segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Disco da Semana - David Bowie (Blackstar)

Existe uma história muito legal (e curiosa) envolvendo as últimas semanas antes da morte do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart. Em 1791, já debilitado pela doença que lhe atingia, Mozart foi encarregado pelo conde Franz Von Walsegg de compor um Réquiem em Ré Menor - espécie de missa fúnebre que serviria de trilha sonora para o enterro da esposa do nobre. Só que o austríaco não andava numa boa fase. Além de o conde ter lhe parecido um sujeito um tanto quanto misterioso, Mozart ainda nutria uma certa obsessão com ideias de morte, desde que o seu pai tinha ido desta para uma melhor. Somada ainda a esta conjuntura os graves sintomas que as inflamações na garganta lhe acometiam e, pronto: o compositor talvez tenha entendido esse contexto como uma espécie de "mensagem do além", colocando em sua obra - especialmente em trechos como a Lacrimosa - toda a carga dramática, angustiante, em alguns momentos até sobrenatural e, evidentemente, de grande rigor e sensibilidade barroca, que, oras, no fim das contas, bem poderia ter servido para o seu próprio funeral.

Se Mozart sabia que iria morrer? Bom, não temos como saber e as opiniões se dividem na hora de falar, inclusive sobre as causas da morte - que, hoje, se sabem, foram naturais e fruto de uma infecção generalizada. Da mesma forma, são muitas as explicações sobre o processo de finalização do Réquiem, que, pensava-se, ter sido fruto do trabalho de um dos pupilos do austríaco, o compositor Franz Xavier Süssmayr. O que, dada a complexidade do trabalho final - coisa de gênio, mesmo - possibilitou a pesquisadores concluírem que Süssmayr pouco teve a ver com a conclusão da peça. A essa altura do campeonato, o leitor do Picanha certamente já percebeu onde este modesto artigo quer chegar. Teria David Bowie, com o impressionantemente soturno Blackstar - mais recente registro - "previsto", assim como parece ter ocorrido com Mozart, o seu próprio óbito? O videoclipe de Lazarus - e suas dezenas de mensagens secretas, com direito a cenas de sofrimento em uma cama de hospital -, apenas dois dias antes de sua morte, também não contribuiria para esta tese?


A verdade é que não temos como saber. Os sinais parecem estar todos lá. Desde o clima melancólico e sufocante que permeia todo o registro - num movimento novamente "camaleônico", pra usar a expressão que o consagrou -, e que distancia a obra, por exemplo, do teor levemente festivo e pop, do trabalho anterior, The Next Day (2013). Época em que Bowie ainda não sabia do terrível mal que lhe acometeria apenas um ano depois. As letras, igualmente pessimistas, parecem também apontar para o mesmo caminho, como pode ser visto na própria Lazarus (Look up here, I'm in heaven/ I've got scars that can't be seen/ I've got drama, can't be stolen) ou em Blackstar (Something happened on the day he died/ Spirit rose a metre then stepped aside). A própria capa, uma estrela preta em meio a um fundo branco também serviria, de acordo com o responsável pela arte, o amigo de longa data Jonathan Barnbrook, como uma representação do senso de mortalidade, tão palpável a Bowie em seus últimos momentos.

Ainda que tudo isto pouco importe dada a grandiosidade da obra do inglês - capaz de influenciar praticamente TODAS as bandas modernas que, certamente, beberam de sua fonte em algum momento da vida - é quase inevitável pensar em todo esse conjunto de signos como uma última circunstância de genialidade artística, capaz de colocar o ídolo, novamente, alguns passos acima de tantos outros que nascem de (raros) tempos em tempos. Ao dialogar tão naturalmente com a morte, em seus últimos dias, Bowie praticamente construiu o seu próprio Réquiem, a sua marcha fúnebre pessoal, a sua preparação para um descanso, que provavelmente será de muita paz. Assim como Mozart, Bowie foi um virtuoso, de altíssimo grau de intelectualidade, capaz de fazer com que todos aqueles apaixonados pela sua arte, dialogassem diretamente com ela, mesmo em seus momentos mais derradeiros. Imprimindo, dessa maneira, seu último trabalho diretamente nos aflitos corações dos fãs, que o eternizaram em seus movimentos e repetições.

Nota: 8,5

PS: texto escrito a partir das (ótimas) ideias da namorada Natally.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Boa, Rô! São as influências positivas dos últimos textos, que nos inspiram.. =)

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