quinta-feira, 28 de março de 2024

Novidades em Streaming - Quem Fizer Ganha (Next Goal Wins)

De: Taika Waititi. Com Michael Fassbender,  Kaimana, Oscar Kightley, Elisabeth Moss e David Fane. Comédia, EUA, 2023, 104 minutos.

Vamos combinar que havia tantas subtramas legais a serem exploradas em Quem Fizer Ganha (Next Goal Wins). Tantas possibilidades dramáticas - ou, vá lá, mesmo que a ideia fosse apenas fazer uma comédia que, pelo menos, ela tivesse alguma graça. Porque a obra de Taika Waititi simplesmente não tem. É pra ser uma produção de humor, mas que não resulta em riso. É pra ser uma experiência sobre superação de dificuldades, mas a gente só se depara com estereótipos. Aliás, que em pleno ano de 2024 se construa um conjunto de personagens tão descaradamente unidimensionais como são retratados os habitantes da Samoa Americana, é algo que beira o constrangimento. Sim, hoje em dia todas as pessoas já estão familiarizadas com o evento futebolístico que entrou pra história nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002 quando o País do Pacífico Sul registrou a pior derrota da história em uma partida oficial: um acachapante 31 a 0 pra Austrália. Agora, esse fato autoriza os roteiristas a tratarem os atletas como uma massa de adultos infantilizados apenas aguardando por algum tipo de domesticação?

Porque, ao cabo, a impressão que fica é a de que é exatamente isso que acompanhamos. As supostas diferenças culturais não estão ali para apenas nos divertir. A ideia geral parece ser a de humilhar os habitantes da Samoa, que são apresentados como um coletivo de sujeitos excessivamente ingênuos - mesmo para os padrões de quem leva uma surra no futebol. Porque depois da goleada sofrida e, projetando as eliminatórias para 2014, a Confederação local resolve contratar um novo treinador, que possa dar uma revolucionada na coisa - ou que ao menos permita aos jogadores terem a capacidade mínima de correr, passar, chutar a gol. E é aí que entra em cena Thomas Rongen (Michael Fassbender), um técnico holandês meio turrão e um tanto desacreditado, que é enviado à Samoa Americana para tentar uma missão quase impossível: fazer com que a seleção local consiga fazer um gol que seja. Um golzinho. Que lhe fará quebrar um tabu para entrar pra história. Na chegada, Rongen é recebido com festa, com imprensa, com uma dança típica da cultura local. É pra ser um instante engraçado. Mas que só gera vergonha alheia.


 

Aliás, muito se falou sobre a completa incapacidade de Waititi de filmar as sequências das partidas de futebol. Obviamente não deve ser uma dinâmica muito fácil, já que é um esporte coletivo e cheio de possibilidades - o que sem um mínimo de boa noção espacial pode fazer com que tudo soe excessivamente falso. Que é o que ocorre. Aliás, eu nunca vi um filme sobre esporte tão mal executado nesse aspecto. Só que a meu ver esse, como já dito, não é o maior problema. Dá pra fazer filme debochado, daqueles de rir de dobrar a barriga, mesmo quando as sequências esportivas não são das melhores - e quem já assistiu ao clássico cult do humor Kung Fu Futebol Clube (2001) sabe do que falo. Só que, volto a dizer: não tem graça. Nenhuma, por sinal. Uma piada recorrente é sobre como os habitantes da ilha tem mais de um emprego - o técnico de futebol pode ser garçom ou repórter e por aí vai. Outra é sobre como os moradores desse local paradisíaco são excessivamente religiosos - com direito a parada para a oração durante o treinamento. Sério? E, por mais que isso seja efetivamente verdade, não consigo compreender como isso pode ser algo divertido. Talvez nos anos 80, em um filme da Sessão da Tarde. E olhe lá.

Quem está minimamente familiarizado com a história sabe que a seleção de Samoa Americana não apenas faria um gol naquela eliminatória, como ainda venceria um partida contra Tonga - escrevendo um capítulo interessante que lhe retiraria da lanterna do ranking da Fifa. Aliás, até mesmo quando os jogadores de Tonga entram não parada, eles surgem como os valentões estereotipados, provocadores - tipo os alemães em Jamaica Abaixo de Zero (1993), aliás, um ótimo exemplo de narrativa de volta por cima esportiva, que não necessita aviltar, menosprezar o País da América Central só porque ele não é de Primeiro Mundo, rico ou possui mais recursos do que as superpotências econômicas mundiais. E é exatamente quando essa parte do filme "começa", que ele dá uma sensível melhorada. Há certa comoção na evolução. Que é ampliada também pelo fato de um dos gols ter sido feito justamente pela atleta Jaiyah (Kaimana), a primeira mulher trans a jogar uma partida por uma Eliminatória de Copa do Mundo. 

 

 

Já pensou que baita trama poderia ser essa? Sobre os dilemas de ser trans em um ambiente tão masculinizado? Só que quando Jaiyah surge em cena ela é apenas o lugar comum fetichizado de uma figura do tipo - com seus trejeitos afeminados e necessidade de ajeitar o cabelo o tempo todo. Haveria no combo outras histórias paralelas possíveis, como a do goleiro Nicky Salapu (Uli Latukefu), que foi quem levou os 31 gols do massacre - mas que ressurge para uma história de redenção que beira o inacreditável. Tudo isso fica meio comprimido em uma narrativa centrada em um white savior absolutamente irritante que, de quebra, ainda tem carisma negativo. Às vezes eu fico me questionando se Taika Waititi ainda tem crédito na praça, ou se Jojo Rabbit (2019) foi apenas um delírio coletivo que foi exageradamente alçado a filme da temporada naquela edição do Oscar. Tomara que não, até mesmo porque há sim coisas boas no currículo. Mas aqui fica aquela mancha na temporada "esportiva". Uma goleada em casa e que levará tempo pra recuperar.

Nota: 3,5

quarta-feira, 27 de março de 2024

Cinema - O Homem dos Sonhos (Dream Scenario)

De: Kristoffer Borgli. Com Nicolas Cage, Julianne Nicholson, Dylan Gelula, Michael Cera e Dylan Baker. Comédia / Drama, EUA, 2023, 101 minutos.

Vamos combinar: desde que Nicolas Cage abraçou oficialmente o meme talvez tenhamos, com O Homem dos Sonhos (Dream Scenario), o seu melhor filme. Por que se em Pig: A Vingança (2021) ou O Peso do Talento (2022) era mais a galhofa pela galhofa, ou a mera desculpa pra colocar o astro em algum projeto de gosto duvidoso (ou apenas engraçado de maneira estranha), aqui temos também uma história para contar. Ok, é evidente que não estamos diante de um tratado sobre cultura do cancelamento, fama vazia, instantaneidade do pop de nicho, linchamento virtual e outros temas. Ainda assim não deixa de ser interessante notar como esses assuntos aparecem, aqui e ali, nessa narrativa excêntrica protagonizada por Cage e dirigida pelo ótimo Kristoffer Borgli - do excelente Doente de Mim Mesma (2022). Na trama, ele não poderia ser o sujeito mais comum: um professor universitário de biologia (seu nome é Paul) que sonha em escrever um livro sobre suas importantes descobertas a respeito da vida das formigas - ou outro tema que ninguém dá a mínima.

Só que se já não bastasse uma rotina um tanto ordinária, ele ainda é uma figura de carisma meio negativo. Por mais bondoso e dócil que seja, ele é aquele homem careca - naquele estilo George Constanza, de Seinfeld -, que usa um óculos meio antiquado e que se veste com roupas sem nenhum apelo à moda (geralmente escuras, opacas e com números maiores). Aliás, ele é uma figura tão simplória, tão discreta, que quando todas as pessoas à sua volta começam a simplesmente sonhar com ele, do nada, ele mantém a apatia excruciante inclusive dentro dos sonhos. Quando passa a ser uma espécie de pequena celebridade entre seus alunos, eles relatam os seus sonhos, que são invadidos por um Paul meio distante, no canto do quadro, alheio à narrativa. Em um dos devaneios, um dos estudantes está em fuga de um assassino sanguinário. Em outro, um prédio está em ruínas. Num terceiro, uma casa é invadida por jacarés. Em todos eles o protagonista apenas circula, como se estivesse em um plano de fundo, sem uma participação mais, digamos, direta. Ainda que esteja lá.


 

Aliás, essa falta de iniciativa é percebida também quando ele tem uma reunião (essa na vida real) com uma antiga colega que anuncia que escreverá um livro exatamente sobre um tema que ele mesmo cogitou escrever - e ele simplesmente será incapaz de confrontá-la. Em outro momento, quando uma agência de publicidade - uma start up cheia de jovens estilo Faria Lima loucos para ganhar uma graninha a custa da imagem alheia -, mostra interesse em contratar Paul (que já viralizou nas redes pelos inexplicáveis sonhos coletivos com ele, uma espécie de "efeito Mandela onírico") para uma propaganda de Sprite ou para algum tipo de parceria com o Obama, ele se recusa. Só há um interesse em sua vida, e que ele tentará capitalizar a todo custo: lançar seu livro completamente nichado, que funcionará mais como exercício egóico do que efetivamente a entrega de algum produto que alguém aguarda ansiosamente chegar ao mercado. Nesse conjunto de situações ele ainda falha miseravelmente ao tentar uma investida na jovem Molly (Dylan Gelula), uma das assistentes da agência - em uma abordagem que só gera constrangimento. Detalhe: ele é casado. E tímido. E muito correto.

E a meu ver esse roteiro poderia dar muito errado se a obra não tivesse graça. E ela é muito divertida, a ponto de em vários momentos me arrancar gargalhadas - seja no instante em que os alunos narram os sonhos (que são filmados de forma criativa, vibrante), seja nas aparições em programas de TV, ocasião em que as mais diversas teorias começam a surgir. [ATENÇÃO PARA SPOILERS] E quando Paul dá uma guinada em certa altura, que o transforma em uma espécie de Freddy Krueger improvisado, que barbariza todo mundo nos sonhos, temos aquela pulguinha que nos fará pensar sobre nosso comportamento diante de famosos nem tão famosos - e sobre como sempre estaremos prontos a julgar e a apontar dedos. E talvez não seja por acaso o surgimento de um sujeito armado, de roupa camuflada - um cidadão de bem -, no terço final, disposto a fazer justiça com as próprias mãos. o que evidenciará também como, em certos casos, as pessoas estarão a isso aqui de distância de enveredar para comportamentos extremistas. Tudo bem que nas aparências é só uma comédia sobre as pessoas sonhando obsessivamente com Nicolas Cage. Ou com um estereótipo dele. Mas ele mesmo já foi vítima dessa cultura do ódio, quando sua carreira entrou em decadência, o convertendo quase num pária em Hollywood. Que ele faça disso a matéria-prima para um projeto tão singular - e hilário - é só a cereja do bolo.

Nota: 8,5


segunda-feira, 25 de março de 2024

Tesouros Cinéfilos - A Comunidade (La Comunidad)

De: Álex de la Iglesia. Com Carmen Maura, Eduardo Antuña e Ane Gabarain. Comédia / Suspense, Espanha, 2000, 109 minutos.

Uma experiência histriônica, excêntrica, exagerada, bizarra. Vamos combinar que não tem como fugir desse tipo de adjetivo na hora de definir A Comunidade (La Comunidad) - filme do diretor Álex de la Iglesia que está disponível na Mubi. Mistura de suspense hitchcockiano e comédia pastelão, com agumas pitadas de Roman Polanski na Trilogia do Apartamento, essa é aquela obra para assistir com a mente aberta e a alma leve. Afinal, é tudo tão anárquico que, em certa altura, só resta abraçar o caos. Na trama, Carmen Maura é Julia, uma agente imobiliária meio decadente, que se ocupa de alugar habitações para clientes abastados. Lá pelas tantas, digamos que ela simpatiza demais com um dos apartamentos mobiliados que deveria vender, e resolve apenas se instalar nele. Ainda que não fosse o certo, a ideia era passar apenas uma ou duas noites ali - ao menos até o momento em que ela leva uma "chuva" de baratas na cabeça (em uma tentativa meio torta de sexo com seu marido não muito hábil).

A invasão das baratas será a deixa para que ela perceba que tem algo muito errado no andar de cima - o que envolve a descoberta do corpo putrefato do antigo dono - um idoso que, pelo visto, guardava uma boa quantia de dinheiro (e despertava o interesse dos demais vizinhos, como ela constatará). A ideia de Julia, quando descobre 300 milhões de pesetas escondidas em meio a um amontoado de lixo, de entulho, de sujeira, será levar a grana dali. Embalada em enormes sacolas. Tarefa que, ela perceberá, não será tão simples assim. Afinal, todo mundo ali vai tentar tirar uma lasquinha do dinheiro e a protagonista terá de fazer um verdadeiro malabarismo pra sair dali - o que envolverá, por exemplo, escapar das investidas de um vizinho sedutor, um cubano que chegará ao ponto de forjar uma festa em seu apartamento como forma de atrair sua atenção (em uma das mais engraçadas sequências da trama).


 

Ao cabo, aqui temos aquele filme de caçada estilo gato e rato, com todos ali tentando se antecipar em relação ao outro - com Julia à frente. Há outros vizinhos esquisitos, como no caso de Charly (Eduardo Antuña), uma espécie de nerdola incel que passa seus dias espionando pela janela, vestido de Darth Vader, enquanto é mimado pela sua preocupada mãe, além de Encarna (María Asquerino), que faz aquele estilo vizinha interesseira/fofoqueira, que tá sempre bisbilhotando pelos corredores. Aqui e ali o projeto quase descamba para a bagunça, especialmente no terço final, quando as coisas saem de controle, com direito a uma perseguição digna de clássicos como Um Corpo Que Cai (1958) e Intriga Internacional (1959). A tensão é interessante, ainda que ela se equilibre bem com a comédia física - com pessoas dependuradas ou se esgueirando pelos ares, enquanto se atacam em um prédio altíssimo, rodeado por majestosas estátuas.

"Hitchcock é como minha mãe e Polanski é como meu irmão", brincou o diretor, à época do lançamento, em entrevista à BBC. No mesmo bate-papo ele elogiou a performance de Maura, sempre tão ligada à Pedro Almodóvar, em especial ao subverter a lógica da mocinha de retidão moral inabalável, uma vez que ela é uma figura totalmente gananciosa - uma anti-heroína que é incapaz de largar a mala de dinheiro, mesmo quando parece a ponto de morrer. Com um sem fim de figuras estúpidas e ambiciosas, que tornam o ambiente do condomínio numa espécie de microcosmo de uma sociedade individualista, sem nenhuma empatia e incapaz de pensar no coletivo (o que torna o nome do projeto paradoxal), a obra diverte na análise exagerada das falhas do capitalismo. Com vitórias nos festivais de San Sebastian, no Goya e no de Mar Del Plata, o filme pavimentaria o caminho para outras obras estranhas do diretor, caso do imperdível Crime Ferpeito (2005), que pode ser encontrado no Belas Artes A La Carte.


Pitaquinho Musical - Adrianne Lenker (Bright Future)

Quem acompanha o trabalho de Adrianne Lenker, seja à frente do Big Thief ou em carreira solo, sabe que suas obras não são daquelas que nos apaixonam de primeira - e não é diferente com o recém lançado Bright Future. Sim, porque a despeito da simplicidade evocativa do violão e da voz enfumaçada, pincelada aqui e ali por um violino ou um efeito eletrônico econômico, o que temos são registros que requerem uma atenção maior do ouvinte. Nem sempre há refrãos fáceis ou as curvas óbvias previstas no pop plastificado da atualidade. Ou no folk encomendado. O caminho, ao cabo, pode ser imprevisível mas sofisticado, instável mas arguto. Basta olhar para os versos, que até divagam sobre cotidiano bucólico e a complexidade das relações humanas, mas sempre com uma dose de boa poesia - algo que fica claro, por exemplo, no single Sadness As a Gift (Estive procurando seus olhos / E tudo que vejo é o céu azul). Ou mesmo em Evol, que explora o conceito de palíndromos.

 

 

Em linhas gerais tudo é muito íntimo e cheio de vulnerabilidade. É como se Lenker simplesmente pegasse seu violão, entrasse em um quartinho fechado de uma casa isolada no meio do mato, rodeada por montanhas e riachos, e dedilhasse qualquer coisa tão sofrida quanto aleatória. Ainda assim é interessante notar como há certo encantamento nesse caráter meio banal da coisa toda - como se houvesse um brilho meio mágico, quase onírico, a cada nota vocal mais alta ou a cada melodia entortada, que se equilibra em perfeita harmonia com o silêncio das brechas. Libélulas, varandas perfumadas, nuvens que passam, framboesas silvestres e macieiras, passeios com o cachorro, lareiras acesas, ventos que arrepiam - há uma felicidade boba no agora, que faz o contraponto a um futuro que, sabemos, não será tão brilhante assim. Só que enquanto o trágico não ocorre podemos dar play para dançar timidamente ao som de Free Treasure, Vampire Empire e Ruined. Certamente valerá a pena.

Nota: 8,5


quarta-feira, 20 de março de 2024

Cine Baú - Disque M Para Matar (Dial M for Murder)

De: Alfred Hitchcock. Com Ray Milland, Grace Kelly e Robert Cummings. Suspense / Policial, EUA, 1954, 105 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM SPOILERS]

Existe um grande bloco de filmes de Alfred Hitchcock que geralmente não são citados de primeira, quando chega a hora de elaborar a relação dos melhores do Mestre. Mas isso não significa que eles não sejam importantes ou não tenham o DNA do diretor. E penso que esse é o caso do ótimo Disque M Para Matar (Dial M for Murder), que foi lançado no mesmo ano de Janela Indiscreta (1954), o mais perfeito suspense que se tem notícia - e que talvez por isso não seja lembrado com tanto carinho. Sim, num primeiro momento a produção estrelada por Ray Milland e Grace Kelly pode parecer apenas uma longa verborragia sobre um psicopata descrevendo os caminhos que lhe levarão a perpetrar um crime perfeito (aliás, um dos muitos assuntos favoritos de Hitchcock). Mas o roteiro é tão engenhoso, os diálogos, ainda que expositivos, são tão espirituosos, e as interpretações tão convincentes que não demora nem quinze minutos para que sejamos absorvidos pela história.

A trama é o Hitchcock raiz: um tenista aposentado de nome Tony Wendice (Milland) descobre que sua estonteante noiva, a socialite Margot (Kelly), está tendo um caso com um escritor americano de thrillers policiais - um certo Mark Halliday (Robert Cummings). Ao invés de confrontá-la a respeito de sua infidelidade, Tony elabora um plano macabro para matar Margot. Para colocar essa ideia tão aterradora quanto absurda em prática, ele chantageia um certo Charles Swann (Anthony Dawson), um antigo colega de faculdade que está envolvido em uma série de golpes - inclusive já tendo sido preso. A ideia da dupla será a de aproveitar um momento em que Margot estará sozinha em casa, para que Swann entre no apartamento - uma chave estratégica será deixada de baixo do tapete, junto a escadaria. Um telefonema chamará a atenção da jovem e esta será a deixa para colocar o estratagema em ação. Só que não seria um filme de Hitchcock se a coisa ocorresse exatamente como o previsto.


 

Em uma das melhores reviravoltas da história do cinema, Margot consegue contragolpear o seu algoz, que tentava lhe estrangular com um cachecol. E ao perceber que seu plano saiu pela culatra, o protagonista precisará recalcular a rota - o que envolverá uma série de mentiras aos investigadores, com direito a provas falsas plantadas pelo apartamento, declarações conflitantes e cópias de chaves perdidas e reencontradas, além de uma grande quantia de dinheiro em uma mala. É tudo muito bem construído, ainda que a trama se passe, assim como ocorre em Um Barco e Nove Destinos (1944), Festim Diabólico (1948) e no já citado Janela Indiscreta (1954), toda em um mesmo cenário. E é justamente esse aspecto que confere um impacto maior à trama - com o ambiente apertado do apartamento, com sua sala pequena e quarto adjacente, ampliando a sensação de claustrofobia e de tensão iminentes.

Como de praxe, o diretor utiliza o seu filme para uma série de pequenas inovações técnicas que vão dos enquadramentos oblíquos, passando por travellings exagerados e closes impactantes. Em certa altura a câmera flana pelo apartamento até repousar em um ângulo um pouco mais baixo em que Tony e Swann aparecem apartados por um abajur. Pode não parecer algo significativo, mas serve para representar um ponto de ruptura que, ali adiante, se consolidará - seja no plano que não sai a contento, seja na morte inevitável do segundo. Em tese há uma suavidade que vai e vem e que reforça a importância dos objetos cênicos - cartas, chaves, malas, casacos -, como se nossos olhos precisassem estar permanentemente atentos a tudo que envolve aquele espaço (e vai ver tenhamos mesmo que estar atentos). E talvez não seja por acaso que o filme tenha sido incluído na lista de 100 Thrillers do American Film Institute (AFI), numa honrosa 48ª posição. Ao cabo este é um suspense sofisticado, carregado de tensão e que reserva uma série de surpresas instigantes até a sua conclusão.


Pitaquinho Musical - Real Estate (Daniel)

Vamos combinar que o Real Estate é a prova viva de que a música pode ser fácil, descomplicada, sonhadora, doce. Sim, a gente já ouviu esse estilo de jangle pop antes - seja em bandas como o Teenage Fanclub ou, mais antigamente, com o The Byrds. Já se vão quinze anos de carreira e, no sexto disco, Daniel, a coisa não mudou muito. Há um apelo nostálgico permanente na guitarrinha primaveril, que combina perfeitamente com os versos flutuantes de Martin Courtney. São canções que aconchegam e que acolhem o ouvinte, mesmo quando eventualmente soam mais complexas do que parecem. É o caso, por exemplo, do single Water Underground, que mergulha nas profundezas da mente, ao usar a imagem da água como uma metáfora para o inconsciente, para a parte mais misteriosa do cérebro. "Você apenas está vivendo sua vida cotidiana e encontra algum tipo de inspiração", divagou Courtney.


 

O expediente se repete em outros momentos simples e belos. Say No More se inspira no clássico Harvest Moon, de Neil Young, em um tipo de canção grudenta, que poderia muito bem estar no álbum Days (2011) sem que houvesse nenhum estranhamento. A estrutura de verso, ponte e refrão é replicada de forma persistente, o que pode soar um pouco cansativo para quem aguarda um pouco mais de elaboração. Mas não dá pra negar que, atualmente, o grupo já possui uma personalidade própria, que permite fácil identificação. "O sol se pôs / Nós permitimos / Nunca estive tão contente", verte em torrente o refrão de Airdrop, antes de um sintetizador inesperado explodir. Em Market Street a estrutura se repete, bem como os temas (As coisas não parecem certas / Banhadas pela luz do sol). Pode parecer apenas banal, talvez cotidiano demais. Mas encontrar magnitude no ordinário também tem seu charme. E ao optar por essa jornada do comum, o Real Estate converte seus temas - e suas angústias suburbanas - em maiores do que parecem.

Nota: 8,5


segunda-feira, 18 de março de 2024

Cinema - A Sala dos Professores (Das Lehrerzimmer)

De: Ilker Çatak. Com Leonie Benesch, Eva Lubau, Michael Klammer e Leonard Sttetnisch. Drama, Alemanha, 2023, 98 minutos.

Em uma das primeiras cenas de A Sala dos Professores (Das Lehrerzimmer), dois alunos da sétima série são interrogados por dois professores da escola em que estudam, a respeito de pequenos furtos que andam estão ocorrendo no educandário. Incapazes de obter uma resposta satisfatória diante da negativa dos pequenos, os docentes instigam os estudantes a apontarem em uma lista de nomes, qual é aquele que, eles acreditam, possa estar envolvido no caso. Essa ocorrência aparentemente corriqueira é acompanhada por Carla (a ótima Leonie Benesch), que está exasperada. Como pode, afinal, duas pessoas mais velhas coagirem dois adolescentes a simplesmente dedurarem um colega? E, pior: sem nenhuma prova? O olhar de Carla é de surpresa. Ela indica que eles não precisam fazer aquilo. Podem ficar em silêncio se preferirem. Mas, acuados, eles fazem. E a culpa recai justamente em um colega do Oriente Médio. Um convite à xenofobia. O que piora aquilo que já não era muito bom.

Carla não parece ser uma má pessoa. Quer dizer, não é que ela seja incorruptível ou moralmente impecável. Mas ela tenta estabelecer algum tipo de ética na relação com os seus alunos - o que faz com que ela permaneça ao lado deles, quando a investigação envolvendo roubos de pequenas quantias de dinheiro ou mesmo de objetos e de materiais escolares, tem início. Ninguém sabe quem está por trás daquilo. Pode ser um estudante? Pode. Mas também pode ser um funcionário ou um outro professor. Só que em tempos de redes sociais, de instantaneidade, de ódio disseminado e de política de cancelamento - todos nós poderemos ser os próximos, afinal -, a protagonista falhará justamente ao tentar auxiliar a escola na investigação. Quando ela posiciona uma câmera escondida junto a sua jaqueta, por estar desconfiada de uma fuuncionária, ela percebe uma mão que invade o bolso da peça para pegar a sua carteira. As evidências sobre o autor parecem claras. Mas dá pra sair incriminando assim, sem mais nem menos? Sem alguma prova mais robusta?


 

Pior do que isso, a professora será acusada de invasão de privacidade, já que faz captura com a câmera do notebook sem o conhecimento dos demais, justamente dentro da sagrada sala dos professores. O que desencadeará uma série de eventos que escalarão para uma sequência de violências em que, aparentemente, ninguém mais se entenderá. Primeiro a suposta culpada pelos roubos será afastada. Só que esse fato também respingará no filho da suspeita, o pequeno Oskar (Leonard Sttenisch), um jovem promissor que é fã de matemática, meio protegido de Carla, mas que ficará perturbado com o desligamento da mãe. E como se tudo não pudesse se tornar ainda mais atordoante, ainda haverá as reuniões com os pais, os grupos de whats, as desconfianças de parte a parte. Carla quis fazer algo que, em sua imaginação, seria para o bem. Mas quando um sistema parece já estar todo corrompido em sua raiz, não haverá mais solução. Por mais que se tente.

Em alguma medida, esse é um filme sufocante que se utiliza justamente das paredes exíguas e dos ambientes permanentemente fechados de uma escola, para formar o conjunto ideal de uma alegoria sobre violências cotidianas que escalam sem muito espaço para retorno. Em certa altura os alunos convocam Carla para uma entrevista ao fanzine da escola. E a gente já sabe que tudo sairá de uma forma torta. Há nos tempos atuais uma pré disposição para o ódio, para a intolerância, para a incapacidade de entender o outro. De ouvir e ser ouvido. Em certo ponto todos gritam juntos, ao mesmo tempo, na sala dos professores, numa balbúrdia desconexa que é a metáfora perfeita para as fraturas vividas na atualidade. É um microcosmo que serve como um olhar para o todo. É tudo muito seco - da fotografia aos cenários, passando pela trilha sonora de notas inquietantes. Até pode parecer um filme em que não ocorre muito. Mas há algo no seu cerne que fala muito sobre a hostilidade do mundo. Sobre tormentas e questões éticas complexas. E esse é um grande mérito.

Nota: 8,5


quarta-feira, 13 de março de 2024

Pitaquinho Musical - Carne Doce (Cererê)

"Mais uma vez está na hora de partir / Pra ver se a distância pode nos unir". Poucas bandas exploram tão bem a dualidade da experiência humana como o Carne Doce. Em alguma medida é possível afirmar que delicadeza e selvageria caminham lado a lado com o pudor e a perversão, o bucólico e urbano, o amoroso e o sexy - o que é evidenciado não apenas nos versos cheios de dualidades, mas também nas melodias que se alternam entre instantes urgentes e contemplativos. "É uma inclinação dela, dos autores que ela lê, de como ela vê a vida, e que ela acabou aprimorando com o exercício da composição” resumiu em entrevista ao Diário da Manhã, o guitarrista Macloys Aquino sobre sua parceria de grupo - e também de vida - Salma Jô. Nesse sentido as letras eventualmente reflexivas da compositora muitas vezes recebem como complemento uma sonoridade perfumada, primaveril, com guitarras melódicas e um apelo à natureza de sua região de origem, no caso o Centro Oeste.




Sim, sempre foi assim e basta olhar o título e canções da época do primeiro e homônimo álbum de 2014 - Sertão Urbano, Amigo dos Bichos, Fruta Elétrica - para percebermos essa característica. E se naquele momento os goianos produziam um tipo de música mais empoeirado, diluído, com um apelo à uma "psicodelia da floresta", é possível afirmar que aos poucos a sonoridade foi sendo limpa, com destaque para o vocal e um instrumental também mais arredondado e a exploração de temas feministas e de questões de gênero - especialmente após o disco Tônus (2017). Com dez anos de carreira e um cancelamento nas costas - uma acusação de abuso sexual do baterista -, o coletivo chega ao quinto trabalho, Cererê, com suas principais atributos intactos. Um bom exemplo disso pode ser percebido já na arrancada, com o divertido single Noite dos Tristes (olhaí a dubiedade). O expediente se repete em instantes contemplativos, como em Suspiro, que abre esse pequeno texto, e em outras joias como as espetaculares Metagreste, Na Lona, Na Bad e Festa. O melhor nacional até o momento.

Nota: 8,5