terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Novidades em DVD/Now - Border (Gräns)

De Ali Abbasi. Com Eva Melander, Eero Milonoff, Andreas Kundler e Jörgen Thorrson. Drama / Fantasia, Dinamarca / Suécia, 2018, 105 minutos.

[ESTA RESENHA CONTÉM SPOILERS]

Border (Gräns) é um filme estranho, desconfortável, eventualmente grotesco. Decididamente não indicado para todos os paladares, ainda que dotado de algumas boas intenções na percepção daquilo que é diferente - e que deve, sim, ser respeitado, já que não é a "estampa" que define o caráter. Mas há uma sensação de estranhamento generalizado. De deslocamento. De instabilidade. Há algo que nos incomoda o tempo inteiro e que nos escapa o alcance. Não é apenas a figura picaresca de Tina (a bela atriz Eva Melander, embaixo de uma maquiagem tão exemplar que rendeu à obra de Ali Abbasi uma indicação ao Oscar nessa categoria). É o seu comportamento, o seu gestual. Dotada de algum tipo de "sexto sentido", utiliza as suas habilidades para, na condição de guarda de fronteira em uma aduana, identificar contrabandistas ou pessoas que possam estar ligadas a algum tipo de crime. É um trabalho que ela executa em silêncio, sem extravagância e com grande firmeza de propósito.

Lá pelas tantas cruza pelo seu caminho um certo Vore (Eero Milonoff, também debaixo de uma pesada maquiagem), que chama a atenção de Tina, que parece "farejar" algo de errado nele. Semelhante fisicamente a ela, o homem passa a ser investigado, sendo constrangido ao ser revistado - e será a partir daí que algumas das tantas dúvidas a respeito do caminho adotado pelo roteiro, que vai do drama à fantasia sem muitas concessões, começarão a ser dissipadas. Estabelecendo diálogo com a Mitologia Nórdica, a obra mergulha no suspense sensorial, com Tina se apresentando ao mesmo tempo como uma figura folcloricamente engimática (que possui uma relação quase simbiótica com a natureza e com a vida selvagem), ao passo que também é alguém moralmente ética, que é surpreendia ao descobrir a natureza de sua própria existência - condição que emergirá num misto de sofrimento, fúria e até sensualidade.


É um filme nada óbvio e confesso que poucas vezes assisti a algo tão animalesco e sensível em igual medida. Tina é uma figura taciturna que vai se revelando aos poucos ao espectador, especialmente após a chegada de Vore. Tecnicamente impecável, a película abusa dos enquadramentos estranhos, do uso da profundidade de campo e dos closes de seus protagonistas feios (e belos?), para tornar a experiência ainda mais imersiva. A fotografia acinzentada, pálida, melancólica, fornece um tipo de contraste, especialmente nos momentos em que a dupla se regozija em meio à natureza, em seus rios caudalosos, ramos e galhos verdes e encontros fortuitos com os animais da floresta. Já a edição de som torna palpável o exercício de "farejar". É uma trama amarrada em meio à peculiaridade da vida estranha que, em seu limite, trabalha temas como sensação de pertencimento (especialmente em um mundo que odeia minorias) e solidão - mesmo quando estamos acompanhados.

E ainda que funcione bem como trama de mistério e policial - uma rede de pedofilia vai sendo descortinada aos poucos -, o suspense se estabelece muito mais pela curiosidade sobre a dupla central, que entrega um trabalho de interpretação não menos do que magnífico (e que se despe de toda e qualquer vaidade). Milonoff, por exemplo, consegue ser assustador, sombrio e misterioso em igual medida. E mesmo coadjuvante, como Jörgen Torsson, que vive o excêntrico Roland, que mora com Tina, também contribuem para a sensação de estranhamento generalizado que emana da tela (ele é um sujeito que é fã de jogos e de apostas, especialmente aquelas que envolvem animais). Exemplar genuíno daquilo que de melhor tem sido feito em países como Dinamarca e Suécia, a obra foi premiada na mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes - gerando burburinho em outros festivais. Veja. Por sua conta e risco.

Nota: 8,0



Na Espera - 1917 (Filme)

E eis que vai chegando oficialmente a época do ano preferida para qualquer cinéfilo: a da temporada de premiações. É um período em que as produtoras investem forte no lobby, com a intenção de tentarem emplacar os seus filmes, especialmente no Oscar. E uma das obras que entra forte nessa corrida é 1917 (1917), do diretor Sam Mendes (Beleza Americana) e que estreia por aqui no dia 23 de janeiro de 2020. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, reúne no elenco nomes como Benedict Cumberbatch, Colin Firth, Andrew Scott e Mark Strong. Na trama, um grupo de soldados deve atravessar o front inimigo para entregar uma mensagem que poderá cessar os ataques brutais, o que evitará milhares de mortes.


O trailer mostra que o filme será uma espécie de experiência imersiva, em que momentos mais contemplativos, se alternarão com outros mais dinâmicos - aliás, Mendes já dirigiu outro filme "de guerra" anteriormente, o excelente Soldado Anônimo. São muitas imagens de trincheiras, de armas apontadas e de ataques, com uma fotografia acinzentada, melancólica, que deve ditar o tom da narrartiva. Nas bolsas de apostas, 1917 aprece como um dos possíveis indicados para o Oscar na categoria Melhor Filme, não sendo surpresa outras indicações, como para diretor, Fotografia (Roger Deakins), Trilha Sonora (Thomas Newman) e Montagem (Lee Smith). Por aqui já estamos, como de praxe, Na Espera.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Pérolas da Netflix - História de Um Casamento (Marriage Story)

De: Noah Baumbach. Com Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Azhi Robertson e Ray Liotta. Drama, EUA, 2019, 136 minutos.

Acho que o que torna História de Um Casamento (Marriage Story) tão especial é o fato de, inevitavelmente, olharmos para nós mesmos enquanto acompanhamos o desgastante processo de separação que envolve o casal Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver). Afinal de contas, quem nunca rompeu um relacionamento e teve de lidar com toda a quebra de expectativas, as dúvidas e as frustrações que decorreram dessa experiência? Nesse sentido, a obra de Noah Baumbach (de A Lula e A Baleia e Frances Ha) é um prodígio que trata não apenas o tema, mas as pessoas envolvidas nele - com suas virtudes e imperfeições -, com todo o carinho. Não há lado certo na história. Ambos lutam por aquilo que acreditam ser o melhor. Erram e acertam. São empáticos e egoístas, se atacam e sorriem constrangidos. Tentam proteger o filho Henry (Azhy Robertson) e compreendem a importância do outro em suas vidas, o que é comovente. Choram. E como choram. Assim como nós choraremos. Pelo filme. Por algum relacionamento que terminou inesperadamente, enfim.

É uma obra que tem a sua força em um roteiro soberbo, extremamente bem organizado e que é recheado por ótimos diálogos, o que permite que atores da qualidade de Johansson e Driver entreguem o seu melhor - e as indicações para o Oscar a ambos em suas categorias é certa. Driver está perfeito como o diretor de teatro levemente presunçoso e extremamente emotivo, que olha demais para si e para suas preferências, ignorando os desejos da esposa - ainda que seja um bom e paciente pai, seja inteligente, organizado e saiba cerzir as suas meias. Já Scarlett é a atriz de TV promissora que abandona a carreira e se muda para Nova York para, ao lado do marido, trabalhar no teatro. É uma mulher afetuosa, que dá ótimos presentes, é responsável por cortar o cabelo dos integrantes da família, brinca interminavelmente com seu filho e dança. E nos arrebata com a sua entrega. Enfim, peessoas diferentes, com algumas semelhanças, competitivas em igual medida e que se amarão muito. Muito mesmo. Até acabar. Como é a vida.


No primeiro terço do filme algumas memórias se espalharão nos fazendo entender os motivos de ambos gostarem um do outro. Se amarem. Dali para diante, a obra se ocupará da burocracia da separação, suas papeladas, seus advogados nem sempre éticos e as opiniões dos familiares - um tipo de sobrecarga que aumentará ainda mais a dor. Aliás, a trama nos faz perceber como essa eventual invasão de privacidade perpetrada por legisladores que, em tese, deveriam desejar o melhor para seus "clientes", faz mal. São apenas clientes afinal e Laura Dern e Ray Liotta estão muito bem como os advogados que defendem as partes, protagonizando, em audiências exaustivas, algumas das melhores sequências. E, falando em sequências, tecnicamente a obra também é meticulosamente bem realizada, ao investir em enquadramento eventualmente oblíquos e em longos planos, que grudam a câmera na cara de seus protagonistas, nos tornando tão íntimos de suas dores que a experiência se torna quase sufocante. Em uma cena em especial, que começa amistosa e termina com Charlie e Nicole tendo a sua pior discussão, a dor das palavras absurdamente ditas no calor do momento para ferir, para machucar, se confunde com o isolamento sentimental e a dor devastadora que explica o fato de ambos encontrarem acolhimento em si próprios ao final desse ato. Enquanto nós, do outro lado, já estamos em prantos.

Discutindo ainda temas como alienação parental, adultério, separação de bens, futuro dos filhos em caso de separação e memórias afetivas, o filme alterna momentos mais leves com outros de grandes profundidade emocional. E outros metafóricos, como a cena do portão por exemplo. O "alívio cômico" fica por conta da presença insinuosa da mãe de Nicole, Sandra (Julie Hagerty) que, assim como a irmã Cassie (Merrit Wever), considerei meio exageradas (e até caricatas), dado o tom mais sorumbático com que a película evolui - o que fica claro especialmente na cena em que um envelope deve ser entregue à Charlie. No mais a trama avança com Charlie viajando interminavelmente de Nova York à Los Angeles, com ambas as partes tentando reunir os elementos que permitirão obter a guarda do filho - e, enfim, seguir em frente. E, nisso, seguirão cenas de escritórios de advocacia, escritórios frios, muita perda econômica e um martírio que parece não ter fim. Martírio esse que só chegará próximo de uma solução, quando ambas as partes reconhecerem o fato de que o relacionamento pode ter acabado, mas a vida segue. E para que ela seja melhor para aqueles que dependem deles, que seja com menos rancor possível. Afinal de contas, como revela as comoventes cartas escritas pelos protagonistas, talvez eles nunca deixem de se amar. Ainda que as circunstâncias impeçam uma vida juntos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Volta ao Mundo em 80 filmes - Atlantique (Senegal)

De: Mati Diop. Com Mane Sane, Ibrahima Traore, Aminata Kane e Babacar Sylla. Drama / Suspense / Fantasia, Senegal / França / Bélgica, 2019, 104 minutos.

Enviado pelo Senegal para a próxima edição do Oscar, o sensorial Atlantique (Atlantics) começa como um drama convencional sobre relacionamentos e sobre casamentos arranjados - uma prática tradicional no País africano. Ada (Mama Sane) está prometida para o ricaço machista Omar (Babacar Sylla), mas gosta mesmo é de Souleiman (Ibrahima Traore), trabalhador da construção que está a quatro meses sem receber de seus patrões inescrupulosos. Após um episódio em que Souleiman e seus colegas confrontam os seus empregadores sobre os salários atrasados - os operários estão construindo um prédio meio futurista em meio a poeirenta Dacar -, os homens acabam se lançando em alto mar em uma pequena embarcação, para tentar uma melhor sorte. Situação que desespera não apenas Ada, mas também as suas amigas e companheiras que namoram outros daqueles jovens e se veem sozinhas, sem muita explicação, de uma hora para outra.

E será a partir desse episódio que o filme mudará de tom, passando a flertar com o suspense, a ficção científica e a fantasia, com elementos sobrenaturais, religiosos e até futuristas - algo que será reforçado pelos contemplativos planos-sequência, pelas imagens idílicas (especialmente do mar) e por uma persistente trilha sonora, que gerará uma permanente sensação de incômodo. Passada uma semana desde que Souleiman e seus colegas desaparecem mar adentro, chega o dia do casamento de Ada e Omar, com a jovem participando dos rituais - com direito a vestes e música folclórica - meio a contragosto. Um incêndio meio inexplicável e aparentemente criminoso justamente no alvíssimo quarto do casal gerará uma dúvida para os investigadores: teria Souleiman retornado? Alguém afirma ter o visto vagando em meio aos convidados da festa. Seria ele o incendiário? Ada insiste que não vê Souleiman a dias, mas quem estará por trás, então, desse episódio?


Discutindo o papel da mulher, especialmente em sociedades mais conservadoras, a obra de estréia da diretora Mati Diop evoca uma série de sensações para discutir escolhas, liberdade, paixão e permanência da memória afetiva - que é aquilo que carregamos conosco e que nunca se esvai quando pensamos nas pessoas que gostamos e que já nos deixaram. Repleta de contrastes, de simbolismos, a película também faz a crítica social ao demonstrar como famílias podem ser devastadas a partir de frágeis relações trabalhistas e de costumes antiquados - e aqui vou me esforçar para não dar spoiler, mas há duas sequências envolvendo o antigo patrão de Souleiman na segunda metade do filme, que são de lavar a alma. Enquanto o jovem não reaparece, Ada fica para dar explicações, sendo presa. Tudo piora quando outro incêndio acontece, com o envolvimento de mais pessoas. Há um tom irresistivelmente "febril" na narrativa, algo entre a urgência sensual das paixões juvenis em meio a um mundo cheio de incompreensão e de dor.

Como muitas vezes acontece, talvez não seja um filme para todos os paladares. Há bastante imagens do mar, indo e vindo com suas ondas, o que sugere metaforicamente uma espécie de "retorno" daqueles que foram oceano adentro e que reaparecem como emanações espirituais, incorporadas de outra forma. Há uma leveza nisso. Uma poesia, que torna a experiência não menos do que fascinante. Com excelente execução do ponto de vista técnico, o filme também aposta em seus curiosos enquadramentos, em uma boa edição de som (que faz com que a diegese se sobressaia, sem comprometer o produto final) e numa fotografia amarelada, que reforça o calor sufocante do lugar. Há personagens dispensáveis, como o do investigador, [SPOILERZINHO] que também tem um arco meio inexplicável do ponto de vista da possessão - por que ele é o único homem a ser possuído? Aliás, um homem que sequer era conhecido de Souleiman? Mas nada que comprometa a experiência de conferir essa obra que está disponível na Netflix.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

25 Melhores Discos Nacionais de 2019 (+15 Menções Honrosas)

Definitivamente este foi um dos anos mais difíceis para se escolher apenas 40 discos nacionais que representassem esse período. Em 2019 foram grandes lançamentos. De artistas já reconhecidos e outros nem tanto. E que, em muitos casos, motivados pelo absurdo de uma política nada igualitária, que propagada apenas ódio, preconceito e intolerância, encontraram na arte uma forma de extravasar o grito contido. Não é por acaso que muitos dos registros aqui relacionados representam a resistência em sua forma mais pura. Da revigorada Elza Soares, passando por Djonga, até chegar nos veteranos do Dead Fish ou em novidades como o Rosa Neon, há muito o que expressar, especialmente em tempos de desesperança e de desolação. Talvez não seja por acaso que muitos álbuns simbolizem justamente um refúgio para os dias tão sombrios. Dias estes que a gente espera que passem e deem lugar ao carnaval, à alegria, a festa, as cores e a diversidade. Bom, eis na nossa lista de 25 Melhores Discos Nacionais de 2019 (+15 Menções Honrosas), aqueles trabalhos que mais nos arrebataram. E que seguem nos arrebatando. Boa leitura!

Menções honrosas

40) Boogarins - Sombrou Dúvida
39) Juliana Perdigão - Folhuda
38) Clara Valverde - CASO SÉRIO
37) Raça - Saúde
36) Julio Secchin - Festa de Adeus
35) Jards Macalé - Besta Fera
34) Ana Frango Elétrico - Little Electric Chicken Heart
33) Facção Caipira - Do Lugar Onde Estou Já Fui Embora
32) Vanessa da Mata - Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina
31) Mc Thá - Rito de Passá
30) Siba - Coruja Muda
29) Flávia K - Janelas Imprevisíveis
28) Hot e Oreia - Rap de Massagem
27) Rincón Sapiência - Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroréps
26) Bruna Mendez - Corpo Possível
 


25) Bazar Pamplona (Banda Vende Tudo): por mais divertido que fosse o descompromissado (e metalinguístico) álbum Todo Futuro é Fabuloso é interessante notar a evolução artística a cada novo registro do coletivo paulistano - que agora deixa pra trás o hiato de seis anos. Do clima festivo e pulsante do trabalho anterior sobram alguns poucos respiros em meio a um clima de maior sobriedade - ainda que nem assim tão sério. "Para nós é uma espécie de recomeço" comentou o vocalista Estêvão Bertoni em entrevista ao site Tramp. Nesse sentido, as referências ao folk, a MPB e a música alternativa se mesclam em uma sonoridade mais madura, mais rica em texturas e deliciosamente envolvente. Os versos seguem divertidos, abordando divagações cotidianas e relacionamentos de forma esperta e fluída, como atesta o hit Nós Dois (Nem um trago de cachaça põe ela de pé / Se embaixo do edredom ela cria raiz).


24) Jair Naves (Rente): Qualquer busca por empatia / A essa altura é ingenuidade / Eu me defendo esperando o pior / Minha terra é uma bomba a ponto de explodir. Os versos da inaugural Veemente, que abrem o mais recente trabalho de Jair Naves, dão conta do desencanto generalizado que tomará conta do registro dali para frente. O compositor mineiro, como se fosse uma espécie de profeta de nossos tempos - com sua voz trovadoresca, quase elegíaca -, será o responsável por referendar a completa descrença nos cenários político, social, cultural e ideológico de nosso País. Sem jamais baixar o tom, o artista foge um pouco das divagações cotidianas do homem moderno, que serviam de matéria-prima para Trovões a Me Atingir (2015), seu trabalho anterior, para falar mais sério sobre temas como desejo de poder (Deus Não Compactua), a tragédia das diferenças sociais (Sonhos Se Formam Sem o Meu Consentimento) ou o fascismo que parece florescer (Alívio Cômico / Palanque).

23) Jaloo (ft. parte 1): o nome não é por acaso já que, para seu segundo disco de estúdio, o músico paraense chamou músicos parceiros para colaborarem em todas as canções - Lucas Santtana, Céu, Gaby Amarantos e Karol Conká estando entre eles. Nesse sentido, o registro se consiste em um amplo caleidoscópio que mistura música regionalista, brega e eletrônica, sempre de forma ousada, levemente caricata e invariavelmente divertida. Sem estabelecer limites entre masculino e feminino, Jaloo investe em ma espécie de hibridismo musical (e comportamental) para falar de dores, amores, sofrimento e tesão - num processo de identificação direta com o seu público cativo. Um pouco menos festivo que o inaugural #1 - nosso oitavo melhor de 2015 -, o trabalho mostra ainda um artista um tanto mais maduro, um pouquinho mais longe do deboche, mas sem perder a sua essência. O que pode ser percebido em letras rasgantes, como as de Cira, Regina e Nana, Dom e Movimentá.

22) Pietá (Santo Sossego): com um tom um pouco mais urgente (e reativo) do que aquele empregado no igualmente belo registro anterior - o bucólico e plácido Leve o Que Quiser (2015) -, o coletivo substitui o violino e os clarinetes para investir em guitarras, sintetizadores e um pouco mais de "peso" (e ferocidade). Amparado pela voz afinadíssima da vocalista Juliana Linhares, o grupo mantém as referências à literatura, ao folclore e ao regionalismo, acrescentando à sua poética um discurso mais político, como podemos perceber na explícita Virará (Canto como respiro / Eu sei / É preciso cantar / Pra fugir dessa hipocrisia / Que não reinará jamais / No encanto que se principia). Completada pelo violonista Frederico Demarca e pelo percussionista Rafael Lorga, a banda se conheceu na faculdade de Artes Cênicas da UFRJ, o que explica a propensão para os temas teatrais, sendo a provocativa Jabaculê, um dos melhores exemplos deste expediente. Imperdível!

21) Drik Barbosa (Drik Barbosa): "quero mostrar que o rap não cabe numa caixinha". Foi com essa frase, dita em uma entrevista à Carta Capital, que a paulistana procurou resumir o espírito que rege o seu primeiro e ótimo registro oficial - após o lançamento do EP Espelho (2018). De essência amplamente colaborativa - de Karol Conká (Quem Tem Joga) à Emicida e Rael (Luz) -, o álbum é um caleidoscópio de referências, que mistura o batidão do hip hop, com elementos do pop, do trap e até do axé e do pagode. Nas melodias, nas letras, uma poética que comprova que é possível se divertir, viver, mas sem esquecer os dias de luta - algo que fica entre o resistente e o otimista. "Fico feliz com o reconhecimento, porque sabemos a dificuldade que é fazer arte no nosso País, ainda mais sendo negro", comentou em entrevista para o site Uol. Para quem ainda não conhece, a canção Liberdade (A primeira coisa é gostar de si / Para não se tornar fantoche na mão dos outros por aí ) pode ser uma ótima porta de entrada.

20) Chico César (O Amor é Um Ato Revolucionário): eu costumo dizer que o Chico César está para a Paraíba, assim como Vitor Ramil está para o Rio Grande do Sul. Com estética diametralmente oposta a do gaúcho - sai a placidez milongueira do frio para entrar em seu lugar o regionalismo quente dos ritmos nordestinos -, o artista transforma cada um de seus novos registros em uma verdadeira miscelânea de cores e estilos que reverberam também nos versos: ora românticos, ora com consciência política, ora com reflexões sobre cotidiano e uso de novas tecnologias. Da abertura gospel com a faixa-título, até o encerramento com a circense (e divertida) Cruviana, de tudo um pouco: afrobeat (Lok Ok), brega (De Peito Aberto), pop (a ótima History) e reggae (Pedrada, que é daquelas pra cantar o refrão com toda a força). "Quanto mais a gente dançar, beijar e fazer poesia, mais subversivo a gente vai ser", resumiu sobre o trabalho, em entrevista para a Folha.

19) O Terno (atrás/além): é, pessoal, Tim Bernardes e companhia amadureceram. Deixaram para trás o espírito descaradamente juvenil dos primeiros trabalhos - aquela mistura sapeca de Jovem Guarda, eletrônica, samba e música alternativa cheia de digressões divertidas que debochavam DO MUNDO - para investir em um material mais adulto, elegante e minuciosamente arranjado. Isso é ruim? É claro que não. Na verdade o Brasil de Bolsonaro não anda tendo muita graça e tudo isso ao mesmo tempo em que os integrantes do trio passam a conviver com as responsabilidades da vida adulta, relacionamentos e conflitos cotidianos. "É a conclusão de um grande ciclo, o fim de uma juventude", comentou Bernardes em entrevista ao Jornal O Globo. O resultado desse movimento pode ser percebido em canções mais "robustas" como Tudo Que Eu Não Fiz, Pegando Leve e Volta e Meia. Os millenials, afinal de contas, também crescem. E fazem música da boa.

18) Tiago Iorc (Reconstrução): lançado totalmente de surpresa no primeiro semestre, Reconstrução é disparadamente o melhor registro do músico. É um álbum maduro, mas nem por isso quadrado. Que flerta com os mais variados estilos - indo da eletrônica, ao indie, passando pelo samba com escala na MPB -, mas de uma forma dinâmica, coesa, heterogênea. A cada canção, uma nova possibilidade, um caminho diferente que cresce a cada audição. Nem "novo Belchior", nem compositor meia boca que não presta: o registro parece, literalmente, representar um recomeço para o artista, já que o termo aparece, em suas variáveis, esparramado em canções diversas no decorrer do trabalho - como no caso de Laços (Gota de lágrima, trovão que vem do mar / Revolução e a chance pra recomeçar / Quero a sorte / De reaprender / Essa vidae a Vida Nunca Cansa (Quero viver, quero mudar, motivo não há / E lá fora o mundo volta a girar / Se é só o tempo, então releva / Já não há nada que possa evitar).

17) Lulina (Desfaz de Conta): a gente não pode pegar ninguém pelo braço, enfiar um fone de ouvido na cabeça e dizer "ouve isso, PELAMOR" - mas confesso que com essa pernambucana absurdamente talentosa dá vontade de fazer isso. Em seu terceiro registro - ao menos "oficialmente" -, ela deixa um pouco de lado as emanações mais primaveris que formavam o anterior Pantim (2013), para entregar um material mais consistente, que segue mirando um romantismo ao mesmo tempo torto e sensível, mas sem ignorar o atual momento político. "Gosto de sair de um campo gravitacional musical e ficar perdida, flutuando, até ser puxada a outra situação que eu nem sabia que existia", brincou, em entrevista para o site Trabalho Sujo, ao citar parte de seu processo criativo. O resultado? Um sem fim de canções cheias de letras espertas, melodias sinuosas (não há bateria, apenas percussão), alguma dose de regionalismo, de consciência social e muito bom humor, como atestam as imperdíveis Sina Ou Sinal, Cansada de Alegria e Toda a Solidão.

16) Marcelo Jeneci (Guaia): o terceiro disco de Jeneci é a prova de que ele amadureceu. O artista ainda canta sobre a beleza da vida, sobre a graciosidade das coisas simples e sobre a busca da felicidade em relacionamentos aconchegantes. Mas também parece mais consciente de seu papel como artista, especialmente em um contexto social/políticos de censura às artes, de caçada às manifestações culturais, de alienação. Ser artista, afinal, também é ter responsabilidade. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que esse trabalho soe um pouco menos acessível que os anteriores - como se nas entrelinhas de uma maior densidade (ou hermetismo) também estivesse embutido um convite à uma reflexão mais aprofundada sobre o mundo em que estamos vivendo. Sim, ainda há primavera lá fora, sabemos, mas o Brasil tá pesado, sério, Emergencial. Jeneci está atento a tudo isso, e entrega, na embolada bem à brasileira, um discaço.

15) Céu (APKÁ!): o mais recente registro da paulista é uma continuação tão natural de seu trabalho anterior, que mais parece um álbum de sobras do ótimo Tropix (2016) - e, vamos combinar, não há nada de mal nisso! Eletrônica minimalista, batidas econômicas, teclado sutil e um vocal que se mistura as ambientações sonoras e as melodias de forma naturalmente orgânica. Em resumo: é a artista em sua melhor fase. No lançamento do disco, em seu Instagram, prestou uma verdadeira homenagem ao ato de fazer música, de viver e de trabalhar nesse contexto. "Existe algo além, que vem de dentro. Uma transformação. Acho lindo esse processo, de todos os artistas, de todos que criam. Meu disco/grito tem amor, ternura, contrastes, raiva, incompreensão, incômodos, desejo de renovação", resumiu. Com uma musicalidade ao mesmo tempo tropical e retrô (levemente enfumaçada), Céu segue como uma das mais importantes artistas da atualidade. Não é pouco.


14) Dead Fish (Ponto Cego): Uma jovem democracia / Acorrentada nos porões / Pra que velhos ratos / Possam voltar a reinar / Comprando a justiça / Não há corrupção / Entre brancos e ricos. Em um universo em que roqueiros de boutique enfarofados se assombram ao descobrir o que REALMENTE queriam dizer as letras do Roger Waters, enquanto comem seu hambúrguer gourmet, fazem cross fit e dirigem sua HB20, ver uma banda de hardcore que se mantém fiel às suas origens é um verdadeiro alento. Em seu oitavo registro oficial, a banda de Rodrigo Lima e companhia consegue transformar Ponto Cego - parece haver um conceito metafórico sobre algo que nos escapa da visão -, num verdadeiro documento de seu tempo, apresentado em canções que são verdadeiros petardos punk. Não escapa nada e ninguém, sendo lembrados o golpe de 2014 (Sangue Nas Mãos), a violência no trânsito (Suv's) e até as fake news que projetariam o "mito" ao poder (Messias). Um álbum, definitivamente, histórico.

13) Larissa Luz (Trovão): quem acompanha o trabalho da baiana sabe que empoderamento feminino, racismo estrutural, diferenças sociais e outros temas relevantes da atualidade surgem de forma natural, em cada curva sinuosa de suas composições. Por trás das batidas enérgicas, ritualísticas, eventualmente festivas, uma necessária lembrança a respeito da importância da luta, da resistência e da ressignificação dos sujeitos. "[Esse disco é] um convite a conexão com a natureza mesmo partido da vivência em grandes centros urbanos. Um chamado para a percepção e identificação das claves rítmicas que nasceram na África dentro de um contexto atual e futurista. Um elo entre passado e futuro e um manifesto contra qualquer prática violenta na direção de religiões de matriz africana", explicou no material que apresentava o registro, o terceiro da carreira. Condição comprovada por petardos como Lama, Gira, Raxtera e Acreditar.

12) Brvnks (Morri de Raiva): devo confessar que tenho certo ranço com banda nacional que canta em inglês, mas ocorre que o álbum da goiana Bruna Guimarães (o nome por trás do Brvnks) é absurdamente irresistível. Aliás, com ela temos um Best Coast pra chamar de nosso - se não se importarem com a comparação. Até mesmo porque ter semelhanças com a banda comandada por Beth Consentino de forma alguma quer dizer falta de personalidade ou simples imitação barata. A banda imprime frescor aquele estilo punk/praiano/primaveril que tanto gostamos, seja nos versos descolados, divertidos e que ecoam certa "raiva juvenil" (Yas Queen, por exemplo é uma joia!), seja na musicalidade efervescente, que equilibra fúria e doçura em igual medida - quase a moda de uma Courtney Barnett tupiniquim. "A minha ideia foi a de não escrever mais sobre coisas relacionadas ao amor", explicou, em entrevista ao site Tenho Mais Discos Que Amigos.

11) Terno Rei (Violeta): não são todas as bandas que conseguem colocar as suas referências no "liquidificador" para retirar de lá uma sonoridade nova, criativa, cheia de personalidade - e é preciso que se diga que o coletivo paulistano faz isso com folga. Não por acaso, assim que iniciam os acordes da inaugural e adocicada Yoko já nos sentimos afagados pelo perfume nostálgico das emanações oitentistas, capazes de equilibrar um instrumental eminentemente primaveril, com letras sobre desilusões amorosas, relacionamentos tensionados ou mesmo saudade daquilo que não foi. Na tradução perfeita dos dilemas afetivos modernos, tem-se um registro mais "limpo" se comparado com o anterior Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016). E com menos fumaça, fica fortalecido o diálogo com o ouvinte, que reconhece nas letras amparadas pelas harmoniosas melodias, os seus próprios anseios.

10) Rosa Neon (Rosa Neon): se há algo que a música brasileira é hoje em dia é democrática - e nesse sentido parece não haver limites para a produção artística nacional, especialmente para aquela que está a margem, buscando espaço. Além desse aspecto, coletivos como o mineiro Rosa Neón possuem uma capacidade única de brincar com estilos, indo do reggae (Estrela do Mar), passando pelo brega (Vai Devagar), até chegar a, acredite, o freak folk da faixa título (que não faria feio em algum disco do Dirty Projectors, até mesmo pela mescla de vozes femininas e masculinas). Com brasilidade, frescor e energia, cada curva desse registro inaugural é um convite para um fim de tarde ensolarado, colorido em que a capacidade de rir de si mesmo e de seguir em frente é o que se sobressai - como comprova a ótima Cê Não Tem Dó de Mim. "É uma vitamina, uma mistura danada de coisas", brincou a vocalista Mariana Cavanellas, em entrevista pra Revista Noize. E nós adoramos.

9) Jorge Mautner (Não Há Abismo Em Que o Brasil Não Caiba): com mais se cinquenta anos de carreira ligada as artes, com  diversos livros publicados, filmes e peças de teatro dirigidos, é impressionante a jovialidade e a autenticidade que o veterano imprime ao seu décimo disco de estúdio - o primeiro após um hiato de 13 anos desde Revirão (2006). Verdadeira celebração a vida em família, a religião, as artes e ao regionalismo, Mautner preenche cada curva de seu trabalho misturando figuras reais (dona Catulina, Marielle Franco e José Bonifácio) com outras fictícias, como Deus, o Diabo, orixás e outras presenças que servem como uma alegoria geral para o momento tempestuoso de nosso contexto político/social. Amparado por uma viola nostálgica, segura e sutil, o artista faz um contraponto ao elevar o tom nas letras poderosas, necessárias, ainda que eventualmente primaveris - como atesta a canção Marielle Franco, verdadeiro líbelo antifascista.


8) Karina Buhr (Desmanche): não são poucas as manifestações artísticas e culturais que, na atualidade, funcionam como uma espécie de refúgio para que encontremos disposição para a luta ou para resistir. E que nos permitem algum tipo de esperança em meio ao niilismo, a angústia e a desolação. E é exatamente isso o que faz esse imperdível registro. Nele, Buhr surge como a persona que te resgata e te reergue - uma espécie de porta-voz que faz com que percebamos não estar sozinhos nesse mundo de trevas. Sim, a gente sabe que ouve música também para descontrair, mas em meio a selvageria caótica de sua sonoridade e de suas letras também está representado o grito daqueles que preferem não se calar. Na abertura, com a inaugural Sangue Frio, a artista lembra que o "exército tá matador". É só o começo de uma obra política, forte, empoderada e amplamente necessária.

7) Bárbara Eugênia (TUDA): escutar qualquer disco da artista é como abrir um armário em que estão empilhadas roupas levemente empoeiradas, docemente amarrotadas e talvez até com algum cheiro nostálgico de "guardado". Mas são peças que você ainda deseja usar, que sabe que se der uma repaginada nelas, lavar, passar, elas ainda servirão. Terão lá seu charme. Enfim, funcionarão. Essa metáfora, meio boba até, serve para estabelecer a carioca como uma das que melhor dialoga com a música feita no passado, mas que nem por isso deixa de envernizar os seus trabalhos com uma personalidade própria, cheia de vigor. O que é capaz de conferir certo frescor até mesmo a covers do cancioneiro (brega?) nacional, como é o caso de Por Que Brigamos?, lançada em 1972 pela Diana, e que integrava o ótimo É O Que Temos (2013). Em TUDA o expediente se repete em um álbum enérgico, lânguido, voluptuoso, com as décadas passadas sendo nostalgicamente revitalizadas em ótimas canções, como, Perfeitamente Imperfeita, Confusão e As Maçãs Que Vêm.


6) Matheus Brant (Cola Comigo): quando lançou Assume Que Gosta (2016), Brant deu carta branca para que os hipsters tivessem um disco "carnavalesco" para chamar de seu. O registro, divertido até dizer chega, era um convite nostálgico para um encontro entre a música alternativa e estilos como o arrocha, o axé, a marchinha, o sertanejo universitário e o pagode. Assim, havia muita expectativa em relação ao novo registro do compositor, que chega dando aquela abraço carinhoso no pagode dos anos 90 - sim, aquele mesmo que crescemos escutando nas tardes de Domingo Legal (com meia dúzia de músicos sorridentes, dançando, estalando os dedos e fazendo playback). Só Pra Contrariar, Soweto, Karametade, Os Travessos... há uma pitada de cada um desses coletivos no trabalho, que exala um frescor impressionante, nunca parecendo uma simples homenagem ou uma mera caricatura, como comprovam as imperdíveis Preta, Tudo No Menu e a faixa-título.

5) Emicida (AmarElo): há um conceito no mais recente trabalho do paulistano, que se relaciona à cor amarela, que simboliza luz, calor, descontração, otimismo e alegria. Nesse sentido, talvez não tenha sido por acaso que ele tenha sugerido, em sua conta no Twitter, que as pessoas ouvissem o disco na na parte da manhã. Trata-se de um disco cheio de vida, de cor, que tem um otimismo comovente, mas que não ignora os tempos sombrios que vivemos. É um álbum que vai do conforto matinal (Pequenas Alegrias da Vida Adulta) à frieza escura da noite (Ismália), nos pegando pelo braço e nos afagando. É um disco que tem uma "positividade inconformada, uma rebeldia otimista", como resumiu o rapper Rashid. Na abordagem diversificada, a mescla do colorido sinuoso das conquistas e da vida simples em comunidade - seus amores, gostos, histórias -, com um contraponto que persiste em lembrar que estamos num País violento, que mata pessoas por ódio, por preconceito, por intolerância e por cor de pele. Um disco que deve ser ouvido PRA ONTEM.


4) Elza Soares (Planeta Fome): não é novidade que Elza sempre foi a representação de tudo aquilo que o homem branco, hétero e antiquado, abomina. De família simples, preta, mulher, sempre usou sua aveludada voz e seu talento musical para fazer um contraponto da lógica estabelecida pelo mercado certinho, quadrado. E o que mais impressiona: os anos passam e a artista permanece ativa, prolífica, sendo também a voz que representa as minorias, os vulneráveis. Bolsonaro, todos sabemos, é o inimigo público não só das artes, mas do POVO, ignorando assim o papel transformador das manifestações culturais que, se bem conduzidas, podem direcionar inclusive as boas políticas públicas - caso da Lei Rouanet, espécie de "bode expiatório" do suposto mau uso de nosso dinheiro. E talvez seja por tudo isso que a artista sinta tanta necessidade de se expressar, na lata, sem medo. Nesse sentido Planeta Fome é monumento à nossa música, que pode ser resumido pelos versos corrosivos de Não Tá Mais de Graça e País do Sonho.

3) BaianaSystem (O Futuro Não Demora): misture um pouco de música regionalista, batucada africana, manguebeat, folclore, reggae, antropofagia e latinidade, tudo isso somado a versos que são pura consciência social e você terá um pouco daquilo que esse grande coletivo de Salvador faz. Arredondando os experimentos testados no igualmente bom Duas Cidades - 14º colocado na lista de 2016 -, a banda capitaneada por Russo Passapusso faz a galera dançar, suar a camiseta com o seu suingue orgânico, de grande fluidez, mas sem deixar de lado os claros posicionamentos sobre temas como retrocessos (Bola de Cristal), ditaduras militares (Sulamericano), religião (Navio) e racismo (Saci). Com um conceito que ainda aborda a ancestralidade delimitada pela água e pelo fogo - em entrevistas a banda cita a influência de João Ubaldo Ribeiro -, o grupo se consolida como um dos mais relevantes da atualidade no Brasil, ecoando resistência, com uma estética toda própria, riquíssima e cheia de personalidade.

2) Tássia Reis (Próspera): trap, R&B, hip hop, soul... a naturalidade e a elegância com que Tássia trafega pelos mais variados estilos, dá uma mostra da maturidade alcançada pela artista em seu terceiro registro. Ainda melhor produzido do que o já ótimo Outra Esfera (2016), o álbum começou a ser gestado há cerca de quatro anos - com um resultado, não por acaso, impressionante. Com influências que vão de Ray Charles, passando por Lauryn Hill até chegar na Cardi B, o trabalho é uma verdadeira coleção de versos sobre empoderamento feminino, racismo institucional e vida em comunidade (com desejos, frustrações, romances e conquistas), que são apresentados com um flow aconchegante, com a voz da cantora sendo um dos destaques. "A arte gera um questionamento e tudo o que uma jovem negra de 29 anos fizer e que foi fora do padrão já será um ato político em si", afirmou a paulistana, em entrevista para o site UOL. Nesse sentido, a arte para Tássia tem a ver com resistir - como atestam os PETARDOS sonoros Shonda e Preta D+.


1) Djonga (Ladrão): em seu terceiro trabalho, Djonga olha novamente com carinho para a periferia, para as minorias e para aqueles que convivem com a vulnerabilidade, dando-lhes voz, ecoando suas conquistas (eventualmente pequenas, mas inegavelmente importantes), seus anseios, suas angústias e seus medos - especialmente em um País que convive com o racismo estrutural. Tendo sua força nas palavras, utiliza o verbo para cortar, para oferecer resistência, para grutar e ecoar a voz daqueles que nem sempre falam. Sem autopiedade ou excessos comiserativos, Djonga tem consciência de seu papel na luta e de um porvir de resistência real e palpável, transformando o álbum em um verdadeiro caldeirão de referências culturais - Pantera Negra, Che Guevara e Antônio Conselheiro -, e sonoras, numa mescla abusadamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Escute Leal e Tipo. Podem ser ótimas portas de entrada para o estilo cru, imprevisível e engajado do artista, que nos entrega com Ladrão, o melhor trabalho desse ano.


Sim, a gente sabe que faltou muito disco legal nessa lista - e queremos que você nos ajude a completá-la! Escreva nos comentários quais foram os principais registros que marcaram esse 2019 e que merecem ser descobertos. E se você curtiu essa lista, não deixe de conferir também a nossa relação dos melhores discos nacionais dos anos de 2018, 2017, 2016 e 2015. Bora ajudar a apagar essa ideia ultrapassada de que não se faz música boa no nosso País!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Músicas Gêmeas - Beatles x The Offspring

Esta é uma das histórias mais conhecidas de homenagem/plágio no mundo da música. Tida como uma das piores músicas dos Beatles, Ob-La-Di Ob-La-Da foi recriada por Dexter Holland e companhia como Why Don't You Get a Job?, canção que integra o quinto (e insosso) disco do OffspringAmericana (1998). Com melodia e refrão praticamente idêntica a música dos fab four, restou aos californianos terem de lidar com um processo que, ao menos aparentemente, não deu em nada. Para a história do cancioneiro mundial ficaram duas canções que mereciam processo por serem uma pior que a outra.


Picanha.doc - One Child Nation

De: Jialing Zhang e Nanfu Wang. Documentário, EUA, 2019, 85 minutos.

Foi no ano de 1981 que o Governo da China lançou uma das políticas mais inacreditavelmente funestas que se tem conhecimento: aquela que limitava cada casal do País a ter, no máximo, um filho. Pois o que One Child Nation, documentário dos diretores Jialing Zhang e Nanfu Wang, pretende, é demonstrar como esta medida arbitrária, que limitava as escolhas individuais, devastou milhares de famílias chinesas, que não cumpriram o que estava acordado pelo Estado. Nas entrelinhas as intenções do Governo pareciam justas: com a população crescendo exponencialmente, havia o medo - um temor que segue até os dias de hoje -, de que faltaria comida e acesso a serviços básicos de saúde e de educação para todos, especialmente os mais jovens. Casais que, mesmo assim, tivessem mais de um filho, eram punidos com severas multas, o que fez com que muitos recém-nascidos fossem simplesmente descartados. Sim, descartados: no lixo, em terrenos baldios, em locais abandonados.

E este é só um dos tantos efeitos colaterais que uma política opressiva, que constrangia os chineses, determinou. Mas houve outros piores, como o aumento do número de abortos ilegais, o envelhecimento da população e o estabelecimento do tráfico internacional de crianças no País. Retornando após ser mãe, ao pequeno povoado em que nasceu, Wang recordará a ostensiva - e brega - propaganda governamental em favor da política (ela estava em toda a parte, na música estatal, em outdoors, em peças de teatro) e conversará com pessoas que tiveram a sua vida diretamente afetada por este regramento. Entre as mais marcantes, está uma senhora que teria realizado mais de 400 mil abortos, nos mais de 30 anos em que a política esteve em vigor. Outro entrevistado será um artista plástico que utilizava o lixo como matéria-prima para seus trabalhos, até o dia em que foi surpreendido ao perceber que havia fetos "escondidos" nas fotos que havia tirado.


Nesse sentido, o filme, que é incrivelmente bem editado, pode ser eventualmente duro ou até difícil de assistir para algumas pessoas. Especialmente por nos apresentar a terrível condição de que as famílias preferiam matar os seus filhos (pior ainda era se fosse filha), do que se ver censurado ou punido. Não havia escolha, afinal. Sendo o mais incrível de tudo a percepção por parte dos entrevistados de que aquela, de fato, era uma medida necessária para o bem-estar da nação - e por mais que o rígido controle tenha conseguido regrar os nascimentos, percebe-se que os problemas, ao final, foram maiores do que as soluções. Seria mais ou menos como se as camadas mais pobres aqui do Brasil fossem entrevistadas e dissessem que compreendiam medidas como as reformas Trabalhista e da Previdência como um "mal necessário", que lhes garantiria a subsistência ou o futuro. Um olhar cego, de quem se deixa levar por uma propaganda que martela ostensivamente uma ideia, fazendo com que os principais atingidos não percebam o mal que estão causando a si próprios.

No terço final, a película apresenta o seu dado mais alarmante: o de que houve em todos esses anos mais 130 mil adoções de chineses por famílias americanas - e por mais que, nas entrelinhas, isso possa parecer algo bom, foi resultado de um mercado paralelo que anulava completamente a origem biológica de cada bebê (deletando-os de qualquer base de dados), com orfanatos comprando de traficantes os filhos abandonados, a preço de banana. Entre as histórias, a comovente tentativa de um casal americano em descobrir quem são os verdadeiros pais de sua filha adotada, se transforma em uma verdadeira via crúcis de árvores genealógicas confusas, que se valem de informações precárias e de dados mal obtidos. Provável indicado ao Oscar de 2020 na categoria Documentário, a película, premiada em Sundance, nos mostra que política pública não pode ser tratada como mero experimento social e que, sim, em muitos casos o Estado deve intervir o mínimo possível no livre-arbítrio do cidadão.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Cinema - O Irlandês (The Irishman)

De Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino, Harvey Keitel e Jesse Plemons. Drama / Policial, EUA, 2019, 209 minutos.

Do ponto de vista da morte, O Irlandês (The Irishman) é um filme paradoxal: ao mesmo tempo em que reflete sobre a finitude - especialmente no momento em que os personagens surgem frágeis, quando próximos do ocaso de suas existências -, também nos faz pensar a respeito do absurdo e da inutilidade de matar, de morrer, de assassinar (algo muito normal em filmes de gângster). Afinal de contas de que serve tudo isso? Essa disputa sem fim entre chefões da máfia? Esse jogo de poder que sai do nada e nos leva para lugar nenhum? Sim, parece pouco para um filme de mais de 200 minutos, mas a essência daquilo que assistimos em tela é exatamente esta: um dia morreremos, fragilizados, doentes, sozinhos... e de que terá valido aquilo que fizemos enquanto tínhamos saúde? Força? Vigor? O que nos acompanhará no momento derradeiro de nossas vidas? Quais as culpas? Arrependimentos? Desejos? Que sonhos teremos ou não realizado? A nossa "missão" em terra estará, de fato, cumprida?

Bom, os desavisados que ainda não assistiram à película, podem ficar tranquilos: não se trata de um drama existencialista em que as divagações de um bando de homens de meia idade, serão mais relevantes do que os acontecimentos que marcam as suas vidas. Mas elas estarão lá. Em cada curva, em cada canto, em cada olhar melancólico, em cada silêncio que diz muito. Nas frases não ditas ou nos assassinatos executados apenas para se livrar de um destino semelhante. Ou mesmo nos letreiros que, em determinados momentos, nos revelam como morrerão figuras que orbitam o protagonista Frank (Robert De Niro) e seus asseclas - os parceiros de "negócios" Russel Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino), entre outros. Todo muito vai morrer afinal e há algum tipo de melancolia permanente, reforçada pela fotografia acinzentada, pelos gestos econômicos, pelos corredores de prédio opressivos ou pela sofreguidão exemplificada pela dificuldade de colocar um simples remédio em uma caixinha. Pelo isolamento.



Isso não quer dizer que a narrativa se arraste apenas para escancarar, lá pelas tantas, as fragilidades desse coletivo de sujeitos que vai perdendo a vitalidade conforme os anos passam. Voltando no tempo, descobrimos como Russel recruta Frank para a realização de alguns "trabalhos", de como Frank faz amizade com Hoffa - um importante sindicalista que representa os caminhoneiros -, e de como seus atos influenciarão o comportamento de todos à sua volta, da família, passando por amigos, até chegar em políticos. Aliás, a forma como se estabelece um elo entre eventos de grande relevância, como a morte de John Kennedy, com as fraudes, extorsões, golpes e negócios escusos da gangue comandada por Russel é um dos aspectos que torna a narrativa, que é baseada em fatos reais, fascinante. Com muito menos histrionismo e glamourização da máfia do que nos seus filmes anteriores, especialmente Cassino (1995), Scorsese constrói uma obra de pequenos instantes que vão se colando como se fossem um quebra-cabeças - seja este uma reunião mal sucedida por causa de um atraso (e de um sujeito de bermuda), seja o longo ato em que um assassinato de uma figura importante é desnovelado.

E, é quase redundante dizer que tudo só funciona por causa da magnitude do elenco - que é completado por outros astros, como Ray Romano (que faz o advogado de Frank), Harvey Keitel (como um intempestivo chefão da máfia), Bobby Canavalle (um parceiro de negócios) e Jesse Plemons (o filho de Hoffa). Já havia algum tempo que De Niro encarnava seus personagens de forma caricata e no piloto automático, em comédias de segunda linha. Aqui, consegue transparecer o cansaço, o medo, o constrangimento e a frieza em diferentes momentos do filme. Já Pesci, sempre acostumado a encarnar figuras tão delirantemente expansivas e violentas (como esquecer de seu Tommy Devitto em Os Bons Companheiros?), aqui dá um verdadeiro show, ao encarnar uma figura claramente perigosa (e igualmente violenta), mas com bem menos ferocidade, mais economia. Não por acaso, em um dos melhores momentos de O Irlandês, Frank é inquirido por ter cometido um equívoco que quase custa a sua vida, sendo salvo por Russel que, pasme, apenas com o olhar e discretos gestos com a boca, comunica aquilo que está querendo dizer. O trio é completado por um Pacino à altura de seus melhores trabalhos (e não será nenhuma surpresa se surgirem indicações ao Oscar pela frente).


Equilibrando momentos de humor e leveza com outros que entregam a angústia de uma vida eternamente ligada ao crime, o roteiro é capaz de brincar com expressões (pintar a parede), chegar ao limite do nonsense (como no momento em que Hoffa debocha do fato de os italianos não terem criatividade na hora de dar nomes) e abordar dramas familiares - exemplificado pela filha que tem medo do próprio pai - para, em poucos instantes, nos levar de novo para o universo sombrio e de violência ao qual todos aqueles que acompanhamos estão envolvidos. Nesse sentido, não serão poucas as mortes, o sangue e o rastro de dor que será deixado naqueles que ousarem atrapalhar os negócios dos mafiosos. Assim como não serão poucas as cenas de tramoias, de conversas cheias de segundas intenções e de imagens recheadas de simbolismos - a das carnes penduradas em um açougue, no ato inicial, são quase didáticas demais! Só que, no fim das contas, tudo será apenas negócios. Dinheiro. Poder. E nada disso acompanhará ninguém para o caixão. Como comprovará o melancólico ato final desse filme grande, cheio de vigor e que nos faz pensar, quase que permanentemente, no poder transformador da arte. Um monumento.

Nota: 10