"Pode acreditar / Nem tudo é deserto / Depois da noite escura / Outro dia vai nascer / E quando acontecer / O sol brilhará". A janela abriu e o sol entrou. E tudo está mais aquecido, vivo. E não é que Fenda (2019), a estreia em disco da cantora paulista Rita Oliva, a Papisa, fosse excessivamente melancólico ou sombrio. Talvez ele fosse mais íntimo, com uma sonoridade mais densa, que unia misticismo e introspecção - aliás, a própria capa já entregava esse componente mais ritualístico (nas vestes, nas cores, nos adereços e maquiagens). Só que tudo isso foi há cinco anos, antes da covid-19 e de uma inesperada interrupção de tudo aquilo que estava programado. "Fiquei em um momento de luto pela pandemia – pelo mundo inteiro, pela música que tinha parado. Depois disso, percebi que eu queria realmente a música como um recurso para trazer encantamento para a vida, trazer sol, e foi essa a minha busca", explicou a artista em entrevista ao Scream Yell, a respeito de Amor Delírio, o recém-chegado segundo registro.
E esse aspecto mais ensolarado pode ser percebido não apenas na sonoridade das faixas que, aqui e ali, mesclam psicodelia moderna com o dream pop noventista, mas também nas letras, mais otimistas, com um maior destaque para a voz, que forma um conjunto harmonioso no todo - o que pode ser constatado em canções como Vai Passar (do trecho que abre essa pequena resenha) que, a despeito de certa melancolia nos arranjos, possui versos otimistas sobre volta por cima. Já no indie rockDores no Varal - música sobre a transitoriedade do amor que, por mais intenso que seja, pode resultar em dor -, o sol que raia reaparece formando o cenário para uma alegoria óbvia a respeito do renascimento e do aspecto cíclico das paixões (Eu plantei flores no quintal / Amores no verão / Dores virarão / Roupas no varal). Mais expansivo, com mais elementos, instrumentos e efeitos eletrônicos - o que pode ser observado em outros instantes, como na movimentada Melhor Assim e na oitentista Corte -, esse é um álbum mais complexo, e que tem produção de Felipe Puperi, do coletivo Tagua Tagua. Vale conferir.
De: Céline Devaux. Com Blanche Gardin, Laurent Lafitte e Nuno Lopes. Comédia / Drama, França / Portugal, 2022, 97 minutos.
Vamos combinar que com Todo Mundo Ama Jeanne (Tout Le Monde Aime Jeanne) talvez tenhamos atingido o auge do carisma quando o assunto são as "vozes na cabeça". Sim, todo mundo possui aquele pensamento meio intrusivo que nos invade em diversos momentos do nosso dia. Só que as criaturas animadas que acompanham Jeanne (Blanche Gardin) são absolutamente zombeteiras, debochadas, irônicas. A ponto de tirar sarro dela quando ela resolve simplesmente fumar, após um momento de estresse. "Câncer, enfisema, câncer, enfisema" cantam de forma enternecedora - com uma voz quase infantilizada - esses pequenos trolls do inconsciente. Aliás, como se já não bastasse se sentir humilhada por uma série de fatores mundanos - o mais recente envolvendo a perda da reputação no trabalho, após um projeto científico que visava a coleta de partículas de plástico do oceano sair totalmente errado -, ela ainda precisa lidar com a irreverência desses demônios interiores.
Estreia em longas da diretora Céline Devaux, essa é uma obra carismática, que diverte sem nenhum esforço - ainda que, aqui e ali, aborde também assuntos mais sérios e que envolvem desde a necessidade de lidar com as próprias inseguranças, até a superação do luto. Jeanne é uma figura arrogante, presunçosa, que poderia ser situada como aquele tipo de progressita acadêmica - que se sente moralmente acima a alguém porque, simplesmente, trabalha em projetos ambientais. Seu ar é superior, seu nariz está sempre empinado, os sapatos de salto ecoam pelas ruas - no seu íntimo talvez haja um problema de autoestima que grita, e que é justamente evidenciado pelos pensamentos intrusivos. Depois que a engenhoca para coleta de fragmentos de entulho marítimo não vinga, ela viraliza em um vídeo patético em que mergulha no mar para tentar salvar o equipamento. Pior do que isso, sem credibilidade, o único caminho para não falir totalmente (e até ser presa por dívidas com o Estado), talvez seja vender o antigo apartamento da mãe, que fica em Lisboa.
E será retornando à Portugal que a gente perceberá, aos poucos, que parte dos traumas tem - novidade! -, justamente a ver com a relação complexa com a sua genitora. Uma pessoa amarga, que se suicidou fazendo recair a culpa sobre Jeanne, e que sempre lhe julgava - seu comportamento, hábitos, peso corporal. O que faria a protagonista desenvolver uma série de inseguranças - e que respingaria na conturbada relação com os homens. Sempre desconfiada, amedrontada, distante. No aeroporto, aguardando o voo para a capital portuguesa, ela conhece o carismático Jean (Laurent Lafitte), um cleptomaníaco charmoso, que se aproxima em meio a recordações de tempos distantes. "Fomos colegas na French High School, de Lisboa, você é a garota que todos amavam, que todos desejavam", comenta o rapaz. Entre a ansiedade e o meio caminho para a depressão, Jeanne suporta o deboche dos amigos imaginários que habitam seu cérebro. Mais adiante ela pesquisa no Google "cachorros grandes sendo afetuosos com bebês". É a sua forma de sair daquele contexto meio insuportável, que ela recém adentra.
Ágil, a comédia não perde tempo em longas divagações de seus personagens. As tensões, culpas e medos interiores que Jeanne sente, são abraçados a cada olhar cínico, a cada pensamento sarcástico, a cada palavra em tom de chacota que, claramente, ela usa como uma espécie de mecanismo de defesa. Em terras portuguesas, ela encontra um ex-namorado (ou peguete mesmo) de nome Vitor (Nuno Lopes) que, forçando a barra no estereótipo do esquerdomacho, saca um violão para tocar uma música meio insuportável após o sexo. As vozes na cabeça gritam. E ela fica confusa entre Vitor e Jean ou o que quer que seja. Em entrevista à Mubi, a diretora, que também é roteirista e ilustradora, explicou que a ideia do filme partiu daquilo que era uma espécie de diário ficcional. "Eu criei essa super-heroína ecológica, que afirmava a si mesmo que esse era o trabalho mais útil do mundo e que ela não poderia falhar nele", afirmou. Só que somos seres humanos. E somos falhos, evidentemente. Ao escancarar de forma tão criativa e sincera suas reflexões, Devaux estabelece um vínculo irresistível com o espectador. É delicioso e está disponível na Mubi.
De: George Cukor. Com Ingrid Bergman, Charles Boyer e Joseph Cotten. Suspense / Drama, EUA, 1944, 114 minutos.
Luzes que parecem piscar dentro de casa, objetos que desaparecem dos cômodos, barulhos que se originam no sótão, sensação de estar sendo vigiada o tempo todo. Todas as sensações experimentadas pela personagem Paula (Ingrid Bergman), no clássico de 1944 À Meia-Luz (Gaslight), e que decorrem do fato de que ela é vítima de manipulação psicológica sistemática, serviriam de base para que, anos depois, especialistas nomeassem esse tipo de abuso - que distorce a realidade e faz com que as pessoas pensem estar enlouquecendo - com o termo que é título original do filme dirigido por George Cukor. Passada no final do século 19, a obra começa com o assassinato misterioso da mundialmente famosa cantora de ópera Alice Alquist, que residia com Paula, sua sobrinha, em uma ampla mansão em Londres. A jovem é enviada à Itália para tentar seguir seus passos como cantora lírica, mas sem muito sucesso - num salto temporal de quase dez anos.
É nesse contexto que ela conhece um certo Gregory Anton (Charles Boyer), que a pede em casamento algumas semanas depois de iniciarem o relacionamento. E qual o local eles escolhem para seguir as suas vidas? A antiga casa da falecida tia, claro, um ambiente fechado, amplo, mas claustrofóbico, com suas escadarias vertiginosas, portas que darão para ambientes "secretos" e móveis que guardam documentos que podem ser reveladores do passado - como no caso de uma antiga carta, escrita por um suposto fã de Alice, apenas dois dias antes de sua morte. É tudo saborosamente misterioso, com a tensão subindo conforme os dias passam, especialmente quando Gregory passa a isolar Paula na casa. Impossibilitada de sair, a jovem passa a conviver apenas com as empregadas. E com os eventos estranhos que, aqui e ali, se ampliarão, fazendo com que ela passe a questionar sua própria sanidade.
Como forma de sepultar o passado, Gregory sugere colocar o antigo mobiliário da tia no sótão - e não demorará para que a protagonista tenha a impressão de ouvir passos vindos do forro. A luz, ligada a gás, sobe e desce a todo momento. Mas ela não está sozinha no ambiente? Em um dos tantos instantes perturbadores, Paula é acusada por Gregory de ter escondido um quadro - uma pintura - justamente em uma noite em que eles pretendiam sair para uma ida ao teatro. Aliás, as poucas saídas de casa são tensas, com o sujeito desdenhando da própria esposa, e até a humilhando em frente as demais pessoas. "Eu peço perdão, ela está muito doente", alega o chantagista para um grupo de pessoas durante uma festa organizada por um ricaço, quando do desaparecimento de um relógio. Como manipulação emocional pouca é bobagem, Paula passa a acreditar que é cleptomaníaca, que tá ficando doida, que enxerga pessoas que não existem, que escuta sons inexistentes.
Lá pelas tantas, um investigador da Scotland Yard de nome Brian Cameron (Joseph Cotten) percebe o comportamento um tanto ansioso da mulher - ele nota a semelhança dela com sua tia, de quem era admirador. Será a deixa para que o inspetor mexa os pauzinhos para desarquivar o processo de assassinato, que nunca foi solucionado. Tudo é conduzido com elegância e tensão: enquanto Paula mergulha em uma comovente espiral de decadência que é fruto do mais puro abuso emocional, Cameron se aproxima da verdade que envolve o passado obscuro de Gregory. Com uma performance angustiante, daquelas de despedaçar o espectador, Ingrid Bergman venceria o Oscar na categoria Melhor Atriz, na cerimônia de 1945. A obra, que teve inúmeras adaptações para o teatro e para o cinema, receberia outras nominações à premiação máxima do cinema, figurando ainda em uma série de listas de melhores de todos os tempos. Como no caso dos 100 Suspenses fundamentais do American Film Institute (em um honroso 78º lugar). É uma produção que completa 80 anos de lançamento. E que vale resgatar.
"Meu amor / Sou teu companheiro / Pra subir montanhas / E atravessar o mar", "Se tudo mudou / Já não tem mais jeito de voltar / Mas todo movimento é circular", "Toda brincadeira tem um fundo de verdade / O amor me traiu / E me deu o mundo / Me pariu uma gruta, me plantou um vazio". Pode até não haver um conceito definido em O Futuro Já Está Acontecendo, o quarto e mais recente trabalho da adorada Banda Mais Bonita da Cidade. Mas não dá pra negar que quando a gente observa as frases acima, que se espalham em meio as oito canções do disco, não dá pra negar que parece haver uma certa lógica, uma organização. Claro, com quinze anos de estrada, o quinteto de Curitiba já passou por muitas coisas em suas vidas - experiências traumáticas ou não, desafios, anseios, conquistas. E a maturidade parece também aparecer em cada curva do registro, com suas composições sólidas, menos apressadas e que parecem ir na contramão desse mundo tão acelerado que vivemos.
"Acho que é um reflexo de como a gente tem sentido a vida mesmo, de como esses temas são sincronizados espontaneamente com nossos processos pessoais", explicou a vocalista Uyara Torrente em entrevista ao site Marramaque, a respeito da escolha do repertório - e das letras que combinam simplicidade com uma verve mais filosófica, de reflexão sobre o mundo, suas idas e vindas, movimentos de retorno, de chegadas e de partidas. Claro que, num comparativo com o início da carreira, em que sucessos como o clássico moderno Oração pareciam reflexo de tempos mais simples - e talvez fossem mesmo -, as composições feitas por um time de colaboradores podem soar um pouco mais herméticas, daquelas que não pegam de primeira. Ainda assim, os elementos que fazem com que o grupo seja seguido pelos devotos fãs seguem intactos - e basta ouvir uma canção como Promissões para, num encontro entre a doçura e a aspereza, entre os arranjos elegantes e o vocal dramaticamente limpo, percebermos uma coesão natural de influências e sonoridades.
De: Richard Linklater. Com Glen Powell, Adria Arjona e Austin Amelio. Ação / Comédia, EUA, 2023, 115 minutos.
"As pessoas se desapontam em saber que matadores de aluguel não existem. A ideia de que há sujeitos no varejo que são contratados para assassinar alguém é coisa da cultura pop." Vamos combinar que uma das partes mais divertidas de Assassino por Acaso (Hit Man) é justamente essa subversão da lógica do que poderia ser uma produção do gênero. Sim, porque quando o filme inspirado em eventos reais inicia, temos a impressão de estarmos diante de algo meio genérico, bem naquele estilo de comédia de ação sobre o sujeito desengonçado que, do dia para a noite, se vê inesperadamente em uma posição que não é a dele. Ok, de alguma maneira isso até ocorre em partes, já que o protagonista Gary Johnson (Glen Powell) é um mero professor de Psicologia e Filosofia em Nova Orleans que, para complementar a renda, trabalha para uma delegacia de polícia instalando microfones e câmeras na intenção de identificar bandidos em potencial.
Em meio a longas divagações com seus alunos universitários - sobre temas que, aliás, tem a ver com a trama, como no instante em que o professor debate com a turma as diferenças do Superego e o Id (o primeiro sendo a consciência, que nos recompensa pelo bom comportamento e pela adesão às normas sociais e o segundo sendo os impulsos mais primitivos, os desejos baseados na busca do prazer sem levar em conta as consequências) -, o protagonista recebe um convite inusitado em um dia de trabalho na delegacia: o de substituir o colega Jasper (Austin Amelio), que foi suspenso por agredir um grupo de adolescentes, em meio a uma abordagem desastrada. Sim, Gary, com seu cabelo ajeitadinho para o lado, óculos de nerd e rosto de bom moço não parece ser o cara ideal para confrontar pessoas que pretendem contratá-lo como assassino profissional (claro, tudo parte de um estratagema para incriminar essas pessoas, que parecem dispostas a levar um crime a cabo, mas desde que não sujem as mãos).
Só que é nessa hora que entram as verdadeiras habilidades sociais de Gary. Como professor da área de humanas, ele é capaz de forjar uma persona diferente para cada uma de suas vítimas - o que envolve certa pesquisa prévia de personalidade. Tendo, aliás, um resultado muito efetivo na hora de incriminar os mandantes. Tudo vai mais ou menos bem até a hora em que ele é chamado para um encontro com uma jovem mulher de nome Madison (Adria Arjona), que alega sofrer violência doméstica do seu marido, que lhe impede de sair de casa, de viver. Adotando a persona que leva o nome de Ron, um homem sedutor, de modos seguros, fala firme e fã de cachorros, Gary oriente a jovem a abandonar a ideia da encomenda da morte do próprio marido. Mais do que isso, lhe recomenda usar o dinheiro que investiria nisso para sair da cidade e iniciar uma nova vida. Madison aceita a sugestão, só que Gary/Ron se apaixona. E, bom, haverá um novo encontro futuro e, assim, a coisa vai se desenrolar.
Em linhas gerais essa é uma experiência divertida e que mais uma vez evidencia a versatilidade do diretor Richard Linklater - de Antes do Amanhecer (1995) e Boyhood: Da Infância à Juventude (2014) -, que parece usar a trama como um veículo ideal para que Powell, um dos queridinhos do momento em Hollywood, utilize todo o seu carisma para se transformar em quase uma dezena de figuras distintas, bem de acordo com seus contratantes. Em um ótimo momento, ele vai ao encontro de um homem que parece o estereótipo do extremista de direita - um patriota, fã de armas e que tem saudade da América do passado -, se transformando para isso em um sulista meio caipira, que pode ser a isca ideal. Tudo para ganhar a confiança do "freguês". Sobre Madison, ela e Gary viverão altos e baixos, especialmente quando o ex-marido dela entrar na jogada, tentando também contratá-lo pra dar cabo da ex. As reviravoltas tem seu charme e a química do casal central funciona - ainda que algumas decisões gerem estranhamento. Mas quando pensamos no Superego e no Id não podemos esquecer que lá no meio há o Ego: e é ele que faz a ponte entre o instinto e a lógica, entre a lei e a ausência de lei. "Maximizar o prazer e minimizar os custos". É a lição que fica.
"A maneira como eu olho pra música - especialmente a música urbana, das pessoas negras ou como queira chamar - é que estamos todos no zoológico e os ouvintes são as pessoas fora da gaiola". Quem acompanha a carreira do rapperVince Staples sabe que, em meio a momentos mais introspectivos (Summertime '06), dançantes (Big Fish Theory), furiosos (FM!) ou resignados (Ramona Park Broke My Heart), sua produção sempre foi marcada por uma crueza que não romantiza os seus temas. Em mais de uma entrevista - como no caso da citação que abre esse textinho, em conversa com a Pitchfork -, ele mencionou haver alguma desconexão entre certos artistas e quem os consome, especialmente na ânsia de dar um polimento, um certo brilho glamourizante aos problemas da periferia, numa espécie de glorificação do rap (o que se vê muito nos videoclipes, por exemplo). Violência policial, racismo estrutural, tráfico de drogas e crise da masculinidade são assuntos que, aqui e ali, surgem sempre pontuados por um estilo minimalista, sem floreios, com batidas no limite da monotonia, efeitos econômicos e um vocal muito mais falado do que gritado.
Sim, Staples pode ser engraçado nas redes sociais ou totalmente debochado nas entrevistas, que sempre levam os jornalistas à loucura - uma das melhores histórias é ele falando pra um profissional que o disco Big Fish Theory era afrofuturista, só pra depois ir ao Twitter pra afirmar que "gosta de dizer bobagens sobre pessoas negras, para pessoas brancas". Só que quando o assunto é os seus álbuns há uma propensão à levar a coisa mais sério, tanto que o ouvinte desavisado pode se surpreender com a sofisticação crua, as melodias envolventes e a oratória casual e quase desinteressada, com que fluem registros como este Dark Times, o sexto da carreira. A música tem uma turbulência realista, sem maquiagem, com menos palavras ditas por centímetro quadrado, mas muito impacto. Ao cabo, como se já não bastassem esses méritos, ainda é um disco simplesmente bom de ouvir. Agradável, fluído, com refrãos diretos, como no caso da ótima Étouffée e da e tensa Government Cheese (Don't forget to smile, diz o refrão). Aqui e ali, há espaço pra guitarrinhas litorâneas, como nas enevoadas Radio,Shame on the Devil e Children's Song. O que também evidencia a abertura para novos caminhos nas melodias. É um dos melhores do ano.
De: Stanley Kubrick. Com Nicole Kidman, Tom Cruise, Sydney Pollack e Todd Field. Drama / Suspense, EUA / Reino Unido, 1999, 159 minutos.
Pode ter sido apenas uma coincidência, mas o ano de 1999 foi não apenas pródigo em gerar grandes filmes, mas meio que premonitório na hora de levar as tensões da virada do milênio para a telona. Eram tempos de incerteza que levariam Hollywood a investir em obras que jogavam luz em temas diversos, como, avanços tecnológicos (Matrix), corrupção corporativa (O Informante), a hipocrisia e a decadência da sociedade (Beleza Americana), sentimento de vazio na modernidade (Clube da Luta) e até o simples medo da morte (O Sexto Sentido), que pareciam assombrar a população que aguardava os anos 2000 como uma espécie de ponto de ruptura - que, alegoricamente, poderia ser simbolizado pelas tenebrosas perspectivas frente ao Bug do Milênio. Sim, e olhando os títulos que foram exibidos naquele ano, também chamaria a atenção a qualidade das produções. Uma melhor do que a outra, cada uma em seu segmento.
E talvez não seja por acaso o fato de o contexto daquela época ter fornecido a matéria-prima ideal para tantos artigos de imprensa, estudos e outros documentos que apontariam aquele período como um ponto de ruptura para o cinema - resultado do encontro entre os estúdios e sua voluptuosa quantia de dinheiro e uma diversidade de cineastas independentes (ou não), com visão. "O ano mais indisciplinado, influente e impenitentemente prazeroso de todos os tempos, em termos de filmes", como resumiria o jornalista cultural Brian Raftery. E vamos combinar que não deixa de ser uma grande ironia datar de 1999 justamente a última obra de Stanley Kubrick. Era o aguardado retorno após dez anos de hiato, mas o diretor viria a falecer alguns dias antes da conclusão de De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), produção baseada no livro Breve Romance do Sonho, de Arthur Schnitzler. Foi-se o realizador. Ficou o clássico moderno.
Aliás, mais um escárnio perceber como esta é também uma obra representativa das tensões da virada do século. No centro da trama densamente conduzida, acompanhamos o esfacelamento de um casamento burguês, após uma noite de festa em que uma série de acontecimentos parecem burlar alguns limites éticos de um matrimônio. Tudo embalado em uma narrativa hipnótica de paranoia, de conspiração e de segredos guardados a sete chaves por uma parte da classe endinheirada, hipócrita, e, em alguma medida, hedonista, ainda que provavelmente insegura diante das mudanças vindouras. E, vamos combinar que não deixa de ser interessante ver um casal que estava junto na vida real - no caso Nicole Kidman e Tom Cruise que, por sinal, se separaria apenas dois anos depois -, em uma série de diálogos honestos sobre desejos não realizados, vontades sexuais nunca concretizadas ou impulsos primitivos apenas imaginados.
Em alguma medida esse é um filme relativamente simples - ainda mais diante da magnitude de outras obras de Kubrick -, ainda que absolutamente envolvente, que flui sem pressa, em sua medida de tempo, quase em câmera lenta, e que parte de um pequeno instante de surto do médico Bill Harford (Cruise), que fica perplexo quando a sua estonteante esposa, a curadora de arte Alice (Kidman), lhe revela o fato de, por muito pouco, não ter abandonado a ele e sua filha pequena para viver um grande amor, após ter conhecido um oficial da marinha, no passado. Ao mesmo tempo que estas imagens retornam à sua cabeça e lhe atormentam, Bill se vê obrigado a sair de casa para um atendimento à família de um paciente que vêm a óbito. Tendo início uma longa e fervilhante madrugada em que o protagonista salta de um local a outro, chegando a um pub em que um antigo (e discreto) colega, de nome Nick (o diretor Todd Field) toca piano em uma banda de jazz.
Nick fará a ponte para que Bill chegue até uma grande mansão fora da cidade de Nova York, onde um grupo de pessoas mascaradas participa de orgias sexuais, de jogos sensuais e de fantasias eróticas. Bill está lá em segredo, mas não demorará para que ele seja, com o perdão do trocadilho, desmascarado, dando início a uma história de perseguição - especialmente após uma jovem mulher lhe revelar que ele está em perigo. Sexy e misterioso, animalesco e sacro, inquietante e onírico, ousado e complexo, esse é um projeto que debate, nas suas entrelinhas, uma série de tabus sexuais e de fetiches excêntricos que surgem, aqui e ali, como alegorias que quebram certa lógica estabelecida pelos códigos morais de vida em sociedade, com seu recato hediondo, luzes de Natal solenes e realidades encobertas. Um filme que suscita ainda uma série de discussões, seja por conta dos cenários, dos figurinos, das obras de arte ou da trilha sonora - todos elementos que parecem esconder informações a mais, fazendo inclusive a festa dos conspiracionistas. O ocaso de Kubrick não poderia ser melhor. Ajudando a consolidar a passagem de 1999 para 2000 como uma época complexa, vibrante e incerta, que anteciparia uma série de temores decorrentes do mal-estar generalizado que habita a pós-modernidade.
A trilha multicolorida que sai da caixa de som, passa pelos ouvidos de Alfie Templeman e se espalha pelas paredes do ambiente que ilustra a capa de Radiosoul, terceiro registro de inéditas do artista inglês, parece dar a dica: estamos diante de um disco ensolarado, vívido. E basta a primeira audição do registro para que essa impressão mais, digamos, semiótica do projeto gráfico, seja confirmada. Com apenas 21 anos, o compositor chegou com força durante a pandemia e, mesmo em tempos sombrios como os de covid, conseguiu entregar registros de essência festiva, como no caso do ótimo Mellow Moon que, não por acaso, foi o nosso décimo terceiro preferido de 2022. Apostando novamente na mistura de art pop, com rock psicodélico, funk, algumas doses de R&B e disco music, Templeman amplia o caráter maximalista de sua obra, tornando tudo ainda mais enérgico e cativante.
Nesse sentido, é simplesmente impossível ficar alheio a canções como o single Eyes Wide Shut, com seu refrão grudento, pegajoso, que parece algo que o Scissor Scisters faria, da forma mais descarada possível, no começo do milênio. Já a magnética Just a Dance, tem participação de Nile Rogers em pessoa - as inspirações do Chic, diga-se, se espalham a cada curva do trabalho -, em uma música de melodia primaveril e letra simples. Não significa que não haja momentos mais sombrios ou turbulentos - e não por acaso, assuntos como esgotamento mental (Eyes Wide Shut), solidão (Hello Lonely) e problemas relacionados à fama repentina (Vultures) surgem aqui e ali, entre uma música de amor e outra (como no caso da ótima Submarine, feita para a namorada). Ainda assim, o artista explicou no material de divulgação que este é um "registro de verão, que tem a energia espontânea que vem de estar no sol". A gente concorda!