terça-feira, 12 de julho de 2016

Cine Baú - A Canção da Estrada (Pather Panchali)

De: Satyajit Ray. Subir Bannerjee, Una Dus Gupta, Chunibala Devi e Karuna Bannerjee. Drama / Índia, 1955, 125 minutos.

"Isto é um filme?" Por mais incrível que possa parecer, é exatamente esta a pergunta que nos vêm a mente quando assistimos ao clássico indiano A Canção da Estrada (Pather Panchali), tamanho o naturalismo das interpretações, o espírito documental e o realismo dos acontecimentos, na obra comandada por Satyajit Ray. Não parece simplesmente cinema e sim algo superior no que diz respeito a formatos artísticos, como se algum pesquisador ou historiador tivesse resolvido fixar a sua câmera em algum lugar remoto da região de Bengala - que, geograficamente, se situa entre Bangladesh e Índia. Tudo para acompanhar o dia a dia de uma pobre família que, sem dinheiro e com poucos recursos, ainda tem as suas vidas devastadas por uma série de acontecimentos trágicos. A grande maioria deles mostrados a partir dos pontos de vista dos filhos Apu (Subir Bannerjee) e Durga (Una Das Gupta).

Não há exatamente um fio condutor de história, que possa guiar o espectador em uma lógica de início, meio e fim tão bem estabelecida pelos padrões hollywoodianos. Tampouco há atores bonitos, bem maquiados, com cabelos impecáveis ou bem vestidos. A fotografia é insistentemente amarelada. As filmagens são angulosas e, às vezes, até mesmo distantes. Mas há muito poder naquilo que se vê e que, até os dias de hoje, permanece enquanto critica social, seja em países mais pobres ou mais abastados. Há uma potência latente, quase inebriante e que torna a experiência não menos do que consagradora para quem a aprecia. Por exemplo, há uma vizinha mais bem de vida - que talvez pudesse até ser considerada a "burguesia" no vilarejo. É ela o alvo de Durca na hora de roubar goiabas que possam alimentar a decrépita nonagenária (Chunibala Devi), chamada apenas de "tia".



A tia é um capítulo a parte. Filmada como se fosse um ser monstruoso aparece quase como uma espécie de paradoxal "vilão" para a obra, uma vez que, interessada apenas em suas próprias necessidades, suga toda a energia da filha e mãe das crianças, de nome Sarbajaya (Karuna Barnejee). Ambas brigam o tempo todo. A tia resolve fugir de casa. Durca vai atrás e se preocupa, entendendo a importância dos mais velhos. E quando a notícia do nascimento de Apu chega até ela, resolve retornar para a família. Todas essas ocorrências, e tantos outras dessa película mágica, são filmadas com extrema delicadeza, tornando tocantes até mesmo os momentos mais singelos - como quando Apu e Durca "encontram" o trilho do trem (num contraponto entre um mundo tecnológico e urgente e um outro rural, bucólico e de sujeitos que, aos olhos do mundo, vivem escondidos).

Mas provavelmente nenhum personagem tenha um arco dramático tão comovente quanto o pai da família, Harihar (Kanu Bannerjee). Ainda que tenha uma veia poética e nítida aptidão para as artes, trabalha dia e noite para levar o melhor no que diz respeito ao sustento da família e ao pagamento das contas que se acumulam. Quando parte para uma jornada de quase meio ano em busca de um emprego melhor, retorna para casa com grandes notícias e recheado de presentes para todos que ali ficaram. Animado, espera que Sarbajaya conte as novidades do local. Mas tudo que a esposa consegue fazer é chorar, pois, o isolamento, aliado as dificuldades financeiras, ao desconhecimento e até mesmo a uma certa má sorte, levaram à família uma das mais duras tragédias. E a cena em que Harihar desaba em dor está, certamente até os dias de hoje, eternizada nos corações dos cinéfilos.



Baseado no livro do escritor bengali Bibhutibhushan Bandyopadhyay esta verdadeira obra-prima do cinema asiático abriu caminho para outras duas obras - O Invencível (1957) e O Mundo de Apu (1959) - que mais tarde ficariam conhecidas como Trilogia de Apu e que recentemente receberam edição nacional. Ainda que, evidentemente, não tenha sido fácil para Ray, um publicitário e cinéfilo de carteirinha, ter levantado os recursos necessários para as suas obras - algo possível não apenas com o apoio do governo indiano, mas também de diretores como John Huston e Jean Renoir -, no Festival de Cannes daquele ano o diretor recebeu o honroso prêmio de "Melhor Documento Humano", além de uma menção especial. Além disso, a obra é figura fácil em listas de melhores, aparecendo em publicações diversificadas como os 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e os 50 Grandes Filmes de Todos os Tempos da Sight and Sound Magazine. Por tudo isso, mais do que justificada a presença no nosso Cine Baú.

2 comentários:

  1. Delicado e comovente, o filme retrata as mazelas da pobreza e a esperança com que os personagens encaram as dificuldades que não são apenas econômicas.
    A figura de "Tia" é tão forte e tão presente que nem parece que o filme tem mais de 60 anos, especialmente quando ela diz que "gente velha não tem valor".
    Por fim, vale destacar que essa pérola foi disponibilizada gratuitamente pelo SESC, que propicia o contato com obras belíssimas do cinema e da literatura.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Belas lembranças e percepções, gatinha! Especialmente a menção ao Sesc, por nos possibilitar acesso a tão importante obra! =D

      Excluir