quarta-feira, 22 de abril de 2026

Novidades em Streaming - Armand e os Limites das Famílias (Armand)

De: Halfdan Ullmann Tøndel. Com Renate Reinsve, Ellen Dorrit Petersen e Thea Lambrechts Vaulen. Drama, Noruega / Holanda / Alemanha / Reino Unido / Suécia, 2024, 117 minutos.

Precisamos falar sobre o Armand. Ou sobre Elizabeth. Ou vai ver necessitamos falar sobre muitas outras pessoas que navegam no universo sombrio do excelente drama Armand e os Limites das Famílias (Armand) - estreia do diretor Halfdan Ullmann Tøndel, que é neto de Ingmar Bergman e Liv Ulmann. Quando o filme, que venceu a Câmera de Ouro do Festival de Cannes, começa, temos a impressão de que será uma daquelas narrativas clássicas de pessoas adultas debatendo assuntos muito sérios à portas fechadas, com as revelações ocorrendo aos poucos. Bom, em partes é isso. Mas ao mesmo tempo tem-se aqui uma obra de sutilezas, repleta de ambiguidades e que não tem nenhuma pressa em acontecer. Ou mesmo fornecer qualquer evidência para uma conclusão mais óbvia. Aliás, em alguma medida, essa pode ser aquela produção de que frustra o espectador - especialmente pelo caráter surrealista do terço final.

Na trama, a atriz Elizabeth (Renate Reinsve) é chamada às pressas para a escola em que estuda seu filho Armand, um menino de apenas seis anos. Recebida pela professora Sunna (Thea Lambrechts Vaulen), ela é orientada a aguardar a chegada dos pais de um outro menino - de nome Jon - Sarah (Ellen Dorrit Petersen) e Anders (Endre Hellestveit), para uma reunião. No centro da história uma grave acusação: a de que Armand teria praticado algum tipo de violência, inclusive sexual, contra seu colega, que foi encontrado no banheiro da escola após a agressão. Para Elizabeth algo inconcebível. Para os pais de Jon uma agressão que precisa ser melhor investigada e que toma ares de preconceito a respeito do suposto estilo de vida mais livre de Elizabeth. Aliás, Sarah a acusa de ter se exibido (ou abraçado) seu filho de forma inadequada em visitas à sua casa (os meninos não são apenas amigos, mas também primos, já que Sarah é irmã de Thomas, ex-marido de Elizabeth, que teria morrido um acidente de trânsito).

 


Aliás, Thomas tem papel importante na tentativa de juntar os pontos que possam conduzir a algum tipo de explicação mais plausível para os acontecimentos - ele seria um sujeito violento com Elizabeth? O filho pequeno teria aprendido alguma coisa sobre esse tipo de comportamento ao presenciar agressões em casa? Ele teria de fato se suicidado, como tudo indica, ou a sua morte foi em decorrência de um acidente verdadeiramente? Pelo lado de Sarah e Anders a coisa também permanece no campo das incertezas. "Ele foi educado de forma não convencional" verbaliza a mulher que, claramente se incomoda com a presença magnética de Elizabeth que, ao pisar na escola mostra uma determinação que parece ainda mais evidente, a cada passo dado com as sandálias de salto. Que por sinal, contrastam com o aspecto soturno dos próprios corredores da escolas, sombrios e claustrofóbicos, com a contraluz surgindo aqui e ali de forma tímida.

Hábil, o diretor aposta ainda em uma série de alegorias que reforçam o caráter embaraçoso, caótico, invasivo e confuso da situação. Há, por exemplo, um alarme de incêndio estragado que não para nunca de tocar. Quando tem uma crise de riso frente ao absurdo da situação - o diretor a estende quase ao limite do aceitável - Elizabeth parece se tornar ao mesmo tempo uma figura patética, miserável e digna de pena. Há ainda uma diretora de departamento que tem um problema crônico de sangramento no nariz. Há ali algum tipo de incômodo onipresente. Ou um pedido de socorro sufocado, que é reforçado justamente pelos instantes mais alegóricos (com suas danças estilizadas e coreografias imprevisíveis). Sim, esse nunca será um daqueles filmes óbvios, claros, com pessoas boas e más milimetricamente calculadas. Nos corredores e bastidores as pequenas violências parecem sempre prontas a emergir. Assim como os segredos do passado, que retornam e bagunçam ainda mais. Não temos como ter certeza. O ser humano é complexo e esse filme fortalece essa ideia com maestria. Deixando margem para um sem fim de interpretações depois que sobem os créditos.

Nota: 8,5 

 

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