terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Curta Um Curta - Como Cuidar de um Bebê Elefante (The Elephant Whisperers)

Um casal indiano - os carismáticos Bommam e Belli - resgata um bebê elefante órfão (e ferido) de nome Raghu, se esforçando ao máximo para que ele se torne um animal forte e saudável. A trama do curta em documentário Como Cuidar de um Bebê Elefante (The Elephant Whisperers) é de uma simplicidade comovente. O que não impede a pequena obra de cerca de 40 minutos, dirigida por Kartiki Gonsalves, de ser um verdadeiro elogio à importância da vida - de qualquer vida -, tendo como âncora o respeito à natureza e aos ecossistemas (e no sul da Índia são muitos os conflitos entre humanos e animais). Aqui o ponto alto é o afeto.

 


Riquíssimo em imagens aéreas, contemplativas, silenciosas, bucólicas, o filme acompanha a persistência e o otimismo sorridente do casal central que fortalecerá, com o passar do tempo, seus vínculos com esse simpático "filho meio improvisado" (e o fato deles também terem seus traumas a superar, torna tudo mais emocionante). Disponível na Netflix, a produção foi indicada ao Oscar 2023 na categoria Documentário em Curta-Metragem, apostando na ambientação harmoniosa e ritualística, e nas belas imagens, dignas de Discovery Channel, como algumas de suas fortalezas. É difícil ficar alheio. Ou não pensar na vastidão do mundo.

 

Picanha.doc - Navalny

 De: Daniel Roher. Documentário, EUA, 2022, 98 minutos.

"Num País autoritário ou você é um líder pró-autoritarismo. Ou luta contra esse mesmo autoritarismo." (Alexei Navalny)

Vamos combinar que, morando no Brasil, a gente já está meio que habituado a um certo "surrealismo político" - foram quatro anos de governo Bolsonaro, afinal. Ainda assim, a história vista no documentário Navalny - um dos indicados ao Oscar em sua categoria e que está disponível na HBO Max - é tão absurda que, se fosse apenas um filme talvez tivéssemos certa dificuldade em acreditar. Alexei Navalny é um advogado e ativista russo, famoso por ser um dos principais adversários políticos do governo de Vladimir Putin. Em seu canal de Youtube, ganhou popularidade na vibe vtzeiro ao denunciar a corrupção das estatais russas, se colocando como uma espécie de líder de oposição - aliás, em meio a protestos ele chegou a concorrer a cargos eletivos sob a promessa de proceder com reformas que interrompam o ciclo de supostas ilicitudes no País.

Mas por quê fazer um filme sobre Navalny? Aliás, ele não parece até meio irrelevante para além da agitação das redes sociais? Por causa dos eventos ocorridos em agosto de 2020, quando ele foi internado em um hospital em estado grave, com suspeita de envenenamento durante um vôo de Tomsk para Moscou - em um ato provavelmente orquestrado pela agência russa FBS. Internado em coma e retido pelo governo, ele só foi liberado pelas autoridades do Estado para seguir o tratamento em Berlim, após muitos protestos de familiares, dos advogados e de apoiadores. E o que a obra do diretor Daniel Roher faz é justamente acompanhar esses bastidores que envolvem desde as dificuldades em ser oposição de um governo com predileções populistas, passando pelas consequências de criticar os poderosos, até chegar ao envenenamento seguido de prisão. O que chamaria a atenção do mundo para o caráter criminoso do ato, numa tentativa de silenciar um adversário político.

Figura controversa, Navalny é descrito, sim, com algum viés tendencioso, mas sem paixões exageradas - ainda que a obra, evidentemente, tome partido. Se por um lado ele é apresentado como pai e marido amoroso que parece estar numa cruzada meio solitária contra os líderes do Kremlin - que ele afirma guardar semelhança com a Rússia czarista (!) -, por outro, o documentário não se furta em exibir, ao menos em partes, o passado nebuloso do sujeito, que chegou a ter forte conexão com partidos ligados à extrema direita. E a naturalidade com que ele fala sobre a importância dos partidos nazistas - sim, acreditem - numa espécie de formação de "frente ampla" ultranacionalista na tentativa de contrapor o governo Putin chega a ser assombrosa. Sim, Lula fez uma frente ampla por aqui com Simone Tebet, com Geraldo Alckmin e até com o União Brasil, se for preciso. Na Rússia, essa junção política ecoa certo retrocesso igualmente totalitário - e há quem não esqueça das posições racistas e xenófobas de Navalny no passado. Um mal necessário de momento? Mas até que ponto? Discurso anticorrupção? Hipocrisia? Já vimos esse filme (ou circo) midiático em outros lugares?

Focando muito mais no absurdo do tratamento desumano à rivais políticos do que em análises mais profundas de conjunturas russas, a obra se converte, de forma meio involuntária, em um excelente thriller político que não faria feio nas mãos de diretores consagrados do gênero, como o falecido Alan J. Pakula. Com detalhes interessantes da investigação que chegaria aos responsáveis pela tentiva de assassinato - com um curioso método de tentativa e erro que envolve até mesmo uma sequência de trotes telefônicos -, chegando até mesmo a explicações científicas assombrosas sobre o tipo de veneno utilizado, o filme não deixa de ser uma metáfora perfeita para os tempos políticos atuais. Que, aliás, ganham eco em outros países. Admito que assistir a esse filme, tornou ainda mais absurdo o encontro entre Bolsonaro e Putin, com anúncio de apoio do primeiro ao segundo, antes de eclodirem os ataques à Ucrânia. Quais as intenções por trás daquela prosaica reunião? Sinceramente, eu não sou muito chegado em teorias conspiratórias. Mas em se tratando de extremistas políticos brasileiros e o seu completo desvario na tentativa de manutenção de poder, só posso dizer: vai saber né.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Novidades em Streaming - Passagem (Causeway)

De: Lila Neugebauer. Com Jennifer Lawrence, Brian Tyree Henry, Jayne Houdyshell e Linda Emond. Drama, EUA, 2022, 96 minutos.

"E se o Afeganistão não foi o único trauma?" Quando a gente acompanha o diálogo entre Lynsey, uma "veterana" de guerra vivida por Jennifer Lawrence, e James, seu mecânico e amigo meio improvisado, encarnado de forma comovente por Brian Tyree Henry (aliás, em papel que lhe rendeu indicação ao Oscar), no filme Passagem (Causeway), a gente percebe que as batalhas interiores que envolvem dores, perdas e luto sejam maiores do que sugerem o campo e batalha. Sim, a gente tende a achar, não sem certa razão, que absolutamente nada pode ser pior do que uma guerra. Mas o que explicaria o desejo tão ardente da ainda jovem Lynsey em retornar para o front? De volta à sua Nova Orleans Natal após uma explosão ter lhe causado uma hemorragia cerebral durante a guerra, Lynsey tenta juntar os cacos em meio a dolorosas sessões de fisioterapia, que se alternam com uma relação bastante conturbada com sua mãe, Gloria (Linda Emond).

Claramente a sua rotina parece ser a de uma pessoa que não pertence mais àquele lugar. Mas quais os caminhos para uma possível reconexão? Para uma reaproximação com esse habitat? Com a família - que é completada por um irmão que está preso por envolvimento com o tráfico? Em uma de suas saídas de casa para tentar arranjar emprego - na guerra, Lynsey atuava na área de engenharia, não estando tão habituada a apertar gatilhos -, o antigo carro de sua mãe funde (uma picape velha, que ela leva para uma oficina mecânica). É no local que ela será atendida por James que, de forma meio desajeitada, oferecendo uma carona aqui, lhe convidando para uma cerveja (ou um sorvete) ali, se aproximará dela. Talvez até se apaixonará. Tentando assim demovê-la da absurda ideia de retornar para a guerra como o único caminho possível para algum tipo de paz. E para que as memórias traumáticas da cidade, assim, possam se apagar.



Ao cabo trata-se de uma obra pequena e cheia de instantes sutis sobre o poder da amizade e a respeito da importância da empatia como um caminho que possa nos retirar do buraco em que estamos. Enquanto assistia ao filme dirigido por Lila Neugebauer (uma das realizadoras da série Maid, da Netflix), pensava naquele chavão que diz algo sobre "nunca sabermos como está a vida ou o corre do outro por não estarmos em sua pele". E essa é uma falha meio que geral nossa: quantas vezes mostramos interesse genuíno pelo outro? Quando nessa vida que uma menina loira, bonita, mais ou menos bem nascida de Nova Orleans faria amizade com um mecânico negro, que lhe atende? Não demora para que saibamos que James também carrega os seus traumas - e a sequência em que ambos estão dentro da piscina e trocam confidências, é uma das que faz valer a sessão.

Ok, talvez o filme possa dar uma exagerada em alguns aspectos, mas, o que ele parece querer nos mostrar é que é possível ver a luz que está lá em cima, após sair do andar de baixo - e isso não é papo de autoajuda, eu juro! Reflexões, arrependimentos, anseios, desejos, coisas que preferiríamos esquecer, chances de recomeçar. Quem nunca? A vida real é cheia de surpresas boas e ruins e é sempre tempo de respirarmos um pouco e tomarmos um sorvete (ou um banho de piscina). Indo do pessimismo niilista à esperança quase ingênua, a obra tem aquela cara de "drama indie que faz sucesso no Festival de Sundance", devendo fisgar sem dificuldades os fãs do cinema alternativo. A memória para Lynsey - ou a falta de - é um problema que acompanhamos já no começo de sua jornada, quando ela é acompanhada pela gentilíssima cuidadora Sharon (Jayne Houdyshell). E conseguir lembrar do passado talvez possa ser a motivação (ou a passagem) que falte para que novas memórias sejam formadas. E para que, enfim, se possa seguir.

Nota: 7,0
 
 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Pérolas da Netflix - A Fera do Mar (The Sea Beast)

De: Chris Williams. Com Zaris-Angel Hator, Karl Urban e Jared Harris. Animação / Aventura, EUA, 2022, 119 minutos.

Devo admitir a vocês que só fui prestar atenção nesse A Fera do Mar (The Sea Beast) depois da indicação ao Oscar na categoria Animação e, que grata surpresa! Trata-se de uma obra carismática, bonita e que transmite uma mensagem de tom pacifista e de preservação do meio ambiente, de forma a subverter um pouco a lógica da clássica narrativa da "jornada do herói" (algo que nos acostumamos a ver também em desenhos). Não significa, ao cabo, que não haja heroísmo aqui e sim evidenciar que a bravura ou a coragem pode ter muito mais a ver com confrontar sistemas que se perpetuam do que simplesmente lutar uma batalha física, sangrenta - de armas, canhões, espadas e outros. Ok, eu sei que o ideal de filmes mostrando que a guerra é péssima não chega a ser exatamente uma novidade. Mas em tempos tão brutos como os que vivemos, martelar essas ideias parece ser algo cada vez mais necessário. Ainda mais quando o assunto são os pequenos e a maneira como estamos criando essa geração que será a próxima.

A arte, afinal, humaniza. Nos faz pensar, refletir. E, quanto antes isso acontecer, melhor. Então fica aqui o aceno positivo à essa nomeação que fez o filme de Chris Williams (um dos diretores do divertido Operação Big Hero) - que, aliás, está disponível na Netflix - ser uma espécie de convidado de última hora à maior premiação do cinema. A trama nos joga pra uma Era - não se sabe exatamente qual - em que os humanos convivem com feras aterrorizantes que vagam pelos mares. Caçar esses monstros significa ser celebrado e respeitado não apenas pelos imperadores, mas também pelo povo - como é o caso do lendário Jacob Holland (Karl Urban) que é tipo um braço direito do Capitão Crown (Jared Harris) em suas jornadas. Tudo corre mais ou menos de acordo com o script até o dia em que a dupla sai para a caçada de uma enorme e perigosa baleia vermelha - ocasião em que se deparam com a inesperada presença da órfã Maisie Brumble (Zaris-Angel Hator) no convés. Cheia de personalidade, a intrusa pretende participar das aventuras.

Maisie, assim como muitos outros pequenos é uma órfã que, justamente, perdeu seus pais quando estes envolviam-se em uma caçada em alto-mar. De posse de livros que relatam essas jornadas cheias de heroísmo e glórias - sempre narradas de forma bastante laudatória por seus autores -, a jovem acredita ter a predisposição para a batalha em seu DNA. E se para Jacob já não bastassem os desafios do mar em si, agora ele também precisará cuidar de Maisie e, bom, não é preciso ser nenhum adivinho pra saber que dali sairá uma inusitada amizade. Especialmente depois que a dupla for "capturada" pela grande baleia vermelha, sendo conduzida até a ilha em que mora com outras feras marítimas. E será nessa hora que a pequena passará a perceber que a história que é contada por seus antepassados, talvez não seja exatamente como ela imaginava. O que envolverá uma sequência de cenas comoventes de interação entre Maisie, Jacob e o monstrengo gigante (difícil não se emocionar na parte das flechas, por exemplo).

Tecnicamente soberba, a animação aborda temas como empatia, quebras de paradigmas e até enfrentamento a sistemas autoritários de forma sutil, sem fazer parecer que estamos diante de um simples panfleto. Alternando momentos comoventes, com outros mais engraçados - aliás, a gente acaba rindo de instantes meio inusitados, como na parte do primeiro encontro entre o trio já embaixo da água (um momento paralisante para todos, com ótimo uso da fotografia e da trilha sonora), ou mesmo no momento em que Jacob sofre em meio a uma singela pescaria - o filme não deixa a ação de lado, ainda que, lá adiante, faça pensar sobre o absurdo de uma guerra que provavelmente não terá fim. Bonita, respeitosa e inteligente, a obra ainda brilha na subversão da lógica do papel do vilão - e de como aqueles que são doutrinados por certos tipos de política tendem a ser as grandes vítimas em determinados cenários. Aquecimento global, pandemia, extremismo de direita. Sim, sei que talvez esteja avançando para além da análise de uma simples animação. Mas a chave aqui é confrontar a ignorância: o que essa obra faz de forma divertida, consistente e de forma a agradar adultos e crianças.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Pitaquinho Muscal - Lucas Santtana (O Paraíso)

Quem acompanha a carreira de perto a carreira do baiano Lucas Santtana sabe que a versatilidade de sua música não está relacionada apenas à estilos - que saltam da bossa nova ao pop solar, com uma escala na sem concessões "MPB de novela" -, mas também às letras, invariavelmente atentas ao que acontece ao redor. Sim, aqui e ali ele pode até falar de amor ou investir em dilemas mais cotidianos, com seu violão cru sempre à tiracolo. Ainda assim, ele parece incapaz de ficar alheio à temas relevantes, sejam eles políticos, sociais, culturais - como no caso do recente O Céu É Velho Há Muito Tempo (2019), uma pequena joia musical que, por trás das melodias harmoniosas e sutis, escondia uma visceralidade cheia de potência na crítica à extrema direita brasileira. O que era comprovado por canções de títulos autoexplicativos, tipo Brasil Patriota ou a absurdamente sublime Um Professor Está Falando com Você.

Já em O Paraíso, seu nono disco de estúdio, o debate margeia o aquecimento global, as crises relacionadas ao meio ambiente e a importância de uma maior conscientização a respeito do assunto. O resultado é uma coleção de canções mais movimentadas que as do trabalho anterior, com o acréscimo de percussões, sopros e sintetizadores solares que, ainda que preservem a homogeneidade, também mantém a rotação mais em alta. Elegante e onírico, lírico e contemplativo, o registro parece querer redefinir o conceito de Paraíso, utilizando a própria Terra como metáfora para esse espaço idílico. Um bom exemplo dessa beleza diversificada pode ser observada na singela Vamos Ficar na Terra (Ô Ninha, vamo ficar na Terra / Aqui dá pra plantar e o que se colhe come / Pra matar a sede, bebe água na fonte / Tem rio e cachoeira pra tomar um banhozinho). Atualmente morando em Paris, o artista parece ter a sua percepção aguçada por essa estada na Europa, indo no limite entre a doçura e a crueza, como no caso da inacreditavelmente linda La Biosphère. É um discaço que, certamente, já salta na frente entre os melhores do ano.

Nota: 9,0


Cinema - Holy Spider

De: Ali Abbasi. Com Zar Amir Ebrahimi e Mehdi Bajestani. Drama / Suspense, Dinamarca / Alemanha / França / Suécia, 2022, 115 minutos.

Vamos combinar que nos últimos anos a gente cansou de ouvir os representantes de extrema direita do País afirmarem que estavam em uma "cruzada do bem contra o mal". Embalados em uma aura supostamente sacra - o que envolveu um verdadeiro aparato religioso de templos evangélicos, pastores, bíblias e cantores de música gospel - os bolsonaristas investiram-se da suposta missão divina de extirpar do País a demoníaca ala de esquerda do Brasil. A mistura de fanatismo religioso e pânico moral retroalimentados por fake news, se consolidaria como uma das principais estratégias dos grupos conservadores no sentido de tentar moldar uma sociedade que estivesse de acordo com suas crenças. Qualquer desvio de rota que não fosse representativo dos valores da família tradicional, ou que significasse um mínimo de pluralidade, de diversidade, já seria o suficiente para o recrudescimento de discursos de ódio, de preconceitos, de intolerância. Estado laico? Nada disso, o mito sempre dizia que as "minorias deviam se curvar às maiorias". O tipo de radicalização que, evidentemente, encontrava eco entre os fanáticos.

Sim, a gente sabe que o Irã não é o Brasil - e que lá a obstinação religiosa pode ter desdobramentos ainda mais controversos (pra dizer o mínimo). Como costumo dizer, o problema dos fiéis não é crença em si e sim o fã-clube. Aquela capacidade de levar até o limite os seus dogmas, na tentativa de tentar impor a todo custo a sua religião - o que envolve desde marginalização de outras crenças (no Brasil, especialmente as de matriz africana), intervenção da esfera religiosa na discussão de políticas públicas (como no caso do aborto ou da bizarra tentativa de implantação de uma Escola Sem Partido) e oposição à minorias ou a grupos marginalizados. Isso sem falar nos casos de corrupção que essa equação é capaz de gerar - como no episódio que envolveu o Ministério da Educação (e a pateticamente institucionalizada propina em barras de ouro). Em meio a tudo isso entra ainda o discurso moralista, de restabelecimento de algum tipo de ordem e de salvação contra os pecados - e é aqui que entra, finalmente, o filme que é objeto dessa resenha, no caso o assombroso Holy Spider, que está em cartaz nas salas de cinema do País e que foi o enviado da Dinamarca ao Oscar (chegou até a short list).

Na trama dirigida por Ali Abbasi - do desconfortável e excêntrico Border (2018) - acompanhamos a história inspirada em eventos reais do assassino em série Saeed (Mehdi Bajestani) que sob a desculpa de "limpar as ruas da decadência", estrangulou 16 prostitutas na sagrada cidade iraniana de Mashhad. Acreditando estar fazendo o certo - sob as bençãos de Alá - Saeed vive uma vida doméstica convencional, enquanto trabalha no dia a dia na construção civil. Mas é no turno da noite que ele se converte naquele que se tornaria conhecido como Assassino Aranha - alcunha dada por conta do método utilizado por ele (o que envolvia atrair as vítimas para o seu próprio apartamento, enquanto a esposa e os três filhos estavam ausentes). As autoridades não parecem estar lá muito interessadas em resolver efetivamente o caso - a ordem é ignorar crimes ligados à religião. Situação que só será alterada com a obstinada jornalista Areez (Zar Amir Ebrahimi, que venceu o prêmio de Atriz no Festival de Cannes desse ano), que chega de Teerã determinada a investigar mais de perto os violentos crimes.

É claro que a tarefa não será fácil - e o machismo que ainda ronda certos países mais conservadores é evidenciado já na chegada de Areez ao hotel que, sem ter um marido a tiracolo, quase é impedida de fazer o check in no local. E será nesses pequenos instantes que Abbasi reforçará suas ideias - seja na violência que poderá ser não apenas física mas psicológica ou mesmo no descaso da polícia. Em um dos melhores diálogos, por exemplo, o investigador da polícia afirma que o trabalho da jornalista é o de "informar as pessoas e não assustá-las, de não perturbar a opinião pública". Ao que ela responde que ela não precisa assustar a sociedade: "ela já está assustada". Aliás, qualquer semelhança com o Brasil da pandemia talvez não seja coincidência. Com ótima trilha sonora e fotografia que reforça o caráter claustrofóbico de noite mais escura que a noite, o filme ainda apresenta uma ou outra surpresa, com direito a uma conclusão pouco otimista e que talvez explique, ao menos em partes, esse ressurgimento ocasional de políticas extremistas.

Sem romantizar excessivamente o assassino - o tipo de crítica que envolve outros programas de true crime -, a obra mostra que o fascismo, a misoginia e o preconceito podem estar muito mais próximos do que imaginamos (e vai saber dos segredos daquele simpático vizinho idoso que frequenta a missa todos os domingos e que diz que vota no Bolsonaro "contra tudo que está aí, né?"). Sim, pode parecer exagero de minha parte comparar um serial killer com os extremistas de direita que circulam livremente pelas esquinas de nosso País. Mas em um cenário em que um torturador é tido como herói por uma fatia bem grande da sociedade, não é de se duvidar de nada. "Ninguém vê nada em uma noite tão escura" argumenta Saeed enquanto conduz mais uma de suas vítimas ao covil. Talvez o problema seja esse mesmo: se ocorrer um genocídio de crianças indígenas na frente do "cidadão de bem", ele é capaz de fechar os olhos e fingir que não viu. Mas experimenta falar em aborto. Ou mesmo possibilitar às mulheres a decisão sobre o que fazer com que seus próprios corpos. É a hora que a "aranha" arma a sua teia.

Nota: 9,0

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Treze Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2023

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revelou na manhã desta terça-feira (24/01) os indicados ao Oscar 2023. A cerimônia está marcada para o próximo dia 12 de março - o que abre uma boa janela para que consigamos nos atualizar sobre os principais lembrados. Como de praxe aqui no Picanha, a gente faz uma listinha com Treze Considerações sobre os indicados, destacando ausências sentidas, esnobes, surpresas e outros.

1) Em primeiro lugar a satisfação em ver dois filmes maravilhosos como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e Nada de Novo no Front sendo lembrados com onze e nove nominações respectivamente - em uma campanha que ganhou força na reta final e retirou outras obras, como Os Fabelmans, de um certo favoritismo. É claro que Os Banshees de Inisherin também chega forte, já que também teve nove indicações. Mas em geral isso nos faz perceber que, para além do investimento em campanha, na atualidade, é preciso que o filme também seja muito bom. É meio que o efeito Parasita que segue reverberando.

 

2) Ainda na categoria principal, devo admitir que gostei demais de ver o ainda inédito Triangle os Sadness entre os lembrados - ainda não vi a obra, mas como sou um grande fã do trabalho de Ruben Östlund, tenho absoluta certeza de que vou gostar (aliás, resenha por aqui assim que o filme estiver disponível). Achei meio surpreendente a presença de Entre Mulheres na categoria principal já que o filme da Sarah Polley perdeu força na reta final. Há quem ache que valeria a pena dar esse tipo de visibilidade para Pinóquio de Guillermo Del Toro, por exemplo. Ou mesmo A Baleia. Enfim, enfim...

3) Sobre perda de força, filmes que foram muito comentados nas prévias, como Império da Luz, Babylon, Amsterdam, Ela Disse, The Son e Até os Ossos foram perdendo espaço para outros, conforme a temporada avançava. A grande maioria desses filmes em ainda não assisti para dar o veredicto. Mas como dizem alguns críticos para alguns filmes seria melhor não estrear: aí a campanha poderia permanecer em alta. E ninguém teria chance de ver a bomba que é!

4) Falando em bomba, sinceramente, dada a repercussão negativa de Blonde, me recusei a assistir as quase três horas do filme da Netflix - que ontem foi "agraciado" com oito indicações para o Framboesa de Ouro, aquela brincadeira que sempre dá visibilidade as piores produções da temporada. Ainda assim, a Ana de Armas foi lembrada na categoria Atriz. Ela fez um trabalho melhor que a Viola Davis por A Mulher Rei? Ou que a Danielle Deadwyler por Till? Oscar so white de novo? Ou não? Bom, fica para a polêmica. O Blonde tá anotado aqui: se sobrar tempo ainda assisto antes da noite derradeira do Oscar.

5) Ainda nas categorias de atuação, gostei demais da lembrança de Paul Mescal como ator pelo comovente Aftersun - ainda que isso talvez tenha significado deixar o Tom Cruise de fora. E ainda sobre surpresas, creio que nenhuma tenha sido mais absurda (positivamente?) do que a lembrança de Andrea Riseborough pelo alternativo To Leslie. A campanha parece ter sido modesta, envolvendo menos estúdio e mais pessoas, o que chega a alterar um pouco a lógica do "o dinheiro é que manda" To Leslie ainda não estreou por aqui, mas devo dizer que essa nominação aumentou consideravelmente a curiosidade. 

 

6) E o Brendan Fraser? Será que vence em sua primeira nominação da história?

7) Importante comentar: havia a chance, mas nenhuma das duas produções brasileiras que figuravam nas short lists foram lembradas - nem Sideral de Carlos Segundo, na categoria Curta-Metragem, nem O Território, coprodução entre Brasil, Estados Unidos e Dinamarca, que corria por fora na categoria Documentário. Mais uma vez assistiremos a maior premiação do cinema de "fora", sem chance alguma. Ao passo que os nossos hermanos chegam bem cotados pelo excelente Argentina, 1985 que, não custa sonhar, pode tirar a vitória de Nada de Novo no Front na categoria Filme em Língua Estrangeira.

8) Aliás, sobre a categoria Filme em Língua Estrangeira, aqui talvez esteja o maior esnobe de todos: no caso o do coreano Decision to Leave. Bom para o singelo A Menina Silenciosa, que acabou abocanhando a vaga. Havia uma forte especulação na mesma categoria sobre a presença do badalado Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades. Mas também ficou de fora.

9) Sobre a categoria documentário é até meio normal haver surpresas: agora, jamais poderia imaginar Moonage Daydream de fora. Uma baita - e inesperada - surpresa.

 

10) Em Fotografia também foi meio inesperada a ausência de Top Gun: Maverick que, em algumas bolsas de apostas era dada como presença certa. Aqui rolou um prêmio de consolação pra Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades e Império da Luz - este último fotografado por Roger Deakins (o que é sempre um diferencial).

11) E o Brian Tyree Henry lembrado na categoria Ator Coadjuvante? Acho que nem o maior fã do filme Passagem poderia esperar tamanha surpresa.

12) Muito se falou sobre a canção original do Pinóquio de Guillermo Del Toro, Ciao Papa, que acabou de fora da lista final. Mas a disputa entre Lady Gaga (Top Gun: Maverick) e Rihanna (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre) deve dar o que falar.

13) Havia comentaristas, como o ótimo Dalenogare, que acreditavam que o Treze Vidas: O Resgate, da Amazon, poderiam aparecer em alguma das categorias - inclusive de Filme. Se havia essa possibilidade, o resultado, com nenhuma indicação pode ser considerado apenas um fiasco. Que só confirma a dificuldades da Amazon na hora de fazer campanha.


Indicados

Melhor Filme

   Nada de Novo no Front
   Avatar: O Caminho da Água
   Os Banshees de Inisherin
   Elvis
   Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo
   Os Fabelmans
   Tár
   Top Gun: Maverick
   Triângulo da Tristeza
   Entre Mulheres

Melhor Ator

    Austin Butler (Elvis)
    Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)
    Brendan Fraser (A Baleia)
    Paul Mescal (Aftersun)
    Bill Nighy (Living)

Melhor Atriz

    Cate Blanchett (Tár)
    Ana de Armas (Blonde)
    Andrea Riseborough (To Leslie)
    Michelle Williams (Os Fabelmans)
    Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)

Melhor Atriz Coadjuvante

    Angela Bassett (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre)
    Hong Chau (A Baleia)
    Kerry Condon (Os Banshees de Inisherin)
    Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)
    Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)

Melhor Ator Coadjuvante

    Brendan Gleeson (Os Banshees de Inisherin)
    Brian Tyree Henry (Passagem)
    Judd Hirsch (Os Fabelmans)
    Barry Keoghan (Os Banshees de Inisherin)
    Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)

Melhor Direção

    Martin McDonagh (Os Banshees de Inisherin)
    Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)
    Steven Spielberg (Os Fabelmans)
    Todd Reid (Tár)
    Ruben Ostlund (Triângulo da Tristeza)

Melhor Animação

    Pinóquio por Guillermo del Toro
    Marcel the Shell with Shoes On
    Gato de Botas 2: O Último Pedido
    A Fera do Mar
    Red: Crescer é uma Fera

Melhor Curta Animado

    The Boy, The Mole, The Fox and the Horse
    The Flying Sailor
    Ice Merchants
    My Year of Dicks
    An Ostrich Told Me The World is Fake and I Think I Believed It

Melhor Roteiro Original

    Os Banshees de Inisherin
    Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo
    Os Fabelmans
    Tár
    Triângulo da Tristeza

Melhor Roteiro Adaptado

    Nada de Novo no Front
    Glass Onion: Um Mistério Knives Out
    Living
    Top Gun: Maverick
    Entre Mulheres

Melhor Curta em Live-Action

    An Irish Goodbye
    Ivalu
    Le Pupille
    Night Ride
    The Red Suitcase

Melhor Design de Produção

    Nada de Novo no Front
    Avatar: O Caminho da Água
    Babilônia
    Elvis
    Os Fabelmans

Melhor Figurino

    Babilônia
    Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
    Elvis
    Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo
    Sra. Harris vai a Paris

Melhor Documentário

    All That Breathes
    All the Beauty and the Bloodshed
    Fire of Love
    A House Made of Splinters
    Navalny

Melhor Documentário em Curta-Metragem

    The Elephant Whisperers
    Haulout
    How Do You Measure a Year?
    The Martha Mitchell Effect
    Stranger at the Gate

Melhor Som

    Nada de Novo no Front
    Avatar: O Caminho da Água
    Batman
    Elvis
    Top Gun: Maverick

Melhor Direção de Fotografia

    Nada de Novo no Front
    Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades
    Elvis
    Império da Luz
    Tár

Melhor Edição

    Os Banshees de Inisherin
    Elvis
    Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo
    Tár
    Top Gun: Maverick

Melhores Efeitos Visuais

    Nada de Novo no Front
    Avatar: O Caminho da Água
    Batman
    Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
    Top Gun: Maverick

Melhor Maquiagem

    Nada de Novo no Front
    Batman
    Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
    Elvis
    A Baleia

Melhor Filme Internacional

    Nada de Novo no Front (Alemanha)
    Argentina, 1985 (Argentina)
    Close (Bélgica)
    EO (Polônia)
    The Quiet Girl (Irlanda)

Melhor Trilha Sonora Original

    Nada de Novo no Front
    Babilônia
    Os Banshees de Inisherin
    Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo
    Os Fabelmans

Melhor Canção Original

    Diane Warren – “Applause” (Tell It Like a Woman)
    Lady Gaga – “Hold My Hand” (Top Gun: Maverick)
    Rihanna – “Lift Me Up” (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre)
    M.M. Keeravaani e Chadrabose – “Naatu Naatu” (RRR)
    Ryan Lott, David Byrne, Mitski – “This Is a Life” (Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Cinemúsica - Filadélfia (Philadelphia)

De: Jonathan Demme. Com Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Mary Steenburgen e Jason Robards. Drama, EUA, 1993, 126 minutos.

"I was bruised and battered and I couldn't tell what I felt / I was unrecognizable to myself" / I saw my reflection in a window I didn't know my own face" (Streets of Philadelphia - Bruce Springsteen)

Vamos combinar que basta ouvir os primeiros acordes da melodia de Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, para que a nossa memória seja invadida por imagens de Filadélfia (Philadelphia), filme estrelado por Tom Hanks e Denzel Washington. Assim como já aconteceu em outras ocasiões - seja com Mrs. Robinson, cantada pela dupla Simon & Garfunkel em A Primeira Noite de Um Homem (1967) ou Everybody's Talkin' interpretada por Harry Nilsson em Perdidos na Noite (1969) -, o fato é que aqui canção e filme se misturam, sendo quase impossível dissociar uma da outra. As ruas da Philadelphia estão lá enquanto a nossa mente vaga pelas suas esquinas, ruas, bairros, cheias de pessoas com suas vidas, rotinas e... preconceitos. Na obra de Jonathan Demme, que recém saía da consagração máxima por O Silêncio dos Inocentes (1991) - onde passou o rodo no Oscar -, o tema era o vírus da AIDS e as formas de lidar com a doença que, se já não era assim uma novidade no mundo, ainda era fruto de muita discriminação.

Uma revisão na obra nos faz perceber que algumas questões talvez não tenham envelhecido tão bem - especialmente no que diz respeito ao esforço do diretor para tornar a história mais palatável para o público médio (estávamos no começo dos anos 90, afinal). O amor entre Andrew Beckett (Hanks) e seu namorado Miguel (Antonio Banderas), por exemplo, é mostrado de forma bastante discreta, sem excessos. Aliás, não há sequer um beijo mais caloroso entre ambos e, certamente, isso teve a ver com a forma de (tentar) gerar total empatia pelo advogado encarnado de forma bastante apaixonada por Hanks. Gay assumido, ele não enfrenta problemas com a amorosa família. Mas no escritório onde atua, ele é demitido no que parece ser uma manobra orquestrada pelos sócios do local, a partir do momento em que percebem que ele é portador do vírus HIV - o que envolve a sabotagem de importantes documentos de um dos principais clientes da empresa. Desligado por suposta incompetência? Ou preconceito em estado bruto?

Aos trancos e barrancos ele contrata o competente advogado Joe Miller (Denzel Washington) para defendê-lo no caso. Só que o problema é que Miller é tão preconceituoso quanto os demais - e é aqui que está um daqueles clássicos arcos narrativos que envolve relacionamentos que iniciam turbulentos mas que, ao cabo, se convertem em uma grande amizade (e não dá pra negar que segue sendo absolutamente emocionante conferir dois atores do calibre de Hanks e Washington em tela, contracenando juntos). Abordado por Demme com delicadeza e arestas bem aparadas, o tema central se torna objeto de reflexão a respeito do absurdo da intolerância. Explicar para o público que a AIDS não era transmitida com apertos de mão, abraços ou beijos era necessário em uma época de pouca informação. E isso o filme faz de forma comovente, ao abraçar Andy de forma carinhosa - com Hanks "retribuindo" com uma de suas mais impressionantes interpretações da carreira (que lhe daria, com justiça, o seu primeiro Oscar como Ator).

A propósito do Oscar, Streets of Philadelphia, encomendada por Demme a Springsteen, também venceria a premiação máxima do cinema na categoria Canção Original. A canção fez tanto sucesso que se tornaria a mais famosa do compositor americano na Inglaterra. Para o clima ao mesmo tempo melancólico e afetuoso do filme, ela cai como uma luva, o que é complementado pelos versos doloridos e levemente enigmáticos - Eu estava machucado e surrado e eu não poderia dizer o que sentia / Eu estava irreconhecível para mim mesmo / Eu vi meu reflexo numa janela, não conhecia meu próprio rosto. No livro Almanaque da Música Pop no Cinema, do jornalista Rodrigo Rodrigues (que infelizmente faleceu de Covid), ele lembra que a música foi incluída no álbum All Time Greatest Songs, o que dá uma dimensão da sua importância. No auge do CD, o disco incluiria ainda outras gemas pop, como Philadelphia de Neil Young, Lovetown, de Peter Gabriel e uma versão de Have You Ever Seen the Rain?, do Creedence Clearwater Revival, interpretada pelos Spin Doctors. Mas é Streets of Philadelphia que se converteria num verdadeiro símbolo de combate ao preconceito contra pessoas contaminadas pela AIDS. Hoje esse tema parece até superado. Parece, vale lembrar. Mas em 1993, não dá pra negar, foi uma ousadia e tanto.