quinta-feira, 3 de março de 2022
Pérolas da Netflix - Peepli Ao Vivo (Peepli Live)
quarta-feira, 2 de março de 2022
Cinema - Licorice Pizza (Licorice Pizza)
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022
Livro do Mês - Poeta Chileno (Alejandro Zambra)
Já dizia Pablo Neruda que "é tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem pessoas razoáveis". Não sei dizer se Neruda estava certo, mas no universo bastante íntimo retratado por Alejandro Zambra no ótimo romance Poeta Chileno, o que temos é um verdadeiro mergulho nesse ambiente quase mitológico dos poetas chilenos. "Somos bicampeões na Copa do Mundo de poesia" afirma a certa altura da narrativa, num tom que vai no limite entre o orgulho e o deboche, um certo Pato, amigo de Vicente, um jovem recém-saído da adolescência, que sonha seguir os passos de Gabriela Mistral, Nicanor Parra, Armando Uribe, além do próprio Neruda. Aliás, Mistral e Neruda atestam a eficiência da poesia saída do País de Salvador Allende, afinal, venceram o prestigioso Prêmio Nobel de Literatura. Mas há espaço para esse tipo de leitura nos tempos atuais? Fora os clássicos, as pessoas se interessam por esse tipo de material curto, meio formulaico e excessivamente subjetivo, ainda que invariavelmente provocativo?
Zambra, ele mesmo um escritor de poesias, ensaios e outros textos brinca com o tema, ao adotar um tom realista, quase pessimista, ao lançar um olhar para um mundo excessivamente antipoético, onde o estilo parece ser celebrado apenas entre os pares, em festas em que os poetas parecem dispostos a reafirmar sua importância para si próprios. O próprio Gonzalo, um dos protagonistas, é aspirante a escritor - daqueles que sonha em produzir um material que possa ser digno à conversão em livro, que possa ir ao encontro de leitores involuntários que se interessem por esse mundo de "herois, anti-herois e até de impostores literários". De forma bastante irônica a poesia, para Gonzalo, era a "história de homens geniais e excêntricos, bons de copo e especialistas nos altos e baixos do amor". Um tipo de mitologia que, desde a juventude, o contaminava. E que viria a influenciar diretamente em sua vida, seu presente e seu futuro - especialmente em sua relação com a namorada Carla e seu pequeno filho, o já citado Vicente.
E é nesse ponto que o livro de Zambra ganha a gordura dos eventos mundanos que, não por acaso, servirão de matéria-prima para a poesia, que costura a narrativa de uma forma comovente. Da juventude ao lado de Carla - com os desejos juvenis se convertendo em verdadeiras manobras no sofá, embaixo de um poncho vermelho, enquanto a mãe da jovem circulava de forma desconfiada pelo ambiente -, até a separação, passando pelo futuro e inesperado reencontro, que resultará na mais improvável das amizades (a de Gonzalo com Vicente), as idas e vindas, medos e vontades, frustrações e anseios, sofrimentos e conquistas se mesclarão à própria história do Chile - especialmente após o fim do autoritário Governo do Ditador Augusto Pinochet. Trata-se ao cabo de uma obra que divaga permanentemente a respeito do fazer literário, sobre como poetas parecem desprezar o romance, sobre as tragédias contemporâneas, sobre o desejo de pertencimento, sobre masculinidade, paternidade e suas curvas espinhosas.
Percorrendo as mais de 400 páginas da obra editada pela Companhia das Letras, personagens secundários como Pru, uma jornalista estrangeira que está interessada em elaborar uma reportagem sobre a poesia chilena contemporânea; León, o medíocre pai verdadeiro de Vicente que atua como corretor de imóveis frustrado e Safadão, o extravagante avô de Gonzalo, conferem cor à narrativa cheia de possibilidades, de pequenos becos, de encaixes inesperados, numa reflexão que, acima de tudo, aborda o sentido de ler e escrever nos nossos dias. Repleto de citações culturais, Poeta Chileno ainda é um prato cheio para os fãs de literatura, que encontrarão na obra um verdadeiro desfile de autores, muitos deles completos desconhecidos - como aqueles vistos no magistral capítulo que se dedica as entrevistas realizadas por Pru. "Ser poeta chileno é como ser um chef peruano, um jogador de futebol brasileiro ou uma modelo venezuelana", resume alguém a uma certa altura. O que dá a dimensão da arte sobre a própria arte que propõe Zambra. Vale demais.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022
Picanha.doc - Fuga (Flee)
De: Jonas Poher Rasmussen. Com: não divulgado. Documentário / Drama / Animação, Suécia / Dinamarca / Noruega / França, 2021, 127 minutos.
[UPDATE: essa resenha foi escrita antes do início do ataque das tropas russas à Ucrânia, num contexto que provocará um novo movimento de fuga de refugiados. Aliás, a ONU acredita que 4 milhões de civis poderão deixar o País nas próximas semanas. Infelizmente o horror continua.]
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Revoltante. Comovente. Perturbador. Sombrio. Definir com adjetivos uma obra completa e complexa como Fuga (Flee) não é tarefa fácil. Esse é um filme que me fez chorar em mais de um momento, por motivos os mais variados. Ainda que nos deixe de estômago embrulhado é uma experiência necessária em tempos em que o tema "crise de refugiados" segue em alta. Aliás, ainda está viva em nossa memória recente as cenas em que milhares de afegãos perseguem aviões militares dos Estados Unidos para tentar, como uma última medida desesperada, fugir junto com eles. São imagens que já estão na história. E que seguem contando a dolorosa e complicada trajetória política, social, cultural e religiosa do País asiático, que parece conviver há algumas décadas com um estado de guerra permanente - com as influências de Rússia e Estados Unidos servindo muito mais para estremecer os ânimos do que para prestar algum tipo de socorro efetivamente humanitário. Isso sem falar no Talibã, o movimento fundamentalista que atualmente detém o poder no País, sendo uma ameaça permanente.
Por tudo isso o Afeganistão é tido como o País mais perigoso do mundo - e o que mais "produz" refugiados e solicitantes de asilo. E aqui a gente já tem um ponto importantíssimo que, em muitos casos, gera confusão: nunca devemos confundir aqueles que estão em fuga de um País com aqueles que estão promovendo o terror no local. Parece meio óbvio, mas não é porque um homem vem da Palestina que ele será, necessariamente, um homem-bomba em potencial. Ele pode ser só alguém querendo fugir de uma nação em que o fundamentalismo impera. E talvez seja por isso que uma das cenas mais desoladoras de Fuga envolva uma pequena embarcação que está em fuga tentando chegar à Suécia - por meio do Mar Báltico - e se depara com um enorme navio de turistas cheio de pessoas loiras, ricas, bonitas. São instantes de tensão e de suspense em que aquelas pessoas apenas clamam por uma salvação. Uma alternativa. Alguma coisa qualquer que não seja ter de retornar ao Afeganistão. Ou à Rússia. É chocante. Desesperador.
Na real em linhas gerais é meio inconcebível pensar que estamos em um mundo em que esse tipo de barbárie ocorra. Em que violência, sangue, tortura e morte resulte de uma necessidade de se aniquilar o diferente. Em que pessoas movidas por ódio, por intolerância, por preconceitos os mais diversos apenas desejam que o outro deixe de existir. E eu estou aqui escrevendo essa resenha e despejando essas palavras meio sem pensar e ainda nem falei do filme em si e da história que ele conta. E de como Fuga se tornou a primeira obra da história a ser nominada ao Oscar nas categorias Documentário, Animação e Filme em Língua Estrangeira (é o enviado da Dinamarca). A trama narra a história real de um intelectual (sem nome fictício é Amin Nawabi), que faz um relato comovente ao diretor Jonas Poher Rasmussen sobre como tenta recomeçar a sua vida na Europa após conseguir, a muito custo, fugir do Afeganistão. Para se tornar, inicialmente, uma "não pessoa" - sem família, sem passado, sem documentos.
O filme mescla documentário e a animação como uma opção, até mesmo para preservar a identidade do protagonista, que até hoje vive na Dinamarca. Isso não impede que detalhes de sua vida íntima sejam revelados, como o fato de ser gay em um País absurdamente conservador e radical também no que diz respeito a esses temas. E não deixa de ser curioso notar como será justamente a sexualidade de Amin - e a sua busca permanente (e incerta) pelo amor - que o humanizará ainda mais (e não é por acaso que soem tão agradáveis a nós os comentários do protagonista sobre os filmes do Van Damme ou mesmo uma rara entrada em uma boate, numa daquelas sequências que nos fazem rir e chorar ao mesmo tempo). E que mostrarão que a vida pode ser tão simples. Tão bela. O que queremos, o que desejamos. Longe do ambiente acinzentado e arenoso do contexto de fuga, recriado na animação como uma espécie de borrão macabro na mente de Amin. É uma experiência rara, complexa, atual. E que precisa chegar ao maior número de pessoas possível. Na realidade me faltam até palavras. Resta apenas a opção de ver. E de torcer para que a visibilidade possibilitada pelo Oscar possa render bons frutos.
Pitaquinho Musical - Tears For Fears (The Tipping Point)
Pode parecer meio paradoxal o fato de que, talvez, a maior virtude do mais recente trabalho do Tears For Fears, The Tipping Point, seja justamente não parecer com nada daquilo que a banda já tenha feito no passado. E isso não significa renegar a era do clássicos do grupo - canções como Everybody Wants to Rule The World, Sowing the Seeds of Love e Shout estão eternizadas em nossos corações - e sim reconhecer que a música, especialmente nesses tempos tão urgentes e tecnológicos, é um organismo em movimento. E é justamente dessa maneira que os britânicos parecem oxigenar o seu som - algo que, por sinal, já havia se in iniciado no agora distante Everybody Loves a Happy Ending (2004). Da abertura com o folk de No Small Thing até o fechamento com o dream pop Stay temos uma coleção de canções palatáveis - caso da faixa título e da ótima Break The Man -, que mantém o Tears for Fears conectado com as sonoridades atuais. Afinal, vamos combinar que aquele clima épico dos discos dos anos 80, se replicado nos dias de hoje, talvez soasse apenas anacrônico (ou até brega). Roland Orzabal e Curt Smith, afinal, também mudaram bastante nessas quatro décadas de estrada. Dores, perdas, tentativas de recomeços, tá tudo lá, condensado em 40 minutinhos que descem redondo. Pode ir na fé!
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
Novidades em Streaming - Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Curta Um Curta - Audible
Vamos combinar que uma das magias da categoria documentário é a de tomar contato com histórias que jamais imaginaríamos existir. No caso do curta-metragem Audible - um dos indicados ao Oscar em sua categoria e que está disponível na Netflix - somos apresentados a um grupo de jovens que integra um time de futebol americano apenas de surdos. E que, não bastasse essa especificidade, está invicto há 46 jogos! Sinceramente, eu não imaginava que existissem ligas regionais que possibilitavam esse tipo de inclusão. E muitos menos que o esporte fosse tão competitivo - aliás, mérito para as ótimas sequências que envolvem os jogos, repletas de ângulos de câmera criativos.
Mas as disputas em si são o de menos na obra de apenas 40 minutos dirigida por Matthew Ogens. Sendo entrecortada por diversos diálogos - a grande a maioria deles realizados por meio da língua de sinais -, o filme aborda temas ásperos como suicídio, solidão das pessoas com deficiência, homossexualidade, luto e até as inseguranças da adolescência - a sequência em que dois meninos conversam sobre convidar uma garota para o baile da escola é uma pequena joia! Ainda que adote um tom otimista e de superação (aparece lá no meio até um pastor da Igreja Evangélica), o gosto é meio amargo. O que comprova que ainda temos muito a aprender e muitos preconceitos a superar quando o assunto é esse.