quarta-feira, 28 de maio de 2025

Pitaquinho Musical - Blondshell (If You Asked for a Picture)

Devo confessar a vocês um fato: pra gostar de um disco meio que de arrancada, preciso me conectar com ele de alguma forma. Sem muita demora. Duas ou três audições e um refrão grudento, alguma letra poeticamente marcante, uma melodia irresistível, que permanece conosco. Enfim, alguma coisa tem que dar o enganche - especialmente se é um artista que não estou muito familiarizado. E, por vezes, penso que possa ter sido exatamente isso que tenha faltado no autointitulado disco de estreia da Blondshell. Aquele tchan, sabe? Aquilo que toca mais a fundo. E, claro, não é que o álbum não fosse bom, como comprovam canções deliciosas como Salad e Sepsis. Mas o caso é que Sabrina Teitelbaum era apenas uma garota de 25 anos recém saída da pandemia e com outros traumas na bagagem (caso da perda da mãe em 2018). O que explica o perfil mais acuado, ou na defensiva, que se espalha pelas canções de ferocidade contida.

 


Bom, o tempo passou e, agora, com If You Asked for a Picture, é como se a artista tivesse, enfim, desabrochado. Estando mais confiante, mais madura - o que pode ser percebido na própria sonoridade, que se espalha em outros estilos que vão para além do rock country nostálgico dos anos 90. E, verdade seja dita: Sabrina segue ácida na hora de discutir temas essencialmente mundanos - como sexo, relacionamentos, pressões gerais (especialmente sobre as mulheres), misoginia. Mas, agora com mais estrada, parece mais possível bater de frente e se reconhecer como parte desse processo de formação, que certamente faz a ponte com quem lhe escuta. Nesse sentido, músicas como What's Fair, Two Times - que parecem uma mescla de Best Coast com Cranberries - e, especialmente, 23's A Baby exalam personalidade com sua poesia torta e provocativa, que parecem sutis apenas nas aparências. Versos como "Eu não quero ser sua mãe / Mas você não é forte o suficiente" (sobre homens adultos infantilizados) e "Você será um bom pai / Você me carregou até a cama" (repletos de ambiguidades) dão só uma pequena dimensão da poesia ácida da compositora. Um dos melhores do semestre.

Nota: 9,0

Novidades em Streaming - Herege (Heretic)

De: Bryan Woods e Scott Beck. Com Hugh Grant, Sophie Thatcher e Chloe East. Suspense / Drama, Canadá / EUA, 2024, 111 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS]

"A verdadeira religião é o controle. Essas pessoas não querem a sua ajuda. Elas estão exatamente onde escolheram estar." A frase dita pelo recluso senhor Reed (Hugh Grant) à jovem irmã Paxton (Chloe East) no terço final do interessante Herege (Heretic) pode até parecer um pouco chocante. Mas não chega a surpreender. E, mais do que isso, em alguma medida parece condensar toda a ideia central da obra dirigida pela dupla Bryan Woods e Scott Beck. O resumo é mais ou menos esse: você pode ser desta ou daquela crença, mas talvez você seja mais facilmente manipulável se for um fanático indecoroso. As pessoas morrem por seitas. Também matam por elas. Por uma ideia que elas acreditam estar acima de tudo. De todos. Céu, inferno, dogmas e tudo o mais. Criadas pelo homem e para o homem. Reformuladas, repassadas adiante pela oratória, pelo texto, pelo verbo.

Vi algumas críticas na internet falando que esse não é um filme de terror - de sustos e de bigornas caindo ou de gatos assustados -, mas sim um suspense mais psicológico. E o caso é que é mais ou menos por aí. Com toda a ação centrada na casa claustrofóbica e enigmática do senhor Reed, poderíamos imaginar torturas gratuitas sem fim, de um serial killer que só quer se aproximar de duas jovens para abusar delas de todas as formas. Bom, em partes isso acontece. Mas há um ponto por trás. "Vocês estão onde escolheram estar", é o que lembra o sinistro homem - e, admito que diverti assistindo Grant, tão famoso pelas comédias românticas, encarnando um sujeito sombrio, de comportamento imprevisível. Sobre estar onde se quer estar, a frase de Reed, direcionada as meninas é ambígua. Pra quê, afinal, estragar sua juventude em uma vida tão alienante e de restrições como aquela que exige a Bíblia? Ou o Alcorão? Ou o Torá? Ou o livro sagrados dos mórmons?

 


Parte da graça de Herege - e o título da obra é quase autoexplicativo - está nesse deboche com o fanatismo religioso, independente de qual seja a corrente. É como se o senhor Reed dissesse, "olha, é mais ou menos tudo a mesma coisa e vocês estão brigando sobre isso e disputando espaço por quê?". O judaísmo é melhor do que o catolicismo? O islamismo está atrás das duas? Ou na frente? E todas essas religiões monoteístas não partem de textos mitológicos escritos milhares de anos antes? Com tramas semelhantes, fundamentos parecidos? Qual o sentido? Enquanto assistia, meio que coloquei a mão na consciência no que diz respeito a outros temas - especialmente os políticos. A religião, nos tempos de hoje, tem influência direta no assunto. Mas ao fim e ao cabo, não é tudo parte da grande engrenagem capitalista? Por quê estamos aqui brigando se, independente da porta que escolhermos, pararemos meio que no mesmo lugar?

Claro, alguns poderão dizer que os diretores exageram na dose na intenção de apresentar seu ponto. Ou fincar a bandeira. Ainda assim não deixa de ser interessante notar como a produção é salpicada por questões que são consideradas tabu quando o assunto são as crenças religiosas - sexo, poligamia, pornografia, indústria cultural, violência contra a mulher, a busca permanente por evidências científicas, experiências de quase morte, a hipocrisia da sociedade. Quando Paxton chega à propriedade de Reed, acompanhada da missionária Barnes (Sophie Tatcher), elas não imaginam ter de participar de uma série de jogos de perguntas e de respostas pra tentar escapar dali. O frio e a neve são abundantes lá fora. E a simples caixa de um jogo como Banco Imobiliário pode parecer mais provocativa do que é. Ou uma canção do The Hollies que toca na vitrola - a linda The Air That I Breathe que, sim, parece que já ouvimos antes. A gente já ouviu muita coisa antes. Mas a graça é que podemos escolher. Pra onde vamos, como agimos. Até se vamos acelerar ou não a nossa morte. Tá tudo meio que embrulhado ali, nesse thriller curioso, soturno, alegórico e bem resolvido que vale ser conferido.

Nota: 8,0 


Cine Baú - Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon)

De: Sidnay Lumet. Com Al Pacino, John Cazale, Charles Durning e Chris Sarandon. Comédia / Policial, EUA, 1972, 124 minutos.

Uma de minhas partes preferidas de Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon) é aquela em que a população que acompanha o desenrolar da negociação entre polícia, assaltantes e reféns fica bradando um: "solta a franga e vai pra rua! Solta a franga e vai pra rua!". É um instante divertido, excêntrico e, ainda que pouco politicamente correto, uma forma de mostrar que o povo, a massa, estava com Sonny (Al Pacino), o sujeito que leva a cabo um plano maluco de invadir um banco pra tentar levar uma grana para um nobríssimo motivo: pagar uma cirurgia de mudança de sexo para o namorado, num caso extraconjugal que é revelado no transcorrer do clássico de Sidney Lumet. Sim, hoje em dia esse tipo de argumento não surpreenderia - e esse até poderia ser o tipo de trama a fazer sucesso em uma comédia de costumes do circuito alternativo. Mas estamos em 1975. Falando de um caso que ocorreu de verdade, em 1972.

Na parte do "solta a franga e vai pra rua!", o filme já avançou bastante. Os cartazes de "estamos com Sonny", empunhados pela comunidade LGBT que toma conhecimento do caso e vai pra frente do banco para apoiar, digamos assim, o assaltante, são uma espécie de cereja do bolo de uma obra que permanece cheia de carisma, mesmo cinquenta anos depois. Era algo diferente do que já havia sido feito e há que se salientar não apenas a ousadia, mas a capacidade de tratar o tema de forma adulta, intensa, quase comovente. Quando chega ao banco acompanhado do imprevisível Sal (John Cazale), ainda não sabemos bem por quê Sonny tomou aquela decisão tão extrema. Ele parece alguém inteligente a ponto até de antecipar algumas decisões dos investigadores que lhe vigiam da rua. Ainda que soe totalmente despreparado no ofício de assaltar um banco. Meio desajeitado, ele tenta. E vai levando a coisa até o limite do aceitável.

 


O caso é que, em linhas gerais, essa é uma produção também sobre a complexidade da execução de um crime e de como tudo sai do controle diante do amadorismo de Sonny, de Sal e de Stevie (Gary Springer) - um jovem que, inseguro, desiste da empreitada assim que o trio adentra a agência. Dali pra frente, a dupla de assaltantes precisará improvisar enquanto negocia com os detetives da polícia - os telefonemas são incessantes -, e atende os desejos não apenas do gerente (Sully Boyar), como das funcionárias, que serão mantidas trancadas no cofre. Ou ao menos em parte do tempo. O calor é incessante e palpável - o suor escorre do rosto de todos - e as trapalhadas fazem a situação escalar. Há um vigia que sofre de asma e é liberado - em uma sequência caótica que também escancara o racismo que emerge dos homens da lei. Com o famoso caso do motim da prisão de Attica servindo como elemento histórico a fortalecer a ideia de uma grande injustiça social em andamento.

Vencedora do Oscar na categoria Roteiro Original e indicada a várias outras estatuetas, a produção também seria reconhecida pela crítica por sua inovação artística e pela ousadia em apresentar um protagonista abertamente gay em um tempo em que isso não era assim tão comum - e que ainda funciona como uma espécie de veículo de resistência frente ao autoritarismo (o que também é reforçado pela entrega cheia de carisma, energia e vulnerabilidade de Pacino). Aliás, o elenco como um todo é notável, preenchendo cada momento numa alternância entre sutileza e personalidade - e não é por acaso que mesmo as funcionárias do banco têm suas próprias idiossincrasias, como nos vários instantes em que Sylvia (a ótima Penélope Allen) se exalta, desafiando Sonny, mas permanecendo atenta as suas investidas meio imprevisíveis. Naturalista, engraçada e tocante a obra segue memorável, integrando várias listas de melhores mundo afora.

 

terça-feira, 27 de maio de 2025

Novidades em Streaming - Tudo Que Imaginamos Como Luz (All We Imagine is Light)

De: Payal Kapadia. Com Kani Kusturi, Divya Prabha, Hridhu Harron e Chhaya Khadam. Drama, Índia / França / Holanda / Luxemburgo / Itália, 2024, 115 minutos.

 "Fugir? Você não pode escapar de seu destino." A frase dita por Prabha (Kani Kusturi) para a jovem Anu (Divya Prabha), em certa altura do indiano Tudo Que Imaginamos Como Luz (All We Imagine is Light) parece resumir, em alguma medida, o contexto habitado por aquelas mulheres - submissas ao patriarcado onipresente, sem direito à privacidade ou mesmo impossibilitadas de tomarem suas próprias decisões em um cenário de conservadorismo. A gente tende a tomar o Brasil (graças a Deus) como régua em termos de avanços sociais, mas o caso é que em outros cantos do planeta a coisa segue meio estagnada. Em muitos casos indo até mais pra trás do que pra frente. A sentença de Prabha tem sim sua razão de ser. Mas ela também examina o fato de as próprias mulheres terem dificuldade em aceitar as transformações de um mundo que, mesmo reacionário, tende a evoluir. A colocar alguns temas em pauta.

Prabha é mais velha que Anu. Mais experiente. Mas também mais ressentida, mais rígida. Ambas trabalham como enfermeiras em um hospital de Mumbai - e a reação de Anu, diante de uma paciente que parece não muito bem informada a respeito de formas de prevenir uma gravidez, dá conta de sua personalidade mais, digamos, oxigenada. Prabha é taciturna, teve um casamento arranjado com um homem que agora trabalha na Alemanha, em uma indústria. Sem muita previsão de retorno, aparentemente. Estagnada em uma vida monótona em que a grande emoção é receber um presente do exterior - uma panela modernosa enviada pelo marido -, ela assiste a uma Anu que se diverte com o namorado Shiaz (Hridhu Haroon), ao mesmo tempo em que aconselha a jovem sobre seu futuro e suas decisões. Os pais de Anu já começaram a lhe enviar fotos de candidatos para um casamento arranjado. É o seu destino, argumenta Prabha. Mas será mesmo?

 


Em alguma medida são muitos os temas que circundam esse trabalho delicado da diretora Kani Kusturi e que foi premiado pelo Júri de Cannes no ano passado. E que são salpicados, aqui e ali, auxiliando na construção dessa tapeçaria complexa de uma Mumbai urbana e onírica, tecnológica, mas decadente, alegre e ocasionalmente sombria - como se estivéssemos em uma espécie de Blade Runner (1982) saído da Ásia. Sororidade, papel da mulher na sociedade, diferenças de classes, tudo vai se conectando para formar aquilo que, em certa altura, alguém resume como o "espírito de Mumbai". Mesmo que se esteja na sarjeta não será possível achar ruim. Prabha é cortejada por um médico de grande sensibilidade - seu nome é Manoj (Azees Nedumangad) - mas é incapaz de ceder aos encantos do sujeito, enquanto aguarda uma eternidade pelo marido que nunca volta. Pelo destino já traçado. Já Anu circunda pelo subúrbio à tiracolo do namorado, tentando encontrar um lugar que seja para uma intimidade a mais, longe da vista, ou dos julgamentos - com tudo se tornando mais complexo pelo fato de Shiaz ser muçulmano.

E como se já não bastasse esse cenário que emerge denso, fragmentado, com cada instante sendo exibido a seu tempo, alternando certa urgência com um espaço para contemplação, a obra ainda divaga sobre os contrastes existentes entre a vida simples e um vilarejo e o ambiente urgente e hostil de uma capital. É nesse contexto que surge Parvaty (Chhaya Kadam), a cozinheira do hospital que está em pé de guerra com um empreiteiro que pretende demolir a sua casinha para construir um arranha-céu no lugar. Gentrificação. Falta de autonomia da mulher. Modernização tocada por uma burguesia torpe. São outros temas que surgem e se espalham - e vão levando a narrativa. Ao cabo, essa é uma experiência viva, palpável, que busca a luz em meio a escuridão. Como evidencia o enigmático e comovente terço final. Por vezes é preciso se livrar de algumas amarras. Para que as coisas possam, de fato, se iluminar. Não soluciona as coisas em países fechados, misóginos, antiquados. Mas ajuda a tocar em frente.

Nota: 8,5 


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Novidades em Streaming - Um Pai Para Lily (Bob Trevino Likes It)

De: Tracie Laymon. Com Barbie Ferreira, John Leguizamo, French Stewart e Rachel Bay Jones. Drama / Comédia, EUA, 2024, 101 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre amizades inusitadas não chegam a ser uma novidade. Muitas vezes esses encontros inesperados envolvem pessoas desajustadas ou, em alguma medida, a margem da sociedade - que buscam uma forma ou de aplacar a solidão ou de amenizar algum tipo de tristeza que emerge de um contexto de rejeição. É assim em obras distintas, como o clássico cult Ensina-Me a Viver (1971), o incensado Encontros e Desencontros (2004) e a sombria animação Mary e Max: Uma Amizade Diferente (2009). Todos com pessoas em conflitos internos ou incapazes de lidar com a complexidade do mundo. Já no carismático Um Pai Para Lily (Bob Trevino Likes It), temos a tradicional história de pai que abandona a filha - ao menos do ponto de vista emocional -, o que faz com que ela reaja da forma que qualquer pessoas de vinte e poucos anos faria: adicionando seu pai no Face.

Sim, esse resumo é meio bobinho, mas na trama inspirada em fatos reais e vivida pela diretora Tracie Laymon, o que temos é mais ou menos isso. No começo do filme Lily Trevino (Barbie Ferreira, de Euphoria) é apenas a jovem chorosa que, diante de uma frustração amorosa, tenta encontrar algum consolo no seu pai, o narcisista Bob Trevino (French Stewart). Incapaz de escutar os desabafos de sua filha, o sujeito parece apenas interessado no Tinder - e em alguma sessentona de boa aparência que possa agradá-lo. Só que quando um encontro sai errado justamente pela franqueza de Lily, o pai decide romper relações com a garota. De forma inusitada, a protagonista abre o Face e digita o nome da figura paterna. Encontra aquele que ela achava ser ele. Um Bob Trevino sem foto, sem muitas informações. Ela o adiciona. E começa a conversar, não demorando pra perceber que aquele era um homônimo de seu pai.

 


E, bom, não é preciso ser muito atento pra sacar que esse novo Bob Trevino (vivido por um John Leguizamo mais distante do estereótipo do latino violento e imprevisível que aparece em produções como O Pagamento Final, de 1993) será o completo oposto de seu pai na "vida real". Acolhedor, curtirá as postagens da garota, responderá não apenas suas dúvidas no webmessenger e lhe auxiliará em tomadas de decisão e outras coisas relacionadas a sua vida (como consertar um vaso sanitário). Em resumo, aquilo que um pai poderia muito bem fazer em uma relação saudável com sua filha: jogar basquete, levá-la para passear, para jantar, pagando as contas, animando-a e dando um novo brilho para a sua existência melancólica de empregada de uma loja de conveniência sem muitas perspectivas. Recheada por um sem fim de sequências comoventes, esse é aquele famoso projeto do quentinho no coração - sentimento ampliado no instante em que Bob e Lily vão a um pet shop, como forma de superar um dos tantos traumas.

Claro, fãs de cinema mais experientes talvez torçam um pouco o nariz para um ou outro momento mais forçado ou exageradamente açucarado do ponto de vista emocional, com a carga se ampliando no terço final, especialmente após a decisiva entrada em cena de Jeanie (Rachel Bay Jones), que interpreta a esposa do novo amigo de Lily - uma artista plástica que trabalha com colagens e outras técnicas do tipo. Jeanie e Bob também carregam suas dores - como quando revelam terem perdido um filho nascido com deficiência. Tudo é costurado de forma leve, sóbria, com as interpretações cheias de simpatia sendo o destaque. Barbie tem aquela risada agradabilíssima, que dá gosto de ouvir, mas não tem nenhuma dificuldade em levar o espectador às lágrimas, nas sequências mais pesadas. Já Leguizamo parece se divertir em um papel menos padrão. Às vezes a gente só quer um afago daqueles que gostamos. E esse filme entrega isso na medida certa. Não deixem de ver com o lenço na mão. 

Nota: 7,5

 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Novidades em Streaming - The Code

De: Eugene Kotlyarenko. Com Dasha Nekrasova, Peter Vack, Ivy Wolk e Vishwam Velandy. Comédia / Drama, EUA, 2024, 100 minutos.

"Certamente sairemos melhores da pandemia". Quantas vezes não ouvimos - ou mesmo falamos - frases parecidas com essa nos tempos de confinamento. Nos meses intermináveis em que nos trancamos em casa com medo de um vírus que parecia que ia matar todo o mundo, sem poder ter contato com o mundo real, o quanto não prometemos ser mais empáticos, menos individualistas, mais tolerantes? Sim, o mundo da covid-19 parece agora meio distante e, o que ficou? Medo, vigilância permanente, guerras, inteligência artificial, avanço da extrema direita, xenofobia, crises e mais crises - políticas, sociais, religiosas, culturais. Em certa altura do excêntrico The Code, que acaba de chegar à plataforma Mubi, a documentarista Celine (Dasha Nekrasova) explica ao seu namorado Jay (Peter Vack) que a ideia de fazer um filme sobre os tempos pandêmicos é mais simples do que parece: "em breve tudo isso aqui vai acabar e ninguém mais vai se lembrar de como era".

E, vamos combinar, a gente quase não lembra mais como que era. Usar máscara, evitar aglomerações, não compartilhar utensílios e alimentos. "O que aquele cara está fazendo de máscara dentro de um carro conversível?". Na câmera onipresente de Celine tudo parece ser matéria-prima para o documentário que ela está gravando. E que ela mesma pretende editar. Mas será que esse é, de fato, um filme sobre os tempos pandêmicos? Ou é mais um registro autobiográfico sobre uma relação que parece ruir? Com dois jovens bonitos que parecem não apenas incapazes de amar, mas também de transar. Em tempos em que diversos estudos evidenciam a incapacidade dos millennials de se conectarem, de estabelecerem relações sólidas, responsáveis do ponto de vista afetivo, poucas vezes uma obra será tão realista no exame dessa era turbulenta que vivemos - insana, urgente, intensa, febril e cronicamente online - do que nesse projeto de Eugene Kotlyarenko. 

 

 

E devo confessar a vocês que não é todas as vezes que dou play em projetos do tipo - desses metidos a moderninhos, que fazem sucesso em festivais alternativos, como o de Sundance -, sem dar uma boa torcida de nariz. Mas há algo envolvente aqui, que conecta o público, por mais que a realidade apresentada pareça meio distante. Na trama, estamos em março de 2021 e Celine e Jay alugam uma casa no Airbnb para tentar se reconectar de alguma maneira. "Não lembro a última vez em que fiz sexo com a minha namorada" comenta Jay em uma gravação que deve virar conteúdo ali adiante. Talvez um viral. Assim como parece ser a série de vídeos para o Tik Tok criados por Celine em que ela aparece em edições extremamente dinâmicas amassando comprimidos de Viagra, que ela misturará com o almoço pra ver se as coisas se movimentam um pouco. Talvez movimentem. Ainda que, se tudo for forçadamente filmado, a coisa possa soar um tanto fake. E a graça se perde.

Com uma montagem ágil e tecnicamente impecável que se utiliza de todo e qualquer equipamento capaz de filmar, o filme de Kotlyarenko, que parte de uma citação de Orson Welles para enveredar pra um comentário metalinguístico que se estenderá por toda a narrativa, funciona como uma grande colagem de fragmentos em que temas, como, solidão, problemas sexuais, pornografia, onipresença de aplicativos, criptomoedas, medo do cancelamento, autoestima hétero, ausência de privacidade e incelismo cultural se descortinam de forma intensa, alternando momentos ágeis, com outros mais contemplativos. Em geral, a chance de perdermos algum detalhe pode ser real naquele universo caótico que nos bombardeia de informações e que também é coabitado por um excêntrico host de nome Parthik (Vishwam Velandy) que se junta à prima de Celine, Colette (uma ótima Ivy Wolk), que surge para subverter a lógica da existência millennial (em geral frustrada, melancólica e sem perspectivas). Ainda assim o que fica é o caráter cômico da performance permanente na modernidade, em que a hipervigilância parece servir pra mascarar a paranoia e a completa falta de autoestima. Um achado.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Novidades em Streaming - Campeões (Champions)

De: Bobby Farelly. Com Woody Harrelson, Kaitlin Olson, Kevin Iannucci e Madison Tevlin. Comédia / Drama, EUA, 2023, 123 minutos.

Vamos combinar que dá pra contar nos dedos das mãos o número de produções que incluem pessoas reais com deficiência em seus elencos. Aliás, é mais fácil termos um ator ou atriz fazendo de conta que é um PCD - muitas vezes sendo até premiado por sua caracterização. Então, estou aqui para saudar o simpático Campeões (Champions), que é inspirado no espanhol Campeones (2018). É um filme previsível, eventualmente imperfeito e qua talvez seja apenas um bom passatempo? Sim, provavelmente é tudo isso. Mas devo confessar a vocês que achei a obra dirigida por Bobby Farelly extremamente carismática. Claro, na Era do Cancelamento em que vivemos não demorará para que o campo progressista e cirandeiro aponte, aqui e ali, o eventual capacitismo que pode emergir da presença do homem branco, hétero e bronco chegando pra salvar o dia na Apae estadunidense. Mas o que não são essas entidades do que instituições de suporte e de estímulo permanente a autonomia e à independência?

Sim, na hora de apontar dedos todo o mundo se horrorizou com a franqueza excruciante de O Filho Eterno de Cristóvão Tezza, mas atire a primeira pedra quem de nós é completamente livre de preconceitos - e de incertezas também, sobre como agir, como se comportar -, quando o assunto são pessoas com Síndrome de Down ou algum outro tipo de deficiência intelectual? Claro, são pessoas como todas as outras, os paladinos da moral se apressarão em dizer. Com suas complexidades, desejos e frustrações. E o que esse filme faz é nos lembrar, à sua maneira, exatamente disso. Óbvio que há todo um clima festivo e de "copo meio cheio" que certamente reduz a quase zero a maioria das dores vividas por quem sofre o preconceito diariamente - e essa sim pode ser uma crítica real ao filme. Esse tipo de apagamento. Mas e se ao invés de pesar a mão sobre isso, convertermos essa experiência em uma fábula otimista sobre a importância do respeito em relação aos PCDs?

 


 

Em resumo, a gente anda em círculos e pisa em ovos já que este não é um assunto fácil de ser abordado -, e novamente, ranço a parte que vocês podem ter com o Farelly, talvez por conta das inúmeras comédias de gosto meio duvidoso, é preciso saudar a sua iniciativa de levar essa história a um público maior (saindo do nicho alternativo europeu que, infelizmente, fica relegado a uma plateia menor e que muitas vezes tem preguiça de ler legenda). A ousadia de tentar. Talvez não acertar tanto. Mas tentar. Na trama, Woody Harrelson é o temperamental treinador assistente de basquete Marcus, que, após um bate boca com o técnico de sua equipe por divergências de ideias o empurra em plena quadra. Não bastasse a cena viralizar e a reputação do sujeito, famoso por ser uma figura intempestiva, ruir, a coisa piora quando ele colide seu carro com uma viatura de polícia. Bêbado. Na audiência, a juíza lhe sentencia: dezoito meses de prisão ou 90 dias de serviço comunitário treinando o time The Friends.

Marcus é aquele homem de meia idade meio básico, que não consegue permanecer em nenhuma relação - como comprova seu desastroso comportamento com Alex (Kaitlin Olson), com quem ele passa uma noite após conhecê-la no Tinder - e que não se importa com ninguém. Não procura ter interesse por ninguém - por suas vidas, suas existência para além dos limites da quadra (como ele compreenderá após a discussão com seu técnico principal). Nesse sentido, a obra terá aquela trajetória típica de filme esportivo dos anos 90 - estilo Jamaica Abaixo de Zero (1993) - de pessoas que parecem deslocadas, mas que superarão de forma conjunta as dificuldades. Não para serem campeões do ponto de vista do torneio - até porque será a jornada em si que se converterá na vitória alegórica. Mas para vencerem outros medos. Dando profundidade a personalidade a cada uma das estrelas do time - do bondoso Johnny (Kevin Iannucci), que, aliás, convenientemente é irmão de Alex, passando pela atrevida Cosentino (Madison Tevlin) até chegar ao imprevisível Showtime (Bradley Edens) e ao taciturno Darius (Joshua Felder) -, o filme, disponível na Netflix, tem luz própria e jamais utiliza os casos de deficiência para uma mera exploração sem sentido. É cativante.

Nota: 7,5


quinta-feira, 15 de maio de 2025

Pitaquinho Musical - Terno Rei (Nenhuma Estrela)

Vamos combinar: quem acompanha a carreira do Terno Rei já se acostumou com a sua música de ambientação urbana, cinzenta, de final de tarde em meio aos prédios altos e as calçadas ásperas - o tipo de sentimento palpável, que emana da sonoridade nostálgica e melancólica. Sim, a impressão que dá é a de já termos ouvido essas músicas antes - nas madrugadas das rádios alternativas ou em algum lugar na transição dos anos 80 e 90, pra quem viveu ali a juventude. As referências são quase óbvias, indo de Smiths e The Cure a Phil Collins e Radiohead -, sempre com uma guitarrinha pulsante e um letras urgentes a respeito de dores cotidianas ou sofrimentos contemporâneos mal curados -, o que jamais significa falta de personalidade ou estilo próprio. O que fica bastante evidente em Nenhuma Estrela, quinto disco de inéditas que, não por acaso, é um dos melhores da carreira.

 


 

Com um conjunto de canções perfumadas por sintetizadores enevoados, bateria frontal e refrãos nunca óbvios, o quarteto paulistano capitaneado por Ale Sater mostra maturidade e segurança em um registro extremamente bem produzido, requintado em sua estética e emocionalmente arejado - como comprovam músicas excelentes, como, Nada Igual, Próxima Parada e Programação Normal (sempre propondo algum tipo de dança em meio à tristeza, que vai no limite entre o pop e o experimental). Já Casa Vazia brinca com a ideia por trás da solidão de um bicho de estimação - no caso um cãozinho e seu eterno estado de espera (Dessa casa vazia / Sou protetor / Isso é tudo que tenha pra dar). "Fico muito feliz em ver como nossa música consegue tocar as pessoas e acompanhar fases da vida delas. Assim como vocês sentem isso, eu também sinto", resumiu o vocalista Ale Sater ao site Música Pavê. Os fãs agradecem.

Nota: 9,0