quinta-feira, 3 de março de 2022

Pérolas da Netflix - Peepli Ao Vivo (Peepli Live)

De: Anusha Rizvi. Com Omkar Das Manikpuri, Raghubir Yadav, Shalini Vatsa e Farrukh Jafar. Comédia dramática, Índia, 2010, 96 minutos.

Existe um dado meio chocante da União Nacional de Camponeses da Índia que estima que, desde 1995, cerca de 400 mil agricultores cometeram suicídio no País - uma crise sem precedentes que é resultado do fracasso de políticas neoliberais, privatizações e ausência de qualquer tipo de regulação do setor pelo Estado. Endividados, os produtores ficam à mercê de grandes corporações e de políticas públicas escassas que possam ajudar a solucionar a questão. E, por mais sério que seja o assunto, não deixa de ser curioso notar como a diretora Anusha Rizvi conseguiu, de forma meio paradoxal, utilizar um tom bem humorado no divertido e dramático Peepli Ao Vivo (Peepli Live), filme que está disponível na Netflix - e que foi o enviado ao Oscar pela Índia, lá em 2010.

Na trama, a família Manikpuri está em crise por não conseguir pagar a hipoteca da pequena propriedade que mantém em um vilarejo do interior da Índia. Ao tentar pedir algum tipo de socorro para lideranças locais, os irmãos Natha (Omkar Das Manikpuri) e Budhia (Raghubir Yadav) descobrem que existe um novo programa de Governo que oferece 100 mil rúpias para as famílias de fazendeiros que tenham cometido suicídio. Com a intenção de recuperar a propriedade, Natha se oferece para tirar a própria vida - para desespero da esposa Dhani (Shalini Vatsa) e da mãe (Farrukh Jafar). Bom, não demora para que a notícia passe a circular pelo vilarejo, atraindo a atenção não apenas de políticos, mas de outros poderosos, além da mídia sensacionalista.


Aliás, a chegada da imprensa ao local é o que converte o episódio em um verdadeiro circo, com cinegrafistas, repórteres e outros circulando pela região, na busca pela notícia mais impactante, pela revelação mais chocante, por algum tipo de "furo" que possa ressignificar aquilo tudo. Nesse sentido, a diretora jamais pesa a mão ao denunciar o abuso sofrido pelos agricultores de uma forma leve, quase debochada - como no caso da sequência em que um jornalista faz uma longa digressão a respeito da forma e do conteúdo das fezes de Natha (que poderiam ser um indicativo de como ele estava sob severo estresse, o que poderia explicar seu comportamento). O mesmo valendo para a mesquinharia do descaso político, com as autoridades municipais, estaduais e federais jogando uma no colo da outra a responsabilidade pela morte de produtores.

À moda de um A Montanha dos Sete Abutres (1951) da Nova Bollywood, o filme converte a região de Peepli em um verdadeiro centro de debates que se intensifica às vésperas das eleições (com cada interessado tentando utilizar o desastre em benefício próprio, sem nunca pensar efetivamente no bem-estar do povo). Com ótima trilha sonora - músicas evocativas como Desh, de Raman Ji pontuam a narrativa e contribuem para contar a história - e cenários arenosos e desoladores, a obra jamais deixa de abandonar o otimismo, ainda que nos deparemos com uma Índia absurdamente desigual e miserável. Ao final, em meio a tantas incertezas, fica o sentimento de que, por mais que se dê algum tipo de visibilidade para o tema, ele dificilmente será solucionado. Uma pena.


quarta-feira, 2 de março de 2022

Cinema - Licorice Pizza (Licorice Pizza)

De: Paul Thomas Anderson. Com Alana Haim, Cooper Hoffman, Mary Elizabeth Ellis, Bradley Cooper e Sean Penn. Comédia dramática / Romance, EUA, 2021, 133 minutos.

Assim que subiam os créditos finais de Licorice Pizza (Licorice Pizza) comecei a me dar conta de como o novo filme de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) parecia ser sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. Bom, tentando explicar é sobre tudo porque é a obra de amadurecimento por excelência, que nos apresenta a persistentes jovens da geração baby boomer que se aproximam da idade adulta em meio a incertezas, inseguranças, anseios e desejos. Desejos de tudo: sexuais, de bonança financeira, de constituir família, de ter uma estabilidade. Mas é também um filme sobre o nada - um "nada" meio à moda Seinfeld - porque se constitui de uma série de acontecimentos que mais parecem uma sequência de esquetes aleatórias, meio imprevisíveis, em que assistimos jovens vivendo, sobrevivendo, tentando. Errando e acertando. Se frustrando, mas sem deixar a peteca cair. Sofrendo decepções, mas achando que a vida sempre será melhor ali adiante, na curva seguinte, na próxima esquina. A vida, a vida de qualquer pessoa, ali, na tela. 

Somos, afinal, seres que parecem sempre insatisfeitos. E Licorice Pizza leva essa questão até o limite do aceitável, na relação cheia de ambiguidades de Alana Kane (Alana Haim) e Gary Valentine (Cooper Hoffman). O filme por sinal já abre com um belo plano sequência, em um longo diálogo em que Gary tenta, à sua maneira, cortejar Alana. Mas há um problema aí: a jovem de 25 anos é uma espécie de monitora da escola em que o adolescente de 15 estuda. Dez anos de diferença que, não demorará, se diluirão em meio a experiências mútuas, paixões secretas, decepções amorosas. Prisões. Eventos sociopolíticos. Pessoas indo e vindo. Imprevisibilidade. Um monte de encontros e desencontros, numa enxurrada deliciosa de assistir não apenas pela leveza, mas também pelo apuro técnico. Pela riqueza do desenho de produção, pelos figurinos exuberantes (e extravagantes) e pela trilha sonora onipresente (cortesia, mais uma vez de Jonny Greenwood) - todos, talvez, injustiçados no Oscar desse ano.



E tudo é conduzido por Paul Thomas Anderson a partir de um roteiro bem amarrado, que nos leva de um ponto a outro na narrativa sem jamais nos deixar confusos, fazendo de cada salto temporal uma espécie de interlúdio que nos conduz às ocorrências de forma palatável, crível. Assim Gary inicia como o ator mirim que se aposenta - aparentemente ele não serve mais para os papeis que busca -, mas sem grande sofrimento, já que no instante seguinte ele já se vê envolto em um negócio de comercialização de colchões de água - que será um inesperado sucesso -, até desembocar num empreendimento que se aproveita da legalização dos jogos de fliperama. Já Alana é a parceira involuntária das maluquices do jovem ainda que, pela sua experiência, seja capaz de perceber os movimentos políticos e sociais para, também à sua maneira, se aproveitar deles, como no instante em que ela se aproxima de um candidato a prefeito (papel de Ben Safdie) para lhe assessorar.

Enquanto tudo se desenrola há a paixão que nunca acontece, que já dei a entender anteriormente. Com uma verdadeira coleção de figuras excêntricas cruzando o caminho da dupla, caso do astro do cinema William Holden (Sean Penn) e do cabeleireiro e produtor Jon Peters (Bradley Cooper) - duas pessoas reais que conferem certo charme real e irreal (olha a ambiguidade novamente) ao filme -, a obra também nos leva da tensão ao riso em questão de segundos, como no caso da longa cena em que Alana precisa improvisar enquanto dirige um caminhão. Aliás, a conclusão dessa sequência é a prova vida de que aquilo que permanece na nossa memória, com afeto, como uma lembrança viva e remota, não necessariamente precisa ser um grande acontecimento. Nossa existência, ao cabo, é uma coleção de eventos grandes e pequenos, de pessoas indo e vindo, de gente que cruza o caminho. Só que às vezes a felicidade pode estar justamente ali do lado. No simples. No aconchegante. No Confortável. E Licorice Pizza faz questão de nos lembrar disso.

Nota: 8,5


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Livro do Mês - Poeta Chileno (Alejandro Zambra)

Já dizia Pablo Neruda que "é tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem pessoas razoáveis". Não sei dizer se Neruda estava certo, mas no universo bastante íntimo retratado por Alejandro Zambra no ótimo romance Poeta Chileno, o que temos é um verdadeiro mergulho nesse ambiente quase mitológico dos poetas chilenos. "Somos bicampeões na Copa do Mundo de poesia" afirma a certa altura da narrativa, num tom que vai no limite entre o orgulho e o deboche, um certo Pato, amigo de Vicente, um jovem recém-saído da adolescência, que sonha seguir os passos de Gabriela Mistral, Nicanor Parra, Armando Uribe, além do próprio Neruda. Aliás, Mistral e Neruda atestam a eficiência da poesia saída do País de Salvador Allende, afinal, venceram o prestigioso Prêmio Nobel de Literatura. Mas há espaço para esse tipo de leitura nos tempos atuais? Fora os clássicos, as pessoas se interessam por esse tipo de material curto, meio formulaico e excessivamente subjetivo, ainda que invariavelmente provocativo?

Zambra, ele mesmo um escritor de poesias, ensaios e outros textos brinca com o tema, ao adotar um tom realista, quase pessimista, ao lançar um olhar para um mundo excessivamente antipoético, onde o estilo parece ser celebrado apenas entre os pares, em festas em que os poetas parecem dispostos a reafirmar sua importância para si próprios. O próprio Gonzalo, um dos protagonistas, é aspirante a escritor - daqueles que sonha em produzir um material que possa ser digno à conversão em livro, que possa ir ao encontro de leitores involuntários que se interessem por esse mundo de "herois, anti-herois e até de impostores literários". De forma bastante irônica a poesia, para Gonzalo, era a "história de homens geniais e excêntricos, bons de copo e especialistas nos altos e baixos do amor". Um tipo de mitologia que, desde a juventude, o contaminava. E que viria a influenciar diretamente em sua vida, seu presente e seu futuro - especialmente em sua relação com a namorada Carla e seu pequeno filho, o já citado Vicente.

E é nesse ponto que o livro de Zambra ganha a gordura dos eventos mundanos que, não por acaso, servirão de matéria-prima para a poesia, que costura a narrativa de uma forma comovente. Da juventude ao lado de Carla - com os desejos juvenis se convertendo em verdadeiras manobras no sofá, embaixo de um poncho vermelho, enquanto a mãe da jovem circulava de forma desconfiada pelo ambiente -, até a separação, passando pelo futuro e inesperado reencontro, que resultará na mais improvável das amizades (a de Gonzalo com Vicente), as idas e vindas, medos e vontades, frustrações e anseios, sofrimentos e conquistas se mesclarão à própria história do Chile - especialmente após o fim do autoritário Governo do Ditador Augusto Pinochet. Trata-se ao cabo de uma obra que divaga permanentemente a respeito do fazer literário, sobre como poetas parecem desprezar o romance, sobre as tragédias contemporâneas, sobre o desejo de pertencimento, sobre masculinidade, paternidade e suas curvas espinhosas.

Percorrendo as mais de 400 páginas da obra editada pela Companhia das Letras, personagens secundários como Pru, uma jornalista estrangeira que está interessada em elaborar uma reportagem sobre a poesia chilena contemporânea; León, o medíocre pai verdadeiro de Vicente que atua como corretor de imóveis frustrado e Safadão, o extravagante avô de Gonzalo, conferem cor à narrativa cheia de possibilidades, de pequenos becos, de encaixes inesperados, numa reflexão que, acima de tudo, aborda o sentido de ler e escrever nos nossos dias. Repleto de citações culturais, Poeta Chileno ainda é um prato cheio para os fãs de literatura, que encontrarão na obra um verdadeiro desfile de autores, muitos deles completos desconhecidos - como aqueles vistos no magistral capítulo que se dedica as entrevistas realizadas por Pru. "Ser poeta chileno é como ser um chef peruano, um jogador de futebol brasileiro ou uma modelo venezuelana", resume alguém a uma certa altura. O que dá a dimensão da arte sobre a própria arte que propõe Zambra. Vale demais.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Picanha.doc - Fuga (Flee)

De: Jonas Poher Rasmussen. Com: não divulgado. Documentário / Drama / Animação, Suécia / Dinamarca / Noruega / França, 2021, 127 minutos.

[UPDATE: essa resenha foi escrita antes do início do ataque das tropas russas à Ucrânia, num contexto que provocará um novo movimento de fuga de refugiados. Aliás, a ONU acredita que 4 milhões de civis poderão deixar o País nas próximas semanas. Infelizmente o horror continua.]

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Revoltante. Comovente. Perturbador. Sombrio. Definir com adjetivos uma obra completa e complexa como Fuga (Flee) não é tarefa fácil. Esse é um filme que me fez chorar em mais de um momento, por motivos os mais variados. Ainda que nos deixe de estômago embrulhado é uma experiência necessária em tempos em que o tema "crise de refugiados" segue em alta. Aliás, ainda está viva em nossa memória recente as cenas em que milhares de afegãos perseguem aviões militares dos Estados Unidos para tentar, como uma última medida desesperada, fugir junto com eles. São imagens que já estão na história. E que seguem contando a dolorosa e complicada trajetória política, social, cultural e religiosa do País asiático, que parece conviver há algumas décadas com um estado de guerra permanente - com as influências de Rússia e Estados Unidos servindo muito mais para estremecer os ânimos do que para prestar algum tipo de socorro efetivamente humanitário. Isso sem falar no Talibã, o movimento fundamentalista que atualmente detém o poder no País, sendo uma ameaça permanente.

Por tudo isso o Afeganistão é tido como o País mais perigoso do mundo - e o que mais "produz" refugiados e solicitantes de asilo. E aqui a gente já tem um ponto importantíssimo que, em muitos casos, gera confusão: nunca devemos confundir aqueles que estão em fuga de um País com aqueles que estão promovendo o terror no local. Parece meio óbvio, mas não é porque um homem vem da Palestina que ele será, necessariamente, um homem-bomba em potencial. Ele pode ser só alguém querendo fugir de uma nação em que o fundamentalismo impera. E talvez seja por isso que uma das cenas mais desoladoras de Fuga envolva uma pequena embarcação que está em fuga tentando chegar à Suécia - por meio do Mar Báltico - e se depara com um enorme navio de turistas cheio de pessoas loiras, ricas, bonitas. São instantes de tensão e de suspense em que aquelas pessoas apenas clamam por uma salvação. Uma alternativa. Alguma coisa qualquer que não seja ter de retornar ao Afeganistão. Ou à Rússia. É chocante. Desesperador. 


Na real em linhas gerais é meio inconcebível pensar que estamos em um mundo em que esse tipo de barbárie ocorra. Em que violência, sangue, tortura e morte resulte de uma necessidade de se aniquilar o diferente. Em que pessoas movidas por ódio, por intolerância, por preconceitos os mais diversos apenas desejam que o outro deixe de existir. E eu estou aqui escrevendo essa resenha e despejando essas palavras meio sem pensar e ainda nem falei do filme em si e da história que ele conta. E de como Fuga se tornou a primeira obra da história a ser nominada ao Oscar nas categorias Documentário, Animação e Filme em Língua Estrangeira (é o enviado da Dinamarca). A trama narra a história real de um intelectual (sem nome fictício é Amin Nawabi), que faz um relato comovente ao diretor Jonas Poher Rasmussen sobre como tenta recomeçar a sua vida na Europa após conseguir, a muito custo, fugir do Afeganistão. Para se tornar, inicialmente, uma "não pessoa" - sem família, sem passado, sem documentos.

O filme mescla documentário e a animação como uma opção, até mesmo para preservar a identidade do protagonista, que até hoje vive na Dinamarca. Isso não impede que detalhes de sua vida íntima sejam revelados, como o fato de ser gay em um País absurdamente conservador e radical também no que diz respeito a esses temas. E não deixa de ser curioso notar como será justamente a sexualidade de Amin - e a sua busca permanente (e incerta) pelo amor - que o humanizará ainda mais (e não é por acaso que soem tão agradáveis a nós os comentários do protagonista sobre os filmes do Van Damme ou mesmo uma rara entrada em uma boate, numa daquelas sequências que nos fazem rir e chorar ao mesmo tempo). E que mostrarão que a vida pode ser tão simples. Tão bela. O que queremos, o que desejamos. Longe do ambiente acinzentado e arenoso do contexto de fuga, recriado na animação como uma espécie de borrão macabro na mente de Amin. É uma experiência rara, complexa, atual. E que precisa chegar ao maior número de pessoas possível. Na realidade me faltam até palavras. Resta apenas a opção de ver. E de torcer para que a visibilidade possibilitada pelo Oscar possa render bons frutos.

Pitaquinho Musical - Tears For Fears (The Tipping Point)

Pode parecer meio paradoxal o fato de que, talvez, a maior virtude do mais recente trabalho do Tears For Fears, The Tipping Point, seja justamente não parecer com nada daquilo que a banda já tenha feito no passado. E isso não significa renegar a era do clássicos do grupo - canções como Everybody Wants to Rule The World, Sowing the Seeds of Love e Shout estão eternizadas em nossos corações - e sim reconhecer que a música, especialmente nesses tempos tão urgentes e tecnológicos, é um organismo em movimento. E é justamente dessa maneira que os britânicos parecem oxigenar o seu som - algo que, por sinal, já havia se in iniciado no agora distante Everybody Loves a Happy Ending (2004). Da abertura com o folk de No Small Thing até o fechamento com o dream pop Stay temos uma coleção de canções palatáveis - caso da faixa título e da ótima Break The Man -, que mantém o Tears for Fears conectado com as sonoridades atuais. Afinal, vamos combinar que aquele clima épico dos discos dos anos 80, se replicado nos dias de hoje, talvez soasse apenas anacrônico (ou até brega). Roland Orzabal e Curt Smith, afinal, também mudaram bastante nessas quatro décadas de estrada. Dores, perdas, tentativas de recomeços, tá tudo lá, condensado em 40 minutinhos que descem redondo. Pode ir na fé!


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Novidades em Streaming - Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy)

De: Shawn Levy. Com Ryan Reynolds, Jodie Comer, Joe Keery e Taika Waititi. Ação / Aventura / Comédia / Ficção Científica, EUA / Canadá, 2021, 115 minutos.

Vamos combinar que não é sempre que a mistura de videogame com cinema funciona, mas no caso de Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy) até que dá pra passar um paninho numa boa. Ok, não se trata de nenhuma experiência tão inesquecível ou inovadora - há ecos salpicados na narrativa de obras como Feitiço do Tempo (1993), O Show de Truman (1998) e Matrix (1999), além de games como Grand Theft Auto (GTA), Sim City e Fortnite, com direito a participação de streamers e outras referências da área -, mas é possível se divertir de forma descompromissada, com direito até a uma mensagem bacana sobre termos a ousadia de viver uma vida que possa ir além daquilo que parece programado para a nossa existência. É bobinho? Sim. É farofa? Total! Vai passar na Sessão da Tarde? Olha, só não passará se os programadores estiverem malucos, afinal a obra tem carisma, tem senso de humor e excelentes cenas de ação.

Na trama Ryan Reynolds é Guy, um sujeitinho de vida ordinária que trabalha em um banco, repetindo a sua rotina cheia de banalidades dia após dia. Quer dizer, "trabalha em um banco" é uma forma de dizer, já que Guy - também conhecido como o "cara da camisa azul" -, é um personagem secundário de um jogo de aventura ultrarrealista chamado Free City. Sim, enquanto o pau TORA naquele ambiente - com perseguições alucinantes, explosões, crimes, agressões e outros - Guy apenas caminha até o seu emprego, pede um café, cumprimenta amavelmente as pessoas (como uma espécie de Jim Carrey em O Show de Truman do ambiente virtual). O protagonista, na realidade, é aquilo que se conhece no universo desses jogos como Non-Player Character (ou Personagem Não Jogável). São aqueles que não podem ser controlados mas fazem parte do contexto e interagem de outras formas.


Bom, só que não demora muito para Guy cansar daquilo que ele faz todos os dias. E o "gatilho" para que ele burle o código que está programado pra ele envolve a jogadora Millie (Jodie Comer, a maravilhosa Villanelle da série Killing Eve) que, no ambiente virtual utiliza o nome de Molotov Girl - e, na real, Guy se apaixona por ela. Completando o trio de protagonistas, temos o programador Keys (Joe Keery), que trabalha para a empresa que produz Free City - e que está movendo uma ação contra Antwan (Taika Waititi) a quem acusa de ter roubado os códigos-fonte do game para benefício próprio. Pode parecer embaralhado de compreender, mas tudo vai se conectando direitinho quando Guy se aproxima da Molotov Girl, com ambos percebendo que a chave para solucionar o mistério pode estar dentro do ambiente do próprio jogo.

Recheado de boas piadas, o filme dirigido por Shawn Levy é um prato cheio pra quem gosta de cultura pop, com as referências aparecendo aos montes (algumas até de forma imprevisível). Já o Ryan Reynolds não poderia estar mais à vontade no papel de um sujeito comum (até meio panaca às vezes), mas que se converterá no heroi involuntário que será necessário pra salvar o universo em que não apenas ele, mas todos os NPCs vivem. O mesmo vale para os movimentos de câmera e corporais, além do desenho de produção, que emulam de forma perfeita o ambiente de um jogo de videogame virtual. É tudo bem conectado até para que se evoque o sentimento de nostalgia nos mais veteranos e de associação direta para a geração Playstation. Ah, rolou uma indicaçãozinha ao Oscar para Efeitos Visuais. E que me parece ser justa, convenhamos.

Nota: 7,5

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Curta Um Curta - Audible

Vamos combinar que uma das magias da categoria documentário é a de tomar contato com histórias que jamais imaginaríamos existir. No caso do curta-metragem Audible - um dos indicados ao Oscar em sua categoria e que está disponível na Netflix - somos apresentados a um grupo de jovens que integra um time de futebol americano apenas de surdos. E que, não bastasse essa especificidade, está invicto há 46 jogos! Sinceramente, eu não imaginava que existissem ligas regionais que possibilitavam esse tipo de inclusão. E muitos menos que o esporte fosse tão competitivo - aliás, mérito para as ótimas sequências que envolvem os jogos, repletas de ângulos de câmera criativos.

Mas as disputas em si são o de menos na obra de apenas 40 minutos dirigida por Matthew Ogens. Sendo entrecortada por diversos diálogos - a grande a maioria deles realizados por meio da língua de sinais -, o filme aborda temas ásperos como suicídio, solidão das pessoas com deficiência, homossexualidade, luto e até as inseguranças da adolescência - a sequência em que dois meninos conversam sobre convidar uma garota para o baile da escola é uma pequena joia! Ainda que adote um tom otimista e de superação (aparece lá no meio até um pastor da Igreja Evangélica), o gosto é meio amargo. O que comprova que ainda temos muito a aprender e muitos preconceitos a superar quando o assunto é esse.

Novidades em Streaming - Encanto (Encanto)

De: Byron Howard, Charise Castro Smith e Jared Bush. Com Stephanie Beatriz, Maria Cecilia Botero, John Leguizamo e Wilmer Valderrama. Animação / Fantasia, EUA / Colômbia, 2021, 102 minutos.

Vamos combinar: é maravilhoso o esforço da Disney em ampliar a representatividade em seus projetos. Dar visibilidade pra outros povos, outras culturas, pras minorias, tudo isso é excelente. Afinal de contas não é só de princesas indefesas sendo salvas por algum herói involuntário que vive esse universo. Só que isso significa que os filmes sempre serão bons, apenas por causa dessas alterações? Não, nem sempre. E, a meu ver é justamente esse o caso de Encanto (Encanto) que, a despeito de ter uma história que se passa na Colômbia e contar com uma protagonista que foge de qualquer estereótipo, não consegue estabelecer uma conexão maior com o público, já que seu arco narrativo é frágil e até excessivamente infantilizado. E antes que vocês me lembrem - com justiça diga-se - que se trata de uma animação, mais voltada para as crianças, lembro que é perfeitamente possível construir uma história sólida, bem-humorada e que ainda passa o recado direitinho, o que comprovam exemplos recentes Raya e o Último Dragão (2021) (da própria Disney) e A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021).

Sim, talvez não seja uma equação tão fácil de acertar. E vale lembrar que, para cada pessoa - inclusive para as crianças -, a experiência com um filme será diferente. Vai ver eu tinha muita expectativa pela obra dirigida por Byron Howard, Charise Castro Smith e Jared Bush. Havia um hype muito grande que até o colocava como um dos favoritos a faturar o Oscar na categoria Melhor Animação - ele concorre contra os dois citados acima, além de Flee (2021) e Luca (2021). Mas, como eu já disse, faltou alguma coisa. Um tempero a mais. Algo que tirasse a experiência até de um certo marasmo. Ainda que o empenho na bela mensagem de respeito às diferenças ecoe por todo o canto, sendo uma das grandes virtudes. O que certamente fará com que muitos se apaixonem pela protagonista Mirabel (Stephanie Beatriz), a única integrante da família Madrigal que, de forma meio inexplicável, não possui nenhum tipo de poder mágico (ou encanto).


Ter um poder é uma espécie de sina dos Madrigal. O bônus que surge a partir de um ônus - justamente quando os antepassados escapavam da Guerra dos Mil Dias na Colômbia, uma mulher chamada Alma "Abuela" Madrigal (Maria Cecilia Botero) perde o seu marido em meio a uma fuga da aldeia, que era atacada por soldados. O sacrifício do homem que, assim, salvaria sua família converte-se em uma espécie de proteção divina: no episódio, Alma segurava uma vela e é justamente a partir dela que é criado um refúgio para a Abuela e os aldeões, que são protegidos junto às montanhas. Nesse novo local a própria casa (chamada afetuosamente de "casita") tem poderes especiais, ao passo que todos os descendentes de Alma contam com uma espécie de dom mágico. Os dons - capacidade de cura, super força física, possibilidade de conversar com os animais e outros - são utilizados para o bem-estar de toda a comunidade. Até o dia em que Mirabel nasce e, ao ser batizada na casa, percebe não ter nenhum poder. Nenhum dom. Um enigma. O que a torna diferente de todos?

Bom, não é preciso estar muito acostumado com esse tipo de narrativa para perceber que será justamente a falta de dom de Mirabel o seu maior dom. Sim, é meio paradoxal, mas lá pelas tantas a casa dos Madrigal passa a ser ameaçada pelo enfraquecimento do encanto e, bem, talvez Mirabel possa ser a única a encontrar o caminho para que tudo se resolva. E é meio que isso. Sem um grande vilão. Ou um antagonista realmente imponente. O maior percalço estará nos próprios descendentes da família que, lá pelas tantas, passarão a se desentender, enquanto tentam compreender o que acontece com a habitação em que vivem (que parece ruir a cada dia). Ah, quase esqueço de falar: trata-se de um musical. Então toda a narrativa é costurada por músicas, algumas boas (Dos Oruguitas, que está nominada ao Oscar na categoria Canção Original, é uma joia), outras nem tanto. É meio contraditório falar isso, mas, faltou um pouquinho a mais de magia em Encanto. E também tá tudo bem. Não é sempre que a gente vai se comover com uma animação.

Nota: 6,5