De: Karim Aïmouz. Com Hermila Guedes, João Miguel, Georgina Castro e Zezita Matos. Drama, Brasil, 2026, 88 minutos.
"Compra minha rifa. E é uma rifa de quê? De uma 'noite no paraíso.". Existe uma expressão que cunhei para definir o tipo de experiência vista em filmes como O Céu de Suely, que é a do Brasil do Asfalto. É aquele tipo de narrativa de calor escaldante, da beira da estrada, do posto de gasolina, do trilho do trem, do caminhão barulhento que passa e das cidades milimetricamente periféricas, pequenas e urbanas, que a gente vê não apenas no cinema, mas também em obras literárias, como as do Marçal Aquino, ou em músicas populares, radiofônicas, bregas e sentimentais que vemos justamente na trilha sonora - como é o caso da versão de Everything I Own, da Diana, que em português recebeu o título de Tudo Que Eu tenho. No caso, esse espaço rodoviários, isolado costuma fugir um pouco do estereótipo do Nordeste arenoso, agreste, que povoa nosso imaginário, sendo próximo de urbe popular da praça, do motel, do karaokê, da rádio, da pirataria.
Disponível na Netflix e vencedora de diversos prêmios, a produção de Karim Aïnouz remonta a um período supostamente feliz do Brasil - o dos primeiros governos Lula, com certa esperança por um futuro melhor, mas que nem sempre parece alcançar aquela parcela mais vulnerabilizada da sociedade que, longe dos herdeiros, bem nascidos e endinheirados, luta uma luta meio que diária. Sim, se pra nossa esquerda mais caviar o Flávio Bolsonaro parece um filme de terror catastrófico de extrema direita, pras pessoas que acompanhamos nesse pequeno clássico moderno, esse fascismo tropical parece ser meio que parte do cenário há uns 500 anos. E é justamente a desesperança, o abandono e a busca por condições melhores de vida, que faz com que Hermila (Hermila Guedes), rife o próprio corpo na tentativa de comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, no eterno sonho do Sul do Brasil como um idílio de riqueza, de abundância e de trabalho a ser alcançado.
Quando a obra começa, Hermila está retornando para a sua cidade natal, a pequena Iguatu, no interior do Ceará. Acompanhada do seu filho, Mateuzinho, a jovem de apenas 21 anos aguarda a chegada de Mateus, seu namorado e pai do menino, visto em uma imagem borrada e dessaturada do casal em clima de romance, na abertura do filme. Na chegada, a protagonista é recebida de forma carinhosa pela tia Maria (Maria Menezes) e pela avó Zezita (Zezita Matos). No local, Hermila reencontra antigas amizades, como João (João Miguel), um motoqueiro apaixonado que ronda a jovem em suas andanças, além da divertida prostituta Georgina (Georgina Castro), que será uma espécie de conselheira para a tal "noite no paraíso" - o ambicioso prêmio da rifa que Hermila resolver organizar com os locais, após tentativas pouco efetivas de comércio de números com outros prêmios, como garrafas de uísque, e do sumiço sem muita explicação de Mateus, que mal atende suas ligações (feitas num orelhão, só pra adicionar uma pitada a mais nessa semiologia urbana).
Quando a notícia da rifa de Hermila se espalha, as famílias de bem ficam meio que em choque - especialmente após as compras movimentarem a cidade. Ao descobrir o segredo do dinheiro que aumenta, Zezita inquire a neta: a esbofeteia, obrigando-a a se desculpar (e, verdade seja dita que se essa fosse uma produção dos dias de hoje, muito provavelmente o componente Igreja Evangélica, com todo o seu conservadorismo sombrio, seria ainda mais forte). Afetuosa, divertida e naturalista, essa é uma obra que comove, nos fazendo refletir sobre um dos tantos Brasis que está longe demais das capitais, dos nossos olhos, ouvidos, tato. Um dia após a completa derrota do campo progressista nas eleições 2026, O Céu de Suely, que completa 20 anos de lançamento em novembro, é um lembrete: uma vida melhor se faz resolvendo questões práticas. Diárias. Ter o que comer, onde dormir, um trabalho que permita empreender. Acolhimento em alguma medida. Qualidade de vida. Não pensava que uma obra desse tipo, um das 100 melhores da lista da Abraccine, funcionasse também como parte do processo de autocrítica. Mas funciona.

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