluído na "agenda", Pacarrete entrará em uma verdadeira disputa com a Prefeitura local - e com suas lideranças, muito mais preocupadas em entregar espetáculos populares de forró ao seu público (o que é justíssimo, por sinal) do que alguma extravagância cultural que poderia soar apenas como elitismo. Em meio às angústias que marcam a indefinição sobre a inclusão ou não da apresentação - a população também não parece muito interessada em música clássica ou dança -, a protagonista solicitará a confecção de uma nova roupa de bailarina à costureira local, ao mesmo tempo em que retomará os ensaios visando à grande noite.
E a história é basicamente essa e não deixa de ser fascinante como um fiapo narrativo pode se ocupar de desvendar tantos subtextos - que podem ir da infinita discussão sobre os limites da arte (que colocam ainda em lados opostos o popular e o erudito), passando pela velhice, pela solidão e pela necessidade de encarar a inevitável finitude, até chegar na importância de se valorizar as pequenas ações. Sobre este último item, certamente não será difícil de se emocionar em sequências que envolvem um simples bolo de fubá, a adoção de um cachorro ou mesmo escutar uma música nostálgica na companhia de um familiar. Pacarrete pode passar o filme todo aos berros, angustiada - e as inflexões vocais que reforçam o "azedume", feitas por Cartaxo, não são menos do que soberbas -, mas refletem toda a solidão sentida por ela, em um mundo que não parece lhe compreender. E é por isso que os instantes em que o personagem de João Miguel aparece se tornam tão adoráveis, tão leves.
Com excelente desenho de produção - vale a pena observar os detalhes dos cenários (até quadro das "crianças que choram" aparece perdido em uma parede) -, a película de estreia do diretor Allan Deberton bebe na fonte de clássicos como O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) ao retratar uma figura bastante histriônica e muito carismática, que sonha em reviver os tempos gloriosos de um passado que não retorna mais. E, confesso que as incertezas sobre a personalidade complexa de Pacarrete só tornam a experiência ainda mais satisfatória - o que é complementado pela ausência de flashbacks, o que nos deixa meio no "escuro" em relação a sua verdadeira história. E isso é bom. Com Marcélia Cartaxto dando um verdadeiro show - ela aparece em simplesmente TODAS as cenas -, a obra, grande vencedora do Festival de Gramado de 2019, ainda se vale de sua graciosa trilha sonora como mais um trunfo. O que, inevitavelmente, nos retirará da projeção com lágrimas nos olhos.
Nota: 8,5
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Lado B Classe A - Lykke Li (I Never Learn)
Aconteceu uma situação meio curiosa na hora de escrever esse Lado B Classe A. Estava revisitando os discos lançados pela sueca Lykke Li na intenção de produzir um texto sobre o ótimo Wounded Rhymes, o segundo registro da artista, que completa dez anos de vida agora em fevereiro de 2021. Pra quem não está ligando o "álbum à figura", o Wounded Rhymes é o trabalho que conta com o inesquecível hit I Follow Rivers - sim, acredite, já faz uma década que você começou a cantarolar o refrãozinho I, i follow, i follow you / deep sea baby. Eu tenho esse hábito para esse quadro, especialmente pela fato de análise musical não ser o meu forte. Gosto de ouvir e de ouvir de novo. Gosto de perceber as variações do artista ao longo da carreira, quais foram as pequenas alterações, os avanços, como foi o amadurecimento (ou não). Só que nesse processo acabei constatando que o melhor disco da cantora é mesmo o I Never Learn, lançado em 2014. Sim, o que era uma coisa virou outra. E cá estamos pra subverter a lógica.
Com uma nota de aceleração um pouco mais baixa do que no trabalho anterior, em I Never Learn a artista consegue nos transportar como poucas vezes para o cenário gelado de seu País de origem, mas sem abandonar o caráter enérgico da coisa toda. É como se a melancolia da nevasca fria e entristecida à moda do livro A Desumanização do Valter Hugo Mãe, encontrasse as pistas mais dançantes de uma Robyn (se não estou viajando). As variações entre o caráter mais introspectivo e a desinibição podem até ser marcantes, mas em geral o que se sobressai é a ambientação mais reflexiva, ponderada, quase meditativa. O que pode ser percebido pelas melodias que trafegam em meio a acordes econômicos, sintetizadores nunca exagerados e pianos discretos, que se equilibram de maneira perfeita com o vocal que, eventualmente, beira o tímido (ou até o sussurrado). Gestada para as pistas, Li preferiu recuar nesse trabalho: aos 28 anos a gente amadurece e a energia de outrora dá lugar a outras formas de se expressar.
Exemplo desse expediente pode ser percebido, por exemplo, na ótima Silverline - uma das minhas preferidas do disco. Começando de forma bastante discreta, com uma melodia evocativa, etérea, onírica, a canção sobe até uma "leve" explosão no gracioso refrão, com a voz da artista funcionando como uma extensão vocal quase natural. O flerte com estilos como new age - os arranjos, ainda que invernais, soam bucólicos, majestosos -, é replicado em outras músicas como a grandiosa No Rest For The Wicked que, novamente, nos transporta para uma ambientação mais gelada - algo reforçado pela letra que versa sobre solidão. Aliás, sobre as letras, elas representam um grande avanço em relação aos dois trabalhos anteriores, já que os dilemas românticos que resultam de uma dolorida separação, surgem em versos bastante diretos e sem firulas, como por exemplo nos títulos autoexplicativos de músicas, como, Never Gonna Love Again e Love Me Like I'm Not Made Of Stone. Aliás, o próprio título do trabalho dá conta disso.
Nesse sentido, ao mencionar o tipo de arranjo produzido por Li em suas nove músicas e pouco mais de 32 minutos de duração do disco, o crítico da Pitchfork Ian Cohen destacou como a percussão parece, em alguns casos, "bater e bater como um coração defeituoso". Aliás, o quase sempre exigente site concedeu ao trabalho uma honrosa nota 8,4, qualificando como Best New Music e destacando a abordagem da "composição como um teatro musical, que parece ser criado por algo diferente de uma simples banda", algo reforçado pelos "violões dedilhados de maneira incômoda e pelos acordes de piano ressonantes ampliados pela textura e pelo talento dramático". "Graças à produção cavernosa, a imagem mental duradoura de I Never Learn não é Li caindo sobre um copo de uísque, mas sim deixando respirar feridas frescas, checando o som sozinha em uma arena vazia", prossegue Cohen em sua análise. Não é por acaso que o registro foi figurinha fácil nas listas de melhores daquele ano, sendo lembrado nas relações da Billborad, Consequence Of Sound, Vulture, PopMatters e da própria Pitchfork. Uma pena que Li não tenha conseguido manter o alto padrão no irregular So Sad So Sexy (2018). Mas ela continua com crédito.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Na Espera - Kings Of Leon (Disco)
Sim, eu devo ser um dos únicos fãs de música que se empolga genuinamente com um novo disco do Kings of Leon - então, estou animado para o novo registro da família Followill, que está previsto para o próximo dia 05 de março. Com o nome de When You See Yourself, o sucessor do bom WALLS (2016) contará com 11 faixas produzidas por Markus Dravs. Quem acompanha os irmãos Caleb, Nathan e Jared, além do primo Matthew, sabe que o anúncio do novo trabalho já vinha sendo gestado nos últimos meses - e a especulação ganhou ainda mais força já no primeiro dia do ano, quando alguns teasers foram disponibilizados, além da divulgação dos singles The Bandit e 100.000 People, que já se encontram nas plataformas de streaming e que tem aquele tradicional climinha KOL. É óbvio que em se tratando dos norte-americanos não dá pra cantar vitória antes da hora - até mesmo pela discografia bastante irregular produzida pela banda. Mas nós, aqui do Picanha, já estamos aguardando este que pode ser considerado um dos grandes lançamentos desse começo de 2021.
Tracklist
01 – When You See Yourself, Are You Far Away
02 – The Bandit
03 – 100,000 People
04 – Stormy Weather
05 – A Wave
06 – Golden Restless Age
07 – Time In Disguise
08 – Supermarket
09 – Claire And Eddie
10 – Echoing
11 – Fairytale
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Lançamento de Videoclipe - The Weeknd (Save Your Tears)
Pelo visto ainda vai dar o que falar essa história do The Weeknd ter sido esnobado no Grammy - tanto que o clipe da maravilhosa Save Your Tears recém foi lançado e os fãs já se apressaram nas "teorias conspiratórias" de que o artista estaria utilizando o vídeo para dar uma cutucada na maior premiação do mundo da música. Presente no ótimo álbum After Hours - nosso 15º Melhor Disco Internacional de 2020 -, a faixa rendeu um vídeo bastante excêntrico em que Abel Tesfaye se apresenta todo "embotocado" em uma bizarra festa sem conseguir animar os participantes, que vestem máscaras (o que seria também uma crítica a indústria e a busca incessante por corpos e rostos falsamente perfeitos). Sobre a indireta ao Grammy, ela surgiria próxima do segundo minuto de projeção, momento em que o artista segura um troféu enquanto entoa os versos Yeah, i broke your heart like someone did to mine / And now you won't love me for second time. Bom, tendo ou não crítica à indústria o fato é que o clipe ficou divertidamente extravagante - uma coisa à moda Annie Lennox -, honrando uma das melhores canções lançadas no ano passado!
Novidades no Now/VOD - Sou Sua Mulher (I'm Your Woman)
De: Julia Hart. Com Rachel Brosnahan, Bill Heck, Arinze Kane e Marsha Stephan Blake. Drama, EUA, 2020, 121 minutos.
Uma das piadas divertidas que tem corrido a internet é a seguinte: se você tem saco para assistir a um filme em que um bebê aparece dois terços do tempo de projeção CHORANDO haverá a possibilidade de você gostar de Sou Sua Mulher (I'm Your Woman), obra disponível na plataforma da Amazon. Tudo bem, há um certo exagero na história do bebê chorando, só que como a película não tem muita pressa em "acontecer", ela acaba sendo marcada por esse tipo de coisa. Na trama, nos deparamos com um outro lado dos filmes de bandidagem, que é o do que acontece com a família do criminoso quando este simplesmente desaparece sem muita explicação. No caso daqui acompanhamos a via crúcis de Jean (Rachel Brosnahan) e de seu filho (o bebê chorão de nome Harry), que salta de estrada em estrada, de hotel em hotel e de casa em casa, num curioso road movie enquanto tenta descobrir o que efetivamente teria acontecido com o seu marido mafioso Eddie (Bill Heck).
Levada pelo braço direito de Eddie, Cal (Arinze Kane), Jean consegue escapar, se estabelecendo em novas moradias enquanto tenta instituir algum mínimo de normalidade em sua rotina que, nada mais é do que esperar, esperar e esperar - assim como esperavam os soldados do livro O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti. A violência iminente pode estar na simpática vizinha que finge um comportamento amistoso ou mesmo num grupo de invasores que busca se vingar. São acontecimentos aleatórios em meio a bocejos infinitos que se misturam ao tempo de espera, aos choros do bebê (que, sinceramente, nem sei porque foi incluído na narrativa) e as escapadas espetaculares com a ajuda de Cal. Sobre o paradeiro de Eddie? Jean está no escuro. Ninguém sabe, ninguém viu. Não há resposta para essa pergunta. A ela só resta fugir, pra lá e pra cá. Sempre com o bebê a tiracolo.
Aliás, eu volto a dizer, eu não tenho nenhum problema com fluxos mais vagarosos, ou introspectivos, se estes tiverem algum propósito narrativo. Mas esse não parece ser o caso aqui. A lentidão é ocupada com sequências bizarríssimas como aquela em que surge, de forma inesperada, a família de Cal. Não bastasse o comportamento excêntrico de todos - vô, esposa, filho -, sem motivo algum, a trama ainda se ocupa de despejar diálogos constrangedores, como aquele em que Teri (Marsha Stephane Blake) explica a Jean o fato de ela ser a "melhor cozinheira do mundo" mesmo sem saber cozinhar NADA. "Você os alimenta? Se sim, você é a grande chef de cozinha desse planeta". Uma conversa que apenas preenche buraco, que não tem razão de existir e que só aborrece o espectador. O mesmo vale para o instante em que Jean descobre que Teri tinha sido casado com Eddie, momento em que ela resolve participar de uma sessão de treinamento de tiro - por que, né, ela tá muito furiosa com essa informação.
E como se não bastassem todos esses problemas que truncam a narrativa, o filme ainda tem sérios defeitos na parte técnica, sendo que poucas vezes vi figurinos e penteados tão descuidados como nesse filme (a obra se passa nos anos 70 e pouca coisa parece nos fazer lembrar que estamos naquele período). Levando-se a sério demais, a obra ainda relaxa na hora errada - fazendo piadocas à moda "tiozão do pavê" em instantes decisivos, como numa parte em que um dos sequestradores de Jean simplesmente atira na cara de um parceiro de crime porque este estava falando demais (um momento Quentin Tarantino wannabe que não tem muita lógica de acontecer). Com tanta lentidão, tanta falta de propósito e tanto choro aleatório de bebê, quem está aborrecido, triste e choroso no final da experiência é o espectador, que sente que as duas horas gastas pra apreciar o filme da diretora Julia Hart não voltam mais. Uma pena, porque Rachel Brosnahan é absolutamente talentosa - vide seu papel na ótima série The Marvelous Mrs. Maisel. Só que lá na série, ela faz rir. Aqui, a gente chora. Tal qual o bebê.
Nota: 3,5
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Picanha.doc - AmarElo: É Tudo Pra Ontem
De: Fred Ouro Preto. Com Emicida. Documentário, Brasil, 2020, 89 minutos.
AmarElo: É Tudo Pra Ontem não é apenas um documentário sobre o show realizado pelo rapper Emicida em novembro de 2019, no Teatro Municipal de São Paulo: é uma verdadeira aula de história afro nacional e sobre como os movimentos realizados por artistas, ativistas, historiadores, escritores e outras figuras do passado foram fundamentais para a consolidação da cultura brasileira como a conhecemos hoje. Em resumo, o que Leandro Roque de Oliveira quer dizer é que muito provavelmente ele não existiria se não fossem nomes como Lélia González, Leci Brandão, Abdias do Nascimento, Ruth de Souza, Johnny Alf, Mateus Aleluia, Ismael Silva e tantos outros. Nesse sentido, a obra do diretor Fred Ouro Preto é didática mas é também vibrante, colorida, otimista. Daquelas que acredita em dias melhores e em tempos de menos preconceito, ódio e intolerância mesmo que estejamos sob a batuta institucionalizadora do racismo que é o governo Bolsonaro. "Tudo que nóis tem é nóis" lembra, afinal, a letra da inaugural Principia, que abre oficialmente o último disco do paulista.
Partindo da mera existência da "ocupação" preta do Teatro Municipal - reduto utilizado tradicionalmente pela aristocracia paulista - que será simbolizada pela sua vigorosa apresentação, Emicida recua no tempo, entrecortando as histórias antigas que dialogarão com as suas letras e que exemplificarão como a fusão entre o samba (surgido há cerca de 100 anos nos morros, nas periferias), a cultura de rua (que gesta o hip hop) e até movimentos como o antropofágico - nascido dentro da Semana de Arte Moderna de 2022 - formaram o caldeirão que temos hoje. A violência, a opressão, a dor de SER em uma pele preta surge inevitavelmente no racismo estrutural, que faz com que AmarElo funcione quase como um manifesto de orgulho da raça, que inicia nos acordes oníricos do começo do disco, até culminar no libelo multicolorido e efervescente que é a faixa-título, que conta com participação das artistas trans Majur e Pablo Vittar.
Nesse caminho, em meio a imagens de bastidores da produção do show e da composição do próprio disco - que se torna ainda maior com o documentário -, o artista conta histórias interessantes (e até divertidas) como aquela que o fez conhecer a obra do baterista e compositor Wilson das Neves, homenageado na formidável letra de Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo), cantada na companhia do parceiro Zeca Pagodinho. E, juro, a explicação para a existência de versos como "em que altura você mora agora?" arranca lágrimas de forma fluída, orgânica, sem forçação. Outro momento relevante - em meio a tantos, por sinal - envolve o protesto do Movimento Negro Unificado que, em 1978, em meio a brutalidade da Ditadura Militar, ocupou a escadaria do próprio Teatro Municipal, como forma de se insurgir contra a violência policial (e estatal) e o racismo. Aliás, sabe do que foram acusados os ativistas naquela ocasião? Sim, quem respondeu COMUNISMO acertou - e esse foi um dos motivos pelos quais o cantor Wilson Simonal foi detido pelo famigerado Departamento de Ordem Política e Social (Dops). A história se repete.
Bom, daria pra citar uma série de outros trechos históricos e relevantes, mas vale a pena "descobrir" que houve a existência também em meio a ditadura de uma Frente Negra Brasileira, de que houve alguém que desafiou o status quo para fazer o Teatro Experimental do Negro (que provocava a reflexão para além do entretenimento) e sobre como leis bizarras como a da "Vadiagem" foram (e seguem sendo) o instrumento oficial para oprimir pretos, pobres, capoeiristas, músicos, umbandistas, prostitutas, trans e qualquer outra minoria, na realidade. Sim, parece pesado, mas a leveza com que os temas são descortinados, entrecortados pelas lindas canções do rapper e por uma edição dinâmica, que utiliza imagens de arquivo, animações e outras estratégias, tornam a experiência bela, atemporal e inesquecível. Emicida talvez seja um dos principais artistas brasileiros da atualidade, com seus discos marcantes e seu ativismo potente. Fela Kuti, que dizia que "a música é uma arma" sentiria-se orgulhoso. A nós, espectadores, resta sonhar com dias mais justos, mais igualitários, mais empáticos.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Novidades no NOW/VOD - Soul
De: Pete Docter. Com Jamie Foxx, Tina Fey, Phylicia Rashad e Angela Bassett. Animação / Aventura, EUA, 2020, 100 minutos.
Impressionante a capacidade da Pixar em fazer um filme infantil, mas que não deixa de promover profundas reflexões sobre temas relevantes, como, sentido da vida, memória, morte, espiritualidade, importância da arte, entre outros. Espécie de cruzamento entre Divertida Mente (2015) e Viva: A Vida É Uma Festa (2017), Soul parte da história de um modesto professor de música do ensino fundamental que sonha em ser reconhecido como um virtuose do jazz. Quando a oportunidade finalmente surge para o educador - seu nome é Joe Gardner (Jamie Foxx) -, ele sofre um acidente que o transporta para um outro plano, colocando-o entre a vida e a morte. Nessa espécie de limbo etéreo, onírico, ele será uma alma que terá como missão auxiliar uma "criança" (Tina Fey) a encontrar o seu propósito de vida para que ela possa ser encaminhada para a Terra, onde assumirá o seu formato humano. E essa jornada poderá ser a saída para que o próprio Joe retorne para cá e consiga alcançar seu tão sonhado objetivo.
Sim, parece meio complexo e é quase impossível falar de Soul sem entregar um ou outro spoiler e o que sempre fascina nas obras do estúdio está de volta aqui: por mais que os filmes sejam recheados de piadas físicas e humor genuinamente voltado para os pequenos, é inacreditável a complexidade da abordagem de temas mais psicológicos - o que confere à experiência um valor inestimável também para os adultos. Sim, porque é inevitável, enquanto acompanhamos a tortuosa jornada de Joe, nos perguntarmos sobre quais as nossas motivações na vida. Ou se temos uma grande missão na Terra. Ou será que o que valem mesmo são as experiências? Que nos permitem saborear pequenos prazeres mundanos como o canto dos pássaros, o vento que nos acolhe em baixo de uma árvore, um banho quente, vestir uma roupa bonita, saborear uma gostosa fatia de pizza ou a alegria de curtir uma música bem tocada - seja no trombone, no piano ou no sax? O mundo é feito mesmo de pessoas notáveis? Ou são nossas ações que darão significado nessa jornada terrena?
E, para mim, só o fato de passarmos boa parte do filme dirigido por Pete Docter pensando nestas questões, já torna Soul uma das mais valiosas obras produzidas pela Pixar - e que, não por acaso, deverá estar entre as indicadas na categoria Melhor Filme, no próximo Oscar. A gente sabe que os filmes da produtora invariavelmente nos fazem chorar, mas o choro nunca é forçado ou não orgânico, já que geralmente a obra nos gera sentimentos conflitantes o tempo inteiro, nos levando da ternura ao sorriso, passando pela dor, em segundos. Algo que pode ser exemplificado pelas contrastantes sequências que nos fazem rir de piadas que envolvem o comportamento de um gato, ao passo que nos instante seguinte estaremos impactados pelo comportamento afetuoso da mãe de Joe. E é nessa alternância de instantes que vamos sendo jogados pra lá e pra cá, imergindo numa história que, do ponto de vista religioso talvez pudesse gerar uma série de questionamentos - tudo isso seria possível no plano espiritual? -, mas que, no formato animação se estrutura na mais formidável das narrativas.
Tecnicamente impecável, a trilha sonora é uma das grandes forças do filme, como não poderia deixar de ser. E nem é tanto pelas elegantérrimas peças de jazz/soul que surgem nos momentos nova-iorquinos da projeção e sim pelo trabalho realizado por Trent Reznor e Atticus Ross que conseguem alternar melodias mais primaveris - no espaço pré-vida -, com outros mais sobrenaturais ou fantasmagóricos, como aqueles que envolvem a proximidade do pós-vida ou, mais especificamente, as notas hipnóticas que são executadas em uma soberba parte que envolve o conceito de "almas perdidas" (e, aqui, fiquei me perguntando como reagirão as crianças em uma etapa do filme que pode ser muito mais assustadora do que engraçada). Atenta aos detalhes, a animação é inacreditavelmente bem feita - perceba como é possível ver o suor no rosto das personagens em certo momento - e ainda estabelece outras pequenas discussões como produção artística x sucesso financeiro e importância do aspecto mais místico em nossas vidas. É um grande acerto, daqueles que nos arranca aquele sorrisão enquanto sobem os créditos.
Nota: 9,0
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