segunda-feira, 31 de julho de 2023

Livro do Mês - Solitária (Eliana Alves Cruz)

Quartinho da empregada. Esse tipo de espaço que alude a um Brasil pós-abolicionismo e que funcionou por muito tempo como um cômodo reservado aos trabalhadores domésticos - em muitos casos posicionado em um ambiente apartado da "casa grande" ou dos locais de circulação da família - é um dos principais cenários do ótimo Solitária, obra mais recente da escritora Eliana Alves Cruz. Ainda assim, por mais que o título sugira, este é um livro que narra, à sua maneira, uma história de libertação. De luta para se livrar dos grilhões em um País que ainda parece experimentar um orgulho mesquinho relacionado à classe social. A senzala atual, afinal, é simbolizada por aquele cômodo pequeno, precário, naturalmente distante, isolado. É nesse cubículo mal iluminado, sem janelas, que vivem Eunice e sua filha, Mabel.

Essa "solitária" improvisada dá na cozinha, junto à lavanderia do apartamento gigante de dona Lúcia, a patroa que, ao lado do marido Tiago, tenta conferir certo ar de normalidade àquela rotina de segregação. Em um microcosmo em que Eunice atua numa espécie de invisibilidade constante - lavando, passando, cuidando da filha da patroa em uma rotina excruciante e permanente -, o que se tem nesse condomínio é a metáfora arquitetônica perfeita de um Brasil de retrocessos. No entorno de Eunice, uma série de outros serviçais fazem o conjunto funcionar à contento das elites - do carismático e abnegado porteiro Jurandir, passando pela auxiliar de enfermagem dona Hilda, até chegar ao eletricista Marcolino, todos ali coabitam em um universo de distinções em que tecem suas redes de sociabilidade, com os empregados preservando a solidariedade e o apoio coletivo como forma de não sucumbir a esse controle.



Só que esse tecido tão bem estruturado - ao menos nas aparências - começará a ruir quando um crime horrendo ocorre: a morte de uma criança que, de forma inexplicável, cai de um dos andares mais altos. Um lapso cotidiano, que poderia passar batido? Talvez, se não fosse o fato de que o caso ocorre justamente no apartamento de dona Eunice. Entrelaçando histórias, Eliana separa o livro em dois longos capítulos, que são narrados de acordo com as percepções e memórias de Eunice e de Mabel, com cada uma das histórias, ainda que parecidas, sendo percebidas de maneira distinta. "Mãe, a senhora precisa se libertar dessas pessoas", implora a filha que, já na fase adulta, adquirirá uma consciência que extrapolará os limites do condomínio de luxo. Como estudante cotista que pôde chegar a um curso de Medicina, Mabel será o balizador para a quebra dessa estrutura tão enraizada do racismo sistemático.

Com uma prosa ágil, intensa, fluída e assertiva, a autora nos convida a uma série de reflexões sobre esses contrastes ainda vivos em um País que mal recolhe os cacos de um governo de extrema direita. Olhando com resignação para o passado, Eunice é a força em combustão que ensinará Mabel e não se dobrar para esse sistema. O que fará com que a jovem compreenda a lição e olhe com audácia para o futuro o que, num movimento inverso, também poderá mobilizar a própria mãe. Com perspicácia, Eliana entrelaça as histórias para revolver o imaginário do trabalho doméstico no Brasil, ainda tão apegado ao seu passado escravocrata, fazendo nos lembrar o tempo todo de que há pressa: o amanhã é para ontem. Questões urgentes como a pandemia, o debate sobre ações alternativas e a luta por direitos reprodutivos acentuam o sabor contemporâneo da trama. Como diz a orelha da publicação, Solitária dá provas do quão incontornável se tornou reelaborar não apenas a história, mas as sobrevidas do Brasil colonial. "E ao fazê-lo mostra como é possível enfrentar o desafio moral e ético de abordar essas experiências de vida sem replicar gratuitamente a violência que as sustenta, nem reencarnar um pacto oculto de subalternidade. [...] Um romance de libertação".

Novidades em Streaming - Regra 34

De: Julia Murat. Com Sol Miranda, Lorena Comparato, Lucas Andrade, MC Carol e Babu Santana. Drama, Brasil, 2022, 99 minutos.

Regra 34 é o tipo de filme que te faz pensar sobre uma infinidade de temas. Questões de gênero, violência contra a mulher, racismo, patriarcado, fetiches sexuais e os limites para o uso da internet, além do aparato jurídico em meio a tudo isso. E se, por um lado, esta diversidade é satisfatória por fazer ecoar, nem que seja minimamente, cada um desses assuntos, por outro, os eventuais excessos podem, aqui e ali, diluir a importância (e a relevância) de certos debates. E em tempos em que as pessoas têm dificuldade em focar há sempre o risco dos discursos mais prolixos serem mal compreendidos ou mesmo percebidos como mera militância ou, como gostam de dizer alguns, lacração (sim, essa palavrinha). Por quê, vamos combinar que pensar dá trabalho e, em uma uma obra mais didática, que adota uma retórica quase acadêmica, o conjunto pode soar presunçoso. Ou esquemático. Quase com um "olha aqui, estamos falando disso aqui, perceberam?".

Isso significa que é um filme hermético ou de difícil digestão? Jamais. Quer dizer, talvez em partes, já que, pesquisando em fóruns da internet percebi que os "cidadãos de bem" ficaram relativamente chocados com o que eles consideraram exposições desnecessárias - de corpos e de ideias. Mas na produção de Julia Murat (de Pendular, 2016), o corpo é essencialmente político - ao cabo, ele é um instrumento que permeia todas as temáticas. E tudo isso estabelece diálogo com a protagonista Simone (Sol Miranda), uma jovem que acaba de se formar em Direito e que passa boa parte dos seus dias em uma espécie de estágio supervisionado, que lhe tornará defensora pública. Nos momentos em que não está discutindo juridiquês em sala de aula, Simone atua como camgirl onde exibe o corpo para um público que, do outro lado, lhe envia dinheiro para que ela se masturbe ou conceda outras recompensas.


Nesse sentido, uma das melhores discussões emerge justamente desses universos contrastantes experimentados por Simone. Se por um lado, ela estuda para, entre outros, prestar atendimento jurídico à mulheres que sofrem todo o tipo de violência - não necessariamente apenas física, mas psicológica, financeira e outras -, por outro ela mesmo avança para o campo do fetichismo sexual, aceitando pagamentos para sessões de asfixiofilia (uma prática perigosa, que ela insiste em testar), de agressões consentidas e de outras violências, como cortes na pele. Tomando por base a Regra 34 - uma máxima da internet que afirma que a pornografia online existe em todos os tópicos concebíveis - a diretora nos convida a refletir sobre esses temas, seus limites e mesmo sobre o que pode ou não ser considerado abuso. Afinal, quando o assunto é o sexo, numa sociedade conservadora ainda há muitos tabus.

Em certa altura do filme, por exemplo, Simone e seus colegas divagam longamente sobre o fato de que as mulheres que entram para a prostituição, escolhem esse caminho por não ter outro em seus horizontes. Mas será mesmo? Não há uma chance mínima, que seja, de haver algum apreço por esse "ofício"? "E o que dizer das empregadas domésticas?", retruca alguém, que completa com uma provocação: "elas não vão também por essa área quando não parece haver outra alternativa?" Por quê, afinal, somente quando o assunto é o sexo há esse tipo de barreira? Com idas e vindas entre um universo e outro, Julia organiza uma teia de relações que estabelece um potente, ousado, desafiador e moderno diálogo sobre desejo, feminilidades, tecnologia, direitos e liberdades. Grande vencedor do Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, esse é daqueles projetos que convidam a um debate. Jamais se encerrando quando sobem os créditos.

Nota: 8,0


quarta-feira, 26 de julho de 2023

Cinema - Barbie

De: Greta Gerwig. Com Margot Robbie, Ryan Gosling, America Ferrera, Michael Cera e Will Ferrel. Comédia / Fantasia, EUA / Canadá, 2023, 114 minutos.

Ao concluir a sessão de Barbie, a sensação que ficou foi a de que esse era o único filme possível para a boneca mais famosa do mundo. Estamos em 2023 e ainda parece meio incrível que pautas feministas ou que envolvam questões ligadas à importância da igualdade de gênero precisem ser permanentemente lembradas, marteladas. Mas o caso é que o óbvio, em muitos casos, precisa ser dito. Reiterado. Reforçado. Que isso seja feito justamente (e paradoxalmente) por meio de um brinquedo que funcionaria, por décadas, como o exemplar máximo do estereótipo feminino fetichizado é algo digno de aplausos. "Ãin, porque a Mattel vai ganhar rios de dinheiro com o hype em cima da obra". Sim, vai. E ela ri meio que na nossa cara dessa contradição. Mas é também preciso elogiar a percepção de que o mundo evoluiu e, vá lá, talvez nos dias de hoje já não faça mais sentido uma comédia agridoce com a Barbie e o Ken feita somente para agradar adolescentes vestidas de rosa - e suas mães totalmente desatentas no que diz respeito à classificação indicativa de um filme.

Sim, a gente poderia questionar muita coisa aqui - dos eventuais exageros expositivos do discurso ou mesmo a história que vai para além dos limites de um realismo fantástico em um mundo surrealmente rosa. Mas jamais de que a obra não cumpre seu papel. Minha esposa e eu temos 42 anos e nos divertimos demais com essa experiência. E ficamos muito felizes em ver a sala repleta de jovens rindo junto, reconhecendo padrões absurdos na tela - especialmente aqueles que dão conta do quão patético pode ser o macho escroto (ou o boy lixo, como costumam dizer as meninas mais jovens) quando age em bando, quando se sente reafirmado em sua masculinidade (tóxica, naturalmente) ou quando escuta algum mesacast com redpilados fazendo um esforço enorme para (tentar) gostar de mulher. A misoginia e o machismo, ao cabo, estão por todo o lado e a cada novo instante da projeção era possível reconhecer na tela aquele seu tio tosco do churrasco dominical, o colega de trabalho intragável ou o comediante de stand up que parece saído da Idade Média. 

 


Forçado? Temeroso para as novas e empoderadas (ui) gerações de mulheres do porvir? Nunca. Nunquinha. Até mesmo porque certamente elas já tão muito a frente nesse debate, do que supõe a cabeça torpe do homem normie, que acha que abala as estruturas falando em mercado financeiro, em bitcoins, em literatura rasa de coach do abstrato, na HB20 recém comprada ou sobre o quão incrível vai ser o seu novo barber shop (voltado à machões que se empolgarão em falar dos treinos da academia do bairro e dos jogos insuperáveis do imortal tricolor). Essa obra é uma aula que mais parece uma sequência de esquetes sobre a persistência da mulher hétero e, na boa, é simplesmente impossível não gargalhar alto quando vemos em cena uma sequência em que o Ken (Ryan Gosling) encarna o Zé Violão para tocar a música mais pálida possível do tiozão roqueiro dos anos 90 - no caso Push, dos queridos (sim) hiperamericanos, do Matchbox Twenty. Nessa hora eu perdi tudo. Aliás, eu já tinha perdido. Ou ganhado, dependendo do ponto de vista.

E se não bastassem todos os predicados no que diz respeito às temáticas, a obra dirigida por Greta Gerwig (alô Oscar, uma indicação pra moça na categoria Diretora por favor) ainda é um primor do ponto de vista técnico. O desenho de produção é impecável. A fotografia e os figurinos idem. A trilha sonora tá bem encaixada. E as soluções encontradas para "mesclar" os universos da Barbieland e o mundo real são engraçadas, inusitadas e hiperbólicas. Na Terra da Barbie são as mulheres que ditam o rumo das coisas, com o coletivo de Kens - aquele bando de homem médio apenas bonito (vocês veem bastante por aí) - sendo submisso a elas. Só que quando a coisa desanda com a Barbie Estereotipada (Margot Robbie, como vocês já tão carecas de saber) dessa outra dimensão, pondo em risco esse universo aparentemente perfeito, caberá a ela ir ao encontro dos humanos de carne e osso para tentar consertar as coisas. E, claro, esse choque de realidades em um espaço povoado pelo patriarcalismo, resultará em uma coleção de grandes instantes. É filme pra ver e rever. E que ajudará, como sempre fazem as artes, a retirar muita gente da zona de conforto. Não, não se trata de um tratado filosófico sobre o feminismo no Século 21. É apenas um filme que empunha sua bandeira sem se envergonhar disso. E que faz lembrar, inclusive de forma literal, que muitas vezes o discurso precisa ser repetido. Mais e mais vezes. Quase infinitamente. Até mesmo para que não haja mais retrocessos. De aplaudir de pé.

Nota: 10


terça-feira, 25 de julho de 2023

Novidades em Streaming - A Felicidade das Coisas

De: Thais Fujinaga. Com Patrícia Saravy, Magali Biff, Messias Gois e Lavinia Castelari. Drama, Brasil, 2021, 87 minutos.

A demorada construção de uma piscina, que parece que nunca vai ser concluída. Poucas vezes no cinema nacional a imagem de uma obra inacabada foi tão bem utilizada como metáfora para uma classe média que achava ia chegar lá - mas não chegou -, como no caso do premiado A Felicidade das Coisas. Dirigida por Thais Fujinaga e inspirada em memórias de infância da própria realizadora, a obra conta a história de Paula (Patrícia Saravy), uma mulher próxima dos 40 anos, que acaba de comprar uma antiga casa de veraneio no litoral paulista. No primeiro verão na casa, Paula se empenha em concluir o projeto da piscina, em meio a longas discussões com os pedreiros, esforços financeiros que parecem impraticáveis e ligações diversas para aquele que parece ser o ex-marido (alguém que, aparentemente, pretendia auxiliá-la na obra mas que, mais adiante, começa a dar pra trás).

Nesse sentido, a piscina poderia ser a alegoria quase óbvia para um recomeço. Ao lado da mãe Antônia (Magali Biff), Magali direciona os esforços para aquilo que, vá lá, talvez servisse como uma espécie de compensação para os filhos Gustavo (Messias Gois) e Gabi (Lavinia Castelari) - que surgem, aqui e ali, como figuras distantes da mãe. O clima geral é acinzentado, frio e úmido - como são aquelas casas de litoral que permanecem meio abandonadas e que carecem de uma série de investimentos pra que a infraestrutura não se arruíne. Todos se esforçam pra tocar a vida naquele lugar em que o rio é sujo e a floresta é fechada, quando a construção da piscina simplesmente paralisa pelo fato de Paula não conseguir arcar com as despesas. Tentando manter algum otimismo, Antônia funciona como a figura maternal que tenta ver o copo meio cheio, mesmo quando as crises parece se espalhar por todos os lados.



Na rotina das crianças há o interesse por uma espécie de clube local - um daqueles espaços luxuosos, com piscinas amplas, que as cidades médias costumam ter e que, num acordo bizarramente tácito, separa os pobres dos ricos. Paula está no meio do caminho: adquiriu uma casa decadente, é incapaz de concluir a piscina e, de quebra, não tem dinheiro para que todos ali possam se associar ao clube. E essa sensação de isolamento, de se sentir apartado de algo, é ampliada em sequências em que Gustavo e Gabi assistem, do lado de fora e separados por uma grade, os demais se divertindo do outro lado. É um Brasil de contrastes sociais que é evidenciado em instantes que nada têm de efêmeros. Em outro momento, Antônia compra para os netos um passeio de pedalinho, sendo alertada de forma constrangedora pelo operador de que, para utilizar o brinquedo, é necessário pagar. E mais do que isso, "jamais eles devem ultrapassar os limites da bandeira".

Em alguma medida, a experiência com A Felicidade das Coisas me fez lembrar outros projetos sul-americanos, como o clássico moderno O Pântano (2001), da argentina Lucrécia Martel. Naquela obra também acompanhamos uma classe média entorpecida, com as famílias se revezando em mesquinharias enquanto apenas aguardam a próxima tragédia que irá acontecer. A próxima piscina que não será concluída. Em entrevista à página Mulher no Cinema, Thaís Fujinaga salientou que quando filmou, em 2019, pensava a piscina como "analogia de um país que quase chegou lá". "A gente teve um período em que parecia que as coisas iam melhorar e avançar, mas chegamos numa espécie de teto de vidro, de ‘daqui você não passa’. Você pode ter essa casa de praia caindo aos pedaços, mas a piscina você não vai ter", explicou. Não é por acaso que esse núcleo familiar funciona como um microcosmo para o Brasil que viveria o boom de consumo da Era Lula, que culminaria na tragédia do governo Bolsonaro. Da euforia substituída pela incerteza. Da excitação que dá lugar ao vazio. Assim como permanecerá vazia a piscina.

Nota: 8,0



Pitaquinho Musical - Blur (The Ballad of Darren)

Vamos combinar que o efeito causado pelo Blur é meio curioso. Se por um lado, Damon Albarn e companhia são capazes de lotar estádios - como vinham fazendo em apresentações recentes e pós-pandêmicas -, por outro, parecem ser aquela banda ideal pra festa indie alternativa promovida por aquele bar descolado. E talvez seja justamente essa capilaridade - na falta de uma palavra melhor -, que os torne tão interessantes. Porque se, por um lado, eles são melhores do que ninguém na hora de conceber canções que olham com certo cinismo pra sua Inglaterra natal - aliás, algo que era bastante literal em álbuns como Parklife (1994) e The Great Escape (1995) -, por outro eles sempre foram muito hábeis em investigar sentimentos bastante humanos, colocando no "papel" suas dores, incertezas e temores. Com tudo estabelecendo relação direta com a vida moderna e a mesmice ordinária do cotidiano.



Agora, já na casa dos 50 e alguma coisa, os integrantes da banda poderiam ficar de boas, nas suas casas de campo, fazendo shows aqui e ali, engordando as suas contas bancárias e replicando padrões que eram motivo de deboche no passado. Mas e as inquietações? Em alguma medida o mundo já não é mais o mesmo do que era nos anos 90, quando fazia todo o sentido uma certa análise do provincianismo britânico, que resultaria em clássicos como Country House ou Charmless Man. Atualmente, as pessoas precisam lidar com pandemia, extrema direita, guerras, tecnologias e outros temas que, aqui e ali, ganham eco na voz agridoce e melancólica de Albarn. Sim, ele também teve seus demônios particulares revolvendo suas entranhas - como foi o caso do término de um longo relacionamento (com Justine Frischmann). A vida adulta bateu e não faz mais sentido pensar no britpop sendo esmagado por músicas como Song 2. Assim, The Ballad of Darren, o nono álbum, é um projeto maduro, paciente e melódico, como comprovam as ótimas Barbaric, The Narcissist e The Heights. Bem-vindos de volta!

Nota: 8,5


segunda-feira, 24 de julho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Boneca Inflável (Kuuki Ningyou)

De: Hirokazu Koreeda. Com Bae Doona, Arata Iura, Itsuji Itao e Joe Odagiri. Drama / Fantasia, Japão, 2009, 125 minutos.

- Sou toda vazia. 
- Que maravilhosa coincidência. Também sou.
- Fico pensando se há outros como nós.
- Atualmente, todos são.
- Todos?
- Sim, todos. Especialmente os que moram nesse tipo de cidade. Você não é a única.

Poucas vezes um filme foi tão eficiente (e alegórico) ao capturar o sentimento de vazio existencial de nossos tempos, como no caso do excelente Boneca Inflável (Kuuki Ningyou), do aclamado diretor Hirokazu Koreeda (de Assunto de Família, 2018). A cada dia que passa, parece que nos habituamos mais a solidão. A uma rotina de ocupações repetitivas, ordinárias. Que muitas vezes se soma a impossibilidade de estabelecer vínculos mais sólidos com outras pessoas. Os relacionamentos parecem fadados ao fracasso - com o excesso de ofertas para todos os lados sendo inversamente proporcional ao senso de responsabilidade afetiva. E não são poucas as obras de arte que adotam alegorias que funcionam à perfeição como divagações de grande sensibilidade e cheias de simbolismos. Aqui, quem afirma estar "vazia" é uma boneca inflável de nome Nozomi (a ótima Bae Doona, vista em Sense 8). Uma boneca que adquire consciência (e um coração).

Só que o vazio alegado por Nozomi era verdadeiro, literal. E que havia sido resultado de um acidente pelo qual ela passou - um ferimento que abriu sua "pele", retirando seu ar interior. A solução encontrada pelo colega de trabalho Junichi (Arata Iura)? Vedar o corte com fita durex e inflar novamente a boneca, assoprando-a em seu ventil. Sim, será o vento produzido pela boca de Junichi que fará com que Nozomi se recupere. Havia uma paixonite inesperada entre os dois. E não poderia haver melhor acerto em mais essa metáfora cheia de ambiguidades a respeito dimportância do outro para nos "preencher", para dar cor aos nossos dias, para nos possibilitar a vida, a troca, o laço. Nesse sentido, o filme de Koreeda é repleto de divagações poéticas quase sublimes, que são reforçadas pela sua reconfortante trilha sonora. Que acompanha Nozomi como uma espécie de Amelie Poulain feita de borracha.



E, sim, tudo pode parecer meio estranho, excêntrico e certamente há que se ter uma boa dose de suspensão da descrença para que possamos embarcar nessa jornada tão fantasiosa quanto impossível. Quando o filme começa, Nozomi parece ser apenas uma boneca sexual, adquirida pelo solitário Hideo (Itsuji Itao), um homem de meia idade que trabalha em uma lanchonete. Mas, para além do sexo, Hideo a trata como se fosse uma esposa improvisada: conversa animadamente com ela nos jantares, lhe dá banhos, a leva para passear, a veste (se está mais frio a cobre). É um comportamento amável, que concede à boneca um mínimo de dignidade. Só que ainda assim o despertar de Nozomi não demora. Ao abrir a janela e tocar acidentalmente uma goteira que verte água ela "acorda". E, diante do mundo, se maravilha com o sem fim de possibilidades. Inclusive no trabalho.

E será como empregada de uma locadora de vídeo que Nozomi conhecerá Junichi. E será em sua companhia que ela refletirá sobre a beleza das coisas. Com um comportamento digno de uma criança curiosa, que se depara com uma série de inesperadas novidades. "O que significa envelhecer? Por quê o mundo é construído de forma tão solta? O que é um aniversário? É possível preencher a vida sozinho? Aqui é o oceano? E o que tem lá em cima?". A cada novo questionamento de Nozomi, somos convidados a refletir ao seu lado sobre tudo que nos rodeia. Enquanto ela se esforça para manter seu segredo - especialmente de Hideo, seu "proprietário" (por assim dizer). Famoso por elaborar verdadeiras obras-primas centradas na subversão do conceito de família, Koreeda realiza aqui uma experiência meio fora da curva, muito mais melancólica do que sexual, e que de quebra ainda utiliza a sua temática para uma análise mais profunda sobre essa sensação de mal-estar da contemporaneidade. Uma joia.


quarta-feira, 19 de julho de 2023

Novidades em Streaming - Os Fortes (Los Fuertes)

De: Omar Zúñiga. Com Samuel González, Antonio Altamirano, Marcela Salinas e Rafael Contreras. Drama, Chile / Argentina / Brasil, 2019, 99 minutos.

Existe um duplo sentido muito inteligente no título do filme de Omar Zúñiga, Os Fortes (Los Fuertes). Por ser uma história de romance queer entre dois homens de personalidades distintas, que se conhecem por acaso na província, há que se destacar o peso - ou a força - de se levar um relacionamento meio improvisado a frente. Há que ser forte, afinal, pra enfrentar preconceitos de todos os tipos, que podem emergir do entorno (ou até de dentro da própria família, como parece ficar subentendido). Mas há um segundo significado para os fortes e que, aqui, tem mais a ver com a geografia, com o espaço físico onde a história se desenrola. E que, no caso, é o povoado de Niebla, uma espécie de vila de pescadores da região de Valdívia, um local bem ao Sul do Chile, onde está disposto um histórico forte à beira-mar, que teve papel importante durante a Guerra da Independência do País.

Ao cabo, essa é uma alegoria formidável - entre tantas outras que veremos nessa obra de grande sensibilidade -, que resume bem a ideia de enfrentamento ou de quebra do status quo, que representa uma relação de afeto entre dois homens em um espaço dominado pelo conservadorismo. Chegado de uma viagem de Santiago, Lucas (Samuel Gonzalez) resolve fazer uma parada no já citado vilarejo para uma visita a sua irmã Catalina (Marcela Salinas) e a seu cunhado Martin (Rafael Contreras). Isto antes de embarcar para Montreal, no Canadá, onde ele seguirá os estudos após ter obtidos uma bolsa de pós-graduação em Arquitetura. Só que a sensação de isolamento - e até de alguma hostilidade - vivida por Lucas será substituída pelo calor humano, quando ele conhece o jovem Antonio (Antonio Altamirano), um pescador taciturno, que faz um bico como ator de meio período justamente em uma representação sobre a guerra, que costuma atrair a atenção de turistas.



E não demorará para que os dois se aproximem, sob a desconfiança de Catalina - e por mais que os dois irmãos tenham uma relação afetuosa, as dificuldades que envolvem a comunicação com os pais, sugerem que os motivos de Lucas ter abandonado o povoado podem ter a ver não apenas com a intenção de estudar, mas também de ser aceito. Lucas nunca atende os eventuais telefonemas. E a situação entre Catalina, uma dentista local, e seu marido também não parece ser das melhores. E em alguma medida todas as angústias que transbordam dos protagonistas da obra parecem contrastar com a paisagem local, que se alterna entre o ensolarado e o acinzentado, entre o úmido e o quente, como uma representação legítima de almas que persistem, encaram, ainda que diluídas em incertezas, em incômodos, como se afundadas em um pântano. Em certa altura, Lucas recebe uma pedrada pelas costas. Aquele lugar que ele deixou pra trás, assim percebemos, tem outros segredos. E, vai ver, não será e presença de Antonio que modificará essa situação.

Ainda que isso não impeça que eles vivam seu amor. Uma relação cheia de paixão, de mãos pelos cabelos (e pelos corpos). Tudo evidentemente escondido. Longe dos pescadores que acompanham Antonio em sua rotina - ou mesmo dos parceiros de encenação teatral. Já Lucas mal consegue esconder da irmã os sapatos enlameados, quando ele retorna tarde da noite, após o primeiro beijo em Antonio. E sempre haverá algo no olhar condescendente da irmã. Em alguma medida essa é uma experiência de instantes e de rimas visuais e sonoras, que funcionarão também como metáforas para sensações que vertem da alma. Um momento íntimo, por exemplo, é substituído por uma caudalosa onda de mar em uma encontro visual que alude à torrente de paixão, que flui caudalosa, imparável. Em outro momento, o casal de beija enquanto uma chaleira persiste em apitar ao fundo, como que pronta para explodir, em uma pressão crescente que funciona como alegoria para o desejo. Nesse sentido, trata-se de um filme inteligente e sutil, elegante mas lascivo. E que nos faz pensar sobre as dificuldades que envolvem esses amores impossíveis que explodem inesperados. Mas eles explodem. E é isso que fica.

Nota: 8,0


Pitaquinho Musical - Letrux (Letrux Como Mulher Girafa)

O estilo bastante teatral de Letícia Novaes, a Letrux, ganha tintas galhofeiras, coloridas e libidinosas em seu terceiro trabalho em carreira solo, Letrux Como Mulher Girafa. Após o clima sorumbático do anterior - que tinha o título autoexplicativo de Letrux aos Prantos (2020) -, era a hora de, com o perdão do trocadilho, "soltar as feras". Talvez fosse a pandemia chegando ao fim. Ou a simples necessidade de sair da toca e mudar de ares. Mas o caso é que com o novo projeto, produzido por João Brasil, a artista utiliza a alegoria do animalesco pra falar de sentimentos visceralmente humanos. Construindo um projeto ao mesmo tempo divertido, selvagem e poético - numa montanha-russa artística que vai do pop ao psicodélico, com uma parada no rock mais direto e dançante, sem firulas. Literal em alguns momentos, abstrato em outras, o disco parece dar um novo rumo para a carreira da cantora e compositora, ainda que isso não represente necessariamente uma revolução. É pé no chão.



O resultado disso é um passeio na floresta em que músicas de nomes, como Zebra, Crocodilo, Aranha e Hienas se intercalam com pequenas vinhetas sonoras que funcionam quase como um rascunho musical (uma forma de aproximar o público do que acontece no mundo real das produções). Ainda no terço inicial, As Feras, Essas Queridas é uma espécie de fio condutor do que o ouvinte encontrará durante os 42 minutos do álbum, com sua letra metafórica que leva ao limite as tensões "presa/predador". É uma música de guitarra barulhenta, percussão tribal, eletrônica ruidosa e versos cheios de ambiguidades (Te cacei pra mim, te tirei o couro / Tripas pra fora, tratеi com amor / Embora não pareça, foi com amor que eu tе / Destrinchei), que brilha e prepara o terreno para outras gemas. Essa dicotomia entre o comer literal e sexual reaparecerá diversas outras vezes, como no caso da bucólica Formiga (Sou sua caça, bicho do mato / Caçadora querendo contato) e na vigorosa Hienas (Não era pra ter sido assim / Tu me deu um bote quase no fim / Se ainda tivesse me comido tranquilo). É pura personalidade.

Nota: 8,5