segunda-feira, 22 de julho de 2019

Novidades em DVD - A Mula (The Mule)

De: Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Andy Garcia e Dianne Wiest. Drama / Comédia, EUA, 2018, 116 minutos.

A Mula (The Mule), a mais recente obra de Clint Eastwood, passou completamente batida pelos cinemas - e não foi por acaso, já que se trata de um filme absolutamente raso, de difícil definição quanto a seu estilo, bastante irregular e que, de quebra, ainda é profundamente preconceituoso. Não é de hoje que o veterano utiliza suas filmes como uma espécie de desculpa para encarnar aquele tipo de sujeito ranzinza, mau humorado e sem nenhum carisma, que ainda consegue ser racista. Na trama, Eastwood é Earl Stone, um veterano de guerra que perde espaço no ramo da produção de flores após o advento da tecnologia. Ultrapassado, assim como as suas ideias, e sem perspectivas para o futuro (oi, aposentadoria?), ele resolve, aos 90 anos, se tornar traficante, transportando grandes cargas de cocaína para o cartel mexicano.

Essa trama com ares de suspense dos anos 90 talvez fosse mais legal se tudo não fosse levado tão na "flauta". Não bastassem os integrantes do cartel se comportarem como verdadeiros estereótipos ambulantes - óbvio que os mexicanos seriam os vilões já que, nunca é demais lembrar, Eastwood é um apoiador de Trump -, Eastwood ainda desfila pelo cenário como um sujeito turrão, mas debochado, que encara uma arma apontada para a sua cara com valentia, afinal de contas ele foi um "herói" que defendeu o País na Guerra da Coréia. Só que na transposição desse herói para um vilão, jamais ficam claras as motivações do protagonista, que utiliza o dinheiro do tráfico para pagar rodadas de cerveja para desconhecidos em bares, ou para aproveitar prostitutas de luxo, em meio as suas andanças - o tipo de vida hedonista que dificilmente combinaria com um idoso decrépito.



E eu chamo ele de decrépito nem tanto pela sua aparência, mas mais por aquilo que emana de Eastwood, a cada careta que ele faz ou a cada piadinha politicamente incorreta, que nem em esquetes de programas dos anos 80 a gente vê mais. E não é por acaso que cenas envolvendo um grupo de motoqueiras lésbicas ou uma família negra que lhe pede ajuda no meio do nada (além de racista, essa sequência consegue ser machista e homofóbica), geram apenas constrangimento. Mas nada que supere o momento em que, ao se referir aos mexicanos do cartel, Earl afirme não saber diferenciar um do outro, afinal, "eles são todos iguais" - o que até poderia ser algo engraçado, se o filme admitisse o comportamento errático de seu protagonista e não ficasse implorando o tempo todo para que gostemos dele. Até mesmo porque é impossível gostar de alguém assim. 

E isso, no fim, acaba comprometendo a obra que, de quebra, não se decide entre a comédia e o drama, entre a leveza e a austeridade. Ela quer fazer rir, mas não é engraçada. Quer soar séria, mas a trilha sonora brega e os diálogos improváveis não deixam. Os problemas familiares de Earl, as tentativas amadoras e frustradas da polícia em alcançar o vilão (o que faz o Bradley Cooper nessa película?), o grupo de mexicanos pálido, a louvação as famílias de bem, ordeiras e trabalhadoras, transformam A Mula em uma espécie de panfleto da Era Trump e seu desejo de tornar a América grande novamente e de construir um muro na fronteira com o México. Talvez fosse o caso de Eastwood, com seu cinema antiquado, conservador, retrógrado, ainda que tecnicamente bem executado, se aposentar. Ainda dá tempo de não manchar o seu legado, ainda positivo na indústria.

Nota: 4,0

Um comentário:

  1. Que lamentável. O legado do Clint é maior que este filme, ao que parece.

    ResponderExcluir