quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Disco da Semana - Maglore (Todas as bandeiras)

Quando terminamos a audição do mais recente disco dos baianos do Maglore, intitulado Todas as Bandeiras, ficamos com o refrão da última canção na cabeça - a música se chama Valeu, Valeu. Grudado como se fosse uma espécie de mantra, permanecemos com aquele valeu, valeu, valeu, valeu, valeeeeeeeeeeeu rodando em loop quase infinito em nossa mente, o que faz com que nós mesmos pensemos em  todos os eventos do dia a dia que nos ocorrem, bons ou ruins, e que, no fim das contas, nos farão fortalecer, fazer crescer e encarar o dia seguinte com disposição. Parece papo de autoajuda, mas não. É só uma forma de lembrar que valeu. Valeu mesmo, valeu por tudo. Valeu por existir uma banda como vocês, Maglore, talentosa, cheia de grandes músicos e boas composições. Valeu por nos permitir escutá-los e, a cada audição, querer ouvir mais e mais por que, afinal de contas, esse é o famoso caso do "discão da porra".

Como se não fosse possível qualificar ainda mais aquilo que já estava sendo muito bem feito, o quarteto atualmente formado por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra, teclado e voz), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Oliveira (baixo e voz) encontra no limite entre o rock alternativo e a MPB a matéria-prima para mais dez composições feitas sem firulas, com ótimas melodias, grandes refrões e letras valiosas. Se no registro anterior intitulado III (2015) - "casa" de canções maravilhosas, como Ai, Ai, Dança Diferente, Mantra e Se Você Fosse Minha - parecia haver um permanente ar de "melancolia psicodélica" aqui e ali - talvez até resultado de uma sutileza maior -, agora o grupo pontua o trabalho com arranjos e outros elementos multicoloridos e ensolarados. E que são capazes de, em muitos casos, formar uma mistura de referências que, propositais ou não, nos jogam diretamente para os anos 80 de bandas como The Smiths e Paralamas do Sucesso.



Só que a inspiração oitentista, é preciso que se diga, jamais transforma Todas as Bandeiras em um produto anacrônico, ou mesmo deslocado de seu tempo. Muito pelo contrário, se a guitarrinha efervescente de uma música como Clonazepam 2mg - terceira do registro - nos faz lembrar o ska praiano feito por Herbert Vianna e companhia na década já citada, a letra cheia de personalidade e o estilo próprio do grupo se sobressaem em cada curva da melodiosa canção, transformando-a em candidata instantânea a hit. A letra da mesma música - O mundo muda e isso não dói / Talvez goste de ser diferente / Mas é normal / Dor de Amor e contas pra vencer - também atualiza os temas preferidos do quarteto (relacionamentos, vida cotidiana e urbana, sujeito e rotina), sem ignorar o mal-estar da pós-modernidade fruto de uma sociedade individualista e hedonista.

E se no irrepreensível segundo álbum - intitulado Vamos Pra Rua (2013) - a banda já flertava levemente com os temas políticos, agora, mais segura de si, se sente mais à vontade para fazer a crítica ao contexto ao qual está inserida. Conservar a força / Que faça crer que o futuro será nosso amigo / A mesma força / Que tem o grito do tigre quando corre perigo, canta o eu lírico na saborosíssima Aquela Força que instiga o ouvinte a se manter de cabeça erguida, mesmo num cenário de crise e de descrença. Outras, como a música título são ainda mais diretas - É toda vez vê que a gente morre / E a gente morre / E a gente morre / E eles põem a culpa toda na cabeça de quem tem que morrer / Mas depois tem que limpar o chão.


Curioso notar que, mesmo nas canções mais pesadas, o clima positivo, ao mesmo tempo urbano e primaveril, urgente e reflexivo se mantém, formando um todo ao mesmo tempo homogêneo e multifacetado. Jogue Tudo Fora, por exemplo, é capaz de tornar leve e divertido um caso de separação. O mesmo vale para Eu Consegui que, com temática semelhante e cadência de "quase samba", versa sobre a fossa, resultado da perda de um grande amor. Pequeno em tamanho - são apenas 37 minutos e 10 canções - o registro é extremamente representativo da evolução do quarteto que, chegando apenas ao quarto registro, se posiciona como uma das mais inventivas e interessantes bandas nacionais. Quem não estiver familiarizado com o grupo, certamente encontrará em Todas as Bandeiras uma excelente porta de entrada, com o seu clima absolutamente jovial, ainda que totalmente maduro. Um disco imperdível. Valeu. Mesmo.

Nota: 9,0

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Tesouros Cinéfilos - Caiu do Céu (Millions)

De: Danny Boyle. Com Alex Etel, Lewis Owen, James Nesbitt e Daisy Donovam. Comédia dramática / Fantasia, EUA, Reino Unido, 2004, 97 minutos.

O diretor Danny Boyle já fez tantas obras marcantes e distintas - Trainspotting (1996), Quem Quer Ser Um Milionário (2008) e 127 Horas (2010), só para citar algumas - que o singelo Caiu do Céu (Millions) até parece uma nota menor dentro da sua filmografia. Mas só parece, já que é absolutamente impossível permanecer alheio ou não se sentir tocado pela história dos dois irmãos que "encontram" uma mala de dinheiro com mais de duzentas mil libras esterlinas, próxima de um trilho de trem, apenas uma semana antes de a moeda inglesa corrente passar a ser o Euro. A história simples, edificante, leve e divertida, ainda que pudesse soar excessivamente demagógica no que diz respeito ao uso do dinheiro, acaba por nos emocionar de forma absolutamente naturalista, sem forçação, despertando em que assiste sentimentos relacionados a empatia, a generosidade e o espírito filantrópico. E que, no fim das contas, possibilitarão sonhar com uma vida mais harmoniosa em sociedade. Sim, em tempos de ódio, preconceito e intolerância, "sonhar" é a palavra.

O clima de "aventura infanto-juvenil" é reforçado pelo divertido fato de os irmãos terem personalidades absolutamente distintas. Enquanto Anthony (Lewis Owen) adota uma postura pragmática e até mesmo ambiciosa diante da situação - ele sempre está pensando diversas maneiras de, particularmente, se beneficiar da pequena fortuna, utilizando até mesmo a morte da mãe para se favorecer -, Damian (Alex Etel), com uma bondade quase inacreditável para um menino de apenas sete anos, está sempre analisando de que forma poderá beneficiar outras pessoas com o dinheiro, não hesitando em entregar parte dos recursos para causas sociais, para vizinhos mais pobres ou mesmo para amigos que terão o seu silêncio comprado. E essas diferenças de comportamento resultarão, inegavelmente, em alguns dos momentos mais engraçados da história - especialmente aqueles em que Anthony demonstra insatisfação diante da generosidade do irmão.



Ainda que pudesse soar como um elemento deslocado dentro do roteiro, o componente religioso - Damian recebe a visita de diversas entidades, santos e outros personagens bíblicos - serve apenas para reforçar o caráter fantasioso da película. Condição ampliada por outros eventuais exageros visuais e que contribuem para a constituição de um contexto lúdico e quase onírico da obra - repare como a mala de dinheiro que cai próxima dos meninos, quica de uma maneira totalmente irreal! Utilizando ainda uma paleta de cores totalmente diversificada, o diretor de fotografia Anthony Mantle é capaz de utilizar tonalidades mais quentes nas cenas que envolvem o amoroso pai dos meninos (o talentoso James Nesbitt) para, no instante seguinte, utilizar uma coloração mais saturada, em uma sequência que apresenta um flashback envolvendo a origem do dinheiro. (aliás, repare como este estilo de cores seria utilizado novamente mais tarde em Quem Quer Ser Um Milionário?, uma vez que Mantle retornaria para colaboração com Boyle também neste filme)

Com diálogos rápidos e divertidos, como no caso da cena da escola em que os meninos falam sobre os seus "heróis", sendo que a maioria deles são jogadores de futebol de algum clube de Manchester, a obra não poupa o espectador de momentos tocantes, como no caso do surpreendente reencontro dos meninos com a falecida mãe, em uma das sequências mais arrebatadoras da obra. E, como o filme é narrado pelo pequeno protagonista, é ele quem decidirá os rumos da história, que envolverão ainda a presença de uma assistente social (vivida pela atriz Daisy Donovan). E, como se não bastasse o deleite visual e o clima de feel good movei da película, o espectador ainda é arrebatado por uma sequência final ao som de Nirvana, do grupo new age Il Bosco, que está para sempre eternizada no coração de cada cinéfilo. Uma conclusão apaixonante, singela e que nos fará sair da sessão com o melhor dos sentimentos. E, ainda, digna de um dos melhores diretores de nossa geração.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Na Espera - The Shape Of Water (Filme)

Que o cinema de Guillermo Del Toro sempre é motivo de expectativa para os cinéfilos, não chega a ser exatamente uma novidade. Diretor de clássicos modernos como O Labirinto do Fauno (2006) e A Colina Escarlate (2015), o mexicano parece disposto a, novamente, investir em uma trama que mistura realidade e fantasia, equilibrando um tom mais sombrio com outro mais leve em igual medida - assim como já havia ocorrido em ambos os filmes aqui citados. Ao menos é esta a impressão passada pelo trailer do curioso The Shape Of Water - ainda sem título em português -, previsto para estrear por aqui no dia 11 de janeiro de 2018. Cheiro de indicação ao Oscar no ar? É o que apontam algumas bolsas de apostas.


A trama se passa na década de 60 quando, em meio a grandes conflitos políticos e bélicos, em um cenário de amplas transformações sociais, uma zeladora de nome Elisa (Sally Hawkins), funcionária de uma espécie de laboratório experimental secreto do Governo americano, conhece e se afeiçoa por uma criatura fantástica, que é mantida presa no local. Aparentemente ela tentará elaborar um plano de fuga para a criatura, recorrendo a outras pessoas para isso. Tudo em meio a um clima soturno que, eventualmente, poderá partir para o existencialismo em suas conclusões - o que poderá tornar tudo melhor! O bom elenco conta ainda com Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Shannon e Michael Stuhlbarg. Por aqui, já estamos Na Espera!

Cine Baú - Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451)

De: François Truffaut. Com Oskar Werner, Julie Chritie e Cyril Cusack. Ficção científica / Fantasia, Reino Unido / França, 1966, 112 minutos.

Não é de surpreender o fato de que as distopias imaginadas por autores de ficção científica, traduzam tão bem os tempos que vivemos. E o mais intrigante: muitas delas se mantém inadvertidamente atemporais, ainda que se refiram a uma realidade que, a exceção do campo das metáforas, não existe. Quando escreveu Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451) o inglês Ray Bradbury tinha a intenção de criticar a presença da televisão nos lares europeus. E também o fato de esta diversão puramente hedonista e eventualmente pobre do ponto de vista intelectual, ser capaz de destruir o interesse das pessoas pelos livros. Mas quando somos surpreendidos por notícias como a desta semana, relativas ao cancelamento de uma exposição artística no Santander Cultural, em Porto Alegre, percebe-se que a ficção proposta por Bradbury, adquire outros sentidos. Sentidos dolorosamente mais atuais, diga-se.

Filmada por François Truffaut em 1966, a trama se passa em um futuro próximo, onde, em um Estado totalitário, os "bombeiros" têm como principal função localizar e queimar qualquer tipo de material impresso. "Os livros trariam infelicidade, tornando também as pessoas antissociais", declara um membro dessa brigada, em determinado momento da película. Só que o protagonista Montag (Oskar Werner), ainda que cumpra o seu dever com zelo - ele, inclusive, está próximo de receber uma promoção - passa a questionar o sistema após se aproximar de uma revolucionária professora e também ao ver uma mulher preferir ser queimada junto com a sua ampla biblioteca ao invés de permanecer viva. Evidentemente que o comportamento suspeito de Montag chamará a atenção de seus superiores, não demorando para que passe ele a ser o perseguido pela mesma brigada em que atua.



Ainda que não seja tão literal em sua provocação, tanto livro como filme permitem traçar um paralelo em relação aos dias de obscurantismo que vivemos hoje em nosso País, com a cultura sendo relegada (pasmem!) a condição de "vilã" dos gastos públicos - afinal de contas o minguado orçamento destinado anualmente à peças de teatro, exposições, filmes e espetáculos poderia, de acordo com os economistas de plantão (e a internet está cheia deles), ser bem melhor empregado em saúde ou segurança pública. Pra quê pensar? Pra que buscar procurar sentido diante daquilo que nos tira da zona de conforto? Pra que promover a reflexão a partir da arte - como se os quadros e instalações vistos na exposição do Santander não servissem, eventualmente, como uma forma de expurgo para os males de nossa sociedade? Ou mesmo de transgressão?  Ou vá lá, da simples visão/ideia de algum artista? Para quê tentar compreender o que está por trás de uma obra, se é tão mais fácil "queimar os livros"? "Eles fazem mal, tornam as pessoas ruins, e promovem comportamentos inadequados e antissociais", lembra o filme.

Longe de ser o melhor filme de Truffaut - Os Incompreendidos (1959) e Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1961) seguem sendo os preferidos da casa - Fahrenheit 451 merece crédito por se manter essa espécie de líbelo da importância da liberdade artística, em meio a regimes totalitários. Especialmente em um período trevoso em que o "planeta" parece ser devastado por uma onda conservadora, retrógrada e, aparentemente, incapaz de compreender a arte e todo o seu espírito iconoclasta, como veículo promotor de debates e de questionamento do status quo estabelecido. Nesse sentido, enquanto na trama as "pessoas-livro" são mostradas como sujeitos empáticos e generosos, figuras como a esposa de Montag, Linda (Julie Christie), parecem apenas preocupadas com aquilo que sairá do televisor, com a sua aparência e com a vida amplamente vazia e fútil, ao lado das amigas. O que dá uma dimensão da diferença de comportamento entre aqueles que apreciam as artes - e seu poder humanizador - e os demais. Não que seja regra, claro.


Com excelente trilha sonora de Bernard Hermann, o filme pode soar um pouco datado do ponto de vista tecnológico ou mesmo da fotografia e dos figurinos, com suas cores berrantes. Ainda que algumas soluções encontradas soem divertidas - como não perceber a completa ausência de palavras no filme (não há placas de publicidade, ou nomes de ruas visíveis, por exemplo)? Christie em papel duplo - ela também é a professora Clarisse, que desperta o interesse de Montag - é o destaque no campo das interpretações, conferindo uma boa dose de realismo a personas absolutamente distintas. Mas a força MESMO da película está, como já mencionado anteriormente, no seu recado a respeito da importância da liberdade intelectual. O que é traduzido de forma elegante pelo roteiro, incapaz de livrar a raça humana de seu caráter vilanesco. Especialmente quando esta surge acompanhada do ódio, da intolerância e do preconceito.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cine Baú - Trens Estreitamente Vigiados (Ostre Slevodane Vlaky)

De: Jiri Menzel. Com Vaclav Néckar, Josef Somr, Jitka Bendova e Vlastimil Brodsky. Comédia dramática, Tchecoslováquia, 1966, 92 minutos.

Filme tcheco, em preto e branco, sobre um jovem controlador de tráfego de uma estação ferroviária durante a Segunda Guerra Mundial... sim, é provável que vocês, leitores do Picanha, tenham bocejado só de ler essa pequena descrição inicial a respeito do imperdível e clássico Trens Estreitamente Vigiados (Ostre Slevodane Vlaky). Mas aqueles que resolverem apreciar a obra-prima encontrarão uma película muito mais preocupada em discutir os "problemas amorosos e de ordem sexual" do protagonista Milos (Néckar) do que os horrores da guerra, que, ainda que banhados em melancolia, surgem como pano de fundo sem qualquer exagero dramático ou ideológico. E tudo envolto em um clima onírico, sutil, divertido e singelo, que combina bem com as desventuras do protagonista e seus olhos sempre esbugalhados, a moda dos comediantes do começo do século passado - alguns escritores, como no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer, o comparam com o cômico Buster Keaton.

Seguindo os passos de seu pai, um bem sucedido maquinista, Milos está orgulhoso de sua nova farda como empregado da estação ferroviária. Em meio aos trens que vêm e vão levando soldados e armamentos para as batalhas, o jovem tem a sua atenção desviada para Mása (Bendova), uma simpática e graciosa maquinista que lhe demonstra total interesse. Só que quando Milos consegue um raro momento a sós com Mása ele fica tão ansioso e nervoso que, em suas próprias palavras, fica "murcho como um lírio". Diagnosticado com ejaculação precoce - ainda que a questão pareça ser muito mais psicológica do que biológica - o rapaz decide acabar com a própria vida, tentando se suicidar em uma banheira de um motel de luxo. Acaba sendo salvo pelo empregado do local, que percebe o ocorrido durante uma reforma da estrutura do prédio.



Tendo como confidente o colega de trabalho e conquistador Hubicka (Somr), MIlos decide que precisará de uma iniciação vinda de uma mulher mais "velha", o que poderá fazer com que ele se torne mais desinibido e menos tímido. Essa procura resultará em hilárias sequências, como aquela em que ele sugere - num misto de ingenuidade e pretensão - ao coordenador da ferrovia a possibilidade de "estar" com a sua esposa, como forma de adquirir alguma experiência. Em meio a todo este contexto, a Segunda Guerra seguirá se desenrolando, sendo apresentada de maneira oblíqua, seja por meio da previsão de chegada de algum trem com soldados ou na presença destes na estação ferroviária, interagindo com um grupo de enfermeiras. (por interagindo, leia-se praticando uma boa SURUBA, capaz de fazer corar até os fãs da série Sense 8)

A propósito do sexo - e sua variáveis mais "românticas" - o diretor Jirí Menzel não se furta em utilizar uma série de metáforas e hipérboles capazes de transformar a obra em uma ousada peça gráfica a respeito das desventuras de um jovem inexperiente em sua iniciação sexual. Se sequências como o "quase beijo" do primeiro encontro entre Milos e Mása nos arrancam um sorriso quase involuntário, a cena em que uma mulher alimenta um ganso, massageando seu pescoço é quase explícita demais para uma obra dos anos 60 - o que também comprova a tese de que os europeus SEMPRE foram mais desinibidos do que os americanos, quando o assunto era mostrar as relações (sexuais inclusive) entre os seus personagens. Da mesma forma não faltam closes em pernas, decotes e bundas, com direito a provocantes sequências como aquela em que Hubicka "marca" o corpo da telegrafista Fialova com carimbos da companhia. O mesmo valendo para os rasgos no sofá, que servem como uma espécie de "marcação" para um ato consumado.


Todas essas nuances transformam Trens Estreitamente Vigiados em um verdadeiro tratado a respeito da importância do sexo - mesmo em tempos de guerra. E, nesse sentido, não é por acaso que o tio de Mása - que aparentemente trabalha com publicidade - dá uma sonora gargalhada após um ataque de bombas em que se percebe vivo. No filme de Menzel a guerra - que bem poderia ser o maior vilão - parece ser o de menos. O que importa mesmo é se dar bem em outro assunto, esse sim capaz de abalar a moral de um homem - valente ou não. Premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1967, Trens Estreitamente Vigiados, com sua fotografia elegante e trilha sonora pomposa, é figurinha fácil em diversas listas de melhores filmes da história, se mantendo até hoje como um tratado atual sobre o desejo e a insegurança, equilibrando erotismo e tragédia, luxúria e desencanto em igual medida.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Na Espera - Arcade Fire (Disco)

Uma das melhores bandas da atualidade, o Arcade Fire está prestes a lançar um novo disco! Após o ótimo Reflektor (2013), os canadenses anunciaram, na última semana, o álbum Everything Now, que chega ao mercado já no próximo dia 28 de julho, pelo selo Columbia. A movimentação nas redes sociais com a divulgação de um videoclipe com a faixa título fez com que a ansiedade dos fãs aumentasse ainda mais - sensação ampliada após a exibição da canção durante o festival Primavera Sound. Com produção de Steve Mackey e Thomas Bangalter, o trabalho deverá indicar um novo caminho na trajetória do grupo, que parece disposto a voltar ainda mais no tempo para flertar com a música dos anos 70, deixando pra trás os sintetizadores mais ostensivos e o diálogo, ao menos em partes, com os anos 80 - marca dos discos anteriores.



É claro que ainda é cedo para se fazer qualquer previsão, mas em um ano recheado de grandes lançamentos - o segundo semestre promete! - um novo trabalho de Win Butler e companhia sempre merecerá a atenção. E o ótimo clipe de Everything Now - uma canção grudenta, bem ao estilo da banda - parece indicar o fato de que o grupo não perdeu a boa forma. Espera-se que o Arcade Fire lance outros materiais, vídeos, singles e featurettes com o objetivo de divulgar o disco, nas próximas semanas. Por aqui, já estamos Na Espera!




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Tesouros Cinéfilos - Cisne Negro (Black Swan)

De: Darren Aronofsky. Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Winona Ryder e Barbara Hershey. Drama / Suspense, EUA, 2011, 103 minutos.

Uma das teorias que circulou pela internet à época do morte do ator Heath Ledger foi a de que ele teria mergulhado de forma tão intensa na composição de sua interpretação arrebatadora para o Coringa, em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) que, finalizada a película, teria tido dificuldade de "sair" de um personagem tão intenso, magnético, ambíguo e complexo. E que, atormentado pela sua permanente e esquizofrênica melancolia, teria sido psicologicamente influenciado para o triste destino que lhe foi imposto. Verdade ou não - e uma pequena busca na web revelará uma série de notícias contraditórias sobre o caso - o fato é que as pressões no mundo das artes parecem ser extremas em muitos casos. Exigências físicas, psicológicas, de moral duvidosa ou eticamente questionáveis, vindas de pais e mães, professores, instrutores, técnicos... para o cinema, o teatro, a dança e, vale colocar, o esporte, não parece haver limites quando o assunto é a entrega do melhor em termos de atuação ou caraterização. Especialmente em um mundo competitivo em que o segundo colocado sempre parecerá o "primeiro entre os últimos".

Muito mais do que um "filme sobre balé", Cisne Negro (Black Swan), obra-prima de Darren Aronofsky trata, de certa forma, desse assunto. Mas ao invés de investir no drama direto de seu protagonista na busca por alcançar aquilo que esperam seus "mentores" - assim como ocorre por exemplo com o baterista de Whiplash - Em Busca da Perfeição (2014) de Damien Chazelle - aqui temos uma obra que investe no suspense psicológico, com pitadas de um sombrio realismo fantástico, capaz de perturbar o espectador. E que o conduzirá para a torcida que possa ir para além da superação redentora de sua personagem principal. Condição que amplia o valor artístico e estético do filme, recheando-o com nuances e detalhes não apenas surpreendentes, mas que flertam com aspectos psicológicos e com temas amplos como a superproteção materna, as dificuldades de relacionamento, o sentimento de frustração diante das derrotas impostas pelo "mundo" ou ainda as inesgotáveis tentativas de agradar os outros - o que faz com que as pessoas esqueçam de si e de sua felicidade.



A protagonista é a bailarina Nina, vivida de maneira singela e angelical por Natalie Portman. O problema do excesso de candura se dará quando Nina for escolhida pelo exigente diretor artístico Thomas (Vincent Cassel, sempre uma boa presença na tela) para protagonizar a peça O Lago dos Cisnes - o que se dará também com a traumática aposentadoria de Beth (Winona Ryder) considerada "velha" demais para o público. Tendo que contrastar em sua caracterização a placidez do "cisne branco" (ou a personagem Odette, da peça original), com a luxúria bruxuleante, quente e lasciva de Odile (o "cisne negro"), Nina tem dificuldade em encontrar o equilíbrio e a harmonia entre os dois papéis, uma vez que, como numa espécie de paradoxo, será justamente a ausência de vivências mais "mundanas" em uma vida asséptica e exclusivamente dedicada ao balé - como comprovam já as cenas iniciais da película, em que a jovem ensaia dentro de casa -, que lhe resultará na insuficiência para a sua transformação desta para aquela persona. Condição que gerará frustração, medo e insegurança no meio em que a bailarina trafega.

Tudo piorará com a chegada de Lilly (Mila Kunis). Extrovertida, leve e cheia de personalidade, a jovem funcionará como uma espécie de curiosa antagonista de Nina, estando no limite entre a amizade e a rivalidade. Lilly é o que Nina deveria ser - ao menos no caso da personagem que pretende interpretar. Sedutora, cativa todos a sua volta somente com o sorriso e o olhar que, de alguma forma, compensam a sua falta de técnica. Não bastasse a presença da rival, a mãe de Nina (Barbara Hershey, ótima), sufoca a filha com o seu comportamento superprotetor, mantendo-a embaixo de sua asa como se esta fosse uma eterna criança - o que pode ser comprovado pelo quarto em tons de rosa (que a mãe NUNCA deixa ser chaveado) ou pela inexplicável quantidade de bonecas de pelúcia presentes no ambiente. Algo pouco convencional para uma mulher já na fase adulta.


Com tantos "fantasmas" a lhe assombrar não tardará para que Nina passe a ter visões, seja de uma outra mulher a lhe perseguir ou de sua antagonista em sonhos em que, inconscientemente, se liberta de uma sexualidade a vida toda reprimida. Imagens estáticas a se mexer, sussurros por entre os corredores da companhia, deformidades gerais no espelho da sala de treino... tudo isto, somado a sombria fotografia (de Matthew Libatique) e a trilha sonora que subverte levemente os temas de Tchaikovsky (de Clint Mansell) transforarão a experiência de assistir Cisne Negro em algo não menos do que especial. Sutil em sua abordagem psicológica - mas sem deixar de GRITAR aquilo que pretende - o filme de Aronofsky ainda possibilitou a Portman a justa conquista do Oscar. A clara dedicação - física (ela tá tão magra que é quase preocupante) e mental - quase funciona como um exercício metalinguístico da trama: e quando ela surge, quase ao final, transformada no tão aguardado "cisne negro", só nos resta aplaudir de pé. É um filmaço.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Disco da Semana - The Afghan Whigs (In Spades)

Envelhecer pode ser um fardo para muitas bandas. Artistas que, esgotados em sua criatividade, insistem em se manter na ativa a fim de agradar os fãs e faturar alguma grana para sustentar suas aposentadorias - o que é justificável, diga-se de passagem, sendo que há público para isso - mesmo que o artista tenha que virar um pastiche de si próprio. Este definitivamente não é o caso do grupo americano The Afghan Whigs que, após um hiato de 16 anos desde seu espetacular álbum 1965, retornou em 2014 com o brilhante Do to the Beast e volta a presentear os fãs com seu mais novo lançamento, In Spades.

É importante frisar que o homem por trás da banda, Greg Dulli, jamais esteve parado durante a pausa do seu grupo principal. Prolífico e tendo a música como mola propulsora, Dulli sempre a utilizou em seus trabalhos como uma forma de catarse pessoal em seus não menos excelentes projetos paralelos. Seja em sua carreira solo, nos 5 álbuns de seu grupo The Twilight Singers até o projeto The Gutter Twins - juntamente de Mark Lanegan, ex-Screaming Trees e detentor de um extenso e belo catálogo solo - o músico aperfeiçoou e trouxe novos elementos à sua mistura de rock alternativo, soul music e R&B. Fórmula esta tão bem demonstrada no clássico álbum Congregation (1992) que, em pleno auge do grunge, trouxe um sopro de ar fresco ao misturar o som daquele momento à música negra americana (como a capa do disco tão bem representava), criando algo bastante original.


A julgar pela capa de ar misterioso/fantasmagórico, In Spades amplia o catálogo do grupo de Cincinnati com um álbum cuja temática traz - de acordo com o próprio release - algo de assustador, sombrio e metafórico a ser desvendado pelo ouvinte. É basicamente, segundo Dulli, "um disco sobre memória, sobre como vida e memória podem se misturar". A faixa inicial, a climática e nostálgica Birdland, lentamente ambienta o ouvinte num misto de tensão e doçura - como se alguém segurasse a nossa mão ao nos levar por um caminho desconhecido prestes a ser desvendado - desembocando na sensacional Arabian Heights. Esta canção traz aquela pegada tradicional dos Whigs com suas guitarras, um incrível trabalho de bateria e letra típica de Dulli, aliando sensualidade e ameaça numa das melhores faixas do disco. O primeiro single, Demon in Profile, com sua melodia levada ao piano nos apresenta uma das grandes virtudes da banda: deixar o ouvinte querendo mais. Ao não exagerar no uso de refrões e na duração das canções, o convite ao repeat está feito em uma das mais grudentas faixas da bolachinha. 

Talvez a música mais diferente do disco seja a impactante Toy Automatic, que traz uma das mais comoventes interpretações de Dulli até o momento, com um vocal vulnerável e rasgado cuja intensidade atinge seu ápice com o som dos metais invadindo a mixagem nesta balada que, mesmo sem refrões, consegue emocionar na sua meticulosa construção. Oriole, segunda faixa a ganhar clipe, traz uma introdução ao violão mais tradicional, com sua letra cifrada que desemboca em um rock climático mais tradicional. Copernicus lembra um pouco Queens of the Stone Age, com sua batida stoner rock que não demora a surpreender numa bridge que leva a música a outro patamar melódico e por isso mesmo fascinante. The Spell lembra o Afghan Whigs de sempre com uma performance vocal excelente de Dulli envolta em teclados e violinos que não tardam a virar um rock cheio de groove e uma letra que convida o ouvinte a dançar frente a toda escuridão. Light as a Feather lembra muito algo que The Twilight Singers já fez, com um som mais funkeado, palminhas, riffs espertos e um único refrão perdido no meio da canção que faz o ouvinte pedir mais. I Got Lost é uma linda balada ao piano feita após Dulli descobrir que o guitarrista e amigo Dave Ross sofria de um câncer de cólon inoperável, enquanto Into the Floor nasceu de uma jam nos shows e transformou-se na trilha perfeita para encerrar mais um álbum dos americanos, fazendo a alegria dos fãs desejosos por mais um trabalho.

Enxuto, com 10 faixas e 37 minutos, In Spades é o tipo de álbum que convida a várias audições para decifrar suas camadas e letras enigmáticas, além de ser mais bem acabado que seu antecessor e trazer o que de melhor uma das grandes bandas de rock surgidas neste planeta tem a oferecer. Envelhecer pode ser uma dádiva, e Greg Dulli e seu The Afghan Whigs são a prova disso. Que venham muitos discos mais.

Nota: 9,0.