terça-feira, 30 de abril de 2019
Lançamento de Videoclipe - Filipe Catto (Eu Não Quero Mais)
Certamente não foi por acaso que o gaúcho Filipe Catto lançou o provocativo videoclipe de Eu Não Quero Mais na última Sexta-Feira Santa. No vídeo, dirigido pelo Ismael Caneppele, o artista subverte a Santa Ceia, transformando-a em uma espécie de festividade LGBTQ+, que funciona como grito contra o conservadorismo e os retrocessos amplificados desde o resultado das últimas eleições. "Jesus esteve ao nosso lado o tempo todo. Lavou nossos pés, penteou nossos cabelos, comeu e bebeu com os nossos. Como poderia me odiar só por eu ser quem eu era? Ele era um de nós, um renegado que não frequentava palácios ou reuniões a portas fechadas. Brigava por emancipação espiritual, filosófica e, portanto, política. Um herói. [...] Era o diferente e por isso foi censurado, torturado, condenado e executado pelo Estado romano.", descreve Catto no material de apresentação do clipe. É a fé na arte, no corpo, na identidade e no direito de ir e vir de forma justa, amorosa e generosa - como pregava Cristo - resumida em cinco minutos de puro deleite. Ah, e no clipe ainda há a participação mais do que especial da nossa querida amiga Jan Koch. Bora clicar!
Grandes Filmes Nacionais - Os Famosos E Os Duendes da Morte
De: Esmir Filho. Com Henrique Larré, Tuane Eggers, Ismael Caneppele e Samuel Reginatto. Drama, França / Brasil, 2009, 101 minutos.
Poucas vezes o sentimento de não pertencimento a um determinado lugar foi tão bem retratado como no poético Os Famosos E Os Duendes da Morte, do diretor Esmir Filho. Baseado no livro homônimo de Ismael Caneppele - que também atua - o filme é absurdamente sensorial, funcionando como uma espécie de permanente devaneio de um jovem que deseja sair da pequena cidade de colonização alemã em que mora, no interior do Rio Grande do Sul, para "descobrir" o mundo (o que é simbolizado pela vontade de ir a um show do Bob Dylan). Nesse sentido, a obra faz um afago na juventude que vê a internet como uma espécie de janela para o universo: é nela que se navega e que se foge de um ambiente que parece meio parado no tempo e em que só o que se escuta é o canto dos grilos em meio à noite gelada e as notícias sobre falecimentos, que são destacadas em uma emissora de rádio local.
Aliás, para quem nasceu em uma cidade do interior gaúcho, meu caso, é simplesmente impossível não se identificar com aquilo que se vê. No contraste entre o convite dos avós para uma visita para comer uma galinhada e a casa de madeira pintada em um azul claro pouco definido, um outro lado em que a música, as artes e as redes sociais como Flickr e MSN quebram a barreira geográfica, encurtando distâncias, aproximando pessoas que não se conhecem pessoalmente - e que provavelmente desejariam muito se conhecer. Quem não passou alguma vez por isso morando em Lajeado, Estrela ou, mais ainda, Arroio do Meio, Muçum, Roca Sales ou outra, que atire a primeira pedra. A bergamota pode até ser a fruta oficial do inverno, mas e a vontade de consumir outras variedades? E como se alcança isso, sendo de uma família humilde, com condições modestas, morando em uma gélida cidade dos pampas?
O mundo é muito grande e o protagonista - que nas redes sociais se autointitula Mr. Tambourine Man (Henrique Larré) - mergulha nele postando divagações filosóficas em seu blogue e interagindo com outras pessoas, como a misteriosa Jingle Jangle (Tuane Eggers). Em uma verdadeira coleção de pequenos fragmentos, o filme vai no limite do fantástico para mostrar as interações entre ambos com o misterioso Julian (Caneppele). O clima é onírico e, em muitos casos, a impressão que dá é a de estarmos diante de um sonho - ou de uma espécie de fuga da realidade. Jingle Jangle e Julian aparecem nos campos gaúchos que margeiam a comunidade, como se fossem fantasmagóricas emanações: provocam, sorriem, demonstram medo e paixão, levando o Mr. Tambourine Man para um outro lugar, que não é ali. E a semelhança de Julian com Bob Dylan não é por acaso, já que, aparentemente, ele é a figura a conduzir o protagonista por esse universo sombrio e libertador em igual medida.
Com trilha sonora totalmente orgânica (de Nelo Johann) e fotografia rica, meio granulada, quase envelhecida em alguns momentos (cortesia de Mauro Pinheiro Jr.), a película também é um primor no que diz respeito às imagens que falam por si. Das estrelas vistas no teto do quarto do protagonista (há um universo real lá fora?), a borboleta que se debate até morrer, a obra investe em minúsculas abstrações que, curiosamente, também ampliam uma certa sensação de suspense. Quando Julian reaparece - "esse colono", reclamam os jovens - parece haver algum segredo relacionado ao passado de todos eles, pronto a vir a tona (o que torna esta também uma película de formação). E como esse clima de tensão é ampliado? Com o barulho ostensivo do mecanismo de uma geladeira, que irrompe na madrugada, por exemplo. Experimental, inevitavelmente bucólico e com uma linguagem pouco convencional, Os Famosos E Os Duendes da Morte completa 10 anos sem envelhecer nadinha: ao contrário, com o advento de redes como Instagram, os jovens estão cada vez mais vivendo um universo que não é o deles. E se exaurindo, assim como aqueles que assistimos nessa pequena joia do nosso cinema.
Poucas vezes o sentimento de não pertencimento a um determinado lugar foi tão bem retratado como no poético Os Famosos E Os Duendes da Morte, do diretor Esmir Filho. Baseado no livro homônimo de Ismael Caneppele - que também atua - o filme é absurdamente sensorial, funcionando como uma espécie de permanente devaneio de um jovem que deseja sair da pequena cidade de colonização alemã em que mora, no interior do Rio Grande do Sul, para "descobrir" o mundo (o que é simbolizado pela vontade de ir a um show do Bob Dylan). Nesse sentido, a obra faz um afago na juventude que vê a internet como uma espécie de janela para o universo: é nela que se navega e que se foge de um ambiente que parece meio parado no tempo e em que só o que se escuta é o canto dos grilos em meio à noite gelada e as notícias sobre falecimentos, que são destacadas em uma emissora de rádio local.
Aliás, para quem nasceu em uma cidade do interior gaúcho, meu caso, é simplesmente impossível não se identificar com aquilo que se vê. No contraste entre o convite dos avós para uma visita para comer uma galinhada e a casa de madeira pintada em um azul claro pouco definido, um outro lado em que a música, as artes e as redes sociais como Flickr e MSN quebram a barreira geográfica, encurtando distâncias, aproximando pessoas que não se conhecem pessoalmente - e que provavelmente desejariam muito se conhecer. Quem não passou alguma vez por isso morando em Lajeado, Estrela ou, mais ainda, Arroio do Meio, Muçum, Roca Sales ou outra, que atire a primeira pedra. A bergamota pode até ser a fruta oficial do inverno, mas e a vontade de consumir outras variedades? E como se alcança isso, sendo de uma família humilde, com condições modestas, morando em uma gélida cidade dos pampas?
O mundo é muito grande e o protagonista - que nas redes sociais se autointitula Mr. Tambourine Man (Henrique Larré) - mergulha nele postando divagações filosóficas em seu blogue e interagindo com outras pessoas, como a misteriosa Jingle Jangle (Tuane Eggers). Em uma verdadeira coleção de pequenos fragmentos, o filme vai no limite do fantástico para mostrar as interações entre ambos com o misterioso Julian (Caneppele). O clima é onírico e, em muitos casos, a impressão que dá é a de estarmos diante de um sonho - ou de uma espécie de fuga da realidade. Jingle Jangle e Julian aparecem nos campos gaúchos que margeiam a comunidade, como se fossem fantasmagóricas emanações: provocam, sorriem, demonstram medo e paixão, levando o Mr. Tambourine Man para um outro lugar, que não é ali. E a semelhança de Julian com Bob Dylan não é por acaso, já que, aparentemente, ele é a figura a conduzir o protagonista por esse universo sombrio e libertador em igual medida.
Com trilha sonora totalmente orgânica (de Nelo Johann) e fotografia rica, meio granulada, quase envelhecida em alguns momentos (cortesia de Mauro Pinheiro Jr.), a película também é um primor no que diz respeito às imagens que falam por si. Das estrelas vistas no teto do quarto do protagonista (há um universo real lá fora?), a borboleta que se debate até morrer, a obra investe em minúsculas abstrações que, curiosamente, também ampliam uma certa sensação de suspense. Quando Julian reaparece - "esse colono", reclamam os jovens - parece haver algum segredo relacionado ao passado de todos eles, pronto a vir a tona (o que torna esta também uma película de formação). E como esse clima de tensão é ampliado? Com o barulho ostensivo do mecanismo de uma geladeira, que irrompe na madrugada, por exemplo. Experimental, inevitavelmente bucólico e com uma linguagem pouco convencional, Os Famosos E Os Duendes da Morte completa 10 anos sem envelhecer nadinha: ao contrário, com o advento de redes como Instagram, os jovens estão cada vez mais vivendo um universo que não é o deles. E se exaurindo, assim como aqueles que assistimos nessa pequena joia do nosso cinema.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Cinema - O Ano de 1985 (1985)
De Yen Tan. Com Cory Michael Smith, Virginia Madsen, Michael Chiklis e Aidan Langford. Drama, EUA, 2018, 85 minutos.
Em uma das cenas de O Ano de 1985 (1985) os dois irmãos protagonistas conversam sobre música. Mais precisamente sobre a Madonna e seus provocativos trabalhos. Após o mais velho revelar que havia comparecido a Virgin Tour, o mais novo diz, não com certo desalento: "eu tinha o outro disco da Madonna, mas o pai encontrou a minha mochila e jogou ele fora". No mesmo diálogo o menino fala de um vizinho que possuía vários álbuns, mas que todos eles haviam sido queimados por recomendação de um certo Pastor John. Os dois irmãos são Adrian (Cory Michael Smith) e Andrew (Aidan Langford). O primeiro está morando em Nova York e vem para a casa dos pais para passar o Natal, onde encontra o segundo. Os pais são figuras extremamente religiosas e, consequentemente, conservadoras. O que explica, por exemplo, o asco em relação aos ousados discos da "rainha do pop". Sim, as famílias de bem, todos sabemos, não toleram nada que seja diferente. Especialmente nas artes.
Assim vir para casa, para Adrian, se torna um verdadeiro suplício. Algo que ele faz meio a contragosto, mas também para agradar a mãe - que se esforça na aproximação com o filho (uma aproximação meio torta, excessivamente "gastronômica"). Com o pai o distanciamento é ainda maior. Veterano de guerra, acredita que os filhos devem ser criados para ser "homens". E, portanto, ele estranha o trabalho de Adrian - algo relacionado a criação de vídeos publicitários. Pior: fica ainda mais constrangido quando este lhes presenteia com roupas e outros objetos caros, no Natal. Há uma gritante diferença geracional que, aqui no Brasil, poderia ser traduzida pelos pais que votaram no Bolsonaro, que acreditam que bandido bom é bandido morto e que não admitiriam filho gay, como um contraponto a filhos com a mentalidade mais progressista, com um bom nível de empatia, uma maior tolerância e uma especial atenção aos problemas sociais.
Dentro da casa o clima é de opressão, com a película do diretor Yen Tan se desenrolando de forma vagarosa, mas nunca cansativa. A fotografia em preto e branco, levemente escurecida, acentua o clima de melancolia familiar meio generalizada - todos se espiam pelos cantos, como se estranhos fossem, sendo obrigados a conviver. E o pior: conforme os dias passam entre o Natal e o Ano Novo, percebemos que Adrian possui um segredo que certamente será de difícil digestão para pais tão antiquados. O apoio da ex-namorada Carly e do próprio irmão tornarão a estada de Adrian menos dramática. Mas o encontro com um ex-colega de aula, que hoje é gerente de um supermercado local, também dá conta do abismo existente entre as visões de mundo de ambos: definitivamente, Adrian não pertence mais aquele local.
Nesse sentido, a obra se insurge como uma verdadeira coleção de pequenos momentos, que servem apenas para validar nossas convicções (e eu confesso que recebi tudo isso de coração aberto, não por acaso considerando este um dos grandes filmes do ano). Em uma sequência, por exemplo, é possível perceber o constrangimento de Adrian ao ter de cantar os cantos durante uma missa. O pai que presenteia a mãe com um eletrodoméstico. A mãe que confessa não ter votado em Reagan (um republicano a favor da guerra, claro) nas últimas eleições. E um pai que insiste em achar que o filho pode contar com ele, sendo que sabemos que, não, ele não pode, formam o combo de grupo de um sujeitos que se vê obrigado a conviver, única e exclusivamente pela existência de laços de sangue. E, ainda assim, não deixa de ser comovente a promessa de Adrian a seu pai, na última cena em que estão juntos e que busca, exclusivamente, confortar o coração de seu genitor. Uma película tão pequena - são poucos mais de 80 minutos - com tantos subtextos ricos, é aquilo que costumamos considerar um achado. É simplesmente imperdível.
Nota: 9,0
Em uma das cenas de O Ano de 1985 (1985) os dois irmãos protagonistas conversam sobre música. Mais precisamente sobre a Madonna e seus provocativos trabalhos. Após o mais velho revelar que havia comparecido a Virgin Tour, o mais novo diz, não com certo desalento: "eu tinha o outro disco da Madonna, mas o pai encontrou a minha mochila e jogou ele fora". No mesmo diálogo o menino fala de um vizinho que possuía vários álbuns, mas que todos eles haviam sido queimados por recomendação de um certo Pastor John. Os dois irmãos são Adrian (Cory Michael Smith) e Andrew (Aidan Langford). O primeiro está morando em Nova York e vem para a casa dos pais para passar o Natal, onde encontra o segundo. Os pais são figuras extremamente religiosas e, consequentemente, conservadoras. O que explica, por exemplo, o asco em relação aos ousados discos da "rainha do pop". Sim, as famílias de bem, todos sabemos, não toleram nada que seja diferente. Especialmente nas artes.
Assim vir para casa, para Adrian, se torna um verdadeiro suplício. Algo que ele faz meio a contragosto, mas também para agradar a mãe - que se esforça na aproximação com o filho (uma aproximação meio torta, excessivamente "gastronômica"). Com o pai o distanciamento é ainda maior. Veterano de guerra, acredita que os filhos devem ser criados para ser "homens". E, portanto, ele estranha o trabalho de Adrian - algo relacionado a criação de vídeos publicitários. Pior: fica ainda mais constrangido quando este lhes presenteia com roupas e outros objetos caros, no Natal. Há uma gritante diferença geracional que, aqui no Brasil, poderia ser traduzida pelos pais que votaram no Bolsonaro, que acreditam que bandido bom é bandido morto e que não admitiriam filho gay, como um contraponto a filhos com a mentalidade mais progressista, com um bom nível de empatia, uma maior tolerância e uma especial atenção aos problemas sociais.
Dentro da casa o clima é de opressão, com a película do diretor Yen Tan se desenrolando de forma vagarosa, mas nunca cansativa. A fotografia em preto e branco, levemente escurecida, acentua o clima de melancolia familiar meio generalizada - todos se espiam pelos cantos, como se estranhos fossem, sendo obrigados a conviver. E o pior: conforme os dias passam entre o Natal e o Ano Novo, percebemos que Adrian possui um segredo que certamente será de difícil digestão para pais tão antiquados. O apoio da ex-namorada Carly e do próprio irmão tornarão a estada de Adrian menos dramática. Mas o encontro com um ex-colega de aula, que hoje é gerente de um supermercado local, também dá conta do abismo existente entre as visões de mundo de ambos: definitivamente, Adrian não pertence mais aquele local.
Nesse sentido, a obra se insurge como uma verdadeira coleção de pequenos momentos, que servem apenas para validar nossas convicções (e eu confesso que recebi tudo isso de coração aberto, não por acaso considerando este um dos grandes filmes do ano). Em uma sequência, por exemplo, é possível perceber o constrangimento de Adrian ao ter de cantar os cantos durante uma missa. O pai que presenteia a mãe com um eletrodoméstico. A mãe que confessa não ter votado em Reagan (um republicano a favor da guerra, claro) nas últimas eleições. E um pai que insiste em achar que o filho pode contar com ele, sendo que sabemos que, não, ele não pode, formam o combo de grupo de um sujeitos que se vê obrigado a conviver, única e exclusivamente pela existência de laços de sangue. E, ainda assim, não deixa de ser comovente a promessa de Adrian a seu pai, na última cena em que estão juntos e que busca, exclusivamente, confortar o coração de seu genitor. Uma película tão pequena - são poucos mais de 80 minutos - com tantos subtextos ricos, é aquilo que costumamos considerar um achado. É simplesmente imperdível.
Nota: 9,0
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Disco da Semana - Djonga (Ladrão)
Recentemente o rapper Djonga esteve envolvido em uma polêmica: se recusou a fazer uma apresentação em Vitória, no Espírito Santo, após descobrir que integrantes da produção do evento estavam supostamente envolvidos em um caso de estupro. O artista soube da história por meio dos fãs. E tomou a sua decisão, sem pensar nos prejuízos acarretados por ela. Porque acima da figura que precisa ganhar dinheiro para se sustentar, está o sujeito, suas convicções, suas visões de mundo - e a visão de mundo de Djonga é aquela mesma que olha com carinho para a periferia, para as minorias ou para aqueles que vivem à margem da sociedade ou em vulnerabilidade (como é o caso das pessoas que sofrem violências de todo o tipo). É o rapper, com seus três assombrosos álbuns, que dá voz à comunidade, suas conquistas (ainda pequenas mas importantes), seus anseios, suas angústias e seus medos. E a comunidade negra, pobre e pouco assistida tem sim muito medo em um País em que o racismo estrutural é a ordem do dia. Ordem agora lamentavelmente legitimada pelo voto e pela ascensão de um reacionarismo descabido, quase pornográfico.
Mas a força da arte de Djonga está nas palavras - e ele certamente tem muito a dizer. Ele precisa dizer. São elas que cortam, oferecem resistência e que, eventualmente gritadas, ecoam a voz daqueles que nem sempre falam. Que se resguardam. Que se resignam. Desde pequeno geral te aponta o dedo / No olhar da madame eu consigo sentir o medo / Você cresce achando que é pior que eles / Irmão quem te roubou te chama de ladrão desde cedo narra o artista na autorreferencial Hat-Trick, que abre o disco Ladrão. Mas o tom nesse terceiro trabalho dificilmente será de autopiedade ou de excessos comiserativos. Djonga certamente tem consciência de seu papel nessa luta e não por acaso lembra do porvir da resistência como algo real e palpável em Deus e O Diabo Na Terra do Sol, feita em parceria com Felipe Ret: As grades prendem homens, não ideias / E a ideia certa chefe até nas ruínas floresce.
Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Então, se meu trampo for ouvido e der vontade do cara falar, nem que seja para discordar de mim, já está bom, destacou o rapper em entrevista ao site Reverb, como que resumindo o conceito central do registro, que dá sequência aos soberbos Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018). Não é por acaso que as canções do mineiro abordam não apenas as questões raciais como uma ferida histórica, mas também celebra as conquistas dos negros, a superação das dificuldades do dia a dia - não apenas do artista e ela está espalhada por toda a parte (Você piscou e eu já tô no terceiro), mas do trabalhador que tem ônibus pra pegar, conta pra pagar e filho pra criar. Eu tiro onda, porque mudo paradigmas / Meu melhor verso só serve se mudar vidas / Pois construi um castelo vindo dos destroços narra na ótima Ladrão.
Musicalmente o registro é um verdadeiro caldeirão de referências culturais com citações a Pantera Negra, Che Guevara, Queen Latifah, Oscar Niemeyer, Malcom X, Mickey, Antônio Conselheiro e Kendrick Lamar e sonoras, numa mescla absurdamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Djonga está atento ao mal estar da modernidade e por mais que isso seja clichê, representa um reflexo de nossos tempos. Nesse sentido, não são por acaso que menções a Sérgio Moro como um falso justiceiro ou a famosa facada que elege presidente. É claro que em meio ao engajamento, ao espírito de empoderamento, também há espaço para o amor, para o sexo e para o corpo como processo de desconstrução - como comprovam as sinuosas Leal e Tipo. Com estilo mais cru e um flow com pequenas variações em relação aos registros anteriores, Ladrão, com seu ainda impressionante projeto gráfico, consolida Djonga como um dos mais importantes nomes do rap nacional. E o principal: sem a necessidade de precisar mudar para agradar alguém. Abram alas pro Rei!
Nota: 9,3
Mas a força da arte de Djonga está nas palavras - e ele certamente tem muito a dizer. Ele precisa dizer. São elas que cortam, oferecem resistência e que, eventualmente gritadas, ecoam a voz daqueles que nem sempre falam. Que se resguardam. Que se resignam. Desde pequeno geral te aponta o dedo / No olhar da madame eu consigo sentir o medo / Você cresce achando que é pior que eles / Irmão quem te roubou te chama de ladrão desde cedo narra o artista na autorreferencial Hat-Trick, que abre o disco Ladrão. Mas o tom nesse terceiro trabalho dificilmente será de autopiedade ou de excessos comiserativos. Djonga certamente tem consciência de seu papel nessa luta e não por acaso lembra do porvir da resistência como algo real e palpável em Deus e O Diabo Na Terra do Sol, feita em parceria com Felipe Ret: As grades prendem homens, não ideias / E a ideia certa chefe até nas ruínas floresce.
Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Então, se meu trampo for ouvido e der vontade do cara falar, nem que seja para discordar de mim, já está bom, destacou o rapper em entrevista ao site Reverb, como que resumindo o conceito central do registro, que dá sequência aos soberbos Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018). Não é por acaso que as canções do mineiro abordam não apenas as questões raciais como uma ferida histórica, mas também celebra as conquistas dos negros, a superação das dificuldades do dia a dia - não apenas do artista e ela está espalhada por toda a parte (Você piscou e eu já tô no terceiro), mas do trabalhador que tem ônibus pra pegar, conta pra pagar e filho pra criar. Eu tiro onda, porque mudo paradigmas / Meu melhor verso só serve se mudar vidas / Pois construi um castelo vindo dos destroços narra na ótima Ladrão.
Musicalmente o registro é um verdadeiro caldeirão de referências culturais com citações a Pantera Negra, Che Guevara, Queen Latifah, Oscar Niemeyer, Malcom X, Mickey, Antônio Conselheiro e Kendrick Lamar e sonoras, numa mescla absurdamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Djonga está atento ao mal estar da modernidade e por mais que isso seja clichê, representa um reflexo de nossos tempos. Nesse sentido, não são por acaso que menções a Sérgio Moro como um falso justiceiro ou a famosa facada que elege presidente. É claro que em meio ao engajamento, ao espírito de empoderamento, também há espaço para o amor, para o sexo e para o corpo como processo de desconstrução - como comprovam as sinuosas Leal e Tipo. Com estilo mais cru e um flow com pequenas variações em relação aos registros anteriores, Ladrão, com seu ainda impressionante projeto gráfico, consolida Djonga como um dos mais importantes nomes do rap nacional. E o principal: sem a necessidade de precisar mudar para agradar alguém. Abram alas pro Rei!
Nota: 9,3
Músicas Gêmeas - Rihanna x Vaya Con Dios
Quem já viu o encarte do álbum Anti, da Rihanna, garante: não há NENHUMA menção a qualquer tipo de sampler da música What's A Woman?, lançada em 1990 pelos belgas do Vaya Con Dios, nos créditos de Love On The Brain, que viria a se tornar um dos principais singles do registro. Plágio? Homenagem? Foi sem querer? O caso é que a balada de Rihanna, influenciada pela soul musica dos anos 50/60, lembra muito a melodia, pontuada pelo baixo, da canção do Vaya Con Dios. Bom, ninguém reclamou e muita gente até nem percebeu. A exceção dos nostálgicos, que ouviram doses cavalares de Antena 1 na juventude e agora ficam comparando duas músicas que se assemelham. Ou não.
quarta-feira, 24 de abril de 2019
Pérolas da Netflix - Durante a Tormenta (Durante La Tormenta)
De: Oriol Paulo. Com Adriana Ugarte, Chino Darín, Javier Gutierrez, Álvaro Morte e Nora Navas. Drama / Suspense, Espanha, 2019, 128 minutos.
Já se vão quase 35 anos desde aquela vez em que Marty McFly voltou ao passado a bordo de um DeLorean para alterar a linha do tempo e quase comprometer a sua própria existência. Quem assistiu a De Volta Para o Futuro - alguém não assistiu? - tem até hoje a imagem do personagem vivido por Michael J. Fox literalmente desaparecendo, enquanto sua futura mãe tem uma série de desencontros com aquele que viria a ser o seu pai. E se ele não nascesse? Era uma comédia, divertida, leve, inesquecível. E que, agora, nostalgicamente, reaparece assim que começamos a assistir ao ótimo espanhol Durante a Tormenta (Durante La Tormenta), que bebe da fonte da película de Robert Zemeckis, mistura elementos de outros filmes de ficção científica - como Efeito Borboleta e Interestellar -, e nos entrega como resultado um suspense cheio de personalidade, vigoroso e que nos prende do começo ao fim.
Na trama também haverá uma alteração da lógica temporal, motivada por um episódio que ocorre no futuro, mas que afeta o passado. O filme começa em 1989. Em cena vemos o jovem Nico, que executa uma versão de Time After Time da Cindy Lauper, ao mesmo tempo em que faz uma gravação caseira de si próprio tocando guitarra. Após a mãe do rapaz sair para trabalhar, Nico presencia, a partir de sua janela, uma discussão entre vizinhos que resulta em uma morte. Ao sair correndo de casa para buscar ajuda, Nico é atropelado e morre. A obra salta para 2019, onde Vera (Adriana Ugarte) e David (Álvaro Morte) estão comprando a casa que foi de Nico e de sua mãe 30 anos atrás - o que percebemos quando o casal descobre, em um cômodo, a TV, a câmera de vídeo e o videocassete antigos. Será ao ligar o aparelho em uma noite mal dormida de tempestade, que Vera conseguirá "conversar" com Nico, em 1989, impedindo a tragédia que lhe seria o seu destino. A TV, catalisada pelos raios e trovões, funcionará como um portal, que modifica o passado. E também o presente/futuro.
Tudo muda na vida de Vera. De enfermeira ela passa a médica, David não é mais o seu marido e o pior drama para ela: a sua filha pequena não existe mais. O crime do passado aconteceu, mas Nico está vivo e seu paradeiro é um mistério. Só que tudo isso contribuiu para que tudo se alterasse no futuro. Assim, Vera luta para provar que não possui problemas psicológicos, se empenha em desvendar os mistérios do assassinato ocorrido no passado e tenta, de todas as formas, alterar novamente a lógica de espaço/tempo, para que a sua filha reapareça no mundo (ela sumiu, assim como McFly quase desaparece na De Volta Para o Futuro, citado ali no começo). Sim, parece meio complexo e talvez inicialmente até seja: mas a obra do diretor Oriol Paulo (do curioso Um Contratempo) é muito bem montada e a cada ida e vinda no tempo as peças do quebra-cabeças vão sendo fechadas. Não sem algumas reviravoltas - algumas previsíveis, outras nem tanto, claro.
Em geral trata-se de um filme leve de assistir, com um bom suspense, daqueles que não cansam jamais. Vale a pena fica atento a detalhes, como uma simples caixa de fósforos, que podem representar alguma mudança de perspectiva no desenrolar da trama. O mesmo vale para personagens chave, como uma outra vizinha, Clara (Nora Navas), que é mãe de um dos melhores amigos de Vera, Aitor (Miquel Fernández) e que, no mundo modificado, possui grande proximidade do assassino visto no começo do filme. Se há um pecado no filme é o fato de tudo ser redondinho demais, já que a gente sempre espera que em filmes de ficção científica a distopia cruel supere a "realidade", mesmo quando as coisas comecem a afunilar. Mas não é nada que comprometa.
Já se vão quase 35 anos desde aquela vez em que Marty McFly voltou ao passado a bordo de um DeLorean para alterar a linha do tempo e quase comprometer a sua própria existência. Quem assistiu a De Volta Para o Futuro - alguém não assistiu? - tem até hoje a imagem do personagem vivido por Michael J. Fox literalmente desaparecendo, enquanto sua futura mãe tem uma série de desencontros com aquele que viria a ser o seu pai. E se ele não nascesse? Era uma comédia, divertida, leve, inesquecível. E que, agora, nostalgicamente, reaparece assim que começamos a assistir ao ótimo espanhol Durante a Tormenta (Durante La Tormenta), que bebe da fonte da película de Robert Zemeckis, mistura elementos de outros filmes de ficção científica - como Efeito Borboleta e Interestellar -, e nos entrega como resultado um suspense cheio de personalidade, vigoroso e que nos prende do começo ao fim.
Na trama também haverá uma alteração da lógica temporal, motivada por um episódio que ocorre no futuro, mas que afeta o passado. O filme começa em 1989. Em cena vemos o jovem Nico, que executa uma versão de Time After Time da Cindy Lauper, ao mesmo tempo em que faz uma gravação caseira de si próprio tocando guitarra. Após a mãe do rapaz sair para trabalhar, Nico presencia, a partir de sua janela, uma discussão entre vizinhos que resulta em uma morte. Ao sair correndo de casa para buscar ajuda, Nico é atropelado e morre. A obra salta para 2019, onde Vera (Adriana Ugarte) e David (Álvaro Morte) estão comprando a casa que foi de Nico e de sua mãe 30 anos atrás - o que percebemos quando o casal descobre, em um cômodo, a TV, a câmera de vídeo e o videocassete antigos. Será ao ligar o aparelho em uma noite mal dormida de tempestade, que Vera conseguirá "conversar" com Nico, em 1989, impedindo a tragédia que lhe seria o seu destino. A TV, catalisada pelos raios e trovões, funcionará como um portal, que modifica o passado. E também o presente/futuro.
Tudo muda na vida de Vera. De enfermeira ela passa a médica, David não é mais o seu marido e o pior drama para ela: a sua filha pequena não existe mais. O crime do passado aconteceu, mas Nico está vivo e seu paradeiro é um mistério. Só que tudo isso contribuiu para que tudo se alterasse no futuro. Assim, Vera luta para provar que não possui problemas psicológicos, se empenha em desvendar os mistérios do assassinato ocorrido no passado e tenta, de todas as formas, alterar novamente a lógica de espaço/tempo, para que a sua filha reapareça no mundo (ela sumiu, assim como McFly quase desaparece na De Volta Para o Futuro, citado ali no começo). Sim, parece meio complexo e talvez inicialmente até seja: mas a obra do diretor Oriol Paulo (do curioso Um Contratempo) é muito bem montada e a cada ida e vinda no tempo as peças do quebra-cabeças vão sendo fechadas. Não sem algumas reviravoltas - algumas previsíveis, outras nem tanto, claro.
Em geral trata-se de um filme leve de assistir, com um bom suspense, daqueles que não cansam jamais. Vale a pena fica atento a detalhes, como uma simples caixa de fósforos, que podem representar alguma mudança de perspectiva no desenrolar da trama. O mesmo vale para personagens chave, como uma outra vizinha, Clara (Nora Navas), que é mãe de um dos melhores amigos de Vera, Aitor (Miquel Fernández) e que, no mundo modificado, possui grande proximidade do assassino visto no começo do filme. Se há um pecado no filme é o fato de tudo ser redondinho demais, já que a gente sempre espera que em filmes de ficção científica a distopia cruel supere a "realidade", mesmo quando as coisas comecem a afunilar. Mas não é nada que comprometa.
terça-feira, 23 de abril de 2019
Tesouros Cinéfilos - Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre)
De: Pedro Almodóvar. Com Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz e Antonia San Juan. Drama, Espanha / França, 1999, 101 minutos.
Ao final de Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre) um letreiro indica que a obra é dedicada a "todas as atrizes que viveram atrizes. A todas as mulheres que representam. Aos homens que representam e se tornaram mulheres. A todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe". Nesse sentido, não é demais lembrar que o cinema de Pedro Almodóvar sempre foi pródigo em sua análise do universo feminino - com as mulheres sustentando as mais variadas tramas -, e é muito provável que com esta película este nostálgico "fetiche" tenha atingido o seu ápice. Em tela mulheres de todos os tipos: apaixonadas, vigorosas, empáticas e humanas buscando se encontrar em um mundo em que tragédia e riso caminham lado a lado, sendo sempre possível, a despeito das peças pregadas pelo destino, seguir em frente, perdoar e, enfim, recomeçar.
Na história acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Após assistirem uma encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo (foi o presente de aniversário da mãe), Esteban se esforça para pegar um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes) - que interpreta Blanche Dubois -, correndo atrás do táxi que lhe conduz pelo subúrbio. Por uma fatalidade, ele é atropelado e acaba falecendo. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê.
Em sua jornada, Manuela reencontrará a antiga amiga Agrado (Antonia San Juan) e conhecerá a jovem freira Rosa (Penelope Cruz), que se tornará sua protegida após esta descobrir uma inesperada gravidez. E já que coincidência pouca é bobagem, Manuela começará a trabalhar para Huma, após um curioso (e revelador) encontro entre ambas. O filme se desenrola a partir desses pequenos recortes que envolvem o convívio de todas elas, suas idas e vindas, suas tentativas de resolver as angústias que não lhes deixam acalmar o coração. Luto, uso de drogas, HIV, dissimulação da Igreja Católica e prostituição são assuntos que funcionam como fios condutores da narrativa que, ao fim do cabo, discute a importância da sororidade, da absolvição e da compreensão das diferenças. É uma obra colorida, alegórica, de gargalhada e de choro em igual medida e de um olhar carinhoso, especialmente para aquelas figuras que vivem a margem da sociedade.
Tido pela crítica como o melhor filme de Almodóvar - não por acaso faturou o Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na cerimônia do ano 2000 - a película ainda é um requinte no que diz respeito às suas referências, que vão da já citada peça de Tenessee Williams ao filme A Malvada (1950) - e aqui vale prestar atenção no aspecto metalinguístico da narrativa, com Manuela "substituindo" pessoas em vários momentos e em vários papeis, tal qual a Eve Herrington, vivida de forma impressionante por Anne Baxter, no clássico estrelado por Bette Davis. Com um elenco recheado de estrelas e inspiradíssimo, a obra conta com várias cenas inesquecíveis, como na parte em que, após apanhar na rua, Agrado se olha no espelho e diz estar parecida com o Homem Elefante, por causa de seus hematomas. Em tempos em que o preconceito, a ódio e a intolerância andam em alta - motivados por uma inexplicável ascensão de alas conservadoras de direita - os filmes do Almodóvar são um verdadeiro respiro, nunca sendo demais recordá-los.
Ao final de Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre) um letreiro indica que a obra é dedicada a "todas as atrizes que viveram atrizes. A todas as mulheres que representam. Aos homens que representam e se tornaram mulheres. A todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe". Nesse sentido, não é demais lembrar que o cinema de Pedro Almodóvar sempre foi pródigo em sua análise do universo feminino - com as mulheres sustentando as mais variadas tramas -, e é muito provável que com esta película este nostálgico "fetiche" tenha atingido o seu ápice. Em tela mulheres de todos os tipos: apaixonadas, vigorosas, empáticas e humanas buscando se encontrar em um mundo em que tragédia e riso caminham lado a lado, sendo sempre possível, a despeito das peças pregadas pelo destino, seguir em frente, perdoar e, enfim, recomeçar.
Na história acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Após assistirem uma encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo (foi o presente de aniversário da mãe), Esteban se esforça para pegar um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes) - que interpreta Blanche Dubois -, correndo atrás do táxi que lhe conduz pelo subúrbio. Por uma fatalidade, ele é atropelado e acaba falecendo. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê.
Em sua jornada, Manuela reencontrará a antiga amiga Agrado (Antonia San Juan) e conhecerá a jovem freira Rosa (Penelope Cruz), que se tornará sua protegida após esta descobrir uma inesperada gravidez. E já que coincidência pouca é bobagem, Manuela começará a trabalhar para Huma, após um curioso (e revelador) encontro entre ambas. O filme se desenrola a partir desses pequenos recortes que envolvem o convívio de todas elas, suas idas e vindas, suas tentativas de resolver as angústias que não lhes deixam acalmar o coração. Luto, uso de drogas, HIV, dissimulação da Igreja Católica e prostituição são assuntos que funcionam como fios condutores da narrativa que, ao fim do cabo, discute a importância da sororidade, da absolvição e da compreensão das diferenças. É uma obra colorida, alegórica, de gargalhada e de choro em igual medida e de um olhar carinhoso, especialmente para aquelas figuras que vivem a margem da sociedade.
Tido pela crítica como o melhor filme de Almodóvar - não por acaso faturou o Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na cerimônia do ano 2000 - a película ainda é um requinte no que diz respeito às suas referências, que vão da já citada peça de Tenessee Williams ao filme A Malvada (1950) - e aqui vale prestar atenção no aspecto metalinguístico da narrativa, com Manuela "substituindo" pessoas em vários momentos e em vários papeis, tal qual a Eve Herrington, vivida de forma impressionante por Anne Baxter, no clássico estrelado por Bette Davis. Com um elenco recheado de estrelas e inspiradíssimo, a obra conta com várias cenas inesquecíveis, como na parte em que, após apanhar na rua, Agrado se olha no espelho e diz estar parecida com o Homem Elefante, por causa de seus hematomas. Em tempos em que o preconceito, a ódio e a intolerância andam em alta - motivados por uma inexplicável ascensão de alas conservadoras de direita - os filmes do Almodóvar são um verdadeiro respiro, nunca sendo demais recordá-los.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Pérolas da Netflix - Temporada
De: André Novais Oliveira. Com Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria e Hélio Ricardo. Drama, Brasil, 2019, 113 minutos.
Temporada é aquele tipo de filme que parece sobre o nada mas que, na verdade, é sobre tudo ao mesmo tempo. Não por ser algum tipo de projeto ambicioso e hiperbólico e sim por apostar na sutileza como forma de abordagem para temas relacionados a diferenças sociais, a solidão e a busca pela felicidade. É o filme sobre o cotidiano. Sobre a vida real. Sobre errar e acertar. Ou sobre deixar o passado para trás para tentar tudo de novo. E novamente. E o pior: em um País que não costuma olhar com carinho para as classes menos favorecidas ou vulneráveis. Na trama acompanhamos a jornada de Juliana (a espetacular Grace Passô) que está se mudando de Itaúna para a periferia de Contagem, em Minas Gerais, para trabalhar como agente de controle da dengue na região. No local, enquanto se ambienta a sua rotina e aos novos colegas de trabalho, ela tenta se "acertar" com o marido, que ignora todas as tentativas de contato.
E o filme é mais ou menos isso. Ou parece só isso. No final de semana uma ou duas cervejas, no dia a dia o trabalho, os encontros com pessoas conhecidas e desconhecidas, o cotidiano, a brasilidade. O flerte com algum colega. As roupas simples e os diálogos idem. A fotografia quente da cidade periférica. Os corpos fora do padrão - especialmente os de Hollywood - que se assemelham ao meu e ao seu, que lê esse texto. Uma das críticas à Temporada é que, no filme, não há um arco dramático mais aprofundado, mais bem definido. Mas é o filme político, sem ser panfletário, sem precisar esfregar nada na cada. Há, aqui e ali, uma discussão sobre precárias condições de trabalho, sobre salários baixíssimos (mesmo pra quem é concursado), sobre as dificuldades para que as contas fechem e os sonhos permaneçam.
E como o diretor André Novais Oliveira (do premiado Ela Volta na Quinta) faz isso? Com sequências como aquela em que vemos Juliana e Hélio (Hélio Ricardo) sentados diante de uma espécie de estação de tratamento de esgoto. No lugar de belas paisagens cotidianas, a realidade nua e crua, feia. As edificações acinzentadas e disformes. Sem lógica. Paupérrimas, como a casa adaptada por Juliana, que se vira como pode e aceita a condição que lhe é imposta. O mesmo valendo para o trabalho e para as reações diversas das pessoas que recebem os agentes - mal humoradas, tristes, solitárias, benevolentes. Há uma curiosa mistura de tudo nessa obra absurdamente naturalista em que não sabemos exatamente para o que torcer, como ficar ou de que forma olhar, sendo que só o que conseguimos sentir o tempo todo é empatia por aquele coletivo torto, que pega ônibus, que come no dogão, que fala em um linguajar cheio de gírias, que procrastina e que vai no pagode.
E há ainda o personagem Russão (Russo APR), com o seu inacreditável carisma, que sonha em poder abrir uma barbearia pra levantar uma grana extra, que possibilitará melhores condições para o filho. É o dia a dia da informalidade, livre, direta, que representa uma ruptura justamente por não ser óbvia, como em qualquer outra obra. Com longos planos sequência, o filme centra a sua força nos diálogos e nas atuações - rudes e comoventes em igual medida -, que atingem seu ápice em uma comovente aparição de Dona Zezé (a falecida mãe do diretor), que interpreta uma senhorinha querida, que oferece bolo e café para Juliana, lembrando a ela que "saco vazio não para em pé". Na nebulosidade do Brasil que perde o seu encanto, ainda há a cordialidade a ser encontrada, o anseio de vida no riso e no choro. O mesmo riso e o mesmo choro que o espectador alternará, desavergonhadamente, ao assistir a essa verdadeira pérola do cinema nacional.
Temporada é aquele tipo de filme que parece sobre o nada mas que, na verdade, é sobre tudo ao mesmo tempo. Não por ser algum tipo de projeto ambicioso e hiperbólico e sim por apostar na sutileza como forma de abordagem para temas relacionados a diferenças sociais, a solidão e a busca pela felicidade. É o filme sobre o cotidiano. Sobre a vida real. Sobre errar e acertar. Ou sobre deixar o passado para trás para tentar tudo de novo. E novamente. E o pior: em um País que não costuma olhar com carinho para as classes menos favorecidas ou vulneráveis. Na trama acompanhamos a jornada de Juliana (a espetacular Grace Passô) que está se mudando de Itaúna para a periferia de Contagem, em Minas Gerais, para trabalhar como agente de controle da dengue na região. No local, enquanto se ambienta a sua rotina e aos novos colegas de trabalho, ela tenta se "acertar" com o marido, que ignora todas as tentativas de contato.
E o filme é mais ou menos isso. Ou parece só isso. No final de semana uma ou duas cervejas, no dia a dia o trabalho, os encontros com pessoas conhecidas e desconhecidas, o cotidiano, a brasilidade. O flerte com algum colega. As roupas simples e os diálogos idem. A fotografia quente da cidade periférica. Os corpos fora do padrão - especialmente os de Hollywood - que se assemelham ao meu e ao seu, que lê esse texto. Uma das críticas à Temporada é que, no filme, não há um arco dramático mais aprofundado, mais bem definido. Mas é o filme político, sem ser panfletário, sem precisar esfregar nada na cada. Há, aqui e ali, uma discussão sobre precárias condições de trabalho, sobre salários baixíssimos (mesmo pra quem é concursado), sobre as dificuldades para que as contas fechem e os sonhos permaneçam.
E como o diretor André Novais Oliveira (do premiado Ela Volta na Quinta) faz isso? Com sequências como aquela em que vemos Juliana e Hélio (Hélio Ricardo) sentados diante de uma espécie de estação de tratamento de esgoto. No lugar de belas paisagens cotidianas, a realidade nua e crua, feia. As edificações acinzentadas e disformes. Sem lógica. Paupérrimas, como a casa adaptada por Juliana, que se vira como pode e aceita a condição que lhe é imposta. O mesmo valendo para o trabalho e para as reações diversas das pessoas que recebem os agentes - mal humoradas, tristes, solitárias, benevolentes. Há uma curiosa mistura de tudo nessa obra absurdamente naturalista em que não sabemos exatamente para o que torcer, como ficar ou de que forma olhar, sendo que só o que conseguimos sentir o tempo todo é empatia por aquele coletivo torto, que pega ônibus, que come no dogão, que fala em um linguajar cheio de gírias, que procrastina e que vai no pagode.
E há ainda o personagem Russão (Russo APR), com o seu inacreditável carisma, que sonha em poder abrir uma barbearia pra levantar uma grana extra, que possibilitará melhores condições para o filho. É o dia a dia da informalidade, livre, direta, que representa uma ruptura justamente por não ser óbvia, como em qualquer outra obra. Com longos planos sequência, o filme centra a sua força nos diálogos e nas atuações - rudes e comoventes em igual medida -, que atingem seu ápice em uma comovente aparição de Dona Zezé (a falecida mãe do diretor), que interpreta uma senhorinha querida, que oferece bolo e café para Juliana, lembrando a ela que "saco vazio não para em pé". Na nebulosidade do Brasil que perde o seu encanto, ainda há a cordialidade a ser encontrada, o anseio de vida no riso e no choro. O mesmo riso e o mesmo choro que o espectador alternará, desavergonhadamente, ao assistir a essa verdadeira pérola do cinema nacional.
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