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terça-feira, 30 de junho de 2020

Tesouros Cinéfilos - Louca Obsessão (Misery)

De: Rob Reiner. Com Kathy Bates, James Caan, Richard Farnsworth e Lauren Bacall. Terror / Drama, EUA, 1990, 107 minutos.

Com Louca Obsessão (Misery) as configurações de "fã xiita" - aquele tipo obcecado pelo artista - foram definitivamente atualizadas com sucesso. E da forma mais apavorante possível! O filme do versátil diretor Rob Reiner (Antes de Partir) foi adaptada de um livro do Stephen King e nos apresentou a uma Kathy Bates tão delirantemente alucinada, que ela faturou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel. Algo, diga-se, não muito comum em filmes de terror. Na trama, Bates é a enfermeira Annie, uma mulher solitária, devota de Deus e que é completamente apaixonada pela obra do escritor Paul Sheldon (James Caan), de quem se diz fã número 1. Por um daqueles "acasos" Annie Wilker será a pessoa que salvará Paul da morte após um acidente de carro, em um local isolado, em meio a uma nevasca. No chalé em que ela vive, tomará os primeiros cuidados para a recuperação de seu hóspede improvisado.

Só que o que inicialmente eram chazinhos, medicamentos e uma atenção quase maternal de Annie, vai aos poucos mudar de figura, quando ela começar a mostrar uma personalidade instável e intempestiva. Paul perceberá que se salvou da morte. Mas que as coisas não estão tão assim melhores. Tudo começa quando Annie passa a dar muitas desculpas sobre estradas fechadas (por causa da neve) e impossibilidade de fazer ligações telefônicas à longa distância. Sem poder falar com sua agente e seus familiares, o escritor se verá em uma espécie de prisão, em que o limite é a porta do quarto. E como se não bastasse a sensação de horror que parece aumentar a cada dia passado no local, tudo piora quando Annie descobre o manuscrito do último livro de Paul - que estava em sua bolsa. Autorizada a lê-lo, ela ficará completamente contrariada com o rumo dado a uma das personagens, na história. Bom, não é preciso dizer que o que já estava ruim, vai piorar.


Como se fosse uma mistura de Baby Jane (de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?) com Norma Desmond (de Crepúsculo dos Deuses), a enfermeira obrigará o sujeito a permanecer em sua propriedade até que entregue um livro que esteja satisfatório para ela. Enquanto os delegados locais tentam buscar alguma pista do Paul, ele vai sofrendo nas mãos de Annie, com torturas psicológicas que vão desde a queima do livro que seria entregue à editora até chegar a agressões físicas, como na famosa cena da marreta. Aliás, eu não li o livro de King, mas posso dizer que Reiner é hábil em construir o clima de terror crescente, transformando até mesmo cenas prosaicas (e excêntricas) como a da aparição do porco de "estimação" de Annie, em sequências absurdamente angustiantes. O que é reforçado pela alternância de humor da algoz, capaz de ir do sorriso dissimulado à seriedade taciturna em segundos (e são essas pequenas inflexões que, a meu ver, valorizam ainda mais a caracterização de Bates que, realmente, está assombrosa).

Tecnicamente, o filme também é formidável. O uso de contra-plongées - aquele recurso em que vemos o personagem de baixo para cima - reforça bem o caráter monstruoso de Annie, que sempre parece maior do que é, ao passo que Paul, por estar numa cama, sempre surge como uma figura menor, amedrontada. O desenho de produção (e até mesmo o figurino) contribui para que acreditemos naquela casa como um espaço claustrofóbico, sufocante, com corredores apertados, mobília velha e decoração obsoleta. Tudo parece antiquado, anacrônico, o que dialoga com a personalidade retrógrada de Annie - uma mulher que crê em Deus e que não aceita um tipo e literatura que subverta a lógica das convenções, especialmente as religiosas (ela não gosta, por exemplo, dos palavrões que surgem no último livro). Todos esses detalhes contribuem para que estejamos permanentemente apreensivos. Tudo é imprevisível e até dolorido - há uma cena envolvendo o xerife (o ótimo Richard Farnsworth) da cidade que é de partir o coração. Louca Obsessão completa 30 anos de seu lançamento em novembro e segue assustando, com Kathy Bates permanecendo para sempre como uma das mais inesquecíveis vilãs da sétima arte. Vale recordar!

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Cinema - Obsessão (Greta)

De Neil Jordan. Com Isabelle Hupert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe e Stephen Rea. Suspense, EUA / Irlanda, 2018, 96 minutos.

Histórias de stalkers que perseguem suas vítimas levando-as à exaustão física e psicológica não chegam a ser exatamente uma novidade no cinema. De pequenos clássicos modernos como Atração Fatal (1987) e Louca Obsessão (1990), passando ainda por alternativos como O Talentoso Ripley (1999) não foram poucas as vezes em que acompanhamos personagens com algum tipo de trauma, que as levam a se tornar obcecadas por outras pessoas, seus comportamentos ou estilos de vida. Para nós, espectadores, obras desse subgênero também parecem ser capazes de nos levar a algum tipo de catarse em que se sobressai um tipo de suspense muito mais psicológico do que aquele que apela para os sustos mais "fáceis". Não é diferente com o recém-chegado Obsessão (Greta), mais recente trabalho do diretor Neil Jordan (do surpreendente Traídos Pelo Desejo) e que representa a entrada da veterana Isabelle Hupert no universo dos perseguidores psicologicamente alterados.

O filme começa com cenas prosaicas da vida da jovem Frances (Chloë Grace Moretz), que trabalha como garçonete em um luxuoso restaurante de Nova York e divide um apartamento com a amiga Erica (Maika Monroe). Em um certo dia, voltando do trabalho, Frances se depara com uma bolsa que está perdida em um banco do metrô. Ao recolher o acessório e identificar a sua dona, após a verificação dos documentos, ela vai até o endereço para a entrega do objeto. No local lhe atende uma simpática senhora de nome Greta (Isabelle Hupert), que lhe oferece uma xícara de chá em agradecimento. Tudo corre relativamente bem: Greta é viúva, tem uma filha que não mora com ela, gosta de tocar pequenas árias ao piano... e se torna uma amiga involuntária de Frances, convidando-a outras vezes para a sua casa, para visitas ou mesmo para jantar.


Em um desses jantares, Frances faz uma descoberta dentro de um armário da casa de Greta, que lhe faz perceber que a bolsa "perdida", não passava de um estratagema para atrair pessoas para perto de si. De preferência jovens garotas que atendessem a um certo perfil, que tivessem perdido a mãe ou que tivessem dificuldades de relacionamento com os familiares. É quando Frances assustada tenta se afastar da mulher de todas as formas, que o seu calvário começa: ligações e mais ligações em seu celular, mensagens na secretária eletrônica, uma conversa sobre a necessidade de serem amigas como forma de substituir outras pessoas que não estão mais em suas vidas, aparições em lugares inadequados (em frente ao seu trabalho, no corredor do prédio em que mora)... enfim, Greta passa a transformar a vida de Frances em um inferno. E ao chamar à polícia, a jovem enfrenta a burocracia de um sistema de segurança que não lhe ouve e, pior: não vê crime na "mera perseguição".

Ainda que não traga alguma novidade no que diz respeito ao gênero, Neil Jordan entrega uma obra correta, com boa atmosfera, excelente trilha sonora e detalhes que tornam agradável a experiência. Da vizinhança decrépita de Greta (ponto pro criativo desenho de produção), às pequenas nuances do olhar ou da inflexão de voz que alteram o comportamento de Isabelle de "velhinha querida" para "demonho em pessoa", a película tem na presença da premiadíssima veterana uma de suas atrações - e talvez o filme nem funcionasse tanto, se não fosse a presença magnética da atriz, que encarna com naturalidade a maluca que ataca violentamente a sua vítima, enquanto dança ensandecidamente ao som de Chopin. Com uma pequena reviravolta nem tão surpreendente no final, a obra tem estrutura convencional, mas cumpre seu papel, com um suspense crescente e uma permanente sensação de que algo está prestes a sair do controle. O que em filmes sobre stalkers, é tudo o que precisamos.

Nota: 7,5

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Cine Baú - Conta Comigo (Stand By Me)

De: Rob Reiner. Com Jerry O'Connell, Will Weaton, Corey Feldman, River Phoenix, Kiefer Sutherland e Richard Dreyfuss. Comédia dramática / Aventura, EUA, 1986, 89 minutos.

"Nunca mais tive amigos com o aqueles que tive aos 12 anos. Mas, por Deus, quem tem?" Dita quase ao final do filme pelo sensível Gordie (na fase adulta, vivido por Richard Dreyfuss), a sentença acima serve quase como um resumo da ideia geral que norteia a narrativa do clássico infanto-juvenil Conta Comigo (Stand By Me), do diretor Rob Reiner. Amigos verdadeiros, leais, com todas as suas virtudes e defeitos, erros e acertos, Gordie teve no início da adolescência. Mais do que isso: foi com eles que viveu uma aventura que marcaria as suas vidas para sempre. Era o caudaloso verão de 1959, na cidadezinha de Castle Rock, povoado de pouco mais de 1,2 mil habitantes no Estado do Oregon. Em uma tarde de tédio em que jogos de cartas se misturam com tragadas aleatórias em cigarros evidentemente impróprios para crianças, um afobado Vern (Jerry O'Connell) chega à casa na árvore para contar a novidade: há um cadáver nos arredores e eles podem descobrir onde ele está. Antes das autoridades, da polícia, da imprensa e de outros interessados.

Bom, essa é a deixa para que Gordie e Vern partam ao lado do intempestivo Teddy (Corey Feldman) e do durão Chris (River Phoenix) para tentar localizar o corpo. Avançando junto a um trilho de trem, percorrerão alguns bons quilômetros em dois dias, superando uma série de desafios - entre eles o dono pouco amistoso de um ferro-velho, e um local pantanoso povoado por sanguessugas. Fora o próprio trem que, mais de uma vez, se apresentará como um risco, sendo marcante a sequência em que o quarteto resolve atravessar uma ponte sem nenhum guard rail disponível. Trata-se ao cabo de uma jornada meio incerta, que terá o amadurecimento como destino. Ao procurar um corpo desfalecido o grupo, como num paradoxo, encontrará a "vida". Sairá para o mundo, mais ou menos como fizeram os jovens fugitivos do clássico literário Todos os Belos Cavalos de Cormac McCarthy.

Com ótimas interpretações do elenco central, a obra também aproveita as paisagens tão bucólicas quanto hostis do Oregon, para transformá-las no cenário idealmente inóspito para a aventura que acompanhamos. Do rádio que insiste em tocar canções antigas enquanto um locutor faz uma agradável narrativa genérica sobre o cotidiano local, chegando aos garotos mais velhos (e bastante maldosos) que praticam bullying e também estão em busca do cadáver, tudo contribui para o sentimento de nostalgia que rege a trama. Não por acaso, é praticamente impossível não se identificar com os diálogos meio sem sentido, mas inacreditavelmente apropriados dos quatro - com destaque pra sequência em que, em volta da fogueira, eles tentam decidir o que exatamente é o Pateta (já que o Mickey é um rato, o Donald é um pato e o Pluto é um cachorro). O mesmo valendo para a sequência que envolve um concurso de "comer torta" (aquele momento metalinguístico que parece um tipo de Stephen King dentro de um Stephen King).

Com uma única indicação para o Oscar, na categoria Roteiro Adaptado - o filme, aliás, entra na leva das boas adaptações da obra de King (ao lado de Um Sonho de Liberdade e Louca Obsessão, por exemplo) -, a obra se tornaria cultuada pela geração que cresceu nos anos 80, e que se acostumou com produções em que jovens quebravam a rotina indolente para viver algum tipo de aventura. Expediente desse tipo se repetiria em outros filme da Sessão da Tarde, casos de Curtindo a Vida Adoidado (1986), Os Goonies (1985) e mesmo produções menores, como a inesquecível Os Herois Não Tem Idade (1984). Talvez o sabor de nostalgia também tenha a ver com isso. Com o fato de que as produções ficaram "grandes" demais para uma análise mais íntima, mais direta e mais conectada com os anseios, desejos, medos e sonhos do pré-adolescente comum.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Tesouros Cinéfilos - Locke

De: Steven Knight. Com Tom Hardy, Olivia Colman, Andrew Scott, Ruth Wilson e Tom Holland. Drama, EUA / Reino Unido, 2013, 84 minutos. 
 
[ATENÇÃO: ESSE TEXTO POSSUI SPOILERS]

De clássicos como O Anjo Exterminador (1962), passando pelo suspense noventista Louca Obsessão (1990), até chegar a obras recentes, como o ótimo A Pele de Vênus (2013), não foram poucos os filmes que utilizaram como cenário um único local. Fosse por escolhas estéticas ou por limitações de orçamento - ou mesmo ainda por questões técnicas da narrativa -, o caso é que a sensação de confinamento, a persistência do "ambiente fechado" como parte do contexto, em muitos casos resulta em experiências sufocantes, tensas, daquelas que nos deixam nervosos. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que haja tantos thrillers que concentram suas histórias em espaços limitados. Situação que, convenientemente, busca ampliar a sensação de claustrofobia daqueles que acompanhamos. E, em partes, podemos afirmar que é exatamente isso que ocorre com Ivan Locke (Tom Hardy), o protagonista do curioso Locke - filme dirigido por Steven Knight, que está disponível na HBO Max.

O filme todo se passa dentro do carro de Locke, durante pouco mais de uma hora e vinte minutos, no final de uma noite. O sujeito é um operário experiente da construção civil - aliás, ele é o responsável por receber um grande carregamento de concreto que será entregue em uma obra de grandes proporções, no começo da manhã seguinte. Só que, no interior do veículo, ele deixa tudo para trás: pega a rodovia e parte na direção de um hospital. É lá que está a sua amante, que se prepara para entrar em trabalho de parto. De um filho seu. Na madrugada que se inicia, em meio ao movimento de vai e vem de carros, utiliza o telefone adaptado do painel do carro para (tentar) resolver todos os problemas de sua existência. O que envolve, entre outras decisões, revelar para sua esposa - e filhos -, o episódio isolado de traição, que resultou em uma paternidade não desejada. Ao mesmo tempo, conversa com colegas empreiteiros que tocarão a obra em sua ausência - o que também não é simples -, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como uma figura presente também para a pessoa com quem teve um relacionamento extraconjugal.


É um contexto complexo, difícil. Locke sai de uma ligação para outra e mais outra e mais outra, emendando uma conversa em outra conversa - e é quase inevitável constatar o fato de que, pouco a pouco, as coisas sairão do controle. Como metáfora óbvia, a própria construção da qual ele é responsável - um empreendimento majestoso, o maior da Europa, como ele mesmo faz questão de ressaltar mais de uma vez -, corre o risco de ruir se não estiver bem alicerçada. Assim como está "ruindo" a sua vida - e não deixa de ser comovente o esforço do protagonista em tentar manter todas as arestas bem aparadas, sem alterar o tom de voz, num desejo íntimo de jamais repetir aquilo que aconteceu com o seu próprio pai (que, aparentemente, abandonou a família após seu nascimento). Na estrada, a sensação de solidão asfixiante, se alterna com os barulhos de veículos da polícia, de ambulâncias, de pedágios e de outros elementos do tráfego, que surgem como forma de ecoar a própria balbúrdia interior vivida por Locke. O trânsito nunca parece excessivamente caótico. Mas ele eventualmente apresenta alguma barreira, alguma limitação, algo que gera dúvida sobre o "destino".

Hábil na construção do roteiro, o diretor Steven Knight jamais deixa a experiência derivar para o tédio. Mesmo quando um instante parece isolado ou meio em sentido, ele surge com razão de ser. É o caso por exemplo das sequências em que vemos os limpadores e para-brisas muito mais "bagunçando" a sua visão, do que clareando aquilo que ele enxerga. O mesmo valendo para as persistentes cenas das estradas vazias, que certamente reforçam, de forma metafórica, o estado de espírito de um sujeito que está colocando em risco não apenas o seu casamento, mas também o seu trabalho - e o seu "destino" como um todo. Carismático, o protagonista nos é apresentado como um homem que tenta manter o controle, mesmo em meio ao caos - condição reforçada pela voz monocórdica adotada, que sempre é precedida por gestos econômicos, discretos. Imersivo, tenso, é um daqueles filmes que a gente nem vê passar. E que, quando acaba, deixa um gostinho de quero mais. O que torna tudo ainda melhor.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Cine Baú - Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence)

De: John Cassavetes. Com Gena Rowlands, Peter Falk, Fred Draper e Katherine Cassavetes. Drama, EUA, 1974, 155 minutos.

"Ninguém quer ver uma mulher louca de meia idade". Uma das melhores histórias de bastidores da Hollywood dos anos 70 envolve justamente a obsessão do diretor John Cassavetes em tentar levantar fundos que possibilitassem o financiamento de Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence) - obra estrelada por Gena Rowlands e Peter Falk, que, hoje, é considerada um clássico. Em alguma medida, dado o contexto da época, até não era difícil compreender o receio dos produtores. Um filme sobre uma dona de casa - uma mulher contemporânea tão afetuosa e carismática, quanto instável e irritadiça - abalada do ponto de vista emocional, que entra em uma espiral de decadência também por conta do consumo excessivo de álcool, talvez não fosse realmente algo muito atrativo. Tudo isso em um contexto de guerras - tanto a Fria quanto a do Vietnã -, e de incertezas gerais em questões políticas, econômicas, sociais, culturais. Uma mulher "louca", de meia idade? Não, obrigado.

Mas Cassavetes persistiu. Mais do que isso, hipotecou a própria casa e pegou dinheiro emprestado de familiares e amigos - entre eles o próprios Peter Falk, que estrela a produção ao lado de Rowlands (que era esposa do diretor) - para conseguir levar à produção para a telona. Hoje, quando se olha para trás e se vê o sucesso de público e de crítica do projeto - com direito à indicações ao Oscar e prestígio em listas de melhores internacionais -, não se imagina toda essa turbulência por trás das câmeras. Quer dizer, turbulência talvez não seja a palavra certa e, sim, esforço. De todos da equipe. Que tornariam o drama doméstico de Cassavetes em um dos mais impactantes retratos da corrosão familiar decorrente da instabilidade emocional - e de como o foro íntimo pode ser muito mais complexo do que se imagina. Ao cabo, talvez a Mabel de Gena Rowlands não seja a vilã da história. Longe disso. Ela está muito mais para uma vítima: das circunstâncias, do patriarcado, de um sistema que a impede de ser um espírito livre, talvez como ela desejasse. É uma elaboração de personagem única.


 

Em uma das mais inesquecíveis sequências da obra, Nick (Falk), leva uma dezena de colegas de trabalho - ele é um operário da construção civil - para a sua casa, sem avisar Mabel de antemão. E isso depois de dar um "bolo" na esposa por precisar fazer hora extra, após o vazamento de um cano de um bairro da cidade (o que obriga o homem a trabalhar justamente no turno em que ambos haviam combinado de jantar juntos, a dois, já que os filhos iriam passar a noite na casa da mãe dela). Só que mesmo à contragosto, Mabel se mantém afável, faz espaguete para os homens, procura conversar com todos, mostra interesse pelas suas vidas. Elogia-os - pela aparência, pelos esforços. Mabel, com seu estilo caloroso, quase sedutor, parece impactar a todos ali. O que faz com que Nick se sinta desconfortável, iniciando uma série de pequenos conflitos, que evoluirão para outros comportamentos tidos como estranhos, povoados por ansiedades e nervosismos, e que "obrigarão" o homem a tomar uma atitude mais drástica.

Diferente do que ocorre em outros filmes sobre conflitos domésticos, aqui temos um diretor que utiliza os longos planos sequência, os diálogos cheios de detalhes importantes para a narrativa e as interpretações naturalistas e repletas de carisma como forma de fortalecer e dar densidade à experiência. Em muitos casos, as cenas podem ser até exaustivamente longas, intensas, com o ritmo se alternando entre a doçura inesperada e a fúria intempestiva (às vezes com uma chegando segundos depois da outra, como no caso da já citada sequências do jantar). Ainda assim, com mais de 2h30 de duração, o projeto jamais perde o rumo naquilo que se propõe: eviscerar as fraturas do tecido social e as angústias de uma mulher que precisa lidar com uma sociedade machista e castradora, com pendor para misoginia e que é incapaz de compreender seus interesses e desejos. Sim, pode ser simplista e talvez Mabel precisasse efetivamente de tratamento psiquiátrico - uma coisa não anula a outra. Mas Nick compreenderá a duras penas que sua mulher tão fragilizada emocionalmente talvez seja apenas um reflexo de um contexto maior, em que os papeis de gênero se confundem. O que se evidencia aqui é a vida real. Com suas frustrações, felicidade fragmentada, memórias afetivas quase simplistas e um desejo de libertação não se sabe bem de quê. Essencial.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Novidades em DVD/Now - Ford vs Ferrari (Ford vs Ferrari)

De: James Mangold. Com Matt Damon, Christian Bale, John Bernthal e Josh Lucas. Drama / Biografia, EUA, 2019, 153 minutos.

No começo dos anos 60, a empresa Ford se via numa espécie de encruzilhada: com a venda de seus "comportados" automóveis em baixa, precisava de alguma ideia inovadora que pudesse representar um upgrade que evitasse a falência que parecia se aproximar. Algo que desse visibilidade, que atraísse o público e que oxigenasse efetivamente a fabricante do Mustang e do Fiesta. Foi nessa época que um de seus executivos teve a ideia de levar a Ford para o universo do automobilismo, das corridas - que, na época, eram dominadas por uma certa Ferrari, que vinha de uma imponente sequência de vitórias em provas tradicionais do período, como as famosas 24 Horas de Le Mans. Tentar bater a escuderia capitaneada por Enzo Ferrari se tornou uma verdadeira obsessão para a segunda geração da família Ford. E é justamente essa a história, com todas as suas licenças poéticas, que é contada no ótimo Ford vs Ferrari (Ford vs Ferrari), mais recente película do diretor James Mangold (Johnny & June e Os Indomáveis).

Indicada ao Oscar na categoria máxima - acho que foi uma certa surpresa até pra equipe do filme -, a obra é uma mistura de história de superação com drama familiar, daquelas que costuma cair facilmente no gosto do espectador. Christian Bale é o mecânico metido a piloto Ken Miles, um sujeito meio esquentadinho que não hesitará em usar de certa violência (como na cena em que ele arremessa uma chave de boca na direção de outra personagem), para tentar provar seu ponto de vista. Já Matt Damon é o promissor piloto Carrol Shelby, que vê a sua carreira interrompida precocemente por conta de problemas cardíacos. Bom, serão essas duas figuras distintas que serão recrutadas por um grupo de gestores da Ford - entre eles o irritante playboyzinho Leo Beebe (Josh Lucas) -, para tentar dar essa repaginada na cara meio quadrada da Ford. Bom, não é preciso ser muuuito ligado para saber que serão justamente as diferenças de personalidade entre todos, somada as dificuldades gerais do projeto, que farão com que tenhamos, de fato, um filme. E um bom filme, diga-se.


Pra começo de conversa a história é toda muito bem costurada - e não é por acaso que o filme venceu a categoria Montagem no Oscar (em trabalho dos montadores Andrew Buckland e Michael McCusker). Tanto que mesmo que tenha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo - a aposentadoria de Shelby e o investimento em outra fonte de renda, s problemas financeiros e familiares de Miles, o dilema dos empresários da Ford e até a empáfia dos executivos da Ferrari -, tudo vai se intercalando de forma organizada, até chegarmos no estágio em que todos trabalharão juntos, no simples intuito de tornar a Ford uma vencedora de Le Mans. O que envolverá, claro, o descrédito de Miles pelo seu temperamento, uma série de disputas internas, alguma lamentação e muitas cenas legais de corrida, com direito a suor, lágrimas, sangue, carros desgastados, pistas perigosas e tudo o mais. É a obra completa - e fãs de filmes de "corrida" ficarão genuinamente extasiados. E mesmo este jornalista que vos tecla, que não gosta desse esporte, se viu envolvido!

Com ótimas interpretações - Christian Bale dispensa comentários, Matt Damon está ok e Jon Bernthal (o Shane de Walking Dead) finalmente não faz o "porra louca" -, a obra talvez só erre um pouquinho no tom ao vilanizar demais a Ferrari (seus executivos e pilotos sempre surgem em tela com cara de poucos amigos, nada amistosos, com aquele sangue nozóio meio exagerado). Mas ainda será uma obra que diverte, nos deixa apreensivos e ainda reserva uma pequena surpresinha para o final, que quebra um pouco a expectativa por trás do supostamente desejado "final feliz" para tornar tudo ainda maior. Sim, a gente sabe que a indicação ao Oscar foi um prêmio de consolação - houve ainda o prêmio para a Edição de Som -, mas James Mangold sabe conduzir bem uma história e o faz de forma correta, livre de amarras, trazendo personagens carismáticos, complexos e que nos faz gostar deles não por sua ética simplesmente inabalável, mas por eles serem apenas... humanos (que erram, acertam e tentam de novo). E se eu pudesse mudar só uma coisinha eu tiraria aquela ceninha mequetrefe da "briga" entre os protagonistas. É completamente deslocada e tenta fazer humor onde não parece existir graça. Mas é um deslize que, de forma alguma compromete!

Nota: 8,0