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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Dia D (Disclosure Day)

De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.

Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?

Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.

 


É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).

Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.

 

 

Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.

Nota: 2,5 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Tesouros Cinéfilos - A.I. Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI)

De: Steven Spielberg. Com Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robard e Brendan Gleeson. Ficção Científica / Drama / Aventura, EUA / Reino Unido, 2001, 146 minutos.

Em que momento uma máquina deixa de ser apenas uma mera ferramenta utilitária e passa a ser "alguém" digno de consideração? Como seres de carne, osso e alma, seremos capazes de amar um robô, um equipamento eletrônico, um aplicativo? Ou esse é um tipo de sentimento possível apenas entre humanos ou, vá lá, animais? Vamos combinar que, no mundo das artes, esse tipo de pergunta não chega a ser exatamente uma novidade e há um sem fim de obras - filmes, livros, quadrinhos e peças de teatro -, que versam sobre o assunto, sendo alguns bastante conhecidos do público, como Blade Runner (1982) ou Ela (2013). E, enquanto reassistia ao clássico A.I Inteligência Artificial (Artificial Intelligence: AI), de Steven Spielberg, que completa 25 anos de lançamento em setembro, só conseguia pensar naquele meme sobre máquinas dominando o mundo, mas poupando todos aqueles que teriam sido gentis, educados e empáticos com o ChatGPT. Obrigado, GPT, você foi foda!

Afinal de contas, robôs tendo carinho por seres humanos não parece algo impossível de se imaginar - talvez seja só executar o prompt correto para que os sistemas sejam capazes de responder às emoções humanas de forma mais eficiente possível. Sim, atualmente o Black Mirror nem parece mais fazer tanto sentido, em um mundo em que as pessoas utilizam ferramentas online para consultas psicológicas, empresariais ou mesmo como parceiros amorosos (ou sexuais). Bom, no campo conhecido como "computação afetiva" não são poucos os estudos que possibilitam aos robôs identificarem expressões faciais, adaptar a conversa de acordo com o estado emocional da pessoa ou mesmo inferir se o sujeito está triste, irritado, ansioso ou feliz. Se enfiar a voz da Scarlett Johansson lá no meio certamente está feito o estrago e, bom, as máquinas não têm consciência, mas nós temos. E os limites parecem borrados, entre o otimismo e o ceticismo científico.

 


Na obra de Spielberg - que pegou o bonde andando das mãos de Stanley Kubrick -, a cena mais comovente da trama envolve o instante em que Monica (Frances O'Connor), simplesmente abandona David (Haley Joel Osment) no meio do mato, após um evento traumático quase desencadear a morte do filho real dela, Martin (Jake Thomas), afogado em uma piscina. Com uma doença severa e em processo lento de recuperação, não parecia haver muito otimismo quanto à recuperação de Martin. O que faz com que o marido de Monica, Henry (Sam Robards) aceite levar para casa um protótipo moderníssimo de robô - chamado de Meca - como forma de substituir o menino. Que, contra todos os prognósticos melhora, volta pra casa, e inicia uma disputa particular com o irmão humanoide. Na queda de braço, Martin leva a melhor, restando a David o mato. Enquanto ele suplica aos berros para Monica de que ele "pode ser real". Aliás, o "desculpe por não ser real" é a frase mais trágica dita pelo menino, que se vê em um lixão da indústria Cybertronics, que desenvolve os modelos eletrônicos.

Em uma segunda parte bastante movimentada em um submundo cyberpunk decadente, após o aquecimento global meio que destruir parte do mundo - uma realidade que ainda não tínhamos a dimensão até aquele momento -, David faz amizade, de forma meio aleatória, com o charmoso robô Joe (Jude Law), que funciona como um gigolô destinado à satisfação de mulheres solitárias. Após uma pequena temporada em uma espécie de circo itinerante em que uma multidão bastante agitada se reúne para assistir a destruição em massa de robôs desgarrados e inutilizados (um tipo de evento histriônico que talvez tivesse tração entre a extrema direita interessada em oprimir qualquer tipo de minoria, em uma alegoria óbvia), David e Joe conseguem escapar. Dando início a uma saga que visa encontrar a Fada Azul - sim, ela mesma, a dos livros do Pinóquio -, que lhe permitiria consolidar o desejo de ser um menino de carne e osso. E, portanto, digno do amor de Monica.

 

 

Com ótimo desenho de produção, efeitos especiais e trilha sonora, AI: Inteligência Artificial segue sendo uma obra ao mesmo tempo contemplativa e movimentada, que permite uma série de reflexões a respeito dos caminhos da tecnologia e de quais os limites éticos ou morais ligados ao tema. Seremos capazes de, no futuro, reproduzir a arquitetura de nossos cérebros de forma perfeita para que as emoções emerjam de robôs da forma mais natural possível? Ou emoções genuínas dependem muito mais da biologia, da coisa orgânica ou da consciência humana? Enquanto assistia ao terço final da produção - e me comovia profundamente com o último dia na Terra de David e Monica, em um dos finais mais emocionantes do milênio - refletia brevemente sobre a nossa experiência nesse plano. E de como, em tempos em que as nossas relações parecem cada vez mais mediadas por máquinas, esse ideal não pareça nada distante da realidade. Aliás, ele já está aí e talvez seja importante ser educado com o ChatGPT. Nunca se sabe. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Cinema - Os Fabelmans (The Fabelmans)

De: Steven Spielberg. Com Gabriel Labelle, Michelle Williams, Paul Dano e Seth Rogen. Drama, EUA, 2022, 151 minutos.

É um filme afetuoso, nostálgico, divertido, leve esse Os Fabelmans (The Fabelmans). Aquele tipo de experiência de fácil digestão, com uma história que servirá perfeitamente para reunir famílias ao redor do mundo para comoventes sessões coletivas. Não dá pra negar que quando Spielberg abraça esse tipo de projeto ele o faz com carinho, trabalhando as sensações de forma minuciosa, até que elas invariavelmente culminam em algum tipo de catarse emotiva. Dito tudo isso, significa que é o melhor trabalho na história do diretor, como o trailer e alguns setores da crítica me levaram a acreditar? Olha, a meu ver não. Não percamos de vista, afinal, que Spielberg é responsável por clássicos atemporais como Tubarão (1975), A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998) - só pra ficar em alguns. A minha teoria é a de que o que pegou aqui é que já fazia algum tempo que o realizador não lançava algo que fosse meio que unanimidade de público e crítica. Cavalo de Guerra (2011), Lincoln (2012), Ponte de Espiões (2015), The Post: A Guerra Secreta (2017). Todos grandes filmes. Tecnicamente bem feitos, bem costurados, com bons elencos e roteiro. Mas, inesquecíveis? Como foi um Jurassic Park (1993), por exemplo? Um ET: O Extraterrestre (1982)?

E já que eu me meti a teorizar, um outro ponto que pega com Os Fabelmans me parece ser o do filme que recebe o selo de "feito pra toda a família". Todo mundo pode ser sem medo, sem receio, sem surpresas desagradáveis. Condição que se une ainda a um outro modismo, que é o dos diretores que se inspiram em suas próprias trajetórias pra, de forma metalinguística, investir em uma narrativa de paixões e de desejos juvenis - que, lá no fundinho, podem ou não incluir o cinema, as artes, a cultura, a política, o esporte, como no caso dos recentes Belfast (2021), Licorice Pizza (2021) e A Mão de Deus (2021), com Kenneth Branagh, Paul Thomas Anderson e Paolo Sorrentino se valendo de reminiscências que envolvem narrativas repletas de elementos de fácil identificação por parte do público. Dito tudo isso ainda há um último aspecto que, aparentemente, também costuma funcionar bem nesses casos: ao cabo Os Fabelmans é um filme para quem gosta de filme. Para quem ama cinema e tudo o que envolve essa arte. Enquanto acompanhava a história do pequeno Sammy Fabelman (vivido na infância por Mateo Zoryan e na adolescência/juventude por Gabriel Labelle) só conseguia recordar da minha própria experiência com o cinema. Do meu primeiro filme. De quando cai a ficha e dá aquele click na gente.

E esse é o tipo de beleza que jamais poderá ser retirado não apenas deste, mas de qualquer filme do Spielberg, que tem essa capacidade única de fazer com que a gente VIVA um filme - para além de assistir. A trama de Os Fabelmans já é relativamente conhecida e se baseia em memórias de infância do próprio diretor - que se apaixonará pela telona, após assistir com seus carinhos pais Mitzi (Michelle Williams) e Burt (Paul Dano), uma sessão de O Maior Espetáculo da Terra (1952), obra gigantesca de Cécil B. De Mille, que ganharia o Oscar de Melhor Filme naquela temporada (aliás, sob muitos questionamentos, por sinal, dado o caráter megalômano do projeto). Sempre com uma câmera na mão, o pequeno recorrerá às próprias irmãs e aos amigos escoteiros para dar vida a vídeos domésticos que, aos poucos, passarão a chamar a atenção pelo caráter visionário e engenhoso de sua elaboração - a despeito das dúvidas do cartesiano pai, um engenheiro requisitado que viria a trabalhar na IBM e que funciona como uma espécie de oposto à sonhadora e impulsiva mãe, uma pianista que, por conta das vicissitudes da vida, nunca "aconteceu". São dois lados, ambos amorosos, que atuarão como polos que orbitam o pequeno, em meio a dilemas e incertezas domésticas que movimentarão a história, ecoando na vida de todos.

Apostando em uma série de instantes de celebração à arte de fazer filmes - as peças amadoras do pequeno Fabelman surgirão, aqui e ali, recheadas por inacreditáveis improvisos que compensam as dificuldades técnicas (eu particularmente adorei aquela que recria o efeito de balas ricocheteando em um muro) - a obra ainda é uma inspiradora e típica história de persistência e de luta por um ideal. O calor humano está por toda a parte e mesmo momentos mais doloridos são pontuados por uma ambientação etérea, quase elegíaca, como na hora em que Mitzi dança vivamente, enquanto a contraluz faz com que ela surja em cena como uma espécie de assombração onírica, elegante. São momentos de turbulência que nos ajudam a lembrar que, quando o assunto é família, nem tudo são flores. E que sempre haverá a necessidade de se recalcular a rota para que tudo volte para os eixos. Simples, direto, espirituoso, o filme é daqueles vai ao coração, sendo impossível não abrir um sorriso ao final (que conta com uma inacreditavelmente maravilhosa participação especial). Para o Oscar é um dos favoritos à principal categoria. As credenciais são as melhores.

Nota: 8,0


quinta-feira, 24 de março de 2022

Novidades em Streaming - Amor, Sublime Amor (West Side Story)

De: Steven Spielberg. Com Ansel Elgort, Ariana DeBose, David Álvarez, Rachel Zegler e Mike Faist. Drama / Romance / Musical, EUA, 2021, 156 minutos.

Quem assistiu e gosta da versão clássica de Amor, Sublime Amor (West Side Story) talvez considere meio desnecessária essa refilmagem produzida por Steven Spielberg. Mas, ao mesmo tempo em que a essência da história permanece a mesma, não deixa de ser curioso perceber como, neste caso, uma nova adaptação faz muito bem. Sim, eu tendo a ser meio ranzinza quando o assunto é a falta de originalidade de alguns roteiros, afinal, será que precisa? Precisa um novo Homem Aranha todo santo ano? Mas aqui a desconfiança vai pro saco já na primeira e grandiosa tomada aérea do bairro de Upper West Side, em um plano sequência de uma Nova York meio em ruínas, que passa por um processo de gentrificação. É nesse local que duas gangues, os Jets, o grupo dos branquelos liderados por Riff (Mike Faist), e os Sharks, os porto-riquenhos comandados por Bernardo (David Álvarez), disputam o território, sendo incapazes de conviver de forma pacífica

E tudo piora quando, durante um baile, os dois grupos se encontram e organizam uma briga de rua que promete decidir o futuro de todos. Ao mesmo tempo em que Tony (Ansel Elgort) e Maria (Rachel Zegler), que estão em lados opostos nessa disputa, se apaixonam. Sim, extraída dos palcos da Broadway no final dos anos 50, Amor, Sublime Amor é a história shakespereana por excelência - e, não por acaso, foi inspirada em Romeu e Julieta. Tecnicamente soberbo, o filme parece consertar alguns pontos do clássico de Robert Wise que, nos dias de hoje, poderiam soar meio datados. Na obra dos anos 60, por exemplo, parece haver uma menos disposição para o debate sobre xenofobia e a possibilidade de convivência pacífica entre povos diferentes - e a presença de Rita Moreno, que interpretou a Anita no original, funciona como uma espécie de esteio que conecta esses lados opostos (especialmente por não recair na mera nostalgia).

Já Ariana DeBose entrega uma Anita muito mais empoderada - sim, eu sei que a palavra anda meio batida - no que diz respeito à comportamentos e atitudes, e confesso que é simplesmente apaixonante vê-la em cena, pelo equilíbrio perfeito que ela alcança entre a entrega física e de personalidade (e a indicação ao Oscar na categoria Atriz Coadjuvante, nesse sentido, não é por acaso). Ainda sobre a premiação máxima do cinema - que ocorre no próximo domingo (27/03) -, a obra foi nominada também nas categorias Filme, Direção, Fotografia, Figurino, Desenho de Produção e Som. E se há algum motivo real para conferir essa refilmagem este certamente envolve o aparato tecnológico, que transforma Amor, Sublime Amor em uma experiência artística imersiva, colorida e musical, mas sem deixar de lado os aspectos mais sombrios de sua história (e o equilíbrio de cores e tons entre os instantes mais divertidos, mais alegres e aqueles mais soturnos também é um dos tantos méritos).

Um bom exemplo das pequenas inovações trazidas por Spielberg estão nos cenários - como no caso do depósito de sal, que serve como base para a disputa central, e que deixa o episódio mais claro, mais limpo, aos olhos dos espectadores. O mesmo vale para as coreografias empolgantes e executadas à perfeição, que são complementadas pelas canções que integram-se à narrativa de forma orgânica - e eu adoro a forma como músicas como America, I Feel Pretty e Gee, Officer Krupke parecem ter outras tintas na refilmagem. Discutindo de passagem temas como sororidade, violência doméstica e preconceito racial, o filme se aproveita de seu recorte narrativo para passar uma mensagem bastante clara em um contexto de polarização: e só esse fato já justificaria a existência de uma obra como essa. Feita pelo Spielberg, então, um dos maiores diretores de cinema vivos, é a cereja do bolo. Veja. Pra ontem. Mesmo que você não tenha assistido o do Wise. Na real, nem será necessário.

Nota: 9,0

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Novidades em DVD - Ponte dos Espiões (Bridge Of Spies)

De: Steven Spielberg. Com Tom Hanks, Mark Rylance, Scott Sheperd (II), Amy Ryan e Alan Alda. Suspense / Thriller Político, EUA, 2015, 141 minutos.

Pode-se dizer sobre Steven Spielberg o que se quiser: que seus filmes já não são tão grandiosos como em outrora, que a magia infantojuvenil de seu cinema talvez tenha minguado, ou que hoje ele trabalhe, com sua carreira consolidada, em uma espécie de "piloto automático", entregando obras corretas, mas dificilmente inesquecíveis. Mas tem algo que não muda na obra do diretor, responsável por clássicos tão distintos como ET - O Extraterrestre (1982), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), Tubarão (1975) e O Resgate do Soldado Ryan (1998): a capacidade de contar boas e envolventes histórias, algo que ocorre, novamente, com o indicado ao Oscar de Melhor Filme Ponte dos Espiões (Bridge Of Spies), que deve pintar entre os lançamentos para a telinha já no início do mês de março.

No filme, Spielberg utiliza-se mais uma vez de um expediente que tem repetido, especialmente em seus trabalhos mais recentes: o do recorte, em muitos casos baseado em fatos reais, envolvendo um pano de fundo histórico e político. Foi assim com os já hoje distantes (e ótimos) A Lista de Schindler (1993) e Amistad (1997). O mesmo tendo ocorrido ainda com mais força em sua filmografia recente, vide os casos de Munique (2005) e Lincoln (2012). Em Ponte dos Espiões, o diretor se alia novamente a Tom Hanks para contar a história real de um advogado especializado em seguros chamado James Donovan (Hanks), que aceita um trabalho um pouco diferente ao que ele está acostumado: defender o espião soviético Rudolf Abel (Rylance), capturado pela CIA em meio a Guerra Fria, que é acusado de entregar segredos militares dos americanos para os comunistas.


Essa sinopse poderá enganar aquele cinéfilo que talvez possa imaginar estar diante de mais um representante da sétima arte que servirá apenas para ressaltar as virtudes e o patriotismo do povo americano. Mas não. Aliás, é exatamente a contrário. Hanks, com aquele estilo "boa praça" de sempre, capaz de transmitir com a maior naturalidade do mundo a fragilidade e a força que seu papel exige, incorpora Donovan como um advogado disposto a defender Abel de maneira justa e humanística. Enquanto a "família de bem americana" clama para que o espião vá para a cadeira elétrica, o protagonista trabalha para que o julgamento tenha o desfecho mais justo possível - nem que para isso tenha de comprar briga com lideranças políticas norte-americanas, que imaginavam tornar o julgamento uma espécie de mera formalidade, já que o destino de Abel já estaria mais do que traçado. Ainda que não existisse absolutamente nenhuma prova sobre que indicasse qualquer tipo de subversão de sua parte. A sede por sangue só esfriará após uma pequena reviravolta no contexto do conflito que, para aqueles que não assistiram o trailer, poderá se constituir em uma razoável surpresa.

Assim como Hanks que realiza, como de costume, uma performance correta, Rylance interpreta Abel como um homem frio, discreto e de fala mansa, capaz de cativar a todos com a melancolia de seu olhar - não à toa, a sua caracterização (e comportamento) no primeiro terço da película é um dos pontos altos da obra. O que certamente explica a sua primeira indicação ao Oscar - na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Sua interação com o personagem de Hanks, que rende os melhores diálogos da história - "você não parece preocupado", afirma o advogado em certa hora, ao que o espião responde "e isso ajudaria?" - também contribui para que o filme, ainda que tenha um ritmo certamente mais arrastado, não se torne cansativo. E o humor quase nonsense em uma série de sequências - sendo uma das mais divertidas, a cena em que Hanks é perseguido na madrugada chuvosa por um homem de capa -, é fruto do trabalho dos Irmãos Coen que colaboraram com o roteiro.



Tendo ainda como uma de suas forças o excelente trabalho de Direção de Arte, o filme é capaz de recriar cenários, lugares e elementos cênicos com grande riqueza de detalhes. O mesmo pode ser dito do trabalho de fotografia de Janusz Kaminski, que adota uma paleta de cores amarelada e eventualmente acinzentada e sombria - especialmente nas cenas europeias, e que contribui para o clima tenso que se estabelece a partir da metade da obra. Ainda que não possua um grande e climático final ou que peque aqui e ali pelo excesso de didatismo ou pela falta de sutileza - (SPOILER ALERT: a sequência final seria tão mais impactante se a esposa percebesse por conta própria, ao ver o desfecho do caso da troca de espiões na TV, que o seu marido não havia ido "pescar", como anunciara), Ponte dos Espiões jamais esmorece em sua mensagem antibélica. O que mostra que a arte pode ir para muito além do puro e simples entretenimento.

Nota: 8,0

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Na Espera - Ponte de Espiões (Filme)

Baseado em fatos reais, o próximo filme de Steven Spielberg - Ponte dos Espiões (Bridge of Spies) - tem a palavra Oscar escrita "na testa" (e parece ser uma espécie de Sniper Americano da vez, do ponto de vista do patriotismo americano). O longa conta a história do advogado James Donovan (Tom Hanks, que não chega a aparecer nas bolsas de apostas), um advogado do Brooklyn que, durante a Guerra Fria, é enviado, a pedido da CIA, para negociar o resgate de um piloto americano.



Com roteiro escrito pelos irmãos Ethan e Joel Coen - algo animador, é preciso que se diga -, a experiência de Donovan captura a essência de um homem que arriscou tudo nessa jornada. A película estreia por aqui no dia 22 de outubro. Nesse meio tempo, é possível conferir o trailer!