segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Cinema: O Regresso (The Revenant)

De: Alejandro González Iñárritu. Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy e Domhnall Gleeson. Drama/Aventura, EUA, 2015, 156 minutos.

Uma das maravilhas da Sétima Arte é conseguir nos transportar a lugares e situações que comumente não vivenciaríamos, fazendo-nos imergir em paisagens variadas ao experimentarmos diversos sentimentos no conforto da poltrona do cinema ou de nossos lares. Algumas obras são mais do que apenas uma história a ser contada, nos tirando da zona de conforto ao proporcionar uma verdadeira experiência sensorial. É assim nos filmes de diretores como Stanley Kubrick, Terrence Malick, David Lynch e Nicolas Winding Refn - para ficar nos primeiros exemplos que me vem à mente - e é o caso agora do oscarizado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, do sensacional Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), com o recém chegado O Regresso (The Revenant).

O filme conta a história (inspirada em fatos reais) de Hugh Glass (DiCaprio) que, em 1823, serviu de guia em uma expedição de caçadores de peles em terras indígenas americanas e que, após ser atacado por um urso, foi deixado à mercê da própria sorte pelo integrante John Fitzgerald (Hardy) - que deveria zelar pelo bem estar de Glass dando um enterro digno para o ferido em seus últimos momentos, visto que este não conseguiria acompanhar a expedição com os demais integrantes. No entanto, com medo de ser alcançado pelos índios e portador de uma antipatia prévia pelo seu parceiro, Fitzgerald (que seria pago pelo serviço) decide não esperar pela morte de seu compatriota, deixando-o agonizando em uma cova coberta com terra - além de ser responsável por uma tragédia envolvendo o filho de Glass (fruto de seu relacionamento com uma indígena, cuja aldeia foi dizimada por caçadores brancos). Movido pelo instinto de sobrevivência, o personagem (interpretado de forma visceral e arrebatadora por DiCaprio) consegue resistir às adversidades, partindo em uma jornada épica em busca de vingança.


Que Iñárritu nunca foi de facilitar a vida para os espectadores não é novidade - é só lembrar de obras intensas do diretor como Amores Brutos, 21 Gramas e Babel para termos uma noção do impacto que o mesmo gosta de deixar em seu público. Mas aqui o buraco é ainda mais embaixo: ao colocar o homem lutando solitariamente contra a natureza inóspita (e humana) o diretor mexicano nos transporta para uma jornada impactante repleta de violência, angústia, tristeza e desesperança. Ao repetir a parceria com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (A Árvore da Vida, Gravidade), Iñárritu alcança aqui um resultado sublime e de apuro técnico sem precedentes, com seus já característicos planos-sequência coreografados. Ao optar por filmar apenas utilizando luz natural (aos moldes de Kubrick no clássico e belíssimo Barry Lyndon), a obra ganha uma aura terrencemalickiana ao também capturar paisagens de tirar o fôlego de geleiras e florestas em contraponto à violência gráfica de determinados momentos, imprimindo um realismo poucas vezes visto no cinema - e que me remeteu ao filme O Guerreiro Silencioso, do também supracitado Nicolas Winding Refn.

Muito se falou das dificuldades que a equipe passou durante as filmagens, inclusive do preciosismo de seu diretor, o que teria transformado a produção em um verdadeiro inferno - e que nos remete à obras como Apocalypse Now (de Francis Ford Coppola) e Aguirre, a Cólera dos Deuses (de Werner Herzog), notoriamente conhecidas pelos problemas no set de filmagem. Verdade ou não, é preciso que se diga que os desafios enfrentados refletiram nas brilhantes atuações do elenco: DiCaprio conseguiu aqui imprimir toda a dramaticidade e dor de seu personagem em sua expressão física (o mesmo tem poucos diálogos) e será um milagre se desta vez a tão famigerada estatueta dourada não vá parar na mão do talentoso ator. Por outro lado, Hardy faz um antagonista à altura ao encarnar Fitzgerald como um homem ganancioso e cruel, porém com motivações próprias - e sua repulsa aos indígenas não soa caricata ao descobrirmos mais sobre seu passado e suas motivações, além, é claro, de sua busca pela sobrevivência em um mundo de constante luta e ameaça.

Recordista de indicações ao Oscar 2016 (12 categorias), O Regresso é um filme de roteiro simples, sem grandes enredos ou reviravoltas. Apesar de pecar aqui ou acolá pela falta de sutileza em sua mensagem crítica ao genocídio indígena pelos imigrantes, é uma obra de qualidade técnica inquestionável - são vários os momentos em que me peguei perguntando: como filmaram isso? - e onde tudo funciona incrivelmente bem (penso que o ritmo lento, arrastado, seja necessário para o que se propõe). Contra-indicado a pessoas sensíveis e longe de deixar uma sensação agradável em quem sair da sessão, o filme é mais uma amostra de como o cinema é capaz de nos transportar a lugares onde nunca pensaríamos estar e, por isso mesmo, O Regresso é uma experiência marcante que ficará muito tempo na memória de quem a vivenciou.

Nota: 9,0


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Disco da Semana II - Matheus Brant (Assume Que Gosta)

Pra fazer a resenha do segundo disco do mineiro Matheus Brant não tive contato com o encarte do registro, intitulado Assume Que Gosta. Mas é preciso que se diga que não haveria nenhum equívoco, se, as vésperas da maior festa do nosso País, o álbum viesse com um subtítulo em forma de pergunta: e quem foi que disse que hipster não pode gostar de carnaval? Arrocha, axé, pagode, marchinha, sertanejo e outros estilos populares, formam a base do grande caldeirão de referências promovido pelo artista, que, aos moldes de outros de sua geração - como os divertidíssimos Rafael Castro e Jaloo (ambos na nossa lista de 25 Melhores Discos de 2015) - combinam ritmos reconhecidamente mais comerciais, com guitarras, violões ao estilo MPB, bateria bem marcada, psicodelia, dub e toneladas de sintetizadores. Algo capaz de jogar o trabalho para uma linha limítrofe entre a apresentação no programa do Faustão e a aparição em festivais de música alternativa Brasil afora.

Já na abertura do disco, Brant parece convidar os ouvintes a se despirem dos preconceitos, aproveitando o ensejo para fazer uma brincadeira no estilo entra no clima que tu vai te divertir. "Assume que gosta de mim assim / Assim como gosta de um pagodinho / Me beija", brinca o cantor na inaugural canção homônima, em meio a sintetizadores ensolarados e bateria ritmada. Mesmo estratagema é adotado na música seguinte, sugestivamente chamada de A Levada do Arrocha: "Você fala que não gosta da levada do arrocha / Mas quando toca nem nota seu quadril querendo ir". É o regionalismo e o indie se encontrando. Se abraçando. E se querendo, como provam as letras absolutamente sacanas e divertidas, mas sem perder a ternura, como na excepcional #Magrela: "Vi a batata da perna dela / Quando pisa no pedal". Acredite: é muito provável que, a essa hora, você já esteja dançando feito doido na sala.


Ainda assim, caso você ainda não tenha se impressionado até a guitarrística e oitentista Hoje o Dia É Seu - e isso que no meio do caminho tem a regravação ultrapop de Abandonado, do Exaltasamba -, o "Lado B" aparece pra colocar no jogo aquele sujeito mais desconfiado - e apostando num estilo mais direto de diálogo. A Balada é sertanejão universitário de primeira - sim, acredite, mas daquele universitário meio CDF, que se conste - e que não faria feio em programas do segmento (alô Rudimar Piccinini!). Carnaval é daquelas marchinhas deliciosas, com letra autorreferencial, que bem poderiam estar no disco III do Maglore. Sereia e Me Namorar mantém o clima ensolarado, festivo e sacana até a chegada da maravilhosa Pagode, simplesmente a melhor faixa do disco e grande candidata a música do ano (nem que seja aqui no Picanha!). Dançante, popular, divertida e com letra espertíssima, parece resumir em uma faixa o clima que permeia todo o registro. O fechamento com a ótima Marchinha Francesa e as versões em dub do americano Victor Rice garantem a empolgação até o último segundo da audição.

Brant é advogado de formação e escritor e quando lançou o EP A Música e o Vazio no Trabalho, em 2014, o fez como complemento para a sua dissertação de mestrado - material que compila reflexões jurídicas com base na obra de Hannah Arendt. Nesse sentido, portanto, não é difícil perceber como a bagagem cultural contribui para a fruição de sua criação, que é simples apenas na aparência, já que as melodias, as letras e os arranjos, como um todo, guardam certa complexidade. Participações especialíssimas - como a do baterista Lenis Rino (Fernanda Takai), dos guitarristas Dustan Gallas (Cidadão Instigado) e João Erbetta (que faz parte da banda de apoio de Marcelo Jeneci) e dos produtores Fábio Pinczowski e Mauro Motoki (Lucas Santtana e Siba) garantem exuberância e consistência para a obra. Assim como as presenças das cantoras Juliana Perdigão e Luê que contribuem com o registro. Lançado estrategicamente, ou não, pouco antes do carnaval, Assume que Gosta - com sua capa festiva e purpurinada - consegue fazer com que os alternativos tenham um disco no gênero pra chamar de seu. O que não é pouca coisa.

Nota: 8,5

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Especiais Oscar: 10 Grandes Injustiças na Escolha do Melhor Filme

Existe uma verdadeira ideia fixa, quase uma obsessão, que tem rondado a mente dos cinéfilos de plantão, nesses dias que antecedem a escolha dos grandes vencedores da principal premiação do cinema - o Oscar é no dia 28 de fevereiro: será que dessa vez o Leonardo DiCaprio ganha? Quem já viu o filme O Regresso (The Revenant) - nós do Picanha ainda não assistimos e a estreia é amanhã (04/02) - garante que a sua entrega ao papel é arrebatadora e, consequentemente, merecedora da distinção. Mas vem cá, o nosso querido Leo não deveria já ter ganho o Oscar? Seus papeis em Django Livre (2012) e O Lobo de Wall Street (2013), não seriam dignos da premiação? Houve injustiça? Bom, esse debate certamente rende horas de conversa.

Inspirado por este fato, resolvemos ir atrás de outras "injustiças" da premiação, nos indagando sobre quais teriam sido as maiores equívocos - na falta de outra palavra - na hora de escolher os vencedores da categoria principal. O resultado você confere abaixo, no nosso segundo post dos Especiais Oscar, com 10 Grandes Injustiças na Escolha do Melhor Filme.


#1 Cidadão Kane perde para Como Era Verde o Meu Vale


 Não é que o filme de John Ford seja ruim. Muito pelo contrário, é um simpático drama em tom de fábula melancólica sobre a vida de um grupo de mineradores em uma cidadezinha do interior do País de Gales. Mas o caso é que Cidadão Kane, de Orson Welles, com sua história potente sobre o magnata das telecomunicações Charles Foster Kane, aliada as suas inovações técnicas, complexidade narrativa, flashbacks e diferentes perspectivas, é simplesmente o melhor filme de todos os tempos - sendo bicampeão nas listas especiais do American Film Institute (AFI). Só a Academia não percebeu o potencial da película - que é exibida até em hoje em cursos de Cinema - concedendo a ela apenas um prêmio: o de Melhor Roteiro no Oscar de 1942.


#2 Apocalypse Now é preterido por Kramer Vs. Kramer


Hoje se sabe que as filmagens desse clássico sobre os horrores - especialmente os psicológicos - da Guerra do Vietnã foram cheias de problemas, com Marlon Brando aparecendo 40 quilos mais gordo do que o previsto para a produção e Martin Sheen (que vive o capitão Willard) quase morrendo de infarto logo no começo das gravações. Fora o tempo para conclusão da obra, de quase dois anos - o que acabou contribuindo para que se formasse um curioso paradoxo entre arte e realidade, na abordagem da loucura de um conflito. É claro que isso não seria suficiente para uma conquista do Oscar, mas é que a película é um filmaço cheio de frases e sequências clássicas! O Oscar de Melhor Filme em 1980? Ficou para Kramer Vs. Kramer, que, hoje em dia, pouca gente lembra da existência.


#3 Rocky: Um Lutador supera Taxi Driver


Olhando para trás, hoje em dia, até parece uma piada de mau gosto da Academia a premiação para o filme protagonizado por Sylvester Stallone em detrimento a uma obra tão marcante como foi Taxi Driver. Não é só pela famosa e icônica frase "are you talking to me?" até hoje imitada e parodiada mundo afora. Robert De Niro literalmente leva esse filmaço de Martin Scorsese nas costas, interpretando o motorista de táxi do título, veterano da Guerra do Vietnã, que fica de saco cheio em relação ao mundo de miséria, violência e prostituição que o rodeia, nas madrugadas de trabalho. Sobre a obra vencedora? Para os votantes de 1977 pareciam mais impactantes as sequências de luta em um daqueles filmes edificantes da Sessão da Tarde.


#4 E os maiores clássicos de Hitchcock, onde estão?


O problema com Alfred Hitchcock não foi nem o fato de ter perdido a estatueta na grande noite do cinema, com inesquecíveis obras-primas, como Um Corpo Que Cai (1958) ou Janela Indiscreta (1954). Foi, em muitos casos, a circunstância de sequer ter sido nominado. Peguemos como exemplo o clássico Psicose, tido pelo AFI como o 14º Melhor Filme da História em sua conhecida lista de 10º aniversário, lançada em 2007. O vencedor no Oscar de 1961? O inegavelmente saboroso Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder. Mas bem que o clássico do Mestre do Suspense poderia ter pego alguma das outras vagas, ocupadas por filmes hoje pouco lembrados como Peregrinos da Esperança e Entre Deus e O Pecado. Não pegou, em uma das maiores pisadas de bola da história.


#5 Operação França leva a melhor sobre Laranja Mecânica


O caso com o clássico de Stanley Kubrick é ainda mais dramático do que o de outros que figuram nessa lista. Além de perder a principal estatueta da noite para Operação França, de William Friedkin, ainda saiu da premiação de mãos abanando, sendo derrotado também em outras categorias, como Diretor, Roteiro Adaptado e Edição. Operação França até não é um mau filme - é correto, bem feito e trem a famosíssima cena da perseguição sob a ponte. Mas, ainda assim, não tem nem a metade da potência e da riqueza de significados da história narrada por Kubrick, sobre um grupo de sociopatas que incluem em suas práticas as agressões físicas, o estupro e a ultraviolência, em uma obra acachapante sobre a alienação humana.


#6 2001 - Uma Odisseia no Espaço é ignorado pelos acadêmicos


Assim como Hitchcock, Stanley Kubrick parecia enfrentar sérios problemas com a Academia - como comprova a esnobada fenomenal ao inesquecível 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), que no Oscar de 1969 sequer figurou entre os finalistas. E isso tudo em um ano que, vamos combinar, foi pra lá de fraco - o vencedor foi Oliver! de Carol Reed, seguido de perto pelos insignificantes O Leão do Inverno e Rachel, Rachel. Hoje, a pretensiosa e enigmática aventura sobre a relação homem-máquina, com enredo complexo e hermético encontrou sua redenção, em listas como as do AFI - é o 15º Melhor Filme da História e em livros como 1001 Filme Para Ver Antes de Morrer - publicação que, Oliver!, ironicamente, sequer aparece.


#7 E O Luzes da Cidade? 


O título de gênio que Charlie Chaplin carrega hoje em dia parecia não fazer parte da lógica dos integrantes da Academia. Luzes da Cidade (1931) talvez seja o mais singelo, delicado e saboroso filme sobre desventuras amorosas que se tem notícia - e segue sendo assim até hoje, podem confiar. Mas no Oscar de 1932, nada do vagabundo mais conhecido do mundo entre os nominados. O vencedor foi o clássico Grande Hotel, de Edmund Goulding. Entre os SETE - acredite - demais indicados, nada do ótimo Luzes da Cidade. O filme, assim como outros de Carlitos, era mudo - que, em uma época de inovações tecnológicas era considerado certo anacronismo (com o som em vigor desde 1927). O que explica a esnobada do clássico, que é o 11º na lista da AFI.


#8 Touro Indomável perde para Gente Como a Gente: 


Vou confessar a vocês o fato de nunca ter assistido Gente Como a Gente - e não quero cometer nenhuma injustiça nessa lista, vamos combinar. Mas penso ser praticamente impossível crer que o filme de Robert Redford - sua estreia em direções, por sinal - seja melhor do que esse clássico de Scorsese, baseado em fatos reais, que mostra a ascensão e queda do boxeador Jake LaMotta (Robert De Niro, em um de seus grandes papeis), que com seu temperamento violento, possessivo e autodestrutivo, vê sua vida pessoal e carreira se esfacelarem. Um filmaço, que hoje ocupa o quarto lugar na lista do AFI - e se eu cometi injustiça com o Gente Como a Gente, me digam, por favor! Como curiosidade extra: O Iluminado, de Kubrick, não apenas não foi indicado a Melhor Filme, em 1981, como ainda foi nominado, pasme, para o Framboesa de Ouro.


#9 Crash - No Limite é melhor do que O Segredo de Brokeback Mountain?  


A Academia, todos nós sabemos, é famosa pelo conservadorismo - os votantes são compostos, em sua maioria, por homens brancos, com idade média de 63 anos. Ainda assim, o circo estava armado para que, em 2006, houvesse uma salutar quebra de paradigma, com a provável vitória do filme de Ang Lee, que trata sobre uma dupla de caubois que inicia um relacionamento amoroso durante uma temporada de verão em que trabalham juntos pastoreando ovelhas. Mas na hora de anunciar o grande ganhador da noite, o prêmio foi parar nas mãos do ótimo Crash - No Limite, do diretor Paul Haggis, que pouco aparecia como provável vencedor nas bolsas de apostas pré-Oscar. Há quem diga que esta foi a última grande injustiça na categoria Melhor Filme.


#10 Uma inexplicável esnobada em Cantando na Chuva: 



Cantando na Chuva não é apenas o melhor musical já feito em Hollywood. É também uma das mais divertidas, carismáticas, inteligentes e inesquecíveis comédias já feitas para o cinema. Como então explicar o fato de que a Academia resolveu indicar o clássico de Stanley Donen em apenas duas categorias - Atriz Coadjuvante e Música? A ausência na principal categoria da noite - e isso numa época em que os musicais estavam em alta - representou caminho aberto para o megalomaníaco O Maior Espetáculo da Terra - de Cecil B. DeMille vencesse o Oscar de 1953 - a exceção de Matar ou Morrer, de Fred Zinemann os demais concorrentes são pouco lembrados. O reconhecimento a essa saborosa homenagem ao cinema mudo veio mais tarde - hoje, Cantando na Chuva é o quinto colocado na lista do AFI.

E vocês? Lembram de algum filme que merecia ter tido melhor sorte na corrida pelo Oscar? Escreva pra gente! =)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Disco da Semana - Suede (Night Thoughts)

Após a morte do ídolo David Bowie, a sensação de ficarmos órfãos da música que o artista nos presenteou durante a sua passagem por esse mundo foi inevitável. Mas como todo grande artista seu legado marcou inúmeros outros, influenciando de forma substancial diversas bandas que surgiram a partir daí. Os britânicos do Suede talvez sejam uma das maiores provas disso: ao iniciar sua carreira no início dos anos 90, a banda capitaneada pelo vocalista e compositor Brett Anderson e o guitarrista Bernard Butler (um dos favoritos de quem vos escreve, que veio a deixar a banda após o magnífico segundo disco, Dog Man Star, de 1994) soube unir como ninguém o glam rock do supracitado ícone Bowie ao britpop dos irmãos Gallagher e do Blur. Depois de um hiato entre os álbuns A New Morning (2002) e o retorno em grande estilo Bloodsports (2013), eis que o grupo volta a nos presentear em 2016 com seu mais novo petardo, Night Thoughts.

Concebido como uma espécie de ópera rock, o disco foi lançado acompanhado de um filme (dirigido pelo documentarista Roger Sargent) que narra a história das reminiscências de uma tragédia familiar na mente de um homem levado a cometer suicídio jogando-se ao mar, enquanto este se afoga. Mas calma: se você pensa que encontrará uma espécie de climão a lá No Surprises do incensado álbum Ok Computer do Radiohead, você está enganado. Ou se por acaso o termo "ópera rock" já te deixa com o pé atrás, pode ficar tranquilo. O máximo de rock progressivo que encontraremos aqui é a junção entre uma faixa e outra e o clima grandioso, orquestrado e quase épico que, convenhamos, nunca deixou de fazer parte totalmente das obras da banda. No mais, é aquele bom e velho "Suedão" a que estamos acostumados - e vale muito a pena!


Repetindo a parceria com o guitarrista Richard Oakes, responsável pelas guitarras flamejantes do popíssimo Coming Up (de 1997, do hit Beautiful Ones) e dos discos posteriores, Anderson retoma aqui a sonoridade guitar pop do já citado álbum com a temática mais densa de sua obra-prima, Dog Man Star, ao tratar de temas como depressão, paixão, traição e frustração embebidos em uma atmosfera catártica porém noturna, romântica. Do início climático com When You Are Young  ao quase término com When You Were Young temos uma reflexão a respeito da percepção do amor com a passagem do tempo. A frustração frente aos desejos não realizados são jogados na cara do ouvinte já no título das canções: No Tomorrow,  I Don't Know How to Reach You, What I'm Trying to Tell You e I Can't Give Her What She Wants são bons exemplos disso.

Faixas como Outsiders de cara já entram para o rol de maiores hits da banda, com seus riffs bem construídos, baixo pulsante e refrão marcante - um baita som que me remeteu ao álbum Here Comes the Tears, obra excepcional de 2005 da banda The Tears (formada por Anderson e Bernard Butler em um ensaio do que poderia eventualmente ser o retorno do Suede à sua formação original - o que não aconteceu, Butler seguiu carreira solo). O mesmo vale para Like Kids, que segue o clima mais alegre, aliviando um pouco a barra ao relembrar dos momentos em que o amor era mais leve, doce e passível de ser realizado - o que é reforçado pelo coro infantil que acompanha determinados trechos da canção. E, claro, as baladas não poderiam deixar de estar presentes: a dramática Tightrope, a lenta Learning to Be, até o final com a pungente The Fur & The Feathers são mais uma prova de que o rock, além de divertir, é capaz de mexer com nossos sentimentos de forma ímpar - e o Suede sabe disso como ninguém. Poder conceber uma obra do quilate de Night Thoughts neste ponto da carreira é algo que deve ser valorizado - e aplaudido.

Nota: 8,5.

Grandes Cenas do Cinema: O Pecado Mora ao Lado

Existem cenas da história do cinema que são tão icônicas, que, muitas vezes, as pessoas nem precisam ter assistido o filme pra saber de qual obra se trata. Pegue-se o exemplo da famosa cena do chuveiro, em Psicose (1960). Oras, é uma sequência tão clássica, que, mesmo quem nunca apreciou a obra-prima de Hitchcock, é capaz de relacioná-la ao suspense de Norman Bates e Marion Crane. Talvez esse não seja o caso da famosíssima "cena do metrô", protagonizada por Marilyn Monroe no filme O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955), pequena comédia romântica do grande Billy Wilder. O caso com essa película é que (talvez) a inesquecível sequência tenha se tornado maior do que o filme em si, já que não poucos os casos em que as pessoas - mesmo as amantes de cinema - fazem alguma confusão na hora de mencionar a cena.


O caso é que O Pecado Mora ao Lado era uma obra menor de Billy Wilder - dos inesquecíveis Pacto de Sangue (1944), Crepúsculo dos Deuses (1950) e Quanto Mais Quente Melhor (1959), isso só pra citar alguns. Ainda que tenha se tornado grande sucesso de público, evidentemente. A trama, até meio bobinha, falava sobre a conhecida "crise dos sete anos" (o tal seven year itch, do original), que aflige homens casados. Some-se a esse contexto a esposa e o filho em férias e uma vizinha que, enfim... é A VIZINHA e, bom, está criado o cenário para um eventual fim do matrimônio. Ainda que não esteja entre os grandes clássicos da sétima arte - hoje o filme até soa um pouco datado e machista - a cena em que o vestido de Marilyn voa ao passar sobre os dutos do metrô permanece como uma das mais clássicas do cinema. Mesmo que essa sequência tenha se tornado ainda mais famosa por fotos lançadas posteriormente pela produção - já que o Código de Conduta de Hollywood não admitia certos "exageros", na época.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cinema - Trumbo: Lista Negra (Trumbo)

De: Jay Roach. Com Bryan Cranston, Michael Stuhlbarg, Diane Lane, Helen Mirren e Louis C.K. Biografia / Drama, EUA, 2015, 125 minutos.

Em determinada cena do recém lançado Trumbo: Lista Negra (Trumbo, 2015), um representante do famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas - que, no início da Guerra Fria, trabalhou para descobrir "ameaças subversivas que pudessem romper com os valores democráticos norte-americanos" - vocifera, para um adepto do Partido Comunista nos Estados Unidos: volta pra União Soviética! E aproveita o Balé Bolshoi! Evidentemente, o tom é de deboche e de ironia. O período - final dos anos 40 e início dos 50 - é o da conhecida Caça as Bruxas, promovida, entre outros, pelo senador Joseph McCarthy, que procurava banir a ameaça vermelha na Terra do Tio Sam. Algo parecido com o que se vê na internet, hoje em dia, quando representantes de uma nova direita digamos assim mais... extrema costuma dizer "vai pra Venezuela", como forma de se defender dos "horrores" promovidos pela ditadura bolivariana, que vem sendo implementada no nosso querido Brasil há cerca de 15 anos.

É nesse contexto pouco favorável que trabalham - ou tentam trabalhar - uma série de atores, escritores, redatores, publicitários e diretores de Hollywood, entre eles o roteirista Dalton Trumbo, vivido por Bryan Cranston, da série Breaking Bad, que passam a ser perseguidos pelos grandes estúdios ao se aliarem ao Comunismo. Assim, consequentemente, passam a representar uma grande ameaça a Nação com o seu plano de dominação comunista, que poderia envolver a "panfletagem" a partir de filmes e outras obras de arte. Por mais talentoso que Trumbo fosse - e era, como viria a se mostrar a partir da conquista de mais de um prêmio Oscar, com o uso de um pseudônimo - as portas da Meca do cinema mundial se fecharam para ele, que, não obstante, passou boa parte de seus anos preso. E tudo por causa de sua orientação política.


As desventuras de Trumbo, a partir da saída da prisão e as seguidas tentativas para voltar para o mercado de trabalho são filmadas com elegância - a recriação de época é cuidadosa ainda que seja discreta -, mesclando doses certas de humor com drama. Assim como divertem as cenas com o diretor Frank King (John Goodman), são melancólicas aquelas que envolvem a relação de Trumbo com a sua família, uma vez que o sujeito se torna obsessivo pelo trabalho (e pelo dinheiro) - não deixando de ser esta uma fina ironia para um "comuna". Aliás, Trumbo era um bon vivant, gostava de reunir a família, comer e beber bem, sendo chamado, em certa altura da projeção, de "soviético de piscina", numa curiosa atualização para a "esquerda caviar" de hoje em dia. O que talvez torne a expressão atual ainda mais anacrônica e deslocada de seu tempo, dado o contexto de época - e as eventualmente adequadas preocupações em relação ao stalinismo.

Ainda assim, por mais que a mensagem sobre o respeito a diversidade ideológica seja válida, servindo ainda como uma espécie de expiação dos americanos - nos moldes dos filmes alemães antinazismo, guardadas as proporções, evidentemente -, a obra do diretor Jay Roach (Austin Powers) comete alguns pequenos deslizes que parecem denunciar certo maniqueísmo. Algo que pode soar como panfletarismo para muitos. A explicação sobre o que é ser socialista e que envolve um sanduíche talvez não coubesse nem em uma conversa envolvendo alunos dos primeiros anos do ensino fundamental, de tão reducionista - e não é preciso ser nenhum gênio pra saber que o caráter de uma pessoa não está necessariamente relacionado a sua ideologia. E será que o ator John Wayne (David James Eliott, nada parecido, por sinal) era assim tão... boçal? Em determinada cena só faltou ele sacar uma panela e começar a bater nela. Enfim, são detalhes que, numa análise geral, não comprometem o todo.

Nota: 7,5


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Encontro com a Professora - Pacto de Sangue (Double Indemnity)

Billy Wilder e a arte de desconstruir clichês

Engana-se, ao menos em parte, quem pensa que foram atrizes como Theda Bara, Marlene Dietrich, Greta Garbo e Marilyn Monroe que prestaram o maior serviço para a construção da femme fatale no cinema hollywoodiano. Elas engrandeceram a tela, provocaram homens e mulheres, criaram uma aura de gélido distanciamento ou de possibilidades infinitas de prazer. Mas...

...no meio do caminho estava Barbara Stanwyck.


 Esta garota de pouco mais de 1,60m não era exatamente uma beldade. Nem tinha as curvas mais provocantes ou lançava olhares com aquele Je ne sais quoi de Dietrich ou de Garbo. Tanto podia ser uma pacata dona de casa como uma senhora da alta sociedade. Ou seja, não havia em torno dela a construção fixa de femme fatale. O filme que deu a ela esta aura foi o incrivelmente bem feito Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944). Dirigido por Billy Wilder, foi indicado a sete Oscar. O longa é baseado em uma história real que se transformou em romance pelas mãos de James M. Cain, em 1935. O roteiro é de Raymond Chandler, conhecido escritor noir.

No filme, o severo agente de seguros Walter Neff (Fred Mac Murray) conhece e se apaixona por Phyllis Dietrichson (Stanwyck), a atraente esposa de um milionário. Em pouco tempo, Neff abandona a ética e o bom senso e Phyllis o convence a matar o marido dela, a fim de receber o dinheiro do seguro de vida. Mas não pode ser “qualquer” tipo de assassinato. Para receber o dinheiro, é preciso convencer a seguradora que se trata de um acidente pessoal. Desnecessário dizer que as coisas não saem como planejadas. E, na verdade, isso pouco importa.

 

Wilder segue à risca a fórmula do filme noir, sem torná-lo um clichê: uma mulher sedutora e misteriosa; um homem desiludido com a humanidade – no caso de Neff, ele não crê que possa ser enganado, pois conhece o caráter humano –; um "detetive" astuto – o chefe de Neff –; uma série de reviravoltas, um ambiente sufocante, com a prevalência da filmagem em preto e branco. Diferentemente da trama policial clássica (Agatha Christie, Conan Doyle, por exemplo), que garantiu a glória do gênero desde os começos da era industrial, no texto noir escrito a partir de Dashiel Hammett (1894-1961) – de quem Chandler era seguidor – mais importante do que saber quem cometeu o crime é descobrir como se chega à conclusão.

Quando Phyllis Dietrichson desce as escadas, deslumbrando Neff que a vê pela primeira vez, o espectador sabe que ele está encrencado. É também quando Stanwyck, brilhantemente dirigida por Wilder, apresenta e solidifica, em simultaneidade, a femme fatale e a estética noir. Pouco a pouco, a expectativa e a dúvida passam a nos rondar: como tudo isso vai terminar? Como deslindar esta rede – da qual somos comparsas, já que acompanhamos a elaboração e a execução do crime – e na qual os detestáveis vilões se tornaram os protagonistas incontestes, identificando-se com o público? Sobretudo, pesa a pergunta: como alguém tão maduro e idôneo como Walter Neff pode descer a tal nível?


Não há, no entanto, inverossimilhança na mudança de comportamento de Neff. Uma retomada ao início do filme lança luz sobre um homem saturado pela rotina e pela previsibilidade. Para ele, a resposta para o crime é clara: I killed him for money and for a woman. Mas talvez nada seja simples assim e este implícito coloca mais uma estrela na classificação de Pacto de Sangue como um clássico.

Tanto Mac Murray quanto Stanwyck relutaram em aceitar os respectivos papéis. Para convencer Barbara a incorporar Phyllis, Wilder teria lhe perguntado se ela era uma atriz ou um rato. A resposta é o melhor filme noir de todos os tempos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lado B Classe A - Arcade Fire (Funeral)

No mês de outubro de 2005 houve, em Porto Alegre, um noite mágica para este jornalista fã de boa música. E para milhares de pessoas que praticamente lotaram o Pepsi On Stage para assistir uma apresentação dos americanos dos Strokes. Não, você não leu errado. Lembro como se fosse hoje: ao lado dos amigos e eternas parcerias Diogo Botti e Rodrigão Macedo, chegamos cedo para acompanhar a exibição dos sempre legais Acústicos e Valvulados. Entre os gaúchos e a banda de fundo havia um outro show previsto: de um grupo canadense chamado Arcade Fire e que pouquíssimo havia ouvido falar. Confesso que, na ocasião, não tinha tido acesso ao som do grupo, que havia lançado seu primeiro trabalho, Funeral, no finalzinho de 2004. Na real, fora aqueles sujeitos mais antenados ao que ocorria no mundo da música alternativa - Spotify e Deezer eram como um sonho dentro de algum filme futurista - talvez poucos ali soubessem do que estavam prestes a presenciar.

Eu não tenho bem certeza, mas se não me engano a música que abriu a apresentação foi Wake Up. Aquele amontoado de gente no palco - contando todos os instrumentistas, o grupo chega a quase 10 integrantes - aquele falso refrão que é uma barbada de cantar em coro, um tipo de arranjo ao mesmo tempo melancólico e espacial, capaz de jogar o ouvinte lá pro meio dos melhores discos do David Bowie dos anos 70. Tudo somado ainda a emanações etéreas, enevoadas, rasgantes. Sério, poucas vezes tive um baque tão grande com uma banda nova, como naquela noite, naquele show. Pra quem aguardava, entre uma cerveja e outra, a apresentação de Julian Casablancas e companhia, não poderia haver melhor aperitivo. Aperitivo que, na real, veio a se mostrar, nos dias posteriores, uma espécie de suculento prato principal. E que até hoje é capaz de alçar o prazer de se ouvir boa música a um outro patamar.



Nos dias posteriores aquela apresentação, lembro de ter "furado o disco" - pra usar uma expressão bem da época em que ainda ouvíamos CDs - em infinitas audições madrugada adentro. O disco, por muitos anos, foi um dos meus preferidos - condição a que se mantém até hoje, não posso negar. Não se trata apenas de pop perfeito, iluminado quase que literalmente por arranjos de cordas imprevisíveis, sintetizadores bem pontuados e uma série de camadas que ambientam o som dos canadenses entre o otimismo dark e o sofrimento ensolarado. Se trata de uma estreia que conseguiu ser ao mesmo tempo grandiosa e intimista, potente e sutil. Muito se fala que a última grande banda que surgiu nesse milênio - após Nirvana e Radiohead terem dado o último suspiro ainda no século passado - foi, por ironia do destino, o próprio Strokes. Pois eu discordo frontalmente em relação a essa assertiva: com o seu riquíssimo repertório de registros, é do Arcade Fire este posto, até o momento.

Com letras capazes de versar sobre temas tão distintos, como, amadurecimento (Neighborhood #1 - Tunnels), programa espacial soviético (Neighborhood #2 - Laika), nostalgia (Wake Up) e imigração (Haiti), o disco ainda promove uma fácil aproximação com o ouvinte. Não apenas de quem gosta de música alternativa - e talvez até seja exagero enquadrar esse registro no nosso Lado B Classe A - mas também dos fãs de músicas comerciais e radiofônicas. Como ignorar o refrão grudento de Crown Of Love, por exemplo? Ou o compasso absolutamente ritmado e contagiante de Rebellion (Lies)? Ainda assim, o clima geral, e as metáforas empregadas, tem, em seu fundo, a intenção de fazer uma reflexão sobre nossas atitudes durante a vida e sobre como nos preparamos para o ocaso de nossa existência. Não à toa, o clima sacro e o título do álbum efetivamente remetem a morte, já que quatro integrantes perderam parentes próximos semanas antes do lançamento do disco. Algo que talvez também tenha contribuído para a grandiosidade desse registro. Sobre o show dos Strokes, em 2005? Não lembro, pois saímos antes do final. Já satisfeitos com a dose cavalar de boa música que recebemos na ocasião.