quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Cine Baú - Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment)

DE: Billy Wilder. Com Jack Lemmon, Shirley McLaine e Fred MacMurray. Comédia dramática / Romance, EUA, 1960, 125 minutos.

Acho que um dos tantos predicados de Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment), de Billy Wilder, é ter envelhecido muito bem. Por suas temáticas - adultério, suicídio, papel da mulher na sociedade e até a selvageria do mundo capitalista -, era uma obra a frente do seu tempo. Meio visionária até - inclusive pelo fato do protagonista C. C. Baxter (o sempre ótimo Jack Lemmon) ter praticamente "inventado" o conceito de Airbnb, que veríamos mais tarde. Sim, ele é o solteirão sem muita pressa pra arrumar um casamento, que está muito mais preocupado com a ascensão profissional na gigantesca companhia de seguros em que trabalha, em Nova York. Assim, como forma de incrementar renda e se aproximar mais do alto escalão da empresa, passa a emprestar o seu apartamento para que os seus colegas executivos possam manter os seus casos extraconjugais em "segurança". E sem atrair a atenção de ninguém. A contrapartida se dará futuramente, com possíveis promoções e outras evoluções na folha de pagamento.

Só que esse procedimento pode gerar alguns inconvenientes para Baxter que, em alguns casos, se vê impossibilitado de retornar para a sua casa no momento em que deseja. E, conforme os empréstimos vão se ampliando, a rede de interessados nos aluguéis aumenta - chegando a quatro, cinco executivos da companhia. E tudo piora quando ele se vê apaixonado por uma colega de trabalho, no caso a ascensorista Fran Kubelik (Shirley McLaine), que mantém um caso com o chefe de ambos, um certo Jeff Sheldrake (Fred MacMurray). E, como desgraça pouca é bobagem, Jeff pedirá o apartamento do protagonista emprestado, levará Fran para lá e... terminará com ela lá mesmo, já que ele é um sujeito casado. Desesperada, a jovem tentará tirar a própria vida tomando dúzias de medicamentos indutores de sono. E a tragédia só não se confirmará por causa da chegada de Baxter em sua própria casa, após uma festa na empresa. Aliás, numa sequência tão trágica quanto cômica, já que ele também tinha conseguido uma companhia para aquela noite.

Sim, descrevendo assim pode parecer meio confuso, mas Se Meu Apartamento Falasse é uma obra que funciona como uma montanha russa de emoções (e de estilos), começando como uma escrachada comédia, que migra para um pesado drama, até chegar a um desfecho romântico. Com tudo absurdamente bem conduzido por Wilder, que utiliza cada uma de suas sequências e diálogos, para ir fazendo pequenos comentários sociais a respeito do universo que acompanhamos. Os vizinhos de Baxter, por exemplo, acreditam que o sujeito é um hedonista de marca maior, apesar de ele dificilmente ter um comportamento indecente. Da mesma forma, o diretor não parece muito empenhado em amenizar a mesquinharia e o vazio que envolve as relações humanas, tão frágeis já naqueles tempos (e, aparentemente, piores nos dias de hoje). E tudo isso não nos impede de torcer com todas as forças por um final feliz, por piores que os ambiciosos Baxter e Fran possam ser - e, ao cabo, eles são apenas humanos, afinal. Cheios de qualidades e defeitos como qualquer um de nós.

Vencedora do Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 1961, a obra-prima ainda premiaria Wilder (Roteiro e Direção), bem como a Edição e a Fotografia em Preto e Branco. Na lista do American Film Institute (AFI) de 2007, aparece em um honroso 80º lugar na relação de Melhores Filmes Estadunidenses, sendo também mencionada como a 20ª Melhor Comédia da História. Leve e divertido, o filme encanta não apenas pelos seus momentos engraçados (você nunca mais verá uma raquete de tênis da mesma forma), como por aqueles com maior profundidade - como nos deliciosos diálogos entre Baxter e Fran. Wilder já tinha uma carreira consagrada quando fez este filme - vinha de outros clássicos como Pacto de Sangue (1944), Farrapo Humano (1945), Crepúsculo dos Deuses (1950) e O Pecado Mora ao Lado (1955). E, de alguma forma, pode-se dizer que esta foi uma de suas últimas grandes obras e que segue sendo querida tanto pela crítica quanto pelo público.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - A Jaula de Ouro (Guatemala)

De: Diego Quemada-Diez. Com Rodolfo Dominguez, Karen Martínez e Brandon López. Drama, Guatemala / México / Espanha, 2013, 108 minutos.

Quando a gente assiste a uma obra dolorida e arrebatadora como A Jaula de Ouro (La Jaula de Oro) é simplesmente impossível não lembrar da imagem das crianças, filhas de imigrantes mexicanos, que foram presas em grandes jaulas, ao tentar atravessar a fronteira com os Estados Unidos durante o Governo Trump. Foram várias fotos e vídeos que correram o mundo durante a política de Tolerância Zero do republicano e que envolvia, inclusive, a construção do famigerado muro na divisa entre os dois países. Ocorre que, quando pensamos nesses imigrantes, dificilmente os "humanizamos". Raramente pensamos nessas milhares de pessoas como... pessoas. Que tem seus sonhos, seus desejos, seus anseios. Seus medos e frustrações. E que buscam, nos Estados Unidos, o encontro idílico com o "sonho americano". Um sonho que lhes retire da pobreza extrema, da vulnerabilidade. Que lhes permita um trabalho ou, minimamente, a dignidade. Ter o que comer, tentar ser feliz. Sobreviver.

Exibido em 2013 na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, e vencedor de vários prêmios mundo afora, o filme guatemalteco é um áspero road movie do Terceiro Mundo em que acompanhamos a verdadeira via crucis de três jovens - dois rapazes e uma garota -, para tentar cruzar a fronteira a partir da Guatemala. A intenção clara é escapar da vida miserável do País da América Central - em alguns aspectos, bastante parecido com o Brasil -, tarefa em que são muito maiores as incertezas do que as evidências. Para onde exatamente se está indo? E com qual objetivo? O que se encontrará pelo caminho? Todos sairão vivos? De alguma forma, a película do diretor Diego Quemada-Diez até começa razoavelmente leve, com o trio principal ocupado com pequenas brigas entre si (boa parte delas por ciúmes), enquanto inicia a peregrinação que os leva do trem para a floresta e de volta para o trem e de volta para a floresta, numa caminhada longa que, facilmente, alcança os milhares de quilômetros.

Na construção narrativa também se consolidará uma história de amizade e de descobertas entre os jovens - especialmente pelo fato de Chauk (Rodolfo Dominguez) ser de uma tribo indígena que sequer fala a mesma língua dos "urbanos" Juán (Brandon López) e Sara (Karen Martínez). De forma meio involuntária o trio se aproximará, enquanto investe em sua longa jornada rumo ao desconhecido, tentando ganhar algum dinheiro (com apresentações de rua), se esforçando para escapar de grupos milicianos (e de outros bandidos) e permanecendo longos minutos sobre vagões de trem, que os levam para lugares aleatórios próximos da fronteira. Aliás, a fluidez um pouco mais lenta talvez incomode alguns espectadores, ainda que encontre nela um sentido que dialoga com aquilo que assistimos: a viagem é realmente longa e torná-la, aparentemente, ainda mais longa, é o que faz com que nos exasperemos junto com os protagonistas. Ao mesmo tempo em que a sensação de perigo, como não poderia deixar de ser, parece ser sempre iminente.

Sem encontrar solução fácil, o filme ainda nos joga na cara o absurdo do tratamento dado aos imigrantes que, ao fim, conseguem mal e porcamente atravessar a fronteira - o que ocorre com um sem fim de subornos e milhares de perdas pelo caminho. Recheada por ótimas metáforas, a película ainda utiliza uma sequência em um frigorífico para, visualmente, estabelecer uma rima para aquilo que assistimos: quem afinal são os animais? E o que será necessário para sobreviver nesse contexto em que não ser "enjaulado" é uma vitória? Donald Trump não se reelegeu, mas como amenizar os traumas de milhares de pessoas que são presas na Fronteira, apenas por serem de outro País? Como equacionar o problema da xenofobia, do preconceito, do racismo? Quando olharemos para o outro com mais empatia, com menos violência, de forma mais humana? Com menos crueldade? O gosto amargo na conclusão do filme parece apontar para um caminho que nem a placidez da neve, que cai mansamente, consegue aplacar.

Na Espera - Relatos do Mundo (Filme)

Tom Hanks em um faroeste que remonta aos primórdios do jornalismo, numa jornada de autoconhecimento dirigida por Paul Greengrass (Capitão Phillips). Não vou mentir pra vocês: Relatos do Mundo (News Of The World) é um dos filmes da safra do Oscar que eu mais estou aguardando! A obra, que estreia no dia 25 de dezembro em "local" ainda a ser definido, parece ter toda aquela cara de aventura empoeirada, em que o ambiente inóspito é apenas um dos componentes da história. Na trama, voltamos 150 anos no tempo - para o ano de 1870 -, onde o capitão Jefferson Kyle Kidd (Hanks), um veterano que lutou na Guerra da Secessão, se ocupa em viagens através do Texas oferecendo notícias do "mundo" - histórias de não ficção sobre presidentes e rainhas, de rixas gloriosas, catástrofes devastadoras e aventuras emocionantes dos confins do universo. E isso em uma época em que os jornais estão se tornando a cada dia mais acessíveis.

E será nas planícies do Texas que ele cruzará com a jovem Johanna (Helena Zengel), uma menina de 10 anos que foi acolhida pelo povo Kiowa seis anos antes e criada como uma deles. Hostil ao mundo que nunca conheceu, Johanna resistirá, inicialmente, a ideia de ser devolvida aos seus tios biológicos e o trailer mostra que a relação da dupla de protagonistas será bastante "truncada", já que Kidd aceita a tarefa de entregar a criança onde a Lei diz que ela pertence (por uma quantia de dinheiro, claro). Na viagem de centenas de quilômetros em meio a vastidão da selva implacável, a dupla fortalecerá a amizade enquanto enfrenta desafios não apenas naturais, mas humanos. Eu, sinceramente, já me emocionei no trailer. Na luta pelo "carecão dourado", a expectativa surge em categorias como Atriz Coaduvante (Zengel), Ator (Hanks), Roteiro Adaptado e Filme, além de categorias técnicas como Desenho de Produção, Fotografia, Figurino e Edição. Resta aguardar!

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Picanha.doc - Branco Sai, Preto Fica

De: Adirley Queirós. Com Marquim da Tropa, Shokito, Dilmar Durães e DJ Jamaika. Documentário / Ficção científica, Brasil, 2014, 93 minutos.

Curiosa mistura de documentário com ficção científica, o nacional Branco Sai, Preto Fica é mais um daqueles que se utiliza da distopia futurista, para falar dos tempos que vivemos. Funciona bem como uma grande metáfora que une cinema marginal com obra cyberpunk para dizer que o racismo estrutural amassa o preto periférico, tornando palpáveis as suas tragédias cotidianas. Aqui, acompanhamos a história de dois sujeitos que sofreram com a violência policial durante uma batida em um baile funk - o que viria a deixar suas vidas marcadas para sempre. O primeiro é Marquim (Marquim do Tropa), que perde o movimento das pernas após ser alvo da agressão dos agentes, se tornando cadeirante. O segundo é Sartana (Shokito) que, pisoteado pela cavalaria da polícia montada, tem a perna amputada. O componente ficcional envolverá um certo Cravalanças (Dilmar Durães) que vem do futuro para tentar investigar o que teria acontecido na noite do fatídico baile, com a intenção de colher provas que possam incriminar o Estado.

Sem muita pressa, a obra de Adirley Queirós funcionará como uma espécie de painel que denuncia o racismo institucional - aquele que advém de órgãos públicos, empresas privadas, corporações ou universidades. Assim, por mais curiosa que possa ser a sequência em que Marquim viaja em meio as cidades-satélites de Brasília, sendo alertado pelo "sistema" da necessidade de estar com seu passaporte em dia para acessar a capital do País, não parece haver nenhuma surpresa quanto a isso. Nesse caso, ficção e realidade se mesclam, nos fazendo lembrar que o acesso a certos espaços públicos, especialmente nas metrópoles higienizadas, é privilégio daqueles poucos que integram aquela parcela mais aristocrática da nação. Dessa forma, obter o documento que permita o acesso a estes locais, passará a ser uma espécie de obsessão não apenas de Marquim, como de amigos dele - caso do rapper Jamaika (Dj Jamaika).

Em paralelo, Cravalanças virá do ano de 2070 em uma espécie de container bastante precário. Enquanto recebe ordens dos agentes do futuro, tentará de todas as formas estabelecer contato com aqueles que sofreram nas mãos de uma polícia punitiva, que traumatiza o preto pobre pelo simples fato de ser... isso mesmo, preto e pobre. Ao mesmo tempo, Marquim tentará superar a melancolia dos dias isolado em sua precária e apertada casa fazendo transmissões de rádio para ninguém (e a trilha sonora é um achado). Já Sartana se esforçará para tentar encontrar a prótese ideal para a sua perna. Em ambos os casos o desenho de produção involuntário serve para reforçar o caráter miserável da vida dos dois protagonistas: vivendo em meio a entulhos, em residências decadentes, sujas, sufocantes, tocam uma vida em que haverá pouco espaço para qualquer tipo de satisfação. Ou mesmo de compensação por aquilo que ocorreu no passado.

Utilizando também os cenários desérticos e os objetos cênicos decrépitos como parte da construção do cenário desolador, Queirós parece comunicar muito mais com o uso da imagem do que, necessariamente, do texto. Há um clima generalizado de desalento, que se sobressai nos silêncios, na ambientação que oprime, no eco das vozes contidas. Marquim quer fazer contato com o "futuro" e resolve reunir um sem fim de manifestações culturais variadas - do barulho das feiras livres, passando pelo divertido aparato musical de um conjunto de tecnobrega, até chegar ao hip hop como expressão. Enviar esse material para sabe-se lá onde e com que tecnologia parece ser a solução final em meio a trens que nunca chegam, horizontes pós-apocalípticos, tiroteios contra seres imaginários (mas muito "reais" para os envolvidos). É tudo muito simbólico, nem sempre fácil. Mas é difícil não ficar impactado por essa obra que, não por acaso, se tornou o 69º melhor documentário da história, de acordo com votação feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Uma bela credencial.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #27 - 13 Filmes que Devem Estar no Oscar 2021

A gente sabe que a pandemia bagunçou toda a nossa vida - e com o mercado das artes (e do cinema) não foi diferente. Com as salas fechadas desde o mês de março, os estúdios se empenham em encontrar formas de exibir seus filmes, seja fechando parcerias com serviços de streaming - como Netflix e Amazon -, seja com exibições espalhadas com distanciamento social, ou mesmo em festivais com apreciação "doméstica", onde os votantes recebem as cópias das obras em suas casas. E, falando em festivais, como ficou a situação do Oscar? Bom, ele vai acontecer. Mas foi adiado. Para o dia 25 de abril de 2021. E nos sites que buscam antecipar quais obras que podem estar na maior premiação do cinema, as apostas já começaram, juntando filmes que já podem ser conferidos - caso de Os 7 de Chicago ou Destacamento Blood -, com outros que sequer tem data marcada pra estrear - como o drama Ammonite. E foi pensando em tentar dar uma "organizada" nisso que a gente resolveu falar nessa semana das 13 principais produções que a gente acredita que estará na disputa pelo carecão dourado, destacando atores, diretores, possíveis datas de estreia entre outros. Acho que vocês vão curtir. Bora dar play?


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Na Espera - Era Uma Vez Um Sonho (Filme)

Era Uma Vez Um Sonho (Hillbily Elegy), novo filme do diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante), pode até não ser indicado ao prêmio máximo do próximo Oscar, mas as bolsas de apostas dão uma certeza - ou duas, dependendo do ponto de vista: a de que tanto Amy Adams, quanto Glenn Close estarão entre as indicadas nas categorias Atriz e Atriz Coadjuvante respectivamente. Sobre a segunda, a expectativa é ainda maior, e o trailer recém disponibilizado para a obra que estreia ainda neste mês, no dia 24 de novembro, na Netflix, dá uma pista: após sete nomeações e nenhuma vitória, ela surge como uma das favoritas a conquistar o carecão dourado no dia 25 de abril do ano que vem. Será que a Academia a compensará pelo seu trabalho? E como coadjuvante? Bom, sua caracterização, com direito a uma pequena transformação física, parece ser daquelas que nos deixarão arrebatados, certamente.

Por enquanto tudo está no campo da especulação, sendo grande também a expectativa para o filme baseado no best seller do escritor J. D. Vance, uma obra que conta as suas memórias. Na trama, Vance (Gabriel Basso) é um ex-fuzileiro naval e estudante de Direito que vê seu sonho de conseguir o emprego ideal ser interrompido por uma crise familiar que o obriga a retornar para a cidade onde nasceu e encarar a complexa dinâmica de sua família apalache e a difícil relação com sua mãe (Amy Adams). Com as memórias marcantes da avó que o criou (Glenn Close), J. D. embarca em uma jornada de autoconhecimento e aceitação das influências de suas origens em sua vida. Sim, a sinopse tem aquela cara meio genérica, mas a película tem toda a cara de que levará o espectador as lágrimas, muito por causa do poder das interpretações. Por aqui já estamos na expectativa pela obra - e por ver a dupla que protagoniza brilhar.

Novidades no Now/VOD - O Que Ficou Para Trás (His House)

De: Remi Weekes. Com Sope Dirisu, Wunmi Musaki, Matt Smith e Vivien Bridson. Terror psicológico / Drama, Reino Unido, 2020, 93 minutos.

"Seus fantasmas seguem você. Eles nunca vão embora. Eles vivem com você. E quando eu os incorporei, eu pude começar a me encarar." Um filme de terror cheio de metáforas que falam sobre traumas de guerra, xenofobia, perseguição a refugiados, religião, racismo, culpa e redenção. Assim é O Que Ficou Para Trás (His House), inesperada obra da Netflix que não apenas dá uma oxigenada nos filmes que utilizam o sobrenatural como recurso, como ainda o faz de forma inteligente, elegante e com profundo respeito à inteligência do espectador. Sim, é um filme com muito menos jump scares e muito mais reflexões sobre como o peso dos conflitos bélicos pode acompanhar os envolvidos por muito tempo, mesmo diante da oportunidade de uma "nova vida". Afinal de contas, a psicologia explica: é no inconsciente que ficam guardados os nossos medos, aflições, inquietações, tristezas. E bastará um pequeno gatilho para que todo o tormento venha à tona. 

Na trama acompanhamos o casal Bol (Sope Dirisu) e Rial (Wunmi Musaki). Eles são refugiados do Sudão - República do Norte da África marcada por fortes conflitos étnicos -, que vão parar em Londres, na Inglaterra, onde são enviados pelo Estado para uma modesta casa, em que poderão (tentar) recomeçar. Desde o começo a gente entende que a travessia para tentar fugir de seu País de origem foi marcada por uma tragédia: a filha do casal foi "tragada" pelo mar e encarar a realidade também sem ela fará parte do desafio. Só que não demora para que ambos passem a ouvir ruídos estranhos - que parecem vir especialmente das paredes da decadente residência -, que virão acompanhados de outros acontecimentos esquisitos, numa mistura de sonho e realidade, alucinação e lucidez. Vozes, sussurros, batidas inesperadas, sons que se misturam dentro e fora de casa... aos poucos a tensão vai aumentando, tornando quase insustentável a relação dos dois.


E por mais que o primeiro terço da película nos passe a impressão de estarmos diante de um horror convencional - com direito a espectros de monstros surgindo pelos cantos, pelas frestas -, não demora para que percebamos que essas criaturas terríveis são reflexo dos traumas variados sofridos no Sudão de origem. A guerra, afinal, dificilmente termina para aqueles que a viveram. Ela segue bastante viva, debaixo das camadas do consciente, teimando em voltar. Vale o mesmo para quem passa por um grande trauma e tem dificuldade em superá-lo. O que dificilmente depende da geografia do local que se está. Por mais decrépita e decadente que seja a casa - aliás, num belíssimo trabalho de desenho de produção -, o sentimento de culpa por tudo aquilo que ocorreu no passado pode ser tão "sujo" quanto os restos de pizza cobertos por baratas ou pelo lixo abundante que adorna o jardim do local. O instinto de sobrevivência pode fazer o seu humano tomar atitudes extremas, mas, como lidar com toda a carga que vem após as atitudes que tomamos?

Tudo isso torna O Quer Ficou Para Trás uma viva experiência que ainda mistura de forma refinada cultura, folclore e misticismo. Deixar para trás as suas origens, as suas crenças também pode ser algo difícil e o filme faz essa transição de forma simbólica, mas sem jamais ignorar o poder daquilo que carregamos conosco. Que nos representa. Que nos dá sentido. Sejam as roupas, as maquiagens, as tatuagens. A música, os cantos, os ritos. Aquilo que jamais sairá da "pele" de Bol e de Rial. Que está marcado em suas almas. E o que os tornará tão "diferentes" dos ingleses branquelos, com seus hábitos insípidos. Aliás, o filme não se furta em escancarar o absurdo do racismo e da xenofobia mais de uma vez, ao mostrar o lamentável tratamento dado pelos britânicos aos refugiados (e a cena em que Bol entra em uma loja com o objetivo de comprar roupas, sendo vigiado de perto pelo segurança, dá conta disso). Inteligente, profundo e, por que não, cheio de bons (e instigantes) sustos, O Que Ficou Para Trás atualiza o filme de terror o levando para além dos sustos fáceis ou bobos. Há um poder maior em cada frame. E isso faz a experiência valer muito a pena.

Nota: 8,0

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Lasquinha do Bernardo - Os Braços Sedutores da Solidão

“A solidão é fera, a solidão devora”, escreveu certa vez Alceu Valença em uma bela canção.


Não é preciso ir longe para perceber que esta condição é tema de inúmeras canções, poemas, quadros, filmes e textos. Alguns fogem do assunto, compreensível, afinal a realidade pode ser tão ou mais dolorosa que a ficção. Há aqueles que já estão, muitas vezes, sozinhos e isolados, não é preciso que a arte os lembre disso. Para outros é simples e até mesmo factível imaginar um cenário no qual se está completamente só: andar pelas ruas desertas, sem a necessidade de desvios ou encontros desagradáveis, apreciar o silêncio, deixando para trás o barulho intenso dos carros e das pessoas, manter contato apenas com seu pensamento.

E é neste palco de total distância e isolamento, que Bruno (Fábio Porchat), protagonista de “Entre Abelhas”, drama brasileiro de 2015, produzido e estrelado por boa parte do agora ex-elenco do Porta dos Fundos, começa um exercício doloroso de solidão. O recém separado editor de vídeos percebe que aos poucos todas as pessoas vão simplesmente desaparecendo de sua vida, das suas fotos, das revistas e dos filmes. Em um primeiro momento tudo aparenta ser uma condição patológica fruto da má genética herdada de seu avô. Mas o que acompanhamos é muito mais subjetivo e verossímil, o final do seu relacionamento é repentino e traumático, além disso, ficar sozinho e se ver obrigado a voltar à casa de sua mãe, retornar aos clubes e rolês é difícil para um jovem adulto que acreditava ter alcançado a paz e o sossego. 

Porém, esta curiosa condição revela uma nova e perigosa perspectiva: transformar-se em editor de documentários sobre a natureza, nos quais não há necessidade de pessoas na tela. Assim, aos poucos, o jovem vai acostumando, vivendo uma espécie de profecia pré-pandêmica, afinal, esta agora é a condição que a vida lhe impôs. Bruno, como muitos, cai nos braços sedutores da solidão. Estar sempre sozinho é servir um belo banquete para muitos convidados íntimos, em que todos jantam, mas só um exige perfeição do chef, a insegurança. É fácil criar a autoimagem do romântico leitor de (insira aqui o seu escritor triste favorito), sob a meia luz, torcendo pela próxima noite chuvosa, enquanto ouve um disco de mais uma daquelas bandas melancólicas em uma selva de pedra qualquer.

Em 1882, Machado de Assis publicou o conto “O Espelho”, apresentando a teoria das duas almas, a exterior e a interior. A primeira é a representação concreta de qualquer objeto ou anseio (um militar, por exemplo, acredita que sua farda lhe define), enquanto a segunda é a alma tradicional, espiritual e intangível. A alma exterior é visível quando olhamos para o espelho, mas é sobretudo o que eu desejo ser, maquiado por alguma roupa, acessório ou, neste caso, uma ideia: a falsa noção de que estar constantemente só é um grande projeto pessoal necessário. O protagonista machadiano, atormentado pela alma exterior criada para si, permanece solitário por inúmeros dias, gastando horas e mais horas em frente ao espelho, reafirmando uma posição que parece confortável, mas apontava para uma grande apatia. Aquela imagem reproduzida deixa de ser um instrumento e se torna uma obsessão, então o jovem suprime a sua alma interior e, por insegurança e necessidade de autoafirmação, permanece solitário.

O Bruxo do Cosme Velho, gênio que foi, com a teoria das almas já antecipava uma palavra da moda, um estado positivo de privação: a solitude. Este sim, movimento necessário, difícil, mas real e sem paixões. A nossa alma interior necessita, em boa medida, de sobriedade e boas doses de razão. Já a solidão, fera devoradora, voraz, precisa de atenção exclusiva, exige demais e, como todo péssimo convidado, nunca sabe a hora de ir embora.