quarta-feira, 9 de março de 2016

Pérolas do Netflix - O Pântano (La Ciénaga)

De: Lucrecia Martel. Com Graciela Borges, Mercedes Morán, Sylvia Bayle e Martín Adjemián. Comédia dramática. França / Argentina / Espanha, 2001, 95 minutos.

Latidos. Estampidos. Zumbidos. Barulhos de vidro quebrando, metais batendo, trovões, carros arrancando. A algazarra das ruas, a música cantarolada por um vizinho, o grito das crianças. Assim como no nacional O Som ao Redor (2012), em O Pântano (La Ciénaga) o som diegético - aquele que integra a narrativa de forma naturalista, fluída - é parte importante da composição. Não à toa, na primeira cena da película, ao apresentar os personagens que fazem parte da curiosa - e recheada de significados - trama, a diretora argentina Lucrecia Martel, em sua estreia, utiliza o som enfadonho de cadeiras sendo arrastadas a beira de uma piscina. Repetidamente e durante minutos. Esse movimento simples (e ainda assim fatigante) já será suficiente para que o espectador seja imerso quase como que "num soco" para dentro de uma trama que se mostrará sufocante, claustrofóbica, incômoda.

É calor e a umidade é intensa no norte da Argentina, na localidade de La Ciénaga, na região de Salta, quase na divisa com a Bolívia. A sensação de torpor que envolve os protagonistas, quase sempre suados em cada frame, parece quase palpável - algo que se amplia com a fotografia e com o desenho de produção que reforçam a podridão dos moveis, as paredes velhas, a decoração antiquada, os metais enferrujados. A narrativa envolve duas famílias que se revezam em uma rotina de mesquinharias. Uma delas é liderada por Mecha (Graciela Borges, absolutamente magnífica), mulher de cerca de 50 anos que possui quatro filhos, e que passa quase todo o tempo de projeção na cama, bêbada e reclamando da vida e de um pequeno acidente doméstico em que se envolveu. A outra envolve Tali (Mercedes Morán), prima de Mecha, que também possui quatro filhos, um marido machista e uma vida simplória.



O dia a dia das famílias envolve preocupações prosaicas como os dentes de um dos filhos que estão nascendo meio tortos, a compra do material escolar, as ligações interurbanas que devem ser curtas pra não ser caras, o carnaval que está chegando e as inexplicáveis aparições da Virgem Maria junto a uma caixa da água e que tem sido vastamente exploradas pela mídia local. Como forma de passar o tempo, nesse verão escaldante, a alternativa é frequentar a piscina na casa de Mecha, um espaço sujo, fétido, composto por um caldo verde e que, ainda assim, é utilizada pelas crianças, já que o conserto da bomba da água e do filtro são sempre adiados. É um filme em que parece haver a certeza de que algo muito sério está para acontecer, conforme os pequenos conflitos entre as famílias avançam em meio a esse contexto de banalidade e leniência relacionada a vida cotidiana.

Na simplicidade do roteiro parece haver um algo a mais que Martel - que mais tarde filmaria o também ótimo A Menina Santa (2004) - faz questão de deixar para as entrelinhas. No ano de lançamento da obra, a sua Argentina natal passava por uma de suas piores crises econômicas da história, com taxas de desemprego alarmantes, congelamento de salários, inflação na lua e déficits fiscais nunca antes vistos. Muitos protestos aconteceram - e medidas foram tomadas - até o País voltar para os eixos. Em sua alegoria, Martel analisa os seus personagens e o cenário como uma espécie de microcosmo para o sentimento vivido por toda a população argentina naquele tempo - uma condição de impotência diante daquilo que impõe o meio. E a inclusão de temas polêmicos como o temor a Deus, o incesto e a violência contra os animais parece reforçar a crítica a uma população que também tem culpa pela situação que envolve o País ainda que, aqui e ali, considere-se dona de retidão moral imperturbável.



Nesse sentido, um filme cheio de personagens sujos - física e moralmente -, que abusam da mediocridade (e do álcool) e que estão acomodados em suas rotinas pouco imaginativas e insignificantes, nada mais é do que o recorte de um País que, como um todo, vivia um estado de ebriedade, convivendo entre si como se estivessem em uma espécie de mistura de O Discreto Charme da Burguesia (1972) de Buñuel, com Feios, Sujos e Malvados (1976) de Scola. Praticamente escondido entre as centenas de filmes da plataforma de streaming Netflix, essa obra robusta em seus sentidos metafóricos e que venceu o prêmio para diretores estreantes no Festival de Berlim de 2001, merece ser (re) descoberta. É uma verdadeira pérola do cinema dos nossos hermanos.

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