segunda-feira, 29 de maio de 2023
Novidades em Streaming - Unclenching the Fists
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Picanha.doc - Still: A História de Michael J. Fox (Still: A Michael J. Fox Movie)
terça-feira, 23 de maio de 2023
Na Espera - Killers of the Flower Moon (Filme)
Vamos combinar que quando o assunto são os filmes estreando em festivais, nós, os meros mortais, precisamos dar uma segurada na ansiedade. Mais ainda quando estamos falando do novo de Martin Scorsese. Sim, Killers of the Flower Moon mal recebeu o seu primeiro trailer oficial - a obra estreia no Brasil em 20 de outubro, se não houver atraso, devendo ser disponibilizada posteriormente na plataforma da Apple TV. Mas a exibição no Festival de Cannes arrancou elogios fervorosos, além de demorados aplausos - o que fez com que a expectativa fosse arremessada lá para o alto! E o que dizer das notas em condensadores como o Metacritic? Atualmente com 91 pontos somados, a impressão que temos é a de estar diante de uma unanimidade: será que, aos 80 anos, o diretor de tantos clássicos terá atingido um de seus auges criativos?
Bom, ainda é cedo pra saber, mas o que já dá pra cravar sem erro é que a obra larga na frente quando o assunto é o Oscar 2024, dada como praticamente certa em categorias como Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons), Roteiro Adaptado (do livro de David Grann), além de Edição, Fotografia e, claro, Filme. A trama, é bom lembrar, retorna pra virada do Século 20, em um período em que o petróleo é descoberto em uma região de Oklahoma, o que tornará os membros da tribo indígena Osage os mais ricos do mundo (praticamente da noite pro dia). Só que toda essa riqueza atrairá intrusos brancos que irão manipular, extorquir, roubar e matar os nativos, com os assassinatos em série sendo investigados pelo recém-criado FBI.Um faroeste de 206 minutos dirigido por Scorsese e estrelado por DiCaprio e Robert De Niro, com todo o peso político, social, histórico e cultural que parece emanar desse épico. Definitivamente não tem como dar errado.
Novidades em Streaming - Noites Alienígenas
De: Sérgio de Carvalho. Com Gabriel Knoxx, Chico Diaz, Gleici Damasceno, Joana Gatis e Adanilo Reis. Drama, Brasil, 2022, 89 minutos.
Primeiro filme do Acre a ser distribuído para o País, Noites Alienígenas mostra, de forma sutil, uma história de violência que avança sem muito controle, em uma região repleta de contrastes. Até os letreiros que surgem antes dos créditos finais - que citam o aumento assombroso de casos de assassinato de jovens no Estado, a partir do avanço de facções ligadas ao tráfico de drogas vindas da região Sudeste - a gente fica meio que "caçando" um sentido a mais para aquilo que assistimos. De alguma maneira trata-se de um painel que evidencia a complexidade das relações no Norte, fazendo colidir hábitos e costumes de povos originários com o enfrentamento da violência urbana que parece bordejar o cotidiano de todos ali. Na trama dirigida por Sérgio de Carvalho são três os personagens centrais: Rivelino (Gabriel Knoxx), Sandra (Gleici Damasceno) e Paulo (Adanilo Reis), três amigos de infância que residem na capital Rio Branco.
Criativo do ponto de vista artístico, Rivelino é um postulante a rapper apaixonado por grafite que ganha a vida vendendo drogas na boca mantida por Alê (o veterano Chico Diaz). As perspectivas são absurdamente poucas, a ponto de o jovem procurar os integrantes de um grupo criminoso mais bem organizado para tentar ampliar seus negócios. O que dá uma dimensão do baixíssimo senso de oportunidade do local. Nas ruas, entre idas e vindas, parece haver um saudável apelo para as artes - com os desenhos do jovem sendo espalhados de forma quase amadora, assim como são os encontros de hip hop. Quais os caminhos então? Para Paulo, um viciado em drogas, a situação é ainda pior já que ele parece estar sempre na "fissura". Pai de um filho de Sandra, vive na dependência química zanzando pela vila em maio a súplicas por dinheiro ou empreendendo pequenos furtos que sustentem seu vício.
Já Sandra, a jovem mãe negra que parece a única disposta a uma vida mais regrada - sonha em ser estudante de medicina enquanto se ocupa como caixa de um supermercado - encontra uma espécie de refúgio nas batalhas poéticas conhecidas como slam. De alguma maneira esse é um filme sobre complexidades, contrastes, potências e choques. Paulo, por exemplo, parece renegar a sua ancestralidade ao funcionar quase como uma caricatura do viciado. Por outro lado, Rivelino parece viver às turras com a mãe Beatriz (Joana Gatis), ao mesmo tempo em que sonha com uma vida melhor. Ao cabo essa é uma experiência sobre incertezas e sobre realidades fragmentadas - são muitos os personagens, inúmeras as vivências e uma carga emocional forte que parece colocar frente à frente ancestralidade e o progresso. Progresso mesmo? É um tipo de complexidade meio diluída em nuances.
Noites Alienígenas venceria cinco prêmios Kikito no Festival de Gramado do ano passado - além de Filme Brasileiro (batendo Marte Um, 2022), Melhor Ator para Gabriel Knoxx, Melhor Ator Coadjuvente para Chico Diaz, Melhor Atriz Coadjuvante para Joana Gatis e prêmio da crítica, além de uma Menção Honrosa para Adanilo. E para além do "filme-favela" essa é uma experiência que flerta com o realismo fantástico, ao colocar a suposta invasão alienígena como uma espécie de alegoria para a submissão das minorias, muitas vezes subjugadas e até escravizadas em contextos de opressão. Os povos indígenas estão ali, funcionando como um espectro que delimita - com seus hábitos, costumes, tradições. Sendo invadidos não apenas pelas facções do crime, mas também pelas igrejas evangélicas que avançam como um câncer especialmente em épocas de bolsonarismo. Nesse sentido, a cobra que se instala lentamente ainda no começo do filme talvez não esteja ali por acaso: ela é um símbolo. Uma metáfora pra esse cenário de tensionamento. E de disputas de poder.
Nota: 7,5
segunda-feira, 22 de maio de 2023
A Volta ao Mundo em 80 Filmes - A Copa (Butão)
De: Jamyang Lodro, Orgyen Tobgya, Lama Chonjor e Nethen Chokling. Comédia, Butão / Austrália, 1999, 89 minutos.
"O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes", já diria a frase atribuída ao ex-treinador da seleção italiana Arrigo Sacchi. Mas talvez para um grupo de monges isolados em um monastério tibetano talvez ela seja a mais importante mesmo. De todas. Ou ao menos é assim quando o assunto é a Copa do Mundo. E na realidade pouco importa se o Butão, o Nepal ou mesmo a Índia não estão na disputa. Para os protagonistas de A Copa (Phörpa), essa saborosa comédia butanesa tida como o primeiro filme gravado no país asiático na história, o que vale é conseguir assistir as partidas de futebol. Ver Ronaldo, Zidane, Roberto Baggio e outros ídolos da época. O ano é 1998 e a efervescência do maior torneio parece estar por toda a parte. Sensação amplificada pelo sem fim de pôsteres dos ídolos do futebol, que estão espalhados pelo quarto do jovem noviço Orgyen (Jamyang Lodro).
Na obra dirigida por Khyentse Norbu - que foi assistente de direção de Bernardo Bertolucci na época que o italiano gravou O Pequeno Buda (1993) e que é um respeitado lama - acompanhamos as peripécias de Orgyen, que sempre dá um jeito de fugir da abadia a noite, para tentar conseguir assistir ao máximo de jogos possíveis. Durante as longas sessões de orações na eterna busca por elevação, o pequeno parece mais interessado em saber quem joga, os horários e outros detalhes, o que ele faz em troca de bilhetes com outros interessados. Sendo sempre observados com certo distanciamento por Geko (Orgyen Tobgyal), que espera que os noviços possam se preocupar com assuntos mais espiritualizados do que banalidades como o futebol (e eu que sou colorado deveria seguir pelo mesmo caminho). Como forma de ampliar o senso de compromisso do pupilo, Geko coloca em suas mãos outros dois meninos, que chegam refugiados do Tibete. Mas como não ser contagiado pela febre?
O caso é que num filme como esse a gente não leva em conta apenas a paixão pelo futebol, mas também o amor pelo cinema. O Butão, tido tantas vezes como um dos países mais felizes do mundo, levaria 104 anos produzir o seu primeiro filme. E a gente nota, aqui e ali, uma e outra inevitável imperfeição - de olhadas pra câmera que não eram pra ocorrer até posicionamentos incorretos na hora da tomada. Mas tudo é absolutamente superado pelo carisma do elenco central. Lodro, com suas caretas expressivas, é simplesmente cativante, e no terço final da obra a gente já está numa torcida alucinada para que ele não apenas consiga realizar o sonho de assistir à final da Copa - após um desdobre em Geko (que, ao cabo, também guarda em segredo certo fanatismo pelo esporte) -, como ainda desejamos que tudo dê certo em relação a promessa de reaver um relógio empenhado, que é parte de uma negociação tensa para que uma simples TV com antena parabólica enferrujada possa ser obtida para ver o jogo.
É uma obra tão simples, tão econômica, como costumam ser as obras asiáticas, com seus fiapinhos de história cheios de sentido, que a coisa toda quase pende pra ingenuidade. Mas é meio difícil ficar alheio. Ou não se comover. Há um instante em que Orgyen toma um banho de banheira e, sob suas vestes, está uma camiseta canarinho com o número nove e o nome de Ronaldo. Em épocas tão equivocadas no que diz respeito ao senso de patriotismo, não deixa de nos dar uma pontinha de orgulho saber que naqueles anos 90 agora tão distantes, o futebol brasileiro gerava tamanha euforia. A propósito do contexto político, social e cultural da região, Norbu não deixa de fazer um aceno, especialmente na abordagem indireta que envolve a ocupação chinesa dos países do entorno. De alguma forma o destemido esforço de Orgyen na tentativa de quebrar o status quo ou a ordem dominante, talvez funcione ainda como uma alegoria que coloca frente a frente tradição e modernidade, obsolescência e contemporaneidade. Ou mesmo a ponta fraca enfrentando destemidamente a mais forte. Tá no Mubi. E vale conferir.
sexta-feira, 19 de maio de 2023
Novidades em Streaming - Os Cinco Diabos (Les Cinq Diables)
De: Léa Mysius. Com Adèle Exarchopoulos, Sally Dramé, Swala Emati, Moustapha Mbengue e Daphné Patakia. Drama / Suspense, França, 2022, 104 minutos.
Vicky (Sally Dramé) é uma menininha de oito anos com uma habilidade especial: por meio de cheiros, de aromas, ela consegue viajar no tempo. E assim vivenciar experiências do passado de uma forma meio mágica. Quase mística. É como se o conceito de memória olfativa fosse ampliado algumas vezes. E, não bastasse esse dom, ela tem um comportamento de verdadeira devoção quando o assunto é a sua mãe Joanne (Adèle Exarchopoulos), uma instrutora de natação. A premissa de Os Cinco Diabos (Les Cinq Diables) não dá pra negar, é curiosa. E te captura de uma forma quase instantânea. Na trama, mãe e filha residem em uma pequena cidade montanhosa que está ao redor de um enorme lago gelado (o Les Cinq Diables do título original). E é nele que Joanne, acompanhada da filha, tem o hábito de nadar. Mas não por muito tempo, pra não sofrer de hipotermia - Vicky fica a seu lado, fazendo soar um apito após vinte minutos.
Para conter os efeitos do frio na pele, a professora utiliza um produto - uma espécie de creme selante. Que é espalhado no corpo da mãe pela filha. A sobra dessa pasta, Vicky coloca dentro de um vidro (uma etiqueta indica que aquele é o frasco com os cheiros da mãe). Após mais algumas alquimias, que envolvem outras misturas, a pequena inala o conteúdo do pote. E desmaia. Sendo justamente esse o instante em que ela consegue viajar para o passado. E será em meio a esses sonhos bastante realistas, que Vicky descobrirá como uma tragédia abalaria a vida não apenas de sua própria mãe, mas também de seu pai, o o bombeiro Jimmy (Moustapha Mbengue), e também da irmã deste, a tia Julia (Swala Emati). E tudo piorará quando Julia chega, depois de um longuíssimo hiato, para uma visita à família. O que ocorrerá a contragosto de Joanne. Com uma série de segredos vindo paulatinamente à tona, a cada nova viagem no tempo da menina. Que andará pra lá e pra cá com sua coleção de aromas.
Claro, a tragédia familiar está no cerne da narrativa. Mas, nas entrelinhas, a diretora Léa Mysius aproveita o seu bem costurado roteiro para jogar alguma luz em temas que envolvem preconceitos diversos relacionados à gênero ou a raça. Jimmy é um homem negro ao passo que Joanne é branca. E Vicky endeusa a mãe de uma forma quase comovente - o que pode ser visto já nas primeiras sequências, onde ela repete os movimentos da mãe na beira da piscina. Na escola, a garotinha sofre bullying dos colegas, por conta de seu cabelo e de seu tom de pele. "Cabelo de bombril" gritos os outros estudantes, enquanto lhe agridem. Com tudo ficando ainda mais difícil quando Vicky descobre que a mãe tem uma espécie de paixão mal resolvida no passado. E que não era bem vista pelo pai de Joanne, Jean-Yvon (Patrick Bouchitey). E há ainda a misteriosa Nadine (Daphné Patakia), que trabalha com Joanne, e que possui uma deformação no rosto. O que teria ocorrido no passado envolvendo a todos ali? Parece complexo, mas não é.
Sem muita pressa, Mysius utiliza sua câmera contemplativa em meio a idas e vindas no tempo, e paisagens deslumbrantes e etéreas, que fazem com que a jornada jamais seja cansativa - ainda que a ambientação como um todo seja mais vagarosa. Há um ponto positivo na trilha sonora que, ao mesmo tempo em que é econômica, é efetiva (sendo ainda o ponto alto o uso da canção Total Eclipse of the Heart, da Bonnie Tyler, que dá aquele quezinho de nostalgia que a gente sempre adora e que desde já se insere como uma das grandes sequências de karaokê dos últimos anos). São contrastes interessantes que vão para além do óbvio elementar do fogo x água, que grita pelos cantos. Em linhas gerais trata-se de uma experiência que quase clama por uma revisão assim que sobem os créditos finais - e que pode ser eventualmente frustrante para aqueles que preferem as coisas mais bem explicadinhas. Mas esse é daqueles projetos que são como aromas que nos remetem ao passado: e que nos fazem viajar sem nem saber direito pra onde.
Nota: 8,5
terça-feira, 16 de maio de 2023
Pitaquinho Musical - Mahmundi (Amor Fati)
Se há algo que podemos perceber no quarto trabalho da cantora e compositora Mahmundi é a existência cada vez mais clara de uma personalidade própria - uma espécie de "cara" pra sua música. Que faz com que o material seja de fácil identificação. Quem acompanha a artista desde o começo da carreira talvez já esteja habituado com as suas melodias aconchegantes, que alternam instantes solares e otimistas com momentos mais poéticos e profundos. Aqueles que aguardam insistentemente por grandes novidades ou revoluções a cada novo disco desse ou daquele artista talvez não vejam nada de mais nessa nova leva de canções que misturam, como de praxe, MPB, pop, rock, soul e jazz. Mas ao mesmo tempo parece ser esse mesmo sentimento de familiaridade que torne a experiência com Amor Fati tão agradável. Não há grandes invenções. Apenas música boa.
E quando apertamos o play não são necessárias muitas curvas para que já estejamos ambientados ao novo projeto - com todo o estoicismo evocado pelo título. Como se fosse uma carta de apresentação, Amanhã é Mahmundi raiz, com toda a sofisticação, efeitos eletrônicos econômicos, guitarrinha primaveril, refrão grudento (Amanhã quando a gente acordar / Me pergunto como é que vai ser / Ela me levou pro céu / Eu não quero mais descer). Misturando a filosofia de Nietzsche, com David Lynch e comédias românticas noventistas - como ela revelou em entrevista à Revista Noize - a cantora explica que o conceito de amor ao destino parece ser uma espécie de linha guia do disco. Um bom exemplo que resume esse expediente pode ser encontrado em Sem Necessidade - parceria com o gaúcho Taguá Taguá. É o tipo de música que flui redondinha, que flerta com a psicoldelia e que nos faz abrir aquele sorriso.
Nota: 8,0
Novidades em Streaming - Air: A História por Trás do Logo (Air)
De: Ben Affleck. Com Matt Damon, Ben Affleck, Jason Bateman, Viola Davis e Chris Tucker. Drama, EUA, 2023, 115 minutos.
Sim, esse é aquele tipo de filme que muito provavelmente vai cair nas graças de marqueteiros, coaches e de empreendedores que acordam às cinco da manhã para trabalhar enquanto os outros dormem. Será citado nas palestras de influenciadores que incentivam a meritocracia. Que defendem que o sucesso só depende de você. Mas fora tudo isso não dá pra negar: Air: A História por Trás do Logo (Air) é um excelente entretenimento! A obra dirigida por Ben Affleck - que pode até não ser lá grandes coisas como ator, mas que como diretor até que se sai (já tem até Oscar em categoria principal no currículo) - está disponível na Amazon Prime e conta a história de como a Nike saiu de uma marca bastante modesta no segmento de tênis para praticantes de basquete, para simplesmente a maior do ramo. Deixando a Converse e a Adidas no chinelo. A cartada? Um contrato polpudo com um certo Michael Jordan que, no começo dos anos 80, dava mostras que ia ser o maior de todos no esporte. Talvez em qualquer esporte.
Até o ano de 1984, a Nike era apenas a terceira colocada no mercado de calçados para basquete - sua marca estava muito mais atrelada aos praticantes de corrida. Na época já existia o famoso logo - de forma muito rápida Phil Knight (o próprio Affleck) explica que ele funcionava como uma espécie de "onomatopeia visual" para o som. O Just do it já era o slogan, com todas as suas controvérsias e ambiguidades. Mas ainda faltava um movimento mais ousado. Que evitasse, inclusive o fechamento da Divisão de Basquete. E que, ao cabo, pudesse elevar a marca a um outro patamar. Na trama acompanhamos um caçador de talentos do esporte chamado Sonny Vaccaro (Matt Damon), que é incumbido pelo diretor de marketing Rob Strasser (Jason Bateman) a localizar aquele que possa ser o novo porta-voz dos tênis do segmento de basquete da Nike. Uma tarefa inegavelmente complicada.
O draft de 1984 apontava para Jordan como uma opção, mas havia um problema: apaixonado pela Adidas, o atleta parecia já estar com os dois pés na marca alemã. E, pior do que isso, como lembra um dos diretores (e atual vice-presidente da empresa) à época Howard White (Chris Tucker, num retorno afetuoso, já que ele é amigo pessoal de White), "homens negros não praticam corrida". Ou ao menos não praticavam naquele época. O que também baixava as expectativas quanto a possibilidade de contar com o futuro astro. E ainda havia, naturalmente, um terceiro ponto: em baixa na Divisão de Basquete, como poder contar com um futuro atleta de ponta com um orçamento modesto. Claro que a estratégia elaborada por Sonny e seus companheiros - com suas idas e vindas e discussões de bastidores em salas de escritório fechadas - será um dos atrativos. O que envolverá a aproximação, especialmente da mãe de Jordan, Deloris (Viola Davis, com aquela cara de possível nominada como Atriz Coadjuvante no próximo Oscar).
Recheado de citações culturais ligadas à época, a obra é um deleite em matéria de desenho de produção, com telefones "móveis" gigantescos, carros e figurinos com o DNA dos anos 80 (que Matt Damon parece vestir com uma pontinha de orgulho, inclusive no que diz respeito à barriga levemente saliente). A trilha sonora, então, é um espetáculo a parte, indo do kitsch nostálgico com ZZ Top e REO Speedwagon, passando por clássicos da época como Money for Nothing do Dire Straits (aliás, a abertura do filme é sensacional!) e Born in the USA, do Bruce Springsteen, até chegar a alternativos meio inesperados, como o Violent Femmes (e Blister in the Sun era figurinha fácil nas rádios descoladas da época). Divertida e com um carisma sem fim, a obra explora um pouco mais da figura considerada, até bem pouco tempo atrás, bastante misteriosa de Knight, um dos fundadores da corporação. Prestando ainda uma linda homenagem à Jordan e a seus familiares que, com a criação de um verdadeiro ícone do estilo, viriam a contribuir com centenas de crianças e jovens que sonham em seguir os passos do ídolo.
Nota: 8,0







