quinta-feira, 3 de março de 2016

Cinemúsica - Magnólia

One is the loneliest number that you'll ever do
Two can be as bad as one
It's the loneliest number since the number one (...)

One is the loneliest number, much much worse than two

One is the number divided by two

Li em algum lugar que viver é acumular tristezas. Ou que somos aquilo que perdemos.
As perdas tem o poder de definir-nos como pessoas, moldando nossas defesas frente ao mundo - são os muros reais ou metafóricos que construímos de modo a nos preservar como espécie frente a nossos pares, tão falhos quanto nossas atrapalhadas existências.

Difícil saber por quais situações o diretor Paul Thomas Anderson (responsável por Boogie Nights e Sangue Negro, dentre outros) passou para compor a obra-prima moderna Magnólia, em 1999, com apenas 29 anos de idade. Responsável pelo roteiro e direção do filme, Anderson inspirou-se nas canções da cantora e amiga Aimee Mann e na obra de Robert Altmann (influência confessa) para criar a sua tese através de histórias múltiplas de personagens que se chocam em momentos limites de suas vidas, em uma noite chuvosa na busca de redenção e afeto. E o resultado não poderia ser mais sublime ou tocante - tal qual uma chuva de canivetes (ou de sapos) rasgando a pele de quem atrever a se aventurar nas mais de 3 horas de duração da obra.

Parafraseando Beto Cupertino (Violins), Anderson inventou a própria missa para louvar o acaso e o absurdo humanos, ao iniciar narrando casos "estranhos", de coincidências que não, não podem ser somente "mais uma daquelas coisas" - algo que me fez remeter a um caso recente em mais um exemplo daquelas ironias inimagináveis (e trágicas) cujo roteiro de ficção algum seria capaz de criar.

A forma com que a música é utilizada aqui é bastante ilustrativa, com a melancolia e beleza das canções comentando pontos-chave da trama, a começar pela abertura pós-prólogo narrado em off com a evocativa canção One. Além disso, como esquecer da cena em que o antigo quiz kid Donnie Smith (interpretado de forma tocante e tragicômica por William H. Macy) adentra um bar sob a trilha de Goodbye Stranger, do Supertramp, e todo o clima da cena e suas expressões faciais revelam as verdadeiras motivações de seu personagem (sua paixão e, principalmente, expondo o motivo para o mesmo decidir colocar aparelho nos dentes mesmo sem precisar)? Como o mesmo revela: "eu tenho muito amor para dar, só não sei onde colocar as coisas" em um momento de vulnerabilidade pela qual (quase) todos já passamos alguma vez na vida.


Ao sequenciar de forma sufocante temas como traição, culpa, doenças (físicas e psíquicas), traumas, arrependimentos, relações familiares, amorosas e de trabalho, somos levados a uma espiral de emoções e sentimentos cujo sofrimento parece impossível escapar - e é justamente neste momento que o toque de midas do diretor se faz presente: e se em determinado momento uma epifania coletiva acontecesse? Eis que então surge a linda canção Wise Up, com sua letra ("isto não irá acabar / enquanto você não se tocar") entoada em coro pelo elenco, funcionando quase como um purgatório para as almas atormentadas, antecipando a catarse que há de vir.


Servindo como ponto de equilíbrio aos demais, os personagens do policial Jim (vivido de forma sutil e sensível por John C. Reily) e do enfermeiro Phil (Phillip Seymour Hoffmann - in memorian) representam a razão - este último em especial é o único a perceber a realidade absurda do evento derradeiro que precede o último ato, enquanto que o primeiro continua sofrendo a humilhação de ter perdido seu instrumento de trabalho (o revólver) em uma emboscada, o que acaba por revelar um aspecto vulnerável de sua personalidade até então não demonstrado.

E eis que no epílogo Anderson resolve fechar a sua ópera de maneira sensível, sutil e simples. Como diz um personagem em certo ponto da narrativa: foi uma história sem um fim, sem uma moral, sem clímax. Ao reconhecer isto, o diretor constrói uma rima belíssima e rica em significados ao colocar frente à câmera a personagem Claudia (a bela Melora Walters), cuja vida repleta de abusos desencadearam seu vício em drogas e uma loucura latente, culminando em sua internação após uma tentativa de suicídio por overdose, e seu pretendente (o agora novamente confiante Jim) que, de costas para a câmera, desencadeia um monólogo tocante em sua simplicidade e entrega frente àquela que, talvez, represente tudo o que vimos até aquele momento: uma pessoa de alma dilacerada e repleta de cicatrizes, com medo de ferir e ser ferida e, por isso mesmo, um "quase" desperdício de vida e beleza. E se digo "quase", é devido à surpreendente capacidade humana em insistir na busca de afeto e amor, mesmo frente às adversidades e justamente ao confiar naqueles que são os mais capazes de nos ferir e, paradoxalmente, nos salvar.


E que este sentimento venha representado atado em uma camisa de força, na eterna luta loucura x razão, é a prova de que Paul Thomas Anderson compreendeu, de forma surpreendentemente precoce, aquilo que nos move. E eu tenho certeza que, no olhar e sorriso final de Claudia para a câmera, temos o criador desta magnífica obra piscando para o espectador ciente de ter passado o seu recado... 





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