terça-feira, 13 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - As Correntes (Las Corrientes)

De: Milagros Mumenthaler. Com Isabel Aimé González-Sola, Esteban Bigliardi e Emma Fayo Duarte. Drama, Argentina / Suíça, 2025, 104 minutos.

Vamos combinar que tudo parece meio misterioso no início de As Correntes (Las Corrientes) e, bom, como costuma-se brincar no meme, o final parece o começo. Afinal, na obra da diretora Milagros Mumenthaler parece haver mais um daqueles exames contemporâneos da classe média tendo de lidar com suas próprias angústias e frustrações, ao passo em que tenta tocar a vida com alguma normalidade. Em geral nada parece muito errado na rotina da protagonista Lina (Isabel Aimé González-Sola), uma jovem estilista em ascensão que, não bastasse estar recebendo um prestigioso prêmio em na Suíça, parece ter um marido compreensivo que lhe apoia, seu nome é Pedro (Esteban Bigliardi), e uma pequena filha amorosa, chamada Sofia (Emma Fayo Duarte), a despeito de uma ou outra queixa a respeito das constantes ausências da mãe por conta das suas obrigações no trabalho.

Como dito antes, no início é tudo um tanto enigmático, estranho e envolto em longos silêncios. Lina recebe uma estatueta, abandonando a homenagem e os aplausos para se refugiar no banheiro, onde descarta a honraria no lixo. Vagando por uma Genebra acinzentada, fria, mas inundada por barulhos urbanos - aliás, a edição de som é um dos destaques da produção, claramente sendo utilizada como alegoria para certos estados de espírito -, a protagonista toma uma drástica atitude: a de se atirar no caudaloso rio que corta a capital Suíça. O que para o espectador poderia sugerir certo pendor suicida, mais adiante parece ser apenas um ato impensado. Como uma energia que invade. Irresistível. "Rumo ao infinito, a um tempo suspenso, distante de tudo, com eu apenas me deixando levar", como explica à cabeleireira Amalia (Jazmín Carballo), após o retorno a Buenos Aires, sua cidade natal.

 


Na capital Argentina, Lina é bem recebida pelos familiares: os abraços da filha, o sexo quente, dedicado e terno do marido, os acordos sociais com a sogra. Mas há algo incomum que parece a cada momento mais evidente no olhar profundo e distante de Lina (com seus angulosos olhos claros), em seu silêncio observador, naquele estilo que nos faz comentar que alguém está em "outro planeta". E que é ampliado por um tipo de medo irracional da água que faz com que ela tenha receio de tomar banho - optando por esponjas umedecidas e toques sutis, a uma distância menos "perigosa". O que resulta no único sinal mais fisicamente visível em seu corpo, que é a oleosidade constante do cabelo, e as consequentes pequenas feridas vermelhas na nuca. As visitas à Amalia, por sinal, tem a ver com esse contexto: como cabeleireira, ela anestesia a cliente (ou paciente), o que permite higienizá-la de forma menos traumática possível. O que faz as escondidas.

[ALGUNS SPOILERS AQUI] Em linhas gerais quem já passou por crises de ansiedade ou mesmo por quadros de depressão sabe que os gatilhos podem ser desencadeados quando menos se espera e sem muita escolha - e, em minha análise, creio que Mumenthaler é muito hábil nessa leitura de mundo em constante movimento, imparável e inexorável, ao mesmo tempo em que lutamos com nossas sofrimentos interiores. E talvez não seja por acaso que, aqui e ali, a atenção de Lina seja desviada para sons ambientes rotineiros e constantes - máquinas de costura, britadeiras, carros no trânsito, bips que saem do videogame -, para fortalecer essa ideia de perturbação. Como um código a indicar a tensão. Lina parece feliz na fachada, mas o que fazer em meio a um pico de ansiedade que sequer lhe impede de ajudar a filha que grita no banho? Ou que faz com que ela tenha vontade de jogar tudo pro alto e fugir? Transtornos psiquiátricos a gente sabe muito bem, não escolhem rico, pobre, alto, baixo, gordo, magro. E aqui temos uma obra fragmentada borrada, talvez propositalmente instável, que não busca soluções. Mas que, com inteligência, elabora em cima de temas como sobrecarga feminina, exaustão emocional e papel da mulher na sociedade.

Nota: 8,0 

 

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