quarta-feira, 31 de julho de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Os Fuzis

De: Ruy Guerra. Com Nelson Xavier, Hugo Carvana, Átila Iório, Paulo César Pereio e Maria Gladys. Drama, Brasil, 1964, 84 minutos.

Um povo que passa fome e um Estado que responde com autoritarismo e bala. Não, não é um resumo do (des)governo Bolsonaro - ainda que pudesse ser -, e sim a síntese do atemporal Os Fuzis, obra-prima concebida pelo diretor moçambicano Ruy Guerra, em 1964, quando o País estava as portas de mergulhar nos horrores da Ditadura Militar. Nesse sentido chega a impressionar como a história segue atual, em um contexto em que os brasileiros mais vulneráveis socialmente lutam para sobreviver, se apegando em abstrações como a religião (ou o misticismo), espécie de ente sagrado que poderia ser capaz de trazer a salvação. O filme é duro, áspero, com a câmera grudada na pele, na cara, no suor e nas mazelas de suas doloridas figuras, que padecem da fome e que esperam, esperam e esperam. Por uma solução, por algo divino, mágico, que possa aplacar a angústia de não se ter o que comer em uma terra seca, distante, inóspita.

A trama se passa no sertão da Bahia e acompanha um destacamento do exército que chega a uma pequena cidade para evitar que a população faminta invada e saqueie o depósito de alimentos de um empresário local. Enquanto a população "borrada" (observe que, diferentemente do que ocorre com os soldados, ela surge como uma massa difusa, indefinida) entoa uma série de mantras hipnóticos no entorno na Igreja, comprando o que pode fiado e aguardando por algum tipo de solução que não chega, o dono do armazém se queixa da inadimplência e da morosidade de um Governo que não parece assistir ninguém. Em meio aos dois lados, o caminhoneiro Gaúcho (Átila Iório, inesquecível em sua caracterização), personifica uma espécie de "meio-termo": tem as suas ressalvas em relação ao nacionalismo alienante emanado pelos soldados, mas já esteve envolvido em um episódio do passado, em que salvou a vida do policial Mário (Nelson Xavier) - no local, ambos se reencontram.


O filme alternará momentos mais contemplativos, como aqueles em que a população espera, canta e, em clima semi-documental, relata eventos passados ocorridos na região, com outros mais dinâmicos, envolvendo a espera dos soldados, que estão ali para defender o material, o capital - nem que isto custe a morte de alguns. Em uma das tantas sequências inesquecíveis, um grupo de soldados resolve fazer uma aposta para ver se acertam um cabrito que fugiu só que, por "acidente", acabam atingindo o seu dono, causando mal-estar na comunidade. E mais mal-estar ainda, quando os envolvidos resolvem mentir sobre o ocorrido. Como se a morte por fome não fosse suficiente, os soldados trazem mais morte. No lugar de comida, armas. Em outro momento, Gaúcho discute com o soldado Zé (Hugo Carvana) dentro do bar, com o segundo lhe lembrando que está armado. Ao que este responde: "este é o problema, não devia".

Ainda que cenas como a da "montagem dos fuzis" pareçam ser um elogio ao armamentismo, o filme é o completo oposto, como comprova a inesquecível cena de tiroteio entre Gaúcho e o grupo de soldados - o que transforma a obra de Guerra em uma espécie de faroeste bem à brasileira. Deixando no local um rastro de dor, de desolação e de morte - a cena em que um homem pede uma caixa para enterrar seu filho morto pela fome é não menos do que assombrosa -, os soldados abandonam a vila após a missão de colocar os alimentos em um caminhão, sob os olhares ansiosos da população. A sequência final, antropofágica, pungente, é a catarse de um povo descrente, que não encontra solução que não seja na destruição de seus ícones, diante de uma necessidade muito maior e que não será atendida pelo Governo, por políticas públicas ou por qualquer tipo de apoio.



Ganhador do Prêmio do Juri no Festival de Berlim de 1964, a obra frequentemente é colocada ao lado de Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha como uma das mais representativas da primeira fase do movimento conhecido como Cinema Novo - filmes de forte rigor intelectual que se utilizavam da "Estética da Fome" para discussões sociais. Em uma lista publicada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a obra foi considerada a 23ª melhor da história, aparecendo ainda em outras listas. Com uma filmografia irregular, Ruy Guerra nunca mais repetiria a agonia pulsante de Os Fuzis que, com seus bem projetados planos-sequência, nos faz imergir no sofrimento de um povo que convive com a desigualdade. Nem que seja para, minimamente, refletir sobre.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Novidades em DVD - Clímax (Clímax)

De: Gaspar Noé. Com Sofia Boutella, Adrien Sissoko e Giselle Palmer. Drama / Suspense / Terror, França, 2018, 95 minutos.

Existe uma frase dita em tom de deboche pelos cinéfilos que se aplica bem a filmografia do diretor Gaspar Noé: "são ótimos filmes, não indico pra ninguém". A gente sabe, não é presunção ou petulância, mas existem obras que não são para todos os paladares e Climax (Climax), assim como ocorreu com Irreversível (2002) e Love (2015), é um desses. Trata-se de um filme nervoso, barulhento, com uma frequência frenética, uma angústia (e uma sensação de transe) que aumenta. Tem pessoas saindo de si, angustiadas, chorando e gritando, num microcosmo que parece resumir bem o que é a nossa sociedade, na atualidade: um amontoado de gente com algumas coisas em comum, outras nem tanto, mas que parece, na fachada de uma suposta cordialidade, manter preservado o seu instinto animalesco e violento, pronto a dar as caras a partir de algum tipo de gatilho.

É um filme até meio difícil de explicar. Algo estranho. Os créditos iniciais, por exemplo, surgem quando a obra já avança para mais de uma hora. O tipo de quebra de lógica, de andamento, que ocorre o tempo todo, seja na justaposição das cores, na inclusão da trilha sonora ostensiva, nos enquadramentos oblíquos, nas sombras fantasmagóricas. Sabe aquela película que incomoda? É essa. Na trama, um grupo de dançarinos de algum tipo de dança urbana dos anos 90 se reúne para um intensivão de ensaios em uma casa isolada, no meio do nada, em lugar indefinido. Na última noite, o que começa como uma rodada animada de danças, de conversas descontraídas e de bebedeiras, vai aos poucos dando lugar a esquizofrenia, a beligerância e a loucura. É como se os personagens de O Anjo Exterminador (1962), de Luiz Buñuel, fossem repaginados para a modernidade, bebendo muito e enlouquecendo.


Em meio ao debate sobre temas que são tabu na sociedade - homossexualidade, uso de drogas, sexo anal -, muita dança bem coreografada, sexy, intensa. A dança em si funcionando como projeção da catarse dos corpos, como se a esta fosse por si só algo subversiva, provocadora, iconoclasta. A gente percebe que cada sujeito mantém a sua individualidade, mas no coletivo todo o mundo se assemelha em sua paranoia que cresce, quando o grupo começa a ter a impressão de que algum de seus integrantes possa estar drogando, deliberadamente, os demais. Isso não fica claro em momento algum da projeção, mas quando esse ideia começa a tomar forma a espiral decadente cresce, que transforma o filme em um grande videoclipe da catástrofe, com a câmera vagando pelos ambientes, flagrando confrontos, atos sexuais, discussões e episódios de mal-estar e outros incômodos envolvendo aqueles que assistimos.

Utilizando ainda a obra como um amplo exercício de estilo - perceba como as cores vão ficando mais intensamente vermelhas, conforme a sensação de terror de de paranoia aumentam, assim como a fotografia vai ganhando tons mais sombrios, com cores difusas, pálidas, confusas -, Noé ainda deixa o final em aberto, fazendo com que acompanhemos toda a loucura como se fôssemos o sujeito sóbrio do ambiente, com nossos olhos julgadores, prontos para apontar o dedo para alguém. Com trilha sonora de nomes como Aphex Twin, Giorgio Moroder, Soft Cell e Gary Numan, além de outros da música eletrônica e urbana, Clímax é a experiência caótica por excelência. Um filme sem lógica, imprevisível e pronto para sair do controle, assim como é a vida, sem roteiro, eventualmente inconsequente, mas pronta para um dia seguinte. De sol. E de luz.

Nota: 7,0


Novidades em Streaming - Of Monsters And Men (Fever Dream)

Acho que se eu nunca tivesse escutado o Of Monsters And Men e começasse a ouvi-los por este Fever Dream, é provável que nunca mais retornasse ao coletivo. Sem querer soar saudosista, mas já sendo, não há qualquer sinal da banda que forjou clássicos folk tão épicos quanto modernos como Dirty Paws, Little Talks ou King and Lionheart, lá no agora longínquo registro My Head Is An Animal (2012). Não é que seja ruim ou desprezível, mas o estilo mudou e agora parece derivativo de algo que já ouvimos antes à exaustão. Sei lá, é como se a banda tivesse perdido a sua personalidade, a sua alma, para entregar um conjunto de canções meio inexpressiva, sem graça, ainda que inegavelmente pop. Nas primeiras resenhas a crítica tem se dividido - a média no Metacritic está em 69, a nota mais alta alcançada até hoje pela banda. Mas pra quem ainda não conhece a banda vale recorrer aos dois registros anteriores. Especialmente se a intenção for se apaixonar pela música deles. Sobre Fever Dream, um disco ok. E só.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

Tesouros Cinéfilos - Amanda (Amanda)

De: Mikhael Hers. Com Isaure Multrier, Vincent Lacoste, Ophélia Kolb e Stacy Martin. Drama, França, 2018, 107 minutos.

Certamente a gente já viu o filme em que um evento traumático obriga as personagens a superarem as adversidades, tirando forças de onde não tem para tentar seguir em frente. Mas o francês Amanda (Amanda) trata com tanto carinho e sensibilidade o tema da perda e do recomeço, que é simplesmente impossível não se apaixonar pela história - e por aqueles que assistimos. A Amanda do título é a graciosa Isaure Multrier, menininha de sete anos que mora com a mãe, a professora Sandrine (Ophélia Kolb) no subúrbio de Paris. O irmão mais novo de Sandrine e tio de Amanda, David (Vincent Lacoste), é uma espécie de faz-tudo - trabalha como pintor e jardineiro e também na condução de hóspedes que ocuparão imóveis alugados via aplicativos. Nas poucas horas vagas, entre um flerte ou outro com alguma nova vizinha, auxilia a irmã buscando a sobrinha na escola ou a levando para algum compromisso - como ocorre com muitas crianças desse mundo, Amanda não tem um pai para chamar de seu.

Só que a vida relativamente confortável, ainda que cheia de compromissos, do trio central será abalada após um inesperado ataque terrorista ocorrido em uma Praça da capital francesa. Aliás, o evento é tão surpreendente que a gente quase custa a compreender o que de fato aconteceu quando presenciamos uma série de corpos atirados no chão, ensanguentados e com outras pessoas à volta, chorando. Para o diretor Mikhael Hers não há romantização na violência e talvez por isso ele abra mão de mostrar a preparação para o atentado, a busca da polícia por solucionar o caso ou mesmo os rituais fúnebres. Sandrine estava na Praça, com amigos quando a tragédia aconteceu. David estava chegando no local. Ficou em cima de sua bicicleta, estupefato ao presenciar a morte da irmã, assim como ficamos também. E ficou também com Amanda e com decisões difíceis sobre a vida e sobre o futuro da criança que ele, do alto de seus 24 anos, não estava preparado para tomar agora.


Nesse sentido, o filme é inteligente ao não optar pela unilateralidade ou pelo maniqueísmo. David não era o tio idiota, vagabundo ou mulherengo que agora vai se redimir tendo de obrigatoriamente cuidar da sobrinha - juridicamente, ele é um dos principais candidatos a tutor. Ao contrário, nunca escondeu que ama a criança, mas aí a se tornar uma espécie de "pai improvisado" serão outros quinhentos. David não sabe que nem roupa dar para a criança vestir, como comprovam os repetidos figurinos de Amanda ao longo dos dias. Conseguirá lhe alimentar? Lhe auxiliar na escola? E mais: ele quer isso, de fato? E será com uma honestidade retumbante que a trama conduzirá as suas ações. Não há vilões ou mocinhos - fora os terroristas que devastam vidas, claro -, e sim, pessoas tentando sobreviver, superar o luto e se reencontrar nesse mundo de violência tão absurda e inexplicável.

Comovente, o filme fará o espectador mais sensível chorar por diversos momentos com o luto e as incertezas das personagens - especialmente David e Amanda, que se pegarão chorando de forma enternecedora, naturalista e realista, de maneira inesperada, sufocante, bem como é na vida real. A gente não explode em um único momento. A tristeza pode vir em meio a uma nostálgica partida de tênis ou em meio ao trabalho, quando nosso pensamento viaja (e a cena de David chorando antes de receber um casal de hóspedes russos, talvez seja uma das mais emocionantes do ano). Assim como é emocionante e graciosa a sequência em que Sandrine explica para Amanda o significado da expressão inglesa "Elvis has left the building" (Elvis já deixou o prédio) e que terá sentido fundamental mais adiante na história. Uma cena doce, gostosa de ver, bem concebida e que termina com mãe e filha dançando ao som de Don't Be Cruel.



Com coadjuvantes que orbitam os protagonistas apoiando-os como podem - é o caso da tia Maud  (Marianne Basler) e da candidata a namorada de David, Léna (Stacy Martin) -, a obra aposta em uma fotografia granulada, meio setentista e que utiliza cores sóbrias que fazem uma espécie de contraste em relação ao estado de espírito daqueles que assistimos. Grudando a câmera na cara dos personagens, Hers nos aproxima deles, nos torna íntimos, como se pudéssemos nós também estender as mãos, os braços e o corpo todo para um afago que pudesse aplacar um pouco da dor, ou para alcançar uma palavra de compreensão. O mundo anda uma merda e mesmo numa capital glamourosa como Paris o estilo é desglamourizado, duro, pouco afável. Sendo necessário que nos apoiemos em que nos ama, compreendendo as dificuldades e tentando a todo o custo seguir em frente.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Disco da Semana - Marcelo Jeneci (Guaia)

Ser artista também é ter responsabilidade. É ter consciência daquilo que se representa para os fãs ou para aqueles que acompanham o seu trabalho. E não estamos apenas falando de expectativas musicais, de sonoridade, de melodia, mas também de comportamento, de "voz", de ser alguém que esteja alinhado aquilo que ocorre em seu tempo. E esse contexto talvez explique a pequena mudança de rumo adotada por Marcelo Jeneci com o lançamento de Guaia, seu terceiro disco de estúdio e que interrompe um hiato de seis anos desde o espetacular De Graça (2013). Jeneci amadureceu - são mais de dez anos de carreira -, ainda canta sobre a beleza da vida, sobre a graciosidade das coisas simples, sobre busca pela felicidade em relacionamentos aconchegantes. Mas também parece mais consciente de seu papel como artista, em um contexto político/social de censura às artes, de caçada ás manifestações culturais e, consequentemente, de alienação.

Nesse sentido, talvez não seja por acaso que este trabalho soe um pouco menos acessível que os anteriores - como se nas entrelinhas de canções um pouco mais herméticas e eventualmente mais densas, também houvesse "embutido" um convite à reflexão um pouco mais aprofundada sobre o mundo, sobre dores e também sobre desilusões, quaisquer que sejam. Sim, ainda dá pra apreciar o dia ensolarado, o clima primaveril e cantar junto - como já fizemos em Felicidade, Pra Sonhar e De Graça. Mas o Brasil está ficando mais sério, mais "pesado", sendo inevitável que não fechemos os olhos para aquilo que nos define, para as nossas origens ou para aquilo que nos preservará em todos os sentidos. Talvez seja por isso que a ambígua Emergencial - que abre o disco coladinha com o canto inicial Ikashawhu da tribo indígena Yawanama -, conclame: É emergencial a gente se conectar com a terra. Emergencial. De forma repetida. Quase como se fosse um mantra.



Corroborando com essa tese, no pequeno material de divulgação que acompanhou o lançamento do registro, o artista explicou que Guaia tem a ver com o fato dele ter nascido no bairro de Guaianazes, na periferia de São Paulo, local que é "construído por trabalhadores do Brasil profundo que espalham afeto, resistência, dança, cores e cultura". É lá que Jeneci alega ter recebido a chama e o chamado para romper com música o escuro do futuro. "Trago na alquimia desse álbum a rua onde cresci, o agreste do Pernambuco e a grande metrópole que se fundiram em mim". E não é por acaso que, conforme se descortinam as canções, percebemos um equilíbrio quase perfeito entre tradição e modernidade, entre memória e contemporaneidade, entre o velho e o novo. O que pode ser constatado pelo contraste entre os ritmos regionalistas e eletrônicos, que se complementam, se fundem, formando uma musicalidade curiosa e até mesmo mais ampla do que aquela vista nos maravilhosos trabalhos anteriores.

Como exemplo disso, podemos citar a assimetria existente na trinca formada por Oxente, Vem Vem e O Seu Amor Sou Eu. Enquanto a primeira, gravada em parceria com Chico César, é quase uma ode ao Nordeste, seus ritmos e gírias, a segunda, concebida num dueto com a encantadora artista Maya, é uma Jovem Guarda que recebeu um banho de modernidade, estando prontinha para tocar nas rádios mais descoladas. Já a terceira é pura beleza orquestral, com a voz em falsete de Jeneci amparando os delicados versos em forma de carta de amor. Esse tipo de contraste, de justaposição, se repetirá diversas vezes durante o registro, sem que isso signifique necessariamente heterogeneidade excessiva ou algum tipo de falta de lógica. Se Melodia da Noite mantém a batida sutil, a melodia sinuosa, Aí Sim aparecerá para colorir o dia, com versos sobre mudança, transformação. Se Redenção é provocativa, Saudade do Meu Pai será nostálgica. E por aí vai, afinal de contas, assim é a vida: cheia de idas e vindas.


Produzido por Pedro Bernardes em parceria com Lux Ferreira, o álbum é cheio de participações especiais, como a de Lucas dos Prazeres na percussão, mestre Adelson Silva na beteria de frevo, Robinho Tavares no baixo de Vem Vem e até a Filarmônica de São Petersburgo nas cordas de O Seu Amor Sou Eu. Essa multiplicidade de artistas, de gêneros - há ainda o já citado Chico César, por exemplo -, pode ser um dos motivos de o trabalho soar tão universal, tão perfeitamente preenchido, tanto nas letras, como na sua musicalidade. Difícil saber qual o caminho a ser adotado pelo artista daqui pra frente, mas a desconstrução do menino que aos sete anos já tocava acordeão, para o homem capaz de lidar de forma mais madura tudo que lhe rodeia, parece ser uma realidade. O baile vai acontecendo / A gente se toca / Sem se tocar, canta o músico na saborosa Vem Vem. É uma das formas de ditar o ritmo, nesse trabalho imperdível.

Nota: 8,5

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Picanha em Série - Big Little Lies (2ª Temporada)

De Andrea Arnold. Com Nicole Kidman, Laura Dern, Meryl Streep, Reese Whiterspoon, Shailene Woodley e Zoë Kravitz. Drama / Suspense, EUA, 347 minutos, 2019.

É muito provável que o maior motivo para se assistir a segunda temporada de Big Little Lies seja a oportunidade de poder seguir acompanhando tantas atrizes talentosas contracenando juntas - o que, vamos combinar, é um verdadeiro deleite. E como se já não bastassem as presenças luminosas de Laura Dern, Nicole Kidman, Zoë Kravitz, Shailene Woodley e Reese Whiterspoon, esse segundo ano ainda ganha um acréscimo que torna tudo ainda maior: Meryl Streep, que interpreta a ex-sogra de Celeste (Kidman). Partindo do trágico episódio que encerra a primeira temporada - a morte de Perry (Alexander Skarsgard) -, os novos episódios parecem abandonar um tanto da tensão que poderia ser gerada pelo segredo das Cinco de Monterrey, para focar nos dramas familiares, em seus desdobramentos.

Pra começar há o drama principal, vivido pela própria Celeste. Mary Louise (Streep), que inicialmente surge como uma figura disposta a prestar algum tipo de suporte emocional a ex-nora (estando ela mesma, também bastante abatida), logo mostra a sua verdadeira intenção: a de obter a guarda de seus dois netos, sob a desculpa de estarem convivendo em um lar instável, com uma mãe negligente. E, vamos combinar: as disputas no tribunal envolvendo ambas, com diálogos rasgantes, silêncios "ensurdecedores" e provocações de todos os tipos, estão entre os melhores momentos da temporada. E falar que Streep está magnífica em sua caracterização - com seu comportamento dissimulado, voz mansa, aparições de surpresa em tudo quanto é canto e modos ambíguos -, é quase uma redundância. Particularmente, gosto do sorrisinho amarelo e debochado, ao passo que o olhar transmite melancolia e vulnerabilidade. Um show!



No arco dramático das demais personagens, o foco principal é a instabilidade dos relacionamentos. Madeleine (Whiterspoon) ganha mais tempo em cena, já que precisa reconquistar o seu marido Ed (Adam Scott), após um episódio de traição. Já Jane (Woodley) tenta superar o difícil trauma de ter sido estuprada para tentar conseguir engatar um romance com o jovem Corey (Douglas Smith). No caso de Bonnie (Kravitz), o episódio envolvendo o coma de sua mãe é o estopim para que ela repense sua vida e perceba que, no fim das contas, não ama o seu marido. Aliás, nunca amou. Mas o melhor de tudo acontece com a Laura Dern que, na pele da dondoca Renata Klein, vê o seu mundinho dos sonhos e de riqueza ruir, depois que o seu marido vai a falência (e vamos combinar que a melhor sequência da temporada é aquela do último episódio, momento em que ela explode).

Ainda que cada trama funcione a sua maneira de forma individual, o grande ponto dessa série continua sendo o seu palpável elogio à sororidade. Longe de serem mulheres "perfeitas", aliás todas têm problemas e tomam atitudes eticamente questionáveis em boa parte do tempo, o que se mantém entre elas é a inquebrável aliança e, consequentemente, o seu segredo. Perry era um abusador, um estuprador, e, num ímpeto, Bonnie o mata. E, por mais que Celeste tenha saudades do ex e o odeie em igual medida - especialmente pela violência que emanava dele -, ela permanece ao lado das companheiras. Mary Louise surge como alguém que poderia desequilibrar essa balança, mas a trama não opta pelo suspense investigativo ou de vingança. E o resultado é um drama familiar caudaloso, mas talvez não tão robusto quanto aquele que assistimos na primeira temporada - que tomava por base o livro publicado por Liane Moriarty.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Na Espera - A Beautiful Day in the Neighborhood (Filme)

Tá com tanta cara de Oscar esse A Beautiful Day in the Neighborhood que acho que já é possível apontar o fato de que dificilmente Tom Hanks "escapa" das indicações na próxima cerimônia. Na trama, ele encarna o adorável Fred Rogers, que nos anos 60 criou o popular programa de TV infantil Mister Rogers Neighborhood, que foi exibido por muito tempo no PBS (algo como a TV Cultura dos Estados Unidos). Com poucas manchas em seu currículo (as famílias de bem o acusavam de ser gay e de alienar as crianças), a trama se desenrolará a partir do relato do jornalista Tom Junod (Matthew Rhys), da revista Esquire, que escreveu a biografia de Rogers, estabelecendo com ele uma inspiradora amizade (a despeito de seu ceticismo).


O trailer inspira uma leveza quase noventista, seja nas cores vivas e na placidez com que Hanks encarna Rogers, que faleceu em 2003, seja na trilha sonora suave, envolvente. Esnobado pela Academia no ano passado, o imperdível documentário Won't You Be My Neighbor? poderá funcionar como uma espécie de porta de entrada para aqueles que não estão familiarizados com a história do sujeito, que causou comoção entre os americanos, com seu otimismo e habilidade únicas no tratamento dos mais variados temas. Nos EUA a produção deve estrear em novembro. Já no Brasil, o filme, que é dirigido por Marielle Heller (do médio Poderia Me Perdoar?) deve aportar nas salas do País no dia 23 de janeiro de 2020, bem no auge da campanha pelas premiações. Estamos Na Espera!

Cine Baú - O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre)

De: John Huston. Com Humphrey Bogart, Tim Holt, Walter Huston e Bruce Bennett. Aventura / Drama / Faroeste, EUA, 1948, 126 minutos.

"Dê poder a um homem e você conhecerá quem ele realmente é". A frase atribuída ao pensador Maquiavel representa como poucas o potencial destrutivo da ganância humana - e que é retratada de forma magistral no clássico O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre). Dirigida por John Huston (O Facão Maltês), a partir de livro de B. Traven, a obra nos joga para o México do ano de 1925, onde os indigentes Dobbs (Humphrey Bogart) e Curtin (Tim Holt) se conhecem após serem enganados por um empresário do ramo das construções. Desesperados e praticamente falidos, juntam-se a um velho minerador de nome Howard (Walter Huston, o pai do diretor) para tentar mudar de vida numa espécie de "corrida do ouro" tardia. Para tanto, são convencidos pelo veterano a irem a um lugar ermo, inóspito e cheio de aclives para, com poucos recursos, tentarem encontram algumas pepitas do metal que lhes pudesse fazer mudar de vida.

Mas a beleza desse filme não está na mera aventura que lhes leva ao local (a Sierra Madre do título) e sim na transformação dos três personagens durante a sua jornada - especialmente Dobbs, que passa a desconfiar até mesmo de sua sombra. Conforme avançam na mineração e vão encontrando algumas migalhas de ouro - que representam MUITO em dinheiro -, resolvem dividir tudo em partes iguais. Mas como não duvidar que algum deles não trairá os demais para ficar com suas riquezas? Não estaria Howard, com seu espírito afável e otimista, preparando uma armadilha para os seus ajudantes? E Curtin, com seu senso de justiça, não estaria disposto a enganar seus parceiros de empreitada? Em meio a aridez palpável e ao calor sufocante que salta para fora da tela, Dobbs vai se tornando um sujeito obcecado pelo seu ouro, com direito a delírios sobre possíveis traições e divagações existencialistas sobre sua condição.


Nesse contexto, não bastasse o isolamento e as dificuldades naturais - com direito a acidentes de percurso que quase comprometem a jornada -, o trio ainda precisa lidar com os desconfiados nativos do México, além de terem de enfrentar um grupo de pistoleiros que lhes cruza o caminho. A chegada do misterioso Cody (Bruce Bennett) ao local, tornará tudo ainda mais complicado: ele deseja se incorporar ao grupo, mas pouco se sabe sobre a vida dele. Alternando momentos que fazem lembrar a tradição dos grandes faroestes, com outros em que se o suspense e o drama se sobressaem, Huston transforma a película na experiência cinematográfica completa - há tensão, alguma dose de humor e aventura em iguais medidas. Conforme os dias e noites transcorrem com os protagonistas perdidos no meio do nada, assistimos a dissolução de seus valores morais e éticos, com disputas internas que se transformam no prenúncio de sua própria tragédia.

Com grandes interpretações - Huston pai está inesquecível na figura de um sujeito ambíguo, mas sempre otimista, caracterização que lhe valeu o Oscar na categoria Ator Coadjuvante -, a obra ainda foi a oportunidade para que Bogart fugisse um pouco do papel de mocinho/galã que ele havia interpretado em obras-primas como O Falcão Maltês (1941), Casablanca (1942) ou Uma Aventura na Martinica (1945). Já Huston, mesmo tendo dirigido clássicos como Uma Aventura na África (1951) e A Honra do Poderoso Prizzi (1985) teve uma carreira irregular, nunca mais repetindo o sucesso de O Tesouro... que lhe deu a estatueta dourada nas categorias Diretor e Roteiro Adaptado. O filme foi escolhido o 30º melhor da história em votação feita pelos integrantes do American Film Institute em 1998 e é frequentador assíduo das listas de melhores. Um Cine Baú mais do que merecido.