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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Obsessão (Obsession)

De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.

Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.

Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.

 


E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo. 

Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.

 

 

E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose  (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.

Nota: 6,0 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Cinema - Obsessão (Greta)

De Neil Jordan. Com Isabelle Hupert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe e Stephen Rea. Suspense, EUA / Irlanda, 2018, 96 minutos.

Histórias de stalkers que perseguem suas vítimas levando-as à exaustão física e psicológica não chegam a ser exatamente uma novidade no cinema. De pequenos clássicos modernos como Atração Fatal (1987) e Louca Obsessão (1990), passando ainda por alternativos como O Talentoso Ripley (1999) não foram poucas as vezes em que acompanhamos personagens com algum tipo de trauma, que as levam a se tornar obcecadas por outras pessoas, seus comportamentos ou estilos de vida. Para nós, espectadores, obras desse subgênero também parecem ser capazes de nos levar a algum tipo de catarse em que se sobressai um tipo de suspense muito mais psicológico do que aquele que apela para os sustos mais "fáceis". Não é diferente com o recém-chegado Obsessão (Greta), mais recente trabalho do diretor Neil Jordan (do surpreendente Traídos Pelo Desejo) e que representa a entrada da veterana Isabelle Hupert no universo dos perseguidores psicologicamente alterados.

O filme começa com cenas prosaicas da vida da jovem Frances (Chloë Grace Moretz), que trabalha como garçonete em um luxuoso restaurante de Nova York e divide um apartamento com a amiga Erica (Maika Monroe). Em um certo dia, voltando do trabalho, Frances se depara com uma bolsa que está perdida em um banco do metrô. Ao recolher o acessório e identificar a sua dona, após a verificação dos documentos, ela vai até o endereço para a entrega do objeto. No local lhe atende uma simpática senhora de nome Greta (Isabelle Hupert), que lhe oferece uma xícara de chá em agradecimento. Tudo corre relativamente bem: Greta é viúva, tem uma filha que não mora com ela, gosta de tocar pequenas árias ao piano... e se torna uma amiga involuntária de Frances, convidando-a outras vezes para a sua casa, para visitas ou mesmo para jantar.


Em um desses jantares, Frances faz uma descoberta dentro de um armário da casa de Greta, que lhe faz perceber que a bolsa "perdida", não passava de um estratagema para atrair pessoas para perto de si. De preferência jovens garotas que atendessem a um certo perfil, que tivessem perdido a mãe ou que tivessem dificuldades de relacionamento com os familiares. É quando Frances assustada tenta se afastar da mulher de todas as formas, que o seu calvário começa: ligações e mais ligações em seu celular, mensagens na secretária eletrônica, uma conversa sobre a necessidade de serem amigas como forma de substituir outras pessoas que não estão mais em suas vidas, aparições em lugares inadequados (em frente ao seu trabalho, no corredor do prédio em que mora)... enfim, Greta passa a transformar a vida de Frances em um inferno. E ao chamar à polícia, a jovem enfrenta a burocracia de um sistema de segurança que não lhe ouve e, pior: não vê crime na "mera perseguição".

Ainda que não traga alguma novidade no que diz respeito ao gênero, Neil Jordan entrega uma obra correta, com boa atmosfera, excelente trilha sonora e detalhes que tornam agradável a experiência. Da vizinhança decrépita de Greta (ponto pro criativo desenho de produção), às pequenas nuances do olhar ou da inflexão de voz que alteram o comportamento de Isabelle de "velhinha querida" para "demonho em pessoa", a película tem na presença da premiadíssima veterana uma de suas atrações - e talvez o filme nem funcionasse tanto, se não fosse a presença magnética da atriz, que encarna com naturalidade a maluca que ataca violentamente a sua vítima, enquanto dança ensandecidamente ao som de Chopin. Com uma pequena reviravolta nem tão surpreendente no final, a obra tem estrutura convencional, mas cumpre seu papel, com um suspense crescente e uma permanente sensação de que algo está prestes a sair do controle. O que em filmes sobre stalkers, é tudo o que precisamos.

Nota: 7,5