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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Armand e os Limites das Famílias (Armand)

De: Halfdan Ullmann Tøndel. Com Renate Reinsve, Ellen Dorrit Petersen e Thea Lambrechts Vaulen. Drama, Noruega / Holanda / Alemanha / Reino Unido / Suécia, 2024, 117 minutos.

Precisamos falar sobre o Armand. Ou sobre Elizabeth. Ou vai ver necessitamos falar sobre muitas outras pessoas que navegam no universo sombrio do excelente drama Armand e os Limites das Famílias (Armand) - estreia do diretor Halfdan Ullmann Tøndel, que é neto de Ingmar Bergman e Liv Ulmann. Quando o filme, que venceu a Câmera de Ouro do Festival de Cannes, começa, temos a impressão de que será uma daquelas narrativas clássicas de pessoas adultas debatendo assuntos muito sérios à portas fechadas, com as revelações ocorrendo aos poucos. Bom, em partes é isso. Mas ao mesmo tempo tem-se aqui uma obra de sutilezas, repleta de ambiguidades e que não tem nenhuma pressa em acontecer. Ou mesmo fornecer qualquer evidência para uma conclusão mais óbvia. Aliás, em alguma medida, essa pode ser aquela produção de que frustra o espectador - especialmente pelo caráter surrealista do terço final.

Na trama, a atriz Elizabeth (Renate Reinsve) é chamada às pressas para a escola em que estuda seu filho Armand, um menino de apenas seis anos. Recebida pela professora Sunna (Thea Lambrechts Vaulen), ela é orientada a aguardar a chegada dos pais de um outro menino - de nome Jon - Sarah (Ellen Dorrit Petersen) e Anders (Endre Hellestveit), para uma reunião. No centro da história uma grave acusação: a de que Armand teria praticado algum tipo de violência, inclusive sexual, contra seu colega, que foi encontrado no banheiro da escola após a agressão. Para Elizabeth algo inconcebível. Para os pais de Jon uma agressão que precisa ser melhor investigada e que toma ares de preconceito a respeito do suposto estilo de vida mais livre de Elizabeth. Aliás, Sarah a acusa de ter se exibido (ou abraçado) seu filho de forma inadequada em visitas à sua casa (os meninos não são apenas amigos, mas também primos, já que Sarah é irmã de Thomas, ex-marido de Elizabeth, que teria morrido um acidente de trânsito).

 


Aliás, Thomas tem papel importante na tentativa de juntar os pontos que possam conduzir a algum tipo de explicação mais plausível para os acontecimentos - ele seria um sujeito violento com Elizabeth? O filho pequeno teria aprendido alguma coisa sobre esse tipo de comportamento ao presenciar agressões em casa? Ele teria de fato se suicidado, como tudo indica, ou a sua morte foi em decorrência de um acidente verdadeiramente? Pelo lado de Sarah e Anders a coisa também permanece no campo das incertezas. "Ele foi educado de forma não convencional" verbaliza a mulher que, claramente se incomoda com a presença magnética de Elizabeth que, ao pisar na escola mostra uma determinação que parece ainda mais evidente, a cada passo dado com as sandálias de salto. Que por sinal, contrastam com o aspecto soturno dos próprios corredores da escolas, sombrios e claustrofóbicos, com a contraluz surgindo aqui e ali de forma tímida.

Hábil, o diretor aposta ainda em uma série de alegorias que reforçam o caráter embaraçoso, caótico, invasivo e confuso da situação. Há, por exemplo, um alarme de incêndio estragado que não para nunca de tocar. Quando tem uma crise de riso frente ao absurdo da situação - o diretor a estende quase ao limite do aceitável - Elizabeth parece se tornar ao mesmo tempo uma figura patética, miserável e digna de pena. Há ainda uma diretora de departamento que tem um problema crônico de sangramento no nariz. Há ali algum tipo de incômodo onipresente. Ou um pedido de socorro sufocado, que é reforçado justamente pelos instantes mais alegóricos (com suas danças estilizadas e coreografias imprevisíveis). Sim, esse nunca será um daqueles filmes óbvios, claros, com pessoas boas e más milimetricamente calculadas. Nos corredores e bastidores as pequenas violências parecem sempre prontas a emergir. Assim como os segredos do passado, que retornam e bagunçam ainda mais. Não temos como ter certeza. O ser humano é complexo e esse filme fortalece essa ideia com maestria. Deixando margem para um sem fim de interpretações depois que sobem os créditos.

Nota: 8,5 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt)

De: Leonardo Van Dijl. Com Tessa Van den Broeck, Pierre Gervais e Ruth Becquart. Drama, Bélgica / França, 2024, 100 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

Enviado da Bélgica para a edição do Oscar do ano passado, Julie Permanece em Silêncio (Julie Zwijgt) - que está disponível na Reserva Imovision - é aquele tipo de filme para ser absorvido aos poucos. Sem pressa. Por mais atual e impactante que seja seu tema. Ao cabo, essa é aquela obra que se desenvolve pelas frestas, de forma muito sutil - cabendo ao espectador ir montando o quebra-cabeças. Que também lhe permitirá compreender os motivos de a protagonista optar por manter o silêncio. Ou a falar o suficiente, quando sentir que é necessário. Aliás, em uma das sequências de maior impacto da obra do diretor Leonardo Van Dijl, Julie (Tessa Van den Broeck) faz uma ligação para a diretora da escola de tênis em que ela treina para agradecer pelas medidas tomadas pela instituição. E para se desculpar por não ter falado. Julie está aos prantos, em um dos raros momentos em que desaba. A diretora diz que entende. E que essas coisas são assim mesmo.

Afinal de contas, verbalizar violências - físicas, sexuais, psicológicas - não deve ser nada fácil pra qualquer pessoa. Em qualquer situação. Que dirá para uma jovem e promissora tenista de apenas 16 anos, com uma vida pela frente. Dependendo de uma série de decisões de adultos, da escola em que treina ou mesmo do Estado para que ela tenha um futuro no esporte que ama. A gente pode até achar estranha a abertura do filme - com Julie dando suas raquetadas no espaço vazio, sem nenhuma bolinha ou adversário visível em quadra. A sensação que invade sua alma deve ser mais ou menos essa. A do vazio diante do tudo - e da busca por preencher seus dias e suas horas com o tênis. E talvez não seja por acaso que haja tantas sequências em que Julie e suas companheiras treinam repetidamente, interminavelmente. Há algo de persistência nisso. Uma alegoria de busca por superação, em um contexto em que já se arranca derrotado.

 


Na escola em que Julie treina, seu instrutor, Jeremy (Laurent Caron), é afastado dos treinamentos após uma antiga aluna, de nome Alina, tirar a própria vida. É o contexto da pandemia e as pressões do esporte podem ter batido? Pode ser. Mas fica a impressão de que talvez não seja apenas isso. Julie segue conversando com Jeremy pelo telefone, à noite, ao mesmo tempo em que um novo técnico, o carismático Backie (Pierre Gervais) aparece. Jeremy pede para que Julie tenha cuidado com ele, já que não confia em seus métodos. Já a protagonista parece mais desconfiada de seu antigo professor. Com a sensação piorando após um encontro um tanto estranho entre a dupla em uma cafeteria. Jeremy quer que Julie deponha em seu favor, já que há indícios de que o suicídio de Alina possa ter algo a ver com ele. Mas é tudo nebuloso, incerto. A fluidez e o curso dos fatos é vagarosa. E sempre que a adolescente é instigada ela adota um comportamento taciturno, introspectivo.

O caso é que Julie está sendo observada pela Federação Belga de Tênis. Podendo ser uma próxima atleta de elite - que, não por acaso, serve de referência para as demais. De uma forma quase incômoda (como fica claro em um instante em que seu novo treinador lhe privilegia). Qualquer fala ou acusação meio torta naquele ambiente ainda um tanto misógino e de proteção dos homens poderosos, pode significar sua ruína. Há todo um cálculo a ser feito que Julie parece, do alto de sua juventude e maturidade, fazer com destreza. Com inteligência. Em seu entorno, a família e os amigos a circundam tentando entender um pouco mais. Buscando qualquer informação que possa ser mais evidente para uma investigação com mais rigor. Mas esse é um filme que não precisa esfregar na cara do público as suas intenções. Não precisa ser um panfleto maniqueísta de luta, para que se saiba sobre o que ele versa. "Eu parei quando você pediu, né Julie? Eu parei!", alega um desesperado Jeremy depois que a casa começa a cair. Não é necessário ser muito esperto pra saber do que ele fala. Desconfortável é pouco.

Nota: 8,5 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Cinema - Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue)

De: Craig Brewer. Com Kate Hudson, Hugh Jackman, Michael Imperioli e Jim Belushi. Drama / Música, EUA, 2025, 132 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que, não fosse a indicação de Kate Hudson à Melhor Atriz no Oscar desse ano - e a campanha deve ter sido pesada com certeza - e talvez Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Song Sung Blue) passasse meio batido. Ao cabo temos aqui aquele romance musical meio genérico - um subgênero famoso por filmes como Nasce Uma Estrela (2018) ou La La Land: Cantando Estações (2017) -, com uma pitadinha a mais de tragédia e a diferença de ser uma obra inspirada em eventos reais. Como de praxe em experiências do tipo, a obra se ancora não apenas no carisma de seus personagens, tentando enlaçar o público em uma narrativa de superação a partir do poder da arte. Sim, pode ter aquela carinha de mais do mesmo mas, vá lá, a energia é meio Sessão da Tarde. E, importante comentar, se você não conhece a história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) talvez valha a pena evitar os spoilers.

O começo do filme dirigido por Craig Brewer - de carreira discreta e que talvez tenha em Meu Nome É Dolemite (2019) um dos seus melhores momentos -, é bem interessante. Discursando como se estivesse diante de uma plateia, com câmera no rosto e um ar de estrela do rock, não demora para que percebamos que Mike é, na realidade, um sujeito de meia idade que frequenta há vinte anos um grupo de alcoolistas anônimos. É seu "aniversário" de duas décadas sem beber e, como músico amador que se apresenta em feiras, eventos e outros, ele tem uma exibição marcada em uma casa de shows de Wisconsin onde ele deveria, a contragosto, fazer um tipo de performance onde imitaria o cantor pop Don Ho (famoso pelo hit Tiny Bubbles). Na mesma noite, ele conhece e se encanta por Claire, que encarna a cantora country Patsy Cline com personalidade e vigor. E, bom, não demora para que eles se aproximem e, mais do que parceiros artísticos, se convertam em um casal.

 


 

E, como já comentei, a história é real e remonta ao final da década de 80 e o começo dos anos 90, ocasião em que Mike e Claire passam a ensaiar músicas de Neil Diamond, se apresentando com o nome de Lightning and Thunder - dupla que faria sucesso localmente naquela região. Polvilhado por instantes cômicos - em um deles eles são contratados para cantar para um público não tão adequado de motoqueiros estilo Harley Davidson (que tem apreço não só pela extrema direita, mas também pelo rock farofão de ZZ Top, Lynyrd Skynyrd e Steppenwolf), em uma noite que termina entre risadas e um pedido de casamento - e trágicos, como aquele do acidente sofrido por Claire, o filme se desenvolve em meio a conflitos familiares, incertezas sobre o futuro e a tentativa de uma vida melhor não apenas para a dupla, mas também para seus filhos.

Fazendo um aceno para os fãs dos anos 90, a obra inclui uma performance clássica em que o duo abriu um show do Pearl Jam, com a presença de Eddie Vedder (John Beckwith) e tudo no palco, sendo também divertidos os momentos em que outros artistas são citados, como no caso do Michael Imperioli encarnando um Buddy Holly que, mais tarde, entrará para o grupo de apoio de Mike e Claire. Espalhando algumas das canções de Diamond em situações chave para dar andamento à narrativa - seja nos problemas de saúde ou nos casos de superação -, a produção brinca sobre o fato de o público meio que só conhecer o clássico Sweet Caroline, ou o fato de Diamond não ser um dos artistas mais expressivos que se conheça. O que não impediu o sucesso da banda. Doce e amargo, como uma música triste de melodia feliz, esse é o tipo de projeto melodramático e inspirador que, em tempos de turbulência, parece recuperar, em partes, os ideais do sonho americano. Por mais triste que seja, importantíssimo lembrar, um País sem saúde pública.

Nota: 6,5

 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Cine Baú - Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon)

De: Sidnay Lumet. Com Al Pacino, John Cazale, Charles Durning e Chris Sarandon. Comédia / Policial, EUA, 1972, 124 minutos.

Uma de minhas partes preferidas de Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon) é aquela em que a população que acompanha o desenrolar da negociação entre polícia, assaltantes e reféns fica bradando um: "solta a franga e vai pra rua! Solta a franga e vai pra rua!". É um instante divertido, excêntrico e, ainda que pouco politicamente correto, uma forma de mostrar que o povo, a massa, estava com Sonny (Al Pacino), o sujeito que leva a cabo um plano maluco de invadir um banco pra tentar levar uma grana para um nobríssimo motivo: pagar uma cirurgia de mudança de sexo para o namorado, num caso extraconjugal que é revelado no transcorrer do clássico de Sidney Lumet. Sim, hoje em dia esse tipo de argumento não surpreenderia - e esse até poderia ser o tipo de trama a fazer sucesso em uma comédia de costumes do circuito alternativo. Mas estamos em 1975. Falando de um caso que ocorreu de verdade, em 1972.

Na parte do "solta a franga e vai pra rua!", o filme já avançou bastante. Os cartazes de "estamos com Sonny", empunhados pela comunidade LGBT que toma conhecimento do caso e vai pra frente do banco para apoiar, digamos assim, o assaltante, são uma espécie de cereja do bolo de uma obra que permanece cheia de carisma, mesmo cinquenta anos depois. Era algo diferente do que já havia sido feito e há que se salientar não apenas a ousadia, mas a capacidade de tratar o tema de forma adulta, intensa, quase comovente. Quando chega ao banco acompanhado do imprevisível Sal (John Cazale), ainda não sabemos bem por quê Sonny tomou aquela decisão tão extrema. Ele parece alguém inteligente a ponto até de antecipar algumas decisões dos investigadores que lhe vigiam da rua. Ainda que soe totalmente despreparado no ofício de assaltar um banco. Meio desajeitado, ele tenta. E vai levando a coisa até o limite do aceitável.

 


O caso é que, em linhas gerais, essa é uma produção também sobre a complexidade da execução de um crime e de como tudo sai do controle diante do amadorismo de Sonny, de Sal e de Stevie (Gary Springer) - um jovem que, inseguro, desiste da empreitada assim que o trio adentra a agência. Dali pra frente, a dupla de assaltantes precisará improvisar enquanto negocia com os detetives da polícia - os telefonemas são incessantes -, e atende os desejos não apenas do gerente (Sully Boyar), como das funcionárias, que serão mantidas trancadas no cofre. Ou ao menos em parte do tempo. O calor é incessante e palpável - o suor escorre do rosto de todos - e as trapalhadas fazem a situação escalar. Há um vigia que sofre de asma e é liberado - em uma sequência caótica que também escancara o racismo que emerge dos homens da lei. Com o famoso caso do motim da prisão de Attica servindo como elemento histórico a fortalecer a ideia de uma grande injustiça social em andamento.

Vencedora do Oscar na categoria Roteiro Original e indicada a várias outras estatuetas, a produção também seria reconhecida pela crítica por sua inovação artística e pela ousadia em apresentar um protagonista abertamente gay em um tempo em que isso não era assim tão comum - e que ainda funciona como uma espécie de veículo de resistência frente ao autoritarismo (o que também é reforçado pela entrega cheia de carisma, energia e vulnerabilidade de Pacino). Aliás, o elenco como um todo é notável, preenchendo cada momento numa alternância entre sutileza e personalidade - e não é por acaso que mesmo as funcionárias do banco têm suas próprias idiossincrasias, como nos vários instantes em que Sylvia (a ótima Penélope Allen) se exalta, desafiando Sonny, mas permanecendo atenta as suas investidas meio imprevisíveis. Naturalista, engraçada e tocante a obra segue memorável, integrando várias listas de melhores mundo afora.

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

10 Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2021 - Esnobes, Surpresas e Curiosidades

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou nesta segunda-feira os indicados ao Oscar desse ano. E, como é de praxe, a gente faz uma análise sobre as escolhas, bem como as grandes ausências, os esnobes e as surpresas da relação!

1) É tudo tão diferente nessa temporada que já está se arrastando - o Oscar ocorre somente em 25 de abril -, que muitos candidatos que já foram favoritos até mesmo para vencer em suas categorias, perderam força com o desenrolar do ano e a chegada das prévias. Acho que o caso mais gritante entre os filmes, nesse sentido, é o do sensacional Destacamento Blood, que foi tão esnobado que sequer o Delroy Lindo foi lembrado entre os coadjuvantes. Aliás, a obra recebeu apenas uma indicação, na categoria Trilha Sonora Original. Outro filme que sofreu com o "esnobe" foi o belo Relatos do Mundo. Nem a foto de Tom Hanks estampada na capa e a campanha da Netflix ajudaram nesse caso. O resultado? Apenas uma nominação na categoria Fotografia.

2) Ok, Relatos do Mundo e Destacamento Blood podem ter sido esnobados, mas ainda assim a Netflix passou o "rodo" ao conquistar 35 indicações - 11 a mais do que no ano de 2020. Quem faz a festa é o cinéfilo, que pode colocar a agenda em dia ao assistir diretamente no streaming obras, como, Mank - aliás, o filme de David Fincher lidera o número de nominações, com 10 -, Os 7 de Chicago, A Voz Suprema do Blues, Era uma Vez um Sonho, Crip Camp, Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars, Rosa e Momo, O Céu da Meia-Noite, Professor Polvo, A Caminho da Lua, Pieces of a Woman, Shaun, o Carneiro, o Filme: A Fazenda Contra-Ataca e O Tigre Branco, além dos já citados no tópico anterior.

3) Ainda entre as ausências, particularmente uma das que mais senti foi a da Regina King, diretora de Uma Noite em Miami, que bem que poderia ter sido lembrada em sua categoria, pelo belo trabalho no filme disponível na Amazon. Ainda assim, em matéria de "diversidade", é provável que esta seja uma das premiações mais democráticas da história - especialmente após a campanha do #OscarSoWhite. Além dos protagonistas negros em filmes como Judas e o Messias Negro e A Voz Suprema do Blues, nesse ano há espaço para um ator de etnia oriental (Steven Yeun por Minari) e até de origem muçulmana (Riz Ahmed, por O Som do Silêncio). E há também o fato de que, pela primeira vez na história, duas mulheres foram lembradas na categoria direção - uma delas, a Chloe Zhao, de Nomadland, é oriental. Já Emerald Fenell estava fazendo a sua estréia em Bela Vingança.

4) Aliás, falando em O Som do Silêncio e Bela Vingança, impressionante como estas obras ganharam força na reta final, antes do anúncio das premiações. Sobre o primeiro, a Amazon pode estar finalmente aprendendo como "trabalhar" as suas obras depois do fiasco do último ano. Tanto que até o Paul Raci foi lembrado como Ator Coadjuvante. Já o Bela Vingança certamente já trata como um prêmio o simples fato de ter sido lembrado: o tema espinhosos, nesse caso, certamente será uma barreira para o eterno conservadorismo de parte dos votantes.

5) Sinceramente achei uma baita surpresa a presença da Maria Bakalova por Borat: Fita de Cinema Seguinte entre as coadjuvantes. Ainda mais em um filme tão incisivamente cômico! Mas, confesso, adorei. Entre as surpresas, também simpatizei com a presença do Thomas Vinterberg entre os diretores. Adoro a filmografia do dinamarquês, ainda não assisti ao Druk: Mais Uma Rodada, mas gosto quando a coisa foge de óbvio! O mesmo vale para a única indicação de O Tigre Branco, que teve como prêmio de consolação uma menção na categoria Roteiro Adaptado.

6) Acreditem: Glenn Close conseguiu a raríssima proeza de ser indicada ao Oscar e ao Framboesa pelo MESMO PAPEL. Bom, eu já tinha dado a letra sobre essa bizarra possibilidade e quem já aguentou as duas horas de Era Uma Vez Um Sonho entende os motivos disso.

7) Achei uma peninha o divertido As Mortes de Dick Johnson ter ficado de fora na categoria Documentário. Aliás, ele saiu de um dos favoritos para completamente ignorado na relação final.

8) Também não deu para o Brasil na luta por um carecão dourado: o sonho Bacurau fica na gaveta (mas o filme segue sendo um espetáculo e AZAR do Oscar. Eles que lutem!).

9) Quase me passa batido o fato de que poderemos ver Chadwick Boseman recebendo o primeiro Oscar póstumo para um ator negro na história (concorre como Ator em A Voz Suprema do Blues) e só esse fato já nos deixa bastante animados para conferir a premiação!

10) Por fim, não sei onde andava a Academia que ignorou solenemente joias como First Cow, Estou Pensando em Acabar com Tudo e Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre. Numa premiação em meio à pandemia, com obras mais intimistas (e até introspectivas), é quase um equívoco o "esquecimento". Coisas do Oscar.

Agora é aguardar a premiação e aproveitar o longo tempo para colocar as sessões em dia!


Indicados:


Melhor Filme

Meu Pai

Judas e o Messias Negro

Mank

Minari

Nomadland

Bela Vingança

O Som do Silêncio

Os 7 de Chicago


Melhor Ator

Chadwick Boseman, por A Voz Suprema do Blues

Anthony Hopkins, por Meu Pai

Riz Ahmed, por O Som do Metal

Steven Yeun, por Minari

Gary Oldman, por Mank


Melhor Atriz

Frances McDormand, por Nomadland

Viola Davis, por A Voz Suprema do Blues

Vanessa Kirby, por Pieces of a Woman

Andra Day, por Estados Unidos vs Billie Holiday

Carey Mulligan, por Bela Vingança


Melhor Diretor

Chloé Zhao, por Nomadland

Lee Isaac Chung, por Minari

Emerald Fennell, por Bela Vingança

David Fincher, por Mank

Thomas Vinterberg, por Another Round


Melhor Ator Coadjuvante

Sacha Baron Cohen, por Os 7 de Chicago

Leslie Odom, Jr., por Uma Noite em Miami

Daniel Kaluuya, por Judas e o Messias Negro

Paul Raci, por O Som do Metal

Lakeith Stanfield, por Judas e o Messias Negro


Melhor Atriz Coadjuvante

Yuh-Jung Youn, por Minari

Olivia Colman, por Meu Pai

Maria Bakalova, por Borat: Fita de Filme Seguinte

Amanda Seyfried, por Mank

Glenn Close, por Era uma Vez um Sonho


Melhor Roteiro Adaptado

Chloé Zhao, por Nomadland

Kemp Powers, por Uma Noite em Miami

Christopher Hampton, Florian Zeller, por Meu Pai

Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Swimer, Peter Bayhman, Erica Rivinoja, Dan Mazer, Jena Friedman e Lee Kern, por Borat

Ramin Bohrani, por Tigre Branco


Melhor Roteiro Original

Lee Isaac Chung, por Minari

Aaron Sorkin, por Os 7 de Chicago

Will Berson, Shaka King, Keith Lucas e Kenny Lucas por Judas e o Messias Negro

Emerald Fennell, por Bela Vingança

Abraham Marder, Darius Marder e Derek Cianfrance, por O Som do Silêncio


Melhor Filme Internacional

The Man Who Sold His Skin - Tunísia

Collective - Romênia

Better Days - Hong Kong

Another Round -Dinamarca

Quo Vadis, Aida? - Bósnia e Herzegovina


Melhor Fotografia

Nomadland

Mank

Relatos do Mundo

Os 7 de Chicago

Judas e o Messias Negro


Melhor Documentário

Collective

Time

My Octopus Teacher

The Mole Agent

Crip Camp


Melhor Documentário em Curta-Metragem

Colette

A Love Song for Latasha

Hunger Ward

Do Not Split

A Concerto Is a Conversation


Melhor Curta-Metragem

Feeling Through

The Letter Room

The Present

Two Distant Strangers

White Eye


Melhor Animação

Soul

Wolfwalkers

Onward

Shaun, o Carneiro – O Filme – A Fazeda Contra-ataca

A Caminho da Lua


Melhor Curta de Animação

Burrow

Genius Loci

If Anything Happens I Love You

Opera

Yes-People


Melhor Canção Original

Husavik (Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga)

Hear My Voice (Os Sete de Chicago)

Speak Now (Uma Noite em Miami)

lo Sì (Seen) (Rosa e Momo)

Fight For You (Judas e o Messias Negro)


Melhor Trilha Sonora Original

Soul

Relatos do Mundo

Minari

Da 5 Bloods

Mank


Melhor Edição

O Som do Metal

Os 7 de Chicago

Bela Vingança

Nomadland

Meu Pai


Melhor Figurino

A Voz Suprema do Blues

Emma

Mulan

Mank

Pinocchio


Melhor Cabelo e Maquiagem

Emma

Era Uma Vez um Sonho

O Voz Suprema do Blues

Mank

Pinocchio


Melhor Edição de Som

O Som do Silêncio

Relatos do Mundo

Mank

Greyhound: na Mira do Inimigo

Soul


Melhor Design de Produção

Mank

Relatos do Mundo

Tenet

A Voz Suprema do Blues

Meu Pai


Melhores Efeitos Visuais

Love and Monsters

O Céu da Meia-Noite

Mulan

The One and Only Ivan

Tenet

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Novidades no Now/VOD - Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy)

De: Ron Howard. Com Glenn Close, Amy Adams, Gabriel Basso e Owen Asztalos. Drama, EUA, 2020, 116 minutos.

Acho que se houvesse uma competição para escolher os personagens mais xaropes e unidimensionais da história do cinema, muito provavelmente o elenco de Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy) estaria entre os finalistas. Sério, que amontoado de pessoas mesquinhas, individualistas, repulsivas. E esse, pra mim, é o primeiro grande problema do filme mais recente do diretor Ron Howard: o fato de nós, espectadores, não nos sentirmos conectados a ninguém. Não torcemos para ninguém. Sentimos apenas indiferença. Aliás, lá pelas tantas eu só queria que o suplício acabasse de uma vez, porque, ô troço chato! Pra começar a obra comete o equívoco de romantizar o núcleo familiar disfuncional como uma espécie de mal necessário para uma vida de superações, ou para que alcancemos os nossos objetivos - numa espécie de autoajuda mal aplicada, toda torta. Algo tipo "sim, você vai ter uma infância e uma adolescência miseráveis, com parentes patéticos, mas, mesmo com eles fazendo de tudo para atrapalha-lo, você vai chegar lá. E ainda carregará um pouquinho de cada um deles na sua essência". Não!

Vejam bem, o meu problema não está na família disfuncional em si. Eu já assisti muitas obras com aquela parentada doida, que faz a minha parecer normal - de comédias leves como Pequena Miss Sunshine (2006), até películas mais dramáticas, como o ótimo Beleza Americana (1999). Aliás, eu gosto desse subgênero. E muito! Pra mim o que desarranja a ideia é o fato de, lá pelas tantas, a personagem Mamaw (Glenn Close, que não seria exagero dizer que está cotada AO MESMO TEMPO pro Oscar e pro Framboesa de Ouro pela sua atuação), se saindo com um "a família é a única coisa que importa", sendo direcionado a um desiludido J.D. Vance (Gabriel Basso). E o filme tenta nos fazer acreditar fielmente nisso enquanto assistimos as piores vó (a já citada Close) e mãe (papel de Amy Adams) da história, em cena. Uma avó ranzinza que não sabe transmitir nenhum tipo de sentimento amistoso - que dirá algum afeto - e uma mãe viciada em heroína que parece sempre no limite do colapso. Família é tudo o que importa?

E como cereja do bolo da deturpação completa de qualquer espírito mais humanitário que a obra pudesse ter - que fosse a gente compreender mais aquela mãe usuária de drogas e os motivos que a levaram a isso ou mesmo as violências múltiplas sofridas pela avó no passado -, o filme ainda se apresenta como uma espécie de combo do empreendedorismo coach somado com kitsch em que, num mundo como o que estamos, só os fortes sobrevivem. Em uma das primeiras cenas, J.D. aparece sofrendo bullying de um grupo de valentões que tentam afoga-lo. A parentada aparece e a lição é aprendida: PORRADA na gurizada da vizinhança porque é só na porrada - levando, recebendo -, que a gente se fortalece. E quando J.D, precisa retornar de Yale para cuidar de sua mãe junkie na véspera de uma importante entrevista que lhe dará um importante emprego - sim, acredite, o arco dramático é basicamente esse -, ele se deparará novamente com esse contexto maniqueísta em que todos os caipiras são apenas, isso... caipiras. Não há complexidade aqui, com a distância entre a metrópole e o interior sendo medida pela capacidade do protagonista utilizar os garfos com eficiência em um jantar chique.

Sério, é tanta coisa errada ao mesmo tempo que quase não sobra tempo pra falar da ridícula trilha sonora do Hans Zimmer - completamente desalinhada, mais parecendo sobra de estúdio de algum filme que viria a passar na Sessão da Tarde -, e mesmo das interpretações carregadas da dupla central. Aliás, sobre Close eu achava mesmo que ela poderia GANHAR o Oscar antes de ter visto o filme e isso só será possível de acontecer por pena ou pelo reconhecimento ao conjunto da obra (e pelo longo serviço prestado aos bons filmes). Porque a sua Mamaw é só voz forçadamente esganiçada, com direito aquele instante Oscar bait em que ela eleva o tom ao mesmo tempo em que diz alguma pesarosa frase de efeito que poderia ter algum sentido em uma narrativa mais bem organizada. Bom, não li o livro que baseou a obra de Howard, mas como filme, trata-se apenas um produto escapista que tem uma mensagem de valorização do trabalho acima de tudo, ignorando completamente a decadência social e cultural de certa parcela da classe média americana, desiludida após tantas crises (e que culminariam no Governo Trump). Talvez se esse contexto estivesse melhor apresentado, teríamos uma boa obra, que poderia ter camadas de complexidade acrescentadas. Com mais contexto. Que deslocasse o nosso olhar para a desestruturação familiar à moda de um William Faulkner em O Som e a Fúria, por exemplo. Mas como foi feito, infelizmente não: é apenas aborrecimento, clichês e crítica vazia.

Nota: 1,5

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Especial Oscar 2020 - Nossas Apostas

E eis que chegou o grande dia do Oscar 2020. Após uma pequena maratona e um esforço para assistir a grande maioria dos filmes indicados - inclusive os curtas - eis a nossa relação de quem a gente acha que ganha e de quem a gente gostaria que ganhasse! Hora de colocar o Bolão em dia!


FILME

Na categoria máxima, as prévias mostram que a disputa está mesmo entre 1917 e Era Uma Vez em Hollywood, com a produção comandada por Sam Mendes levando uma ligeira vantagem - especialmente por ter faturado o PGA Awards, o Bafta e o Globo de Ouro. Nas bolsas de apostas a obra de Quentin Tarantino surge como uma possibilidade por ter vencido o Satellite Awards e o Critics Choice (além do fato de o diretor jamais ter vencido a principal premiação do Oscar, o que poderia acontecer agora, próximo de sua tão anunciada aposentadoria). Correndo por fora, o surpreendente Parasita tem ganho força pelas vitórias em premiações menores como as dos críticos de Chicago, de Boston e de Londres por exemplo. Qualquer coisa diferente desses três pode ser considerado uma ZEBRAÇA.

Quem gostaria que ganhasse: Parasita
Quem ganha: 1917

DIRETOR

Após vencer o DGA Awards - a premiação dos diretores -, Sam Mendes dá um pulo na frente dos demais e deve, muito provavelmente, levar o carecão dourado para casa por conta de seu trabalho tecnicamente impecável em 1917. Tarantino e Joon-ho Bong se espalharam em premiações menores e periféricas e correm por fora. O primeira é um veterano em indicações, ainda que nunca tenha faturado a estatueta como diretor. Já o coreano transformou seu Parasita em um objeto de adoração e a indicação acaba sendo um "prêmio de consolação".

Quem gostaria que ganhasse: Quentin Tarantino, por Era Uma Vez Em... Hollywood
Quem ganha: Sam Mendes, por 1917

ATOR

Aqui não aprece haver nenhum dúvida: Joaquin Phoenix é unanimidade por sua caracterização em Joker e deve ser aclamado com o Oscar, depois de passar o rodo nas premiações prévias (como o Sag, o Bafta e o Globo de Ouro, entre outras). Bom, e sobre o Adam Driver, ele até fez um belo trabalho com seu papel em História de Um Casamento, mas deve assistir apenas assistir ao Joaquin ganhar.

Quem gostaria que ganhasse: Joaquin Phoenix, por Coringa
Quem ganha: Joaquin Phoenix, por Coringa

ATRIZ

Falando em favoritas, aqui está mais uma categoria que não parece haver muitas dúvidas: a crítica está babando pela entrega comovente de Renée Zelweger, no papel de uma Judy Garland já decadente e, Judy - e não deem bola para o que a crítica tem falado, já que trata-se de uma grande obra! Após vencer praticamente todas as prévias (entre elas o Globo de Ouro e o SAG Awards), Renée deverá voltar a receber a estatueta dourada - ela já tinha ganho como Coadjuvante por Cold Mountain, em 2004. Sobre as demais concorrentes? Não, ninguém tem chance.

Quem gostaria que ganhasse: Scarlett Johansson, por História de Um Casamento
Quem ganha: Renée Zellweger, por Judy

ATOR COADJUVANTE

Essa é uma categoria que tá cheia de gente legal no páreo e deverá levar os votante do Bolão à loucura. Mas ainda assim, quem salta na frente como um provável favorito é o Brad Pitt, por ter ganho prévias importantes, como o SAG Awards. Joe Pesci e Al Pacino correm por fora por seus papéis em O Irlandês e Anthony Hopkins (Dois Papas) e Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança) tiveram a nominação como prêmio de consolação.

Quem gostaria que ganhasse: Brad Pitt, por Era Uma Vez em Hollywood
Quem ganha: Brad Pitt por Era Uma Vez em Hollywood

ATRIZ COADJUVANTE

Mais uma barbada da noite, já que a Laura Dern tem passado o rodo nas prévias, por seu papel em História de Um Casamento. E, aqui, há um componente a mais: é apenas a terceira indicação da atriz, a despeito da sua inegável entrega - o que pode ser a chance de ouro para a Academia lhe consagrar. A única que pode tirar a sua vitória é Scarlett Johansson, pelo trabalho em Jojo Rabbit. E eu, particularmente, adoraria ver a Florence Pugh ganhar.

Quem gostaria que ganhasse: Florence Pugh, por Adoráveis Mulheres
Quem ganha: Laura Dern, por História de Um Casamento

ROTEIRO ORIGINAL

Essa é a minha categoria preferida e muito provavelmente Parasita salta um pouquinho frente, por ter vencido o WGA Awards - o prêmio do Sindicato dos Roteiristas (além de sr um roteiro originalíssimo, claro!). Mas há uma particularidade aqui: por não integrar o Sindicato, Tarantino não concorreu neste ano, nesta categoria e ele corre por fora, após ter vencido o Globo de Ouro e diversas outras premiações -  como o Critics Choice. Ou seja: tudo pode acontecer!

Quem gostaria que ganhasse: Parasita
Quem ganha: Parasita

ROTEIRO ADAPTADO

Por ter vencido o WGA, Jojo Rabbit deve ter este como um belo prêmio de consolação na noite do Oscar. Mas o sempre adaptado Adoráveis Mulheres tem feito uma campanha forte, tendo faturado premiações periféricas como o Critics Choice (além de ser de fato uma adaptação que, dizem, chega a MELHORAR o original). O resultado disso tudo é que é difícil cravar quem ganha. Mas a gente tenta! E acredita que o peso político de Jojo também possa o favorecer.

Quem gostaria que ganhasse: Jojo Rabbit
Quem ganha: Jojo Rabbit

FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Parasita foi simplesmente indicado em seis categorias do Oscar, entre elas Filme, Diretor e Roteiro Original - algo raríssimo para um filme estrangeiro. Isso o credencia como a maior barbada da noite, no Bolão - no site Termômetro Oscar ele aparece com 99% de chances de vitória! Pode colocar sem erro.

Quem gostaria que ganhasse: Dor e Glória (isso por que coloquei o desejo de que Parasita ganhasse a principal categoria da noite, lá em cima)
Quem ganha: Parasita

ANIMAÇÃO

Existe um prêmio que se chama Annie Awards que é o maior termômetro para esta categoria, e ele foi vencido pelo belíssimo Klaus - o que lhe coloca automaticamente como o favorito. Ainda que não tenha vencido a premiação máxima do Annie, o experimental Perdi Meu Corpo - o meu preferido -, venceu outras categorias da premiação (entre eles Melhor Longa Independente), o que lhe mantém em alta cotação para tentar pegar o carecão dourado. E o que dizer de Toy Story 4, que até poucos dias era o preferido? E o Link Perdido que faturou o Globo de Ouro? Bom, digam vocês. Eu já não sei mais nada.

Quem gostaria que ganhasse: Perdi Meu Corpo
Quem ganha: Klaus

DOCUMENTÁRIO

A gente bem que deseja com todas as forças que o Democracia Em Vertigem leve a estatueta pra casa mas, apesar da bela campanha e do falatório nas redes, é muito provável que o prêmio fique nas mãos da produção da Netflix Indústria Americana (que ainda não vi) e que venceu 16 prêmios dos 57 a que foi indicado (entre eles o do Festival de Sundance). Mas isso não nos impedirá de torcer. Com todas as forças.

Quem gostaria que ganhasse: Democracia Em Vertigem
Quem ganha: Indústria Americana

DIREÇÃO DE ARTE

Eu fiquei simplesmente embasbacado com a Direção de Arte de 1917 e tô torcendo pra que seja o vencedor, ainda que as prévias sugiram uma espécie de empate técnico com Era Uma Vez em Hollywood e Parasita, que ganharam nas categorias Filme de Época e Filme Contemporâneo, respectivamente, no ADG Awards, que premia os diretores de arte. O filme do Tarantino tem uma série de outros pequenos prêmios nesse setor, enquanto 1917 se segura no sempre relevante Bafta.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: Era Uma Vez em Hollywood

FIGURINO

Vamos combinar que o figurino de Adoráveis Mulheres realmente é um dos destaques, o que o coloca em vantagem - também por ter ganho premiações no setor, como Bafta. Já o Jojo Rabbit ganhou o prêmio do Sindicato dos Figurinistas - sim, isso existe - na categoria Filme de Época, que, sabe-se lá por que, o Adoráveis não tava nem concorrendo. Já o Era Uma Vez em Hollywood corre por fora.

Quem gostaria que ganhasse: Adoráveis Mulheres
Quem ganha: Adoráveis Mulheres

MAQUIAGEM

O Escândalo foi o vencedor no Make-Up Artists and Hair Stylists Guild Awards, o que o coloca em vantagem - e a transformação, especialmente do ator John Lithgow, realmente se sobressai. Judy e Coringa correm por fora, mas não devem levar.

Quem gostaria que ganhasse: O Escândalo
Quem ganha: O Escândalo

FOTOGRAFIA

É sempre uma categoria disputada, mas o trabalho feito por Roger Deakins em 1917, deve ser consagrado (e as pilhas de premiações prévias comprovam essa teoria). Coringa corre por fora e seria uma boa surpresa.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: 1917

EDIÇÃO

Parasita e Jojo Rabbit faturaram o Eddie Awards, nas categorias Edição em filme de Drama e de Comédia respectivamente. Ainda assim há quem acredite que essa categoria possa representar a oportunidade de dar ao ótimo Ford v. Ferrari um prêmio de consolação (a obra faturou o Bafta e o Satellite Awards nessa categoria). É meio imprevisível.

Quem gostaria que ganhasse: Ford v. Ferrari
Quem ganha: não faço a mínima ideia!

EFEITOS VISUAIS

Taí uma categoria que não dei muita bola nesse ano - aliás, quase nunca dou. Acho que o Vingadores ganha pelo apelo da série (não vi o filme).

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: Vingadores Ultimato

CANÇÃO ORIGINAL

Numa categoria que tem uma música original do Elton John, no filme que é o maior injustiçado do Oscar, acho que não há mais muito o que se falar, né? Ainda mais depois de já ter faturado o Globo de Ouro. Superação: O Milagre da Fé? Frozen 2? Não, né?

Quem gostaria que ganhasse: (I'm Gonna) Love Me Again, de Rocketman
Quem ganha: (I'm Gonna) Love Me Again, de Rocketman

TRILHA SONORA ORIGINAL

Mais uma categoria que coloca frente a frente 1917 e Coringa - mas a trilha que se sobressai MESMO é a do filme capitaneado por Joaquin Phoenix (ainda mais depois do Globo de Ouro, do Bafta e de outros prêmios nas prévias).

Quem gostaria que ganhasse: Coringa
Quem ganha: Coringa

EDIÇÃO DE SOM

Pelos prêmios no Sindicato dos Editores de Som, Ford v. Ferrari e 1917 tem vantagem. Mas como o filme de Sam Mendes é tão arrebatador na parte técnica, deve levar a estatueta.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: 1917

MIXAGEM DE SOM

Aqui, foi a vez de Ford v. Ferrari faturar o prêmio dos mixadores de som - e como 1917 sequer concorria, acho que a obra de James Mangold tem vantagem nessa.

Quem gostaria que ganhasse: Ford v. Ferrari
Quem ganha: Ford v. Ferrari

CURTA METRAGEM

As categorias de curta costumam ser aquelas que desempatam o bolão, então a gente arrisca alguma coisa aqui só pra se divertir, sem muito parâmetro. Como Brotherhood foi a única que não vi, vou deixá-la de fora das minhas escolhas. Por ser inacreditavelmente divertido, Nefta Football Club é o meu preferido, mas o bicho pega MESMO em A Sister e Saria (são temas pesados, em ambas).

Quem gostaria que ganhasse: Nefta Football Club
Quem ganha: A Sister

CURTA DE ANIMAÇÃO

Acho que o meu preferido continua sendo o Kitbull, mas o que tem o melhor tem - o Mal de Alzheimer - e a técnica mais desafiadora é o francês Mémorable (que talvez por estes predicados seja o favorito).

Quem gostaria que ganhasse: Kitbull
Quem ganha: Mémorable

DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

Dos três que vi o que mais me arrebatou foi o inacreditável In The Absence (apesar de não ser tão perfeito do ponto de vista técnico). Já Life Overtakes Me vem com a moral de ser uma obra redondinha feita pela Netflix. Learning to Skateborad (In a Wardone) tem tema pesado e parece ser a favorita (mas não vi). Então, tudo é chute.

Quem gostaria que ganhasse: In the Absence
Quem ganha: Life Overtakes Me

E pra vocês? Já fizeram as suas apostas? Fala pra gente quem ganha o quê e quem vocês gostariam que faturasse o Oscar! E, boa premiação para todos nós!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Cinema - Jojo Rabbit (Jojo Rabbit)

De: Taika Waititi. Com Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson e Sam Rockwell. Comédia dramática / Guerra, EUA / Alemanha, 2019, 108 minutos.

Uma das coisas mais divertidas que Jojo Rabbit (Jojo Rabbit) faz é apostar no humor com a intenção de tornar o nazismo uma ideologia ainda mais absurda. E essa sensação é ampliada com a adoção de uma criança protagonista que não apenas é militante e defensora da pureza racial - que vê judeus como inimigos grotescos a serem combatidos -, como ainda tem como amigo imaginário uma espécie de caricata figura do Führer em "pessoa". Sim, se pra você é algo ridículo ver aquele seu vizinho criado a leite com pêra pela avó, que acredita que as dores do mundo são todas por culpa do PETÊ, experimente assistir a um grupo de crianças excitadíssimas com a ideia de participar de uma sessão de queima de livros. Sim, é algo completamente nonsense mas, em partes, é justamente isso que a obra de Taiki Waititi (que também interpreta Hitler) propõe: imaginar, na base do deboche, como seria a preparação (ou doutrinação) de uma massa de crianças alinhadas ao nacionalismo religioso de extrema direita - o famoso "combo nazista".

Nesse sentido, o menino de dez anos Jojo (Roman Griffin Davis), cresceu acreditando que o mundo ideal era o estabelecido pelos defensores do Reich. Desde novo integrando um grupo de crianças voluntárias no Campo Hitler, sofre um grave acidente com uma granada, após sofrer bullying por não conseguir matar um coelho (o que renderá seu novo apelido). Em sua casa, verá seu mundo virar de ponta cabeça quando descobrir, meio que por acaso, que a sua mãe (Scarlett Johansson) mantém uma jovem judia (Thomasin McKenzie) escondida em um cômodo. E será dessa forma que estará estabelecido o conflito: sem entender direito esse contexto, Jojo passará a desconfiar do comportamento da mãe, ao mesmo tempo em que se aproxima da jovem, que se chama Elsa. No campo de treinamento, por ter se ferido, participará de atividades prosaicas como distribuição de panfletos, entre outras.


É um filme que trata da Segunda Guerra com uma pitada de leveza quase surrealista, mas sem deixar de lembrar o espectador dos horrores vividos pelo povo alemão naqueles anos. Não por acaso, a película faz lembrar uma mistura entre o drama alemão Lore (2013) e o clássico italiano A Vida É Bela (1998), com Jojo modificando a sua percepção sobre a vida, sobre o mundo e sobre as pessoas conforme a sua jornada avança. De sua amorosa mãe aprende que o apreço pelas artes ou o simples gesto de dançar e confrontar o status quo não é coisa de "comunista". Já com Elsa, não demorará para compreender que havia algo errado no "desenho" dos judeus feitos pelos nazistas - e não é por acaso que cenas como aquela em que o menino Yorki (Archie Yates) fala que comunistas comem bebês e transam com cachorros se tornam tão rotundamente estúpidas (e até engraçadas). É como se, sei lá, alguém acreditasse em mamadeira de piroca ou no fato de que em algum País socialista, bebês de sete meses são masturbados.

Tendo como uma de suas forças, além da trilha sonora e da estética mais "colorida", o uso de imagens e de seu simbolismo - há uma cena em que as casas literalmente parecem ter olhos que observam -, o filme ainda utiliza o jogo de palavras para fazer a crítica ao debate que parece se estender à modernidade. Em uma formidável sequência, por exemplo, Jojo pede para que Elsa desenhe o que seria a sua casa. Após, ela entrega um desenho da cabeça de Jojo: "é que nós não saímos de suas cabeças nazistas", brinca ela. Ainda que eventualmente a obra soe excessivamente expositiva em seus diálogos - por exemplo, não era necessário DIZER que o capitão Klenzendorf (o sempre divertido Sam Rockwell) talvez estivesse disposto a ajudar Jojo e sua família, afinal a gente já tinha percebido isso com suas atitudes -, o filme se consolida como uma das boas surpresas desse começo de temporada, tendo sua indicação ao Oscar na categoria máxima como um bom "prêmio de consolação". Vale conferir.

Nota: 8,5


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Cinema - Brooklyn (Brooklyn)

De: John Crowley. Com Saoirse Ronan, Domnhall Gleeson, Emory Cohen, Julie Walter e Jim Broadbent. Drama / Romance, Irlanda / Reino Unido / Canadá, 2016, 111 minutos.

Se houvesse uma categoria no Oscar que premiasse o melhor desempenho coletivo dos atores, que me perdoe o excelente (e hollywoodiano) elenco do ótimo Spotlight - Segredos Revelados, mas a distinção deveria ir para os intérpretes do belo e singelo Brooklyn (Brooklyn), um dos oito indicados a Melhor Filme na premiação máxima do cinema, que ocorre na noite do próximo dia 28 de fevereiro. É praticamente impossível ficar alheio a tantos personagens interessantes numa mesma obra - sejam eles a tagarela e histriônica senhora Keogh (Julie Walters), dona de uma pensão que abriga jovens mulheres nos Estados Unidos, o bondoso e carismático padre Flood (Jim Broadbent), que auxilia a protagonista em suas intenções, ou mesmo o doce e apaixonado Tony (Emory Cohen), jovem italiano que trabalha como encanador e que tem uma predileção por festas irlandesas.

A obra do jovem diretor John Crowley - do interessante Circuito Fechado (2013) - é relativamente simples e conta a história da jovem Ellis Lacey (Ronan), que se muda de sua terra natal - um povoado no interior da Irlanda -, para tentar viver o sonho americano no bairro do Brooklyn, em Nova York. Ainda que a adaptação seja complicada, a jovem supera a saudade de casa, personificada pela mãe e pela irmã amorosas, especialmente após conhecer e se apaixonar pelo já citado Tony. Sim, é uma história de amor meio a moda antiga, com fotografia extremamente elegante e um estilo classudo, que, curiosamente, faz lembrar filmes como Orgulho e Preconceito (2005) e Desejo e Reparação (2007), sendo que este último rendeu a Ronan sua única indicação ao Oscar até então, quando tinha apenas 13 anos de idade. E é nesse novo ambiente que Ellis tentará se adaptar, tendo de tomar decisões que modificarão sua vida para sempre - especialmente nos campos amoroso e profissional.


E se o trabalho do elenco de coadjuvantes é exemplar, é preciso que se diga que Ronan não apenas faz por merecer a sua segunda indicação ao Oscar, como não seria nenhuma injustiça se vencesse na categoria Melhor Atriz - ok, ainda não assistimos a O Quarto de Jack, da favorita Brie Larson. Com um desempenho extremamente natural - ainda que tenha nascido em Nova York, a atriz se mudou ainda jovem para a Irlanda -, a intérprete utiliza-se de gestos delicados e olhares sutis para representar tanto as pequenas como as grandes mudanças que ocorrem em sua vida, com o desenrolar da trama. Nesse sentido, se no primeiro terço do filme vemos Ellis como uma jovem tímida e de modos introvertidos (ela chega até a caminhar meio curvada pra baixo), não deixa de surpreender a desenvoltura e a forma segura como se movimenta em seu retorno a Irlanda, já no terço final, quando se torna uma jovem de ares cosmopolitas e independentes. O que serve como exemplo de uma composição primorosa e de grande talento.

E se as interpretações ajudam para que, ao final, estejamos torcendo para que tudo ocorra da maneira mais satisfatória possível com cada personagem que vemos em tela, a fotografia e o desenho de produção também contribuem para que se torne mais palpável a transformação vivida pela protagonista. Se antes a jovem se comportava de maneira insegura e frágil - o que podia ser visto nas roupas em tons pastel e nos sapatos masculinizados - após o seu "intercâmbio", ela se torna uma mulher capaz de decidir por conta própria os caminhos a seguir em sua existência - sendo marcantes as já citadas mudanças de postura, que também podem ser observadas no figurino, que no terço final passa a ser de cores fortes e quentes e nos sapatos de salto alto, que ressaltam também a feminilidade e a maior confiança no que diz respeito aos relacionamentos. Parece tudo muito simples, e é. Mas os pequenos conflitos, as idas e vindas e as surpresas do roteiro - escrito por Nick Hornby - garantem certamente uma experiência acima da média.

Nota: 8,0


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cinema - Trumbo: Lista Negra (Trumbo)

De: Jay Roach. Com Bryan Cranston, Michael Stuhlbarg, Diane Lane, Helen Mirren e Louis C.K. Biografia / Drama, EUA, 2015, 125 minutos.

Em determinada cena do recém lançado Trumbo: Lista Negra (Trumbo, 2015), um representante do famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas - que, no início da Guerra Fria, trabalhou para descobrir "ameaças subversivas que pudessem romper com os valores democráticos norte-americanos" - vocifera, para um adepto do Partido Comunista nos Estados Unidos: volta pra União Soviética! E aproveita o Balé Bolshoi! Evidentemente, o tom é de deboche e de ironia. O período - final dos anos 40 e início dos 50 - é o da conhecida Caça as Bruxas, promovida, entre outros, pelo senador Joseph McCarthy, que procurava banir a ameaça vermelha na Terra do Tio Sam. Algo parecido com o que se vê na internet, hoje em dia, quando representantes de uma nova direita digamos assim mais... extrema costuma dizer "vai pra Venezuela", como forma de se defender dos "horrores" promovidos pela ditadura bolivariana, que vem sendo implementada no nosso querido Brasil há cerca de 15 anos.

É nesse contexto pouco favorável que trabalham - ou tentam trabalhar - uma série de atores, escritores, redatores, publicitários e diretores de Hollywood, entre eles o roteirista Dalton Trumbo, vivido por Bryan Cranston, da série Breaking Bad, que passam a ser perseguidos pelos grandes estúdios ao se aliarem ao Comunismo. Assim, consequentemente, passam a representar uma grande ameaça a Nação com o seu plano de dominação comunista, que poderia envolver a "panfletagem" a partir de filmes e outras obras de arte. Por mais talentoso que Trumbo fosse - e era, como viria a se mostrar a partir da conquista de mais de um prêmio Oscar, com o uso de um pseudônimo - as portas da Meca do cinema mundial se fecharam para ele, que, não obstante, passou boa parte de seus anos preso. E tudo por causa de sua orientação política.


As desventuras de Trumbo, a partir da saída da prisão e as seguidas tentativas para voltar para o mercado de trabalho são filmadas com elegância - a recriação de época é cuidadosa ainda que seja discreta -, mesclando doses certas de humor com drama. Assim como divertem as cenas com o diretor Frank King (John Goodman), são melancólicas aquelas que envolvem a relação de Trumbo com a sua família, uma vez que o sujeito se torna obsessivo pelo trabalho (e pelo dinheiro) - não deixando de ser esta uma fina ironia para um "comuna". Aliás, Trumbo era um bon vivant, gostava de reunir a família, comer e beber bem, sendo chamado, em certa altura da projeção, de "soviético de piscina", numa curiosa atualização para a "esquerda caviar" de hoje em dia. O que talvez torne a expressão atual ainda mais anacrônica e deslocada de seu tempo, dado o contexto de época - e as eventualmente adequadas preocupações em relação ao stalinismo.

Ainda assim, por mais que a mensagem sobre o respeito a diversidade ideológica seja válida, servindo ainda como uma espécie de expiação dos americanos - nos moldes dos filmes alemães antinazismo, guardadas as proporções, evidentemente -, a obra do diretor Jay Roach (Austin Powers) comete alguns pequenos deslizes que parecem denunciar certo maniqueísmo. Algo que pode soar como panfletarismo para muitos. A explicação sobre o que é ser socialista e que envolve um sanduíche talvez não coubesse nem em uma conversa envolvendo alunos dos primeiros anos do ensino fundamental, de tão reducionista - e não é preciso ser nenhum gênio pra saber que o caráter de uma pessoa não está necessariamente relacionado a sua ideologia. E será que o ator John Wayne (David James Eliott, nada parecido, por sinal) era assim tão... boçal? Em determinada cena só faltou ele sacar uma panela e começar a bater nela. Enfim, são detalhes que, numa análise geral, não comprometem o todo.

Nota: 7,5