quinta-feira, 2 de abril de 2020

Pérolas da Netflix - Dezessete (Diecisiete)

De: Daniel Sanchez Arévalo. Com Biel Montoro, Nacho Sanchez, Chani Martin e Kandido Uranga. Drama, Espanha, 2019, 99 minutos.

Talvez não seja exagero supor que Dezessete (Diecisiete) é  parte da contribuição da Espanha para os filmes "Sessão da Tarde". Há um menino que faz amizade com um cachorro. Dois irmãos que, às turras, tentam superar traumas do passado e se reconciliar. Uma avó no leito de morte. Uma história com cara de road movie cheia de belas paisagens e de fotografia bonita. Uma trilha sonora graciosa e aconchegante. E a tentativa de redenção de figuras complexas em um mundo duro, áspero. É o prato cheio bastante familiar para aquele tipo de obra sincera, otimista, espirituosa e que te faz rir e chorar. A gente já viu esse filme, pra falar a verdade, milhares de vezes. Mas em tempos pesados de coronavírus, de insegurança, de medo em relação ao futuro, acompanhar a trajetória do jovem autista Hector (Biel Montoro) e sua luta para reencontrar o cãozinho Carneiro, é algo que nos motiva. E nos faz sorrir de forma quase juvenil.

Na trama o já citado Hector é um menino de 17 anos que está em um Centro de Detenção Juvenil. Aliás, no começo do filme percebemos que podem ser "nobres" os motivos para ele ser preso - como no caso do roubo de um aquecedor para a sua avó doente. Tímido, prefere ficar isolado dos demais colegas, o que ele consegue com seguidas tentativas de fuga (como castigo, ele não pode ter contato com os demais). Um certo dia, como parte da terapia de reintegração, ele é aconselhado a cuidar de um cachorro tão esquivo e disperso quanto ele. Conforme os dias avançam, a proximidade entre os dois só aumenta. Pior, o que era desconfiança no começo, se torna uma grande amizade a ponto de Hector, um autodidata de marca maior, ler livros de veterinária. Bom, tudo seguia bem até o dia em que Carneiro é oficialmente adotado. E será a partir da angústia de Hector pela distância do bichinho, que teremos o arco dramático central do obra.


Após essa primeira parte Hector foge, disposto a encontrar o paradeiro da família que adotou o animal - e com a intenção de substituí-lo por outro! Acompanhado do irmão Ismael (Nacho Sanchez), com quem não tem uma boa relação, e da avó moribunda, sairão para visitar três locais diferentes em que eles acreditam que Carneiro possa estar. E será por meio dessa jornada cheia de desafios que eles reencontrarão suas origens - no povoado em que seus antepassados nasceram -, e se reaproximarão. Nesse sentido, reaprenderão a importância da palavra "família", consolidando ainda o  batido clichê que faz com que respeitemos a liberdade daqueles que amamos (a vida não é cheia de perdas, afinal?). É tudo muito despretensioso, mas repleto de boas mensagens e de diálogos divertidos, sendo uma de minhas partes favoritas, aquela em que Ismael tenta, meio sem sucesso, explicar a Hector o que é uma ironia.

Aliás, nesse ponto a obra do diretor Daniel Sanchez Arévalo é um verdadeiro vai e vem de instantes mais bem humorados - como no momento em que os irmãos tentam roubar uma vaca de torneio do seu primo (!) -, com outros que são pura ternura - o que dizer da sequência em que Ismael descobre uma série de mensagens em seu celular, escritas pelo irmão? E se o cachorro é de fato, o melhor amigo do homem, a obra ainda faz um elogio a este clichê, com a presença graciosa de um cãozinho de três patas que terá papel decisivo quase ao final da película. Confesso a vocês que nem sempre tenho tido cabeça para obras mais artísticas, reflexivas ou existencialistas nestes tempos (não deixei de gostar, claro, o problema às vezes está em se concentrar) e, Dezessete vai pro lado oposto. Te ganha na simplicidade, na gentileza. Difícil não gostar.

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