quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Novidades em Streaming - A Suprema (La Suprema)

De: Felipe Holguin. Com Elizabeth Martínez, Antonio Jiménez e Pabla Florez. Comédia / Drama, Colômbia, 2024, 82 minutos.

Mais um daqueles filmes que partem de um fiapinho de história, que serve de desculpa para uma análise mais ampla de uma série de questões sociais, culturais, políticas e outras. Assim é o singelo A Suprema (La Suprema), o enviado da Colômbia para a edição do Oscar desse ano, e que está disponível para aluguel na plataforma da Amazon Prime. Na trama, a adolescente Laureana (Elizabeth Martínez) é impactada por uma notícia lida em um jornal, nos arredores do modesto vilarejo que dá nome à obra: no texto, a informação de que o lutador de boxe Anastásio Paez disputará o título mundial da sua categoria dali a três dias. Anastásio não apenas é nativo da remota La Suprema - uma daquelas aldeias isoladas do mundo, que sequer aparecem no mapa -, como é o tio de Laureana. O que será o gatilho para um singelo objetivo: assistir a luta de qualquer maneira.

Ocorre que esse povoado parece tão distante de tudo que sequer a energia elétrica chegou por ali. E, como consequência disso, nenhum dos habitantes do pacato local possui uma televisão. Empenhada em seu intento, Laureana conseguirá ajuda de dois amigos - ambos apaixonados por ela -, que não medirão esforços para colocar um gerador velho em operação, ou cruzar a mata fechada com quilômetros de fiação que poderão servir de extensão para a conectar um aparelho de TV que sequer existe. Mobilizada, a comunidade acompanhará a movimentação em meio à desconfiança de alguns - como no caso do hilário quarteto de idosos que passa o dia entre jogos de dominós e deboches em série -, e o apoio de outros, como no caso do taciturno Efraín (Antonio Jiménez) que sai da relutância inicial - ele parece guardar algum segredo ou mágoa do passado envolvendo Anastásio -, e o suporte comovente na segunda parte.




Mas esse não é apenas um filme sobre um vilarejo disposto a ultrapassar qualquer limite para assistir a uma simples luta de boxe - por mais que o aspecto inusitado da coisa toda já seja, por si só, um atrativo. Laureana parece ter uma relação complexa com a sua avó - que insiste que ela deveria usar mais vestidos e outros adereços, que a forçassem a parecer uma "mocinha". Na história nunca fica necessariamente clara a orientação sexual da jovem - e, em geral, talvez isso pouco importasse -, mas em um vilarejo fechado, onde o comportamento geral tende a ser mais conservador, esse não deixa de ser um aceno para um tipo de debate que poderia passar ao largo. O fato de que a adolescente é também uma apaixonada por boxe, que sonha em ser treinada por Efraín - que, na juventude, era o treinador de Anastásio -, reforça um pouco dessa tese. Ok, o boxe hoje em dia é praticado por gênero. O que não impede a avó de Laureana de lhe lembrar que aquele "não é um esporte para mulheres".

Carismático até dizer chega, esse é um daqueles projetos que faz com que torçamos para que as coisas saiam a contento. Que faz com que, de fato, nos importemos com aquelas figuras tão vulneráveis quanto embrutecidas. Quando num ato de desespero, Efraín e Laureana vão até a grande cidade de Cártago para tentar comprar uma TV, faltando apenas algumas horas para a luta, é difícil não ter compaixão e sentir a dor daquela dupla empobrecida, que empreende uma via crúcis que resulta em uma série de frustrações. A expectativa geral da comunidade parece ser a melhor: o presidente pode ir até o local, a visibilidade pode aumentar. Quem sabe um sistema que traga a eletricidade, a luz? Mais infraestrutura nessa cidadela de chão batido? Turismo? Uma vida mais digna? O entusiasmo faz lembrar o de outro projeto de rara beleza, rodado na América do Sul, no caso o uruguaio O Banheiro do Papa (2007), que nos faz rir e chorar em igual medida. Mas o legado é outro. Que fica evidente no canto uníssono das lavadeiras ao final.

Nota: 8,0


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Picanha.doc - Dahomey

De: Mati Diop. Documentário, França / Senegal, 2024, 68 minutos.

Vamos combinar que relatos de roubos de obras de arte em períodos coloniais são bastante conhecidos. Efeito colateral da violência da violência praticada especialmente por países europeus, os saques funcionam não apenas como uma pilhagem econômica - já que essas peças costumam ter grande valor material -, mas também cultural, histórica e de tradições. Um patrimônio imaterial que vai embora junto com tropas militares, contribuindo para a supressão de todo um legado de costumes e de hábitos de um povo. Um apagamento. Um desenraizamento. Um desses casos que ficou mais ou menos famoso, recentemente, foi o da devolução de 26 objetos ao tesouro real do Benin, País africano que foi colonizado pela França na segunda metade do século XIX. E um pouco dessa jornada é narrada em Dahomey, documentário disponível na Mubi.

Dirigida por Mati Diop (do lindo Atlantique, 2019) e integrante da short list em sua categoria no Oscar 2025 - não chegou a ser indicado -, a produção foge da solução fácil de ouvir especialistas sobre o tema - historiadores, arqueólogos, antropólogos e outros -, que poderiam fornecer mais elementos para o espectador, para fornecer ao espectador uma experiência sensorial, poética e existencialista. Como se fosse um espectro vindo do além - o que é reforçado pela narração em off com forte reverberação (que não faria feio em um filme de horror, até porque, em alguma medida, dado esse passado sangrento, é) -, a principal relíquia enviada de volta ao Benin, uma imagem do Rei Guezô, conduz o público por entre caixotes, aviões e cuidados profissionais que dêem condição para que cada um desses tesouros chegue em segurança ao seu País de origem.


 

"Isolado da Terra em que nasci, como se estivesse morto. Há milhares de nós por aí, com suas cicatrizes, espólios de um enorme saque. Hoje é a mim que escolheram como a sua mais legítima vítima. [...] Minha cabeça ainda é atormentada pelo ruídos das correntes. Tenho na boca o gosto residual do oceano", divaga o nosso protagonista simbólico, nos fazendo pensar sobre a natureza exploratória da colonização, com todas as marcas, dores e sofrimento causados. Supostamente nobre, a formalização da entrega das obras recebe um novo verniz na segunda metade do curto projeto - que mal ultrapassa os 60 minutos -, quando uma espécie de audiência pública é realizada para discutir o futuro a partir do fato em si. O que em um período de crise imigratória, de xenofobia, de preconceitos e de individualismo atroz amplia as possibilidade de reflexão a respeito das intenções por trás do acontecimento.

"Histórico!" estampa a capa de um jornal da capital beninense, enquanto a população realiza danças e outros rituais típicos, com roupas e adereços coloridos, que contrastam com o visual insípido dos corredores dos museus, que isolam estátuas, esculturas e outros do mundo exterior. "Esse é um ato político, não tem nada de histórico", observa um dos participantes da reunião, que é retrucado por outro, que afirma que todo aquela conversaiada é só pra limpar a imagem de Emmanuel Macron, que anda arranhada. Questões diversas sobre o peso simbólico dessa reparação, a respeito do papel da arte (e da elitização desta, muitas vezes destinada à museus elegantes), sobre o direito à autodeterminação de um povo, a ancestralidade e outros, são discutidos em um diálogo tão rico quanto naturalista, jogando luz a diversos temas, com inúmeros ângulos, sentidos e significados. Que um filme tão pequeno faça tudo isso, é algo notável.

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Cinema - Conclave (Conclave)

De Edward Berger. Com Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto, Isabella Rossellini e Carlos Diehz. Drama / Suspense, Reino Unido / EUA, 2024, 120 minutos.

"Os homens perigosos são os que querem esse posto!"

É uma imagem de forte carga simbólica a da fumaça branca saindo da chaminé. Um evento que costuma mobilizar católicos no mundo todo e que, dada a sua raridade, também gera grande expectativa. A escolha de um Papa, afinal, não é algo tão simples. Aliás, é uma cerimônia ritualística, cercada de mistério e de suntuosidade, que pode levar dias para ser concluída. E que um filme recrie todos esses bastidores de uma forma tão envolvente, coesa e magnética é algo digno de nota. Afinal de contas, pensar em uma produção sobre a seleção de um novo pontífice poderia soar pouco empolgante. Mas, no microcosmo em que ocorre um conclave após a morte do atual Papa, parece importar menos a votação em si. E sim os rumos da coisa toda. As maquinações, os jogos de poder, as chantagens, as traições, as crises de fé. Afinal de contas, desejar um dos mais altos cargos do planeta, é algo que move ambições. Egos. Intenções. Gera sofrimentos. Dores. Incertezas.

Ao cabo, Conclave (Conclave) é um filme completo em todos os seus aspectos. A parte técnica, vamos combinar, não é preciso nem que sejamos grandes especialistas em temas como figurino, fotografia ou desenho de produção para que fiquemos assombrados. É tudo majestoso e sacro: das vestimentas e suas cores vivas - especialmente o vermelho sangue que marca o Vaticano -, aos cenários recriados de forma fidedigna. A ponto de achar que aquele ambiente, de fato, pudesse ser a Capela Sistina. E seu entorno. E se a ambientação ajuda, a história em si não fica atrás. O roteiro é bem costurado e monta o quebra-cabeças de uma forma que nos deixa conectados, com cada movimento desse jogo de xadrez alegórico (aliás, não é por acaso que um tabuleiro surge com certa importância ainda no começo da obra) sendo friamente calculado. É algo que a gente vai saboreando aos poucos.

 

 

Sim, é apenas um bando de homens idosos, servis à Cristo e a todos os dogmas da Igreja Católica, com objetivos distintos e falhas como todos os homens supostamente comuns? Sim, é. E é aí que está a magia. A gente tende a achar que essas pessoas são infalíveis por conta das suas crenças. Que tem um código moral inabalável. Que possuem uma ética inquestionável. Mas conforme os dias do conclave se sucedem, uma série de verdades que podem comprometer o futuro de todos ali começam a vir à tona. Um Papa pode definir os rumos de muitas questões em uma sociedade - políticas, culturais, estruturais. Religiosas, claro. Avanços pontuais podem se converter em retrocessos. O conservadorismo pode tomar o lugar do progressismo. Se o mundo está em evolução - para onde exatamente? -, com a Igreja Católica não é diferente. E é isso que parece embaralhar o pensamento do decano Thomas Lawrence, o sisudo cardeal vivido por Ralph Fiennes, que está indicado ao Oscar.

Andando pra lá e pra cá pelos corredores do Vaticano, ele parece estar em campanha permanente para que o liberal cardeal Aldo Bellini (Stanley Tucci, em ótima interpretação) seja o sucessor natural. Mas a ala conservadora também tem seus interesses - e é representada aqui pelo expansivo cardeal Goffredo Tedesco (Sergio Castellitto) e pelo antiquado nigeriano Joshua Adeyemi (Lucian Msamati) que, a despeito de ser negro, tem sérias restrições no que diz respeito aos direitos de outras minorias, especialmente os grupos LGBTQIA+. Correndo por fora há um arcebispo mexicano de nome Vincent Benitez (Carlos Diehz), um sujeito de poucas palavras, que trabalhou como missionário por anos no Afeganistão, e que parece ter uma história de vida bastante pesada. E o arcebispo Joseph Tremblay, (John Lithgow), que tem a particularidade de ter sido o último a se encontrar com o falecido antecessor. É um coletivo de homens complexo, de personalidade distinta - aliás, mais um mérito, que é a capacidade de dar uma "cara" para cada um daqueles senhores -, e que trabalham pelos seus interesses.


 

Para que um Papa seja eleito, são necessários dois terços dos votos dos cardeais. Dos 108 votantes são 72 votos. Um processo que poderia ser arrastado, se converte em uma experiência dinâmica, cheia de boas surpresas e que, dependendo o seu lado político (e vocês sabem do meu), pode te arrancar um sorrisinho na conclusão. Edward Berger já tinha sido bastante impressionante na recriação do clássico dos anos 30 Nada de Novo no Front (2022), que teve várias indicações ao Oscar - tendo ganho na categoria Filme em Língua Estrangeira. Aqui, ele pega o polêmico romance de Robert Harris, que não li e que foi escrito em 2016, e entrega tudo. Uma obra urgente, atual, cheia de grandes frases e com um microcosmo que, em tempos de retrocessos, de extrema direita e de novo governo Trump, parece funcionar como uma metáfora mais do que perfeita para os caminhos que tomam o mundo. É um filme que dá tempo ao tempo. Que não tem pressa em acontecer. Mas que causa um tremendo rebuliço. Todos nós estamos apaixonados por Ainda Estou Aqui (2024) - e com justiça. Torcendo muito. Mas vale dar atenção a esse projeto grandioso, indicado a oito Oscar, mas que ainda precisa encontrar seu público.

Nota: 9,5

Cinema - Anora

De: Sean Baker. Com Mikey Madison, Mark Eydelshtein e Yura Borisov. Drama / Comédia, EUA, 2024, 139 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]

Não vou negar, eu gostei de Anora - até por ser um filme que traz importantes reflexões sobre como a elite burguesa utiliza seu poder basicamente econômico, para manipular pessoas vulneráveis ou marginalizadas. É algo dolorido e que impacta. Mas devo confessar que essa também é uma experiência exaustiva. Que desgasta o espectador. A gente chega cansado ao final dos 140 minutos - e não vou ignorar que, sim, isso pode ser proposital. Uma semana na vida de uma stripper pode ser algo absurdamente intenso e turbulento. Sexy, mas amedrontador. É preciso mostrar força o tempo todo, mas como esquecer que as dançarinas (ou as acompanhantes ou qualquer pessoa que atua nesse mercado) também são seres humanos? Que sonham, têm desejos, projetam futuros que vão para além da dança em colos que, muito provavelmente, elas nem gostariam de estar?

Vamos combinar que Sean Baker é mestre em humanizar essas figuras que trafegam nas margens - sejam as mulheres trans de Tangerine (2015) ou as crianças pobres que sonham em visitar à Disney de Projeto Florida (2017). Até mesmo no subestimado Red Rocket (2021), o sonho americano parece soterrado em preconceitos generalizados e utopias nacionalistas fantasiosas. Então quando Anora, a 'Ani' (a maravilhosa Mikey Madison) vê seu conto de fadas pessoal se esfacelar, entrando em uma espécie de surto catártico contínuo (marcado por gritos infinitos de todos os tipos contra seus agressores), dá mais ou menos pra entender a reação dela. Por mais ingênua que ela tenha parecido ser, ao acreditar no amor supostamente real do playboyzinho hedonista Ivan (ou Vânia), encarnado por Mark Eydelshtein (uma espécie de Timothée Chalamet de baixo orçamento) como uma figura claramente imatura e bem nascida, interessada apenas em bebedeiras, festas, putaria e jogos de videogame.

 

 

Vânia é filho de um magnata russo e se aproxima de Ani na boate em que ela trabalha, justamente por ela ser a única capaz de falar a língua do rapaz. O contrato inicial para uma dança particular, logo se converte em um valor mais alto pago para algo a mais. A química é imediata, o que faz o jovem fazer uma ousada proposta: ela ser uma namorada de aluguel por uma semana, pelo valor de U$S 15 mil. Para Ani, a possibilidade de ganhar um bom (e fácil) dinheiro de um riquinho abobado parece uma boa pedida. Especialmente pelo glamour embutido, com a bela mansão da família, as melhores festas e o dinheiro que parece jorrar infinitamente. Então, quando uma ida meio inesperada à Las Vegas (tudo nessa mesma semana sem limites, filmada de forma vertiginosa e com uma edição frenética), resulta em um desajeitado pedido de casamento, a protagonista aceita. Parece uma vida ideal a ser conquistada, que lhe retiraria da rotina da boate, com alguma chance de melhorar a própria condição.

Só que o que Ani não percebe logo é que pra Vânia esse também parece ser um bom negócio. Se tornando americano por conta do matrimônio, ele poderia simplesmente escapar de suas obrigações familiares - seu pai, aparentemente, estabeleceu um prazo para que ele retorne à Rússia para começar a trabalhar nos negócios da família. Ani se demite da boate, e vai morar com Vânia. Por um ou dois dias - ou ao menos até o momento em que um tabloide publica a notícia, que chega à Moscou. Com tudo desandando em uma enxurrada de acontecimentos em cascata que vai de capangas perseguindo a dupla e praticamente sequestrando Ani, aos pais do jovem exigindo à anulação do casamento - especialmente pela suposta vergonha causada pelo menino, em casar com uma puta (como eles, equivocadamente, chamam Ani). Em geral, essa é uma obra caótica, meio intragável, mas que tem um propósito de existir, afinal, no capitalismo tardio, não dá pra confiar em bilionário que só pensa no próprio umbigo. É uma mensagem simples, mas que talvez o choro suplicante de Ani ao final - ela só queria, talvez, ser amada por quem ela é -, evidencie. Forte, humano e engenhoso. Ainda que na base do gritedo.

Nota: 8,0


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Pitaquinho Musical - FKA Twigs (EUSEXUA)

Pode parecer meio estranho pensar que a semana da FKA Twigs teve dois momentos diametralmente opostos, mas que estão conectados, já que na quarta-feira ela recebeu uma indicação ao Framboesa de Ouro por sua participação na releitura cinematográfica de O Corvo para, logo em seguida e nesta sexta-feira, lançar EUSEXUA, seu terceiro disco, que estará em todas as listas de melhores no final do ano. Afinal, foi durante as filmagens da obra em Praga, que a artista passou a frequentar casas noturnas da capital da República Tcheca, com a vida notívaga servindo de inspiração para um disco etéreo e hipnótico, com uma mistura moderníssima de techno, trip hop, psicodelia, R&B e pop. Sim, mas pop à maneira de Twigs: enigmático, sensual e efervescente. Com as batidas cheias de idas e vindas e os sintetizadores nada óbvios formando um conjunto coeso, mas que se espalha de forma fluída.

 


 

Sobre o conceito por trás do álbum, a cantora comentou em entrevista à Revista Vogue britânica que Eusexua é um neologismo que serviria para descrever uma sensação de euforia tão intensa que transcenderia a forma humana. E, em alguma medida, não deixa de ser interessante notar como esse estado de espírito é palpável conforme percorremos as curvas do registro - o terceiro da carreira de Twigs. Seja nas letras ambíguas e excitantes, como em Girl Feels Good (Quando uma garota se sente bem / Isso faz o mundo girar), nos vocais sussurrados e arfantes (Striptease) ou na produção limpíssima, tudo parece conduzir para um sentimento de elevação ritualística no interior do inferninho hedonista em que o fim de noite chega cheio de suor, amor, tesão e lágrimas. Ao cabo, é sempre bom ouvir artistas que fogem do óbvio. E que não tem vergonha de misturar sexo, niilismo, vagabundagem, diversão, Ray of Light, Björk e violência no mesmo conjunto. É pra dançar. Enquanto o mundo se despedaça.

Nota: 9,0


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

7 Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2025

Bom, como vocês já sabem, a Academia divulgou na manhã desta quinta-feira os indicados ao Oscar 2025 - a premiação ocorre no dia 02 de março e, para nós brasileiros, promete ser o maior evento cinematográfico da história recente. Tanto que ainda estamos aqui e emocionados, pra elaborar essa rápida listinha com as nossas considerações sobre indicados, esquecidos, surpresas e tudo o mais!

1) Antes de mais nada PARA TUDO que Ainda Estou Aqui fez história ao ser indicado não apenas na categoria Filme em Língua Estrangeira - e até havia alguma dúvida de que alcançaríamos esse feito, dada a qualidade natural dos nominados (quase sempre a melhor produção do País naquele ano, ou a que mais merece reconhecimento) -, mas também na de Melhor Filme! MELHOR FILME! Em quase 100 edições do Oscar essa é a primeira vez que isso acontece - de um filme brasileiro ser lembrado na categoria máxima, o que aumento E MUITO as nossas chances. 

 


 

2) E a cereja do bolo é a indicação da Fernanda Torres como Atriz, aumentando a visibilidade e as expectativas, após a conquista do Globo de Ouro! A maior "rival" na categoria segue sendo a Demi Moore pelo trabalho espetacular em A Substância - o que comprova que nesse quesito o carecão de ouro vai estar em boas mãos. Claro que a gente vai estar na torcida pela nossa Fernanda totalmente INDICADA! Mas o que vier daqui pra frente, é lucro. Em tempo, fecham a categoria de Melhor Atriz Cynthia Erivo por Wicked, Mikey Madison por Anora e Karla Sofía Gascón por Emilia Perez.

3) Aliás, falando em Emilia Pérez ele é a nossa verdadeira pedrinha no sapato para a premiação desse ano. O filme, que ainda não assistimos, tem sido divisivo, gerado polêmica e uma sensação de ame ou odeie - o que nesse meio também pode ser positivo (para ele), por conta do buzz gerado. O filme que representa a França - mas se passa no México -, foi lembrado em 13 categorias. Claro que isso não significa vitória, ainda mais em um cenário de incerteza, como parece ser o desse ano. De acordo com o Dalenogare, no canal dele, o fato de Ainda Estou Aqui ter sido lembrado a Melhor Filme aumentas as chances nas outras duas categorias, já que tudo daqui pra frente, nesse mês todo, é um novo jogo.

4) Em tempo, O Brutalista, um épico histórico sobre a experiência imigrante, que ainda não conferimos, e Wicked, a versão cinematográfica de sucesso da Broadway - que estamos com ZERO ÂNIMO de conferir - receberam 10 indicações. Conclave, ótima surpresa do começo do ano sobre os bastidores da eleição do Papa - resenha em breve -, e Um Completo Desconhecido -, um olhar sobre os primeiros anos do Bob Dylan, foram lembrados em oito categorias, sendo esses os principais filmes na disputa. 

 


 

5) Claro que por mais emocionados que estejamos, não é difícil perceber que esse parece um ano meio fraco cinematograficamente falando, com poucas obras que se sobressaem ou que são unanimidade. A parte boa é que isso torna tudo ainda mais imprevisível - o que é bom para nós e para a nossa torcida.

6) Em relação às surpresas, vale comentar que o próprio A Substância é uma ótima surpresa na categoria máxima - um body horror exagerado, maravilhoso e repulsivo, que é um tipo de filme que não costuma ser atrativo entre os votantes. Talvez para os americanos e para alguns de nós, a Fernanda chegar à Atriz também seja surpreendente, por mais que o nosso patriotismo (o nosso, não o daqueles que batem continência pra bandeira estadunidense) estivesse em alta. E, bom, nem precisamos dizer no quão surpreendente foi a obra de Walter Salles chegar à categoria máxima!

7) Sobre os esnobados, penso que havia algumas certezas que parecem não ter se confirmado - caso das atrizes Pamela Anderson, por The Last Showgirl e Nicole Kidman, por Babygirl, além da Angelina Jolie por seu trabalho tão elogiado em María.  A ausência de Rivais, em Trilha Sonora, também surpreende, dada a ótima receptividade do trabalho de Trent Reznor e Atticuss Ross, premiados mundo afora. Aliás, Rivais acabou por ser uma decepção como um todo e a campanha de lembrança parece não ter funcionado. No mais, fora o esquecimento de diretores como Edward Berger por Conclave, numa categoria disputadíssima, não há grandes esnobadas a serem destacadas, ao menos inicialmente.

E, bom, que venha o Oscar!

 

Melhor Filme

    Anora
    O Brutalista
    Um Completo Desconhecido
    Conclave
    Duna: Parte Dois
    Emilia Pérez
    Ainda Estou Aqui
    Nickel Boys
    A Substância
    Wicked



Melhor Atriz

    Cynthia Erivo - Wicked
    Karla Sofia Gascón - Emilia Pérez
    Mikey Madson - Anora
    Demi Moore - A Substância
    Fernanda Torres - Ainda Estou Aqui

 

Melhor Ator

    Adrien Brody - O Brutalista
    Timothée Chalamet - Um Completo Desconhecido
    Colman Domingo - Sing Sing
    Ralph Fiennes - Conclave
    Sebastian Stan - O Aprendiz

 

Melhor Direção

    Sean Baker - Anora
    Brady Corbet - O Brutalista
    James Mangold - Um Completo Deconhecido
    Coralie Fargeat - A Substância
    Jacques Audiard - Emilia Pérez



Melhor Filme Internacional

    Ainda Estou Aqui
    A Garota da Agulha
    Emilia Pérez
    A Semente do Fruto Sagrado
    Flow



Melhor Atriz Coadjuvante

    Monica Barbaro - Um Completo Desconhecido
    Ariana Grande - Wicked
    Felicity Jones - Brutalista
    Isabella Rossellini - Conclave
    Zoe Saldaña - Emilia Pérez



Melhor Ator Coadjuvante

    Yura Borisov - Anora
    Kieran Culkin - A Verdadeira Dor
    Guy Pearce - Brutalista
    Jeremy Strong - O Aprendiz
    Edward Norton - Um Completo Desconhecido



Melhor Roteiro Original

    Anora
    Brutalista
    A Verdadeira Dor
    Setembro 5
    A Substância



Melhor Roteiro Adaptado

    Um Completo Desconhecido
    Conclave
    Emilia Pérez
    Nickel Boys
    Sing Sing 



Melhor Animação

    Robô Selvagem
    Divertida Mente 2
    Flow
    Wallace & Gromit: Avengança
    Memoir of a Snail



Melhor Documentário

    Black Box Diaries
    No Other Land
    Porcelain War
    Trilha Sonora Para um Golpe de Estado
    Sugarcane



Melhor Trilha Sonora Original

    O Brutalista
    Conclave
    Emilia Pérez
    Wicked
    Robô Selvagem



Melhor Fotografia

    O Brutalista
    Duna: Parte Dois
    Emilia Pérez
    Maria
    Nosferatu



Melhor Montagem

    Anora
    O Brutalista
    Conclave
    Emilia Pérez
    Wicked



Melhores Efeitos Especiais

    Alien: Romulus
    Better Man
    Duna: Parte Dois
    Kingdom of Planet of the Apes



Melhor Figurino

    Conclave
    Wicked
    Nosferatu
    Um Completo Desconhecido
    Gladiador II



Melhor Maquiagem e Penteado

    Um Homem Diferente
    Emilia Pérez
    Nosferatu
    A Substância
    Wicked



Melhor Direção de Arte

    Duna: Parte Dois
    Wicked
    O Brutalista
    Nosferatu
    Conclave



Melhor Som

    Um Completo Desconhecido
    Duna: Parte Dois
    Emilia Pérez
    Wicked
    Robô Selvagem



Melhor Curta-Metragem

    ALien
    Anuja
    I'm Not a Robot
    The Last Ranger
    The Man Who Could Not Remain Silent



Melhor Curta Animado

    Beatuitul Men
    In the Shadow of the Cyrpess
    Magic Candles
    Wander to Wonder
    Yuck!


Melhor Curta Documentário

    Death by Numbers
    I am Ready, Warden
    Incident
    Instruments of a Beating Heart
    The Only Girl in the Orchestra



Melhor Canção Original

    "El Mal" - Emilia Pérez
    "The Journey" - The Six Triple Eight
    "Like a Bird" = Sing Sing
    "Mi Camino" - Emilia Pérez
    "Never Too Late" - Elton John: Never Too Late


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Novidades em Streaming - A Besta (La Bête)

De: Bertrand Bonello. Com Léa Seydoux, George Mackay e Guslagie Malanda. Ficção científica / Drama / Romance, França, 2023, 146 minutos.

Existe uma frase meio de autoajuda que diz que se pensarmos (ou nos preocuparmos) demais com o futuro, acabamos por não viver o presente. E, em alguma medida, talvez essa sentença dialogue com a ficção científica existencialista A Besta (La Bête), que estreou na Mubi há algumas semanas. Na trama, passado, presente e futuro se entrelaçam para compor uma distopia onde as pessoas buscam, a cada dia, formas de refrear as suas emoções. Afinal, em um mundo tão individualista, hedonista e tecnológico, os sentimentos - quaisquer que sejam -, podem ser um problema. Amor? Raiva? Tristeza? Tesão? Melhor evitar e se tornar um ser domesticado, que se ajusta a esse ambiente insípido, cada vez mais distante da experiência humana. O ano é 2044 e é nesse contexto que Gabrielle (Léa Seydoux) aceita fazer parte de um experimento que lhe promete a purificação do DNA.

A ideia é conseguir um emprego em um cenário de dominação da inteligência artificial, com mais de 60% de população ociosa. Em uma grande banheira inundada por um líquido preto - algo viscoso, parecido com petróleo -, a protagonista recebe uma injeção no ouvido. A picada - feita, aliás, com uma agulha gigantesca -, lhe permitirá viajar para o passado. E para vidas anteriores. Na primeira, em 1910, a jovem é uma proeminente pianista, que frequenta festas chiques acompanhada de seu marido, um rico fabricante de bonecas. Na segunda, em 2014, ela é uma modelo e atriz participando de uma série de entrevistas de emprego. Em cada uma dessas eras, um ponto em comum: os encontros recorrentes com Louis Lewanski (George Mackay), que pode ser um charmoso aristocrata no período antigo ou um incel incapaz de se relacionar com mulheres, permanecendo virgem aos 30 anos.

 

 

Olhando assim tudo parece meio simples de entender, mas esse é aquele tipo de obra que exige do espectador a atenção aos detalhes. No centro da narrativa está uma espécie de exame da mente humana, envolta em medos onipresentes, às vezes escondidos, noutros mais evidentes. Parece que sempre temos receio de que algo muito ruim vai acontecer. Guerras, pandemias, enxurradas, destruição do meio ambiente, dominação tecnológica, violências de todos os tipos, de onde menos se espera. Se a gente deveria jogar luz para o passado para não repetir erros no futuro, talvez não estejamos fazendo a coisa da maneira correta. Simbolizada por um pombo invasor, a maldade pode ser inesperada ou premeditada, com resultados fatais independente da época (e não deixa de ser interessante notar como o sempre provocativo diretor Bertrand Bonello se utiliza de eventos reais para ilustrar seu ponto, seja uma enchente terrível ocorrida em 1910 ou um massacre perpetrado por um misógino desesperado em 2014).

Simbólica, excêntrica e alegórica, essa é uma experiência que pode ser meio complicada em um primeiro momento. Um quebra-cabeças fragmentado e cíclico que parece funcionar como um alerta para o estado das coisas. Se em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), os protagonistas procuram um procedimento para deletar a pessoa amada de suas mentes, após a dor de um rompimento amoroso, aqui temos a a ampliação desse conceito - como se o excesso de medicamentos para os mais variados distúrbios psicológicos já não fosse mais do que suficiente. É preciso extirpar da alma essa consciência, que nos torna vivos. E que nos faz sentir. Eliminar traumas passados, herdados por séculos. Que infectam o inconsciente. Talvez um estoicismo forçado. Que nos torne apáticos, alheios. E bastante ajustados a um futuro em que seremos atendidos por robôs e por máquinas, enquanto checamos mecanicamente a temperatura de placas aparentemente inúteis. Estéreis. No mínimo pra nos fazer pensar.

Nota: 8,0


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Tesouros Cinéfilos - Inverno da Alma (Winter's Bone)

De: Debra Granik. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes e Dale Dickey. Drama / Suspense, EUA, 2010, 100 minutos.

O famoso frio de renguear cusco, como dizemos aqui no Sul do mundo, é uma sensação absolutamente palpável no melancólico Inverno da Alma (Winter's Bone), filme dirigido por Debra Granik, que completa quinze anos de lançamento em 2025. Em alguma medida, essa é uma obra simples, que versa sobre amadurecimento mas em um contexto bem diferente daquele que assistimos em produções indie sobre adolescentes classe média sofrendo bullying ou se esforçando para um primeiro beijo (que, dada a timidez galopante e a falta de qualquer traquejo social eles sequer merecem). Aqui, o cenário é a zona rural do Missouri, onde a jovem de 17 anos Ree Dolly (Jennifer Lawrence, em seu primeiro papel de destaque), se esforça para cuidar dos seus dois irmãos pequenos e da mãe que sofre com demência, em um cenário de precariedade e de todo o tipo de ausência (inclusive de alimento).

Ajudada aqui e ali por uma afável vizinha, que cria animais e parece ter um pouco mais de recursos - mesmo em um espaço isolado e inóspito (sim, a sensação de frio parece saltar da tela, seja pela neve ou pela floresta discreta e cinza) -, Ree recebe uma notícia que piora tudo, quando um delegado de polícia bate a sua porta. Ou ela localiza o pai, um traficante de metanfetamina (seu nome é Jessup) que descumpriu a liberdade condicional e está foragido, ou ela e a sua família precisarão entregar a casa - o único bem que resta e que está alienado à justiça. Há uma data de limite para isso e que envolve o comparecimento do pai à corte local. Sendo seu paradeiro desconhecido, Ree empreenderá uma verdadeira via crúcis em casas da vizinhança, percorrendo estradas e terrenos e encontrando, aqui e ali, figuras que possam saber qualquer notícia sobre o genitor. O relógio está correndo e é contra ele que Ree está brigando.


 

No meio do caminho, ela estabelecerá contato com Teardrop (o ótimo John Hawkes), um viciado em metanfetamina, que talvez possa saber algo. Além dele, Ree confronta o chefão do tráfico local, um certo Thump Milton (Ronnie Hall) e não é preciso dizer que toda essa movimentação chamará a atenção - também da bandidagem. Como não poderia deixar de ser, a violência parece rondar esse espectro provinciano que parece parado no tempo. Ree avança, aos trancos e barrancos, cruzando cercas e lugares, mas sem ter a certeza de que faz qualquer avanço. Aliás, como espectadores, a impressão de que temos em certa altura é a de fazermos voltas no mesmo lugar, junto da protagonista. O pai, sequer sabemos se está vivo. Talvez nem esteja. E algumas pessoas, mais adiante, talvez desejem ver Ree morta. Especialmente por chafurdar onde não devia.

Indicado à Melhor Filme e à Roteiro Adaptado no Oscar 2011, a produção também levaria Jennifer Lawrence e John Hawkes à nominação, sendo lembrados pela Academia nas categorias Atriz e Ator Coadjuvante. Aliás, uma obra pequena em tamanho e que depende muito dos diálogos (bem como dos silêncios e olhares), tem como destaque justamente as atuações - críveis e potentes. Lawrence, por sinal, é convincente como a jovem interiorana de perfil embrutecido e expressão severa, que encontra pouco espaço pra respiro em meio ao jogo de mentiras e às ameaças que lhe rondam. É quase raro vê-la sorrir, o que só ocorre perto do esperançoso final. Já Hawkes converte Teardrop em uma figura complexa e ambígua, que faz com que desconfiemos e nos afeiçoemos de suas atitudes em igual medida. Tecnicamente bem executada, essa segue sendo uma experiência sombria e  amarga, que apresenta um outro lado do sonho americano. Que, na realidade, mais parece um pesadelo.