sábado, 30 de julho de 2016

Picanha em Série - Stranger Things (1ª Temporada)

[SPOILER ALERT: caso você ainda não tenha visto a série e não quer ter nenhuma surpresa estragada, vai lá e assiste e depois volta aqui pra ler =)]

Não sei se foi a ingenuidade em excesso, a historinha de ficção científica relativamente previsível, ou os arcos dramáticos dispensáveis - em especial aquele que dá conta do "núcleo adolescente" mais xarope desde a finada Dawson's Creek - mas, dado o hype criado nas redes sociais (e em todo o lugar), devo dizer que, ao terminar a primeira temporada da nova série da Netflix, Stranger Things, não pude deixar de ser tomado por certo sentimento de decepção. Não quero aqui soar presunçoso ou excessivamente crítico pelo simples prazer de ser "do contra", mas o fato é que eu esperava mais. Aliás, acho que esperava muito mais - e aqui quem vos escreve é um declarado fã dessa "modinha cultural" (vamos chamar assim) de promover a nostalgia como sentimento máximo, na hora da construção de novos produtos, sejam eles músicas, filmes, ou séries. E, enquanto assistia, juro que aguardava aquele momento ou instante em que tudo viraria de cabeça pra baixo - com o perdão do trocadilho - para que pudesse dizer, nem que fosse mentalmente, um "ahhh, agora sim, tudo se explica!". Mas não rolou, já que o que acompanhei foi apenas um bom entretenimento.

Em fóruns e comunidades internet afora parece que, no que diz respeito a recepção do público, tem ocorrido um fenômeno: pessoas de trinta e muitos anos, ou quarenta e alguma coisa tem avaliado a atração concebida pelos irmãos Matt e Ross Duffer apenas como razoável. Ao passo que adolescentes e jovens de vinte e poucos anos têm curtido MUITO, o que não deixa de se constituir em certo paradoxo uma vez que, justamente quem viveu os anos 80 - a série se passa em 1983 - não tem se emocionado tanto. É o famoso caso da nostalgia por aquilo que não fomos contemporâneos. Mais ou menos o que tentam explicar os personagens da sensacional comédia Meia Noite em Paris, de Woody Allen, que passam a película inteira debatendo o contexto cultural - e político/ideológico - do passado, como um modelo ideal a não ser mais alcançado na atualidade. Assim, passamos o tempo inteiro pensando "bah, que massa que era ou devia ser aquela época. E aqui estamos nós, nesse presente sem graça." Ou vai ver estamos ficando velhos mesmo. E chatos. Sei lá também.



A trama da série se passa em uma pacata cidadezinha do interior dos Estados Unidos, onde um garotinho desaparece misteriosamente, deixando a sua mãe (Ryder, em papel meio histriônico), em desespero. Enquanto tenta desvendar o mistério, com o auxílio de um policial que parece guardar traumas do passado (Harbour), os outros três amigos do jovem também tentam encontrá-lo, buscando pistas próximas ao local em que ele sumiu, que possam levar a solução do caso. A única pista que encontrarão será uma menina de comportamento estranho, perdida no meio do mato, que poderá ser a chave para que a verdade venha a tona. É a partir desse momento que tem início uma versão "moderna" de ET - O Extraterrestre, com a garota, que parece ter alguns poderes especiais, vivendo escondida do restante do mundo. (e são tantas as sequências que fazem lembrar o filme de Spielberg - a hora em que Onze se "fantasia de menina", a fuga de bicicletas -, que, em alguns momentos, Stranger Things quase parece uma refilmagem)

Mas ET não é a única referência da série, sendo possível encontrar, aqui e ali, citações a produtos culturais diversos, como os filmes Conta Comigo, Os Herois Não Tem Idade, O Enigma do Outro Mundo e Alien - O Oitavo Passageiro, além das obras do David Cronenberg, séries como Anos Incríveis, e até mesmo a jogos de videogames modernos, como Silent Hill - esta a meu ver uma das mais gritantes (e impactantes) influências. Em especial nas cenas que envolvem uma espécie de portal para um "submundo correlato de terror" - ainda que o game fosse ser desenvolvido somente nos anos 90. E, mesmo sendo as referências explícitas a outras obras uma das partes mais legais da série, devo dizer que muitas inserções davam a sensação de terem sido forçadamente incluídas, deixando o processo um tanto mais artificial - e, confesso que, para minha decepção, a sequência com a música Heroes, do David Bowie, me pareceu ter sido desenhada pelos roteiristas não como um processo orgânico e, sim, como algo com o único objetivo de induzir a comoção por efeito da "mão pesada". (e se não for isso, me digam) Fora o fato de a trilha sonora, ainda que obviamente boa, parecer estar deslocada em algumas cenas, não combinando com o áudio com aquilo que se vê.



Mas absolutamente NADA é mais irregular (pra não dizer lamentável) do que o já citado núcleo adolescente. Na intenção de reforçar estereótipos que, hoje em dia, já estão (quase) em desuso ou mesmo superados - a bonitinha CDF e estudiosa que se apaixona pelo bonitão atlético e babaca, o bonitão atlético e babaca que é mais babaca ainda do que imaginávamos, o amigo babaca do babaca, o esquisitão que sofre bullying e gosta de fotografia, a amiga nerd e gordinha e por aí vai -, a série não consegue homenagear um período, ou mesmo filmes consagrados como Clube dos Cinco, soando apenas artificial e verdadeiramente irritante. Os exageros nos comportamentos recheados de clichês de todo esse grupo tornam as suas aparições não apenas dispensáveis, mas anacrônicas em todos os aspectos, uma vez que elas não são sequer divertidas - além de pouco contribuírem, como um todo, para o arco dramático central. E, pra piorar tudo, a escolha totalmente equivocada da atriz Natalia Dyer, capaz de fazer durante oito episódios uma única expressão - a da testa franzida e preocupada -, como uma das protagonistas, confere a este segmento um ar de quase tortura, tamanho o aspecto caricato das concepções.

Num contraponto, é louvável o esforço do núcleo infantil em entregar boas interpretações - o jovem que vive o Dustin (Gaten Matarazzo), é um verdadeiro achado. O mesmo valendo para os demais meninos. As exigências da personagem de Millie Brown (Onze) faz com que relevemos pequenas imperfeições - e não se pode negar que, com seus olhos grandes e expressivos, ela compõe uma boa e enigmática figura. Entre os adultos, Ryder exagera um pouco na dose, ainda que consiga emocionar em alguns momentos - e eu particularmente gosto da cena à Interestellar, da conversa com o filho que se encontra "dentro da parede". As conversas à Poltergeist - O Fenômeno, por meio do sistema de luz, podem ser meio surreais, mas até que encaixam no contexto (ainda que não representem algo inovador). David Harbour, como o xerife da pequena cidade, também está bem - ainda que os roteiristas esqueçam, depois da primeira cena, de seu vício compulsivo em cigarros, já que ele simplesmente não aparece mais fumando. E, Matthew Modine? Bom, ele parece estar lá muito mais pelos seus papeis dos anos 80 - faz parte do revival - do que por alguma qualidade secreta no que diz respeito a interpretação.


Tocando de raspão no tema da Guerra Fria - a simbologia da ameaça comunista em um país em que crianças compravam armas de fogo como se fossem barras de chocolate - e na falha completa do American Way Of Life - os pais de um dos guris beiram o patético da paixão republicana que poderá ser revivida agora por Donald Trump -, a série como um todo deixa um sentimento de que, se tivesse tido alguns de seus núcleos enxugados, não forçasse a barra na inclusão das referências e construísse ainda alguns personagens mais complexos (e menos idiotas), talvez o resultado final fosse mais interessante. E mesmo a resolução do último episódio, em que tudo se encaixa de forma tranquila demais e até "meio sem querer" forma um conjunto um tanto anticlimático - ainda que a morte de Onze compense, minimamente, este sentimento. Dito isso tudo, conclui-se de que não é ruim, tem boa direção de arte (os objetos de cena são interessantes e realistas), fotografia granulada que remonta ao período e figurinos ótimos mas, no fim das contas, é apenas ok. Em um mundo em que temos tantas ótimas séries para nos ocupar, ou mesmo filmes como Super 8 (2011), de JJ Abrams - que de certa forma já contemplou o que se vê em Stranger Things -, uma série que busca o passado como fonte de inspiração, mas abre mão de aspectos que poderiam torná-la um tanto mais inovadora, soa apenas como um revival ultrapassado ou uma mera homenagem pro forma. Mas essa é apenas a opinião desse jornalista que vos escreve. E, opinião, oras, o mundo está cheio delas.

Nota: 6,8

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Lado B Classe A - Of Monsters And Men (My Head Is An Animal)

Aaaaah, a sensação de experimentar um daqueles discos que, sabemos, se tornará um dos "do coração". Todos vocês que amam música certamente já passaram por isso. As primeiras audições - muitas vezes recomendadas por alguém. O reconhecimento dos sinais que revelarão o registro como um documento íntimo de nossos gostos mais particulares. A ampliação da apropriação sobre o material a cada novo reencontro - exercício prazeroso que quase nos faz sentir parte daquilo que escutamos. E quando percebemos, o disco já está no repeat em looping infinito e, nós, com a alma desvelada, cantando os refrãos e versos a plenos pulmões, dançando pela casa e, imaginando, enfim, quão bela pode ser a música enquanto exercício de arte. Digamos que é exatamente este o meu sentimento quando penso no primeiro registro dos islandeses do Of Monsters And Men, intitulado My Head Is An Animal, lançado em 2012.

É um trabalho tão descaradamente pop, tão ensolarado e repleto de palminhas, lálálás, heys!, vozes que se encontram em coro e arranjos naturalmente acessíveis que, gostar desse disco, quase se revela em um daqueles "prazeres proibidos" que só nos permitimos sozinhos em casa, sem que ninguém esteja vendo. Mas, verdade seja dita, é justamente ao contrário. Ouvir hits efervescentes como King and Lionheart (a favorita da vida), Mountain Sound, From Finner e Little Talks, parecem ser um convite natural para a reunião de amigos, para os momentos de parceria com quem se gosta, enfim, para a celebração da vida. Fico aqui tentando imaginar - e a internet nos permite chegar muito próximos disso, por meio de vídeos do Youtube - o que deve ser uma apresentação ao vivo desse quinteto, capaz de equilibrar voz, violão, guitarra, baixo e bateria de uma forma que até parece familiar - ainda que nunca óbvia.



A presença de dois vocais, um feminino (Nanna Bryndís Hilmarsdóttir) e um masculino (Ragnar "Raggi" Þórhallsson), é capaz de gerar, dada a natureza indie folk do grupo, inevitáveis comparações com os canadenses do Arcade Fire - sensação ampliada pela existência de outros instrumentos de apoio, aqui e ali, como piano, acordeão e trompetes. (E já posso imaginar os fãs de Win Butler e companhia executando verdadeiros saltos ornamentais de desgosto, com o comparativo entre uma banda cool e totalmente hypada e outra assumidamente pop, feita para o canto das massas em estádios) Os elementos do folk também são capazes de aproximar o grupo de outras bandas bacanas da atualidade, entre elas o Vampire Weekend e o Mumford and Sons - no caso dessa última, se ela não fosse tão rançosa e certinha ao ponto de irritar. (não à toa, Sloom, a única canção meio sem graça, é a que mais se aproxima daquilo que produzem os ingleses)

Apostando em letras que abordam a nostalgia pela juventude que se vai (Six Weeks), a modernidade e a perda da inocência (Dirty Paws), as dificuldades diante de um amor impossível (Love Love Love) e a dor pela existência que chega ao fim (Little Talks), a banda ainda mostra forte versatilidade - até mesmo fugindo do óbvio esquema do lirismo nonsense e do caos cotidiano que ocupa muitas das mentes (afetadas) do mundo da música, nos dias de hoje. Isso sem falar no equilíbrio certeiro entre os momentos mais agitados e aqueles de calmaria, que permitem ao ouvinte um respiro em meio as glórias cantadas a plenos pulmões e os momentos mais íntimos. Se com o disco seguinte, Beneath The Skin (2015), os islandeses mostraram maturidade em canções mais sóbrias e até mesmo introspectivas, foi com a alegria juvenil e o canto alegre, descompromissado e radiofônico de seu primeiro álbum, que conquistaram o mundo. Talvez este nem seja um Lado B, verdadeiramente. Mas, sem dúvida, é Classe A!

Lançamento de Videoclipe - Fernando Motta (Céu)

Mais uma daquelas gratíssimas surpresas de nosso cancioneiro, o mineiro Fernando Motta lançou neste ano, o seu primeiro registro solo, intitulado Andando Sem Olhar Pra Frente - que certamente estará em todas as listas de melhores nacionais do final do ano (podem me cobrar!). Como forma de divulgar o trabalho, o cantor e guitarrista, que fazia parte do coletivo Young Lights, pediu o apoio do parceiro de música Jonathan Tadeu - que também lançou um ótimo registro em 2016, de nome Queda Livre - para a gravação de um clipe para a canção Céu, que abre o disco. O clima introspectivo da música (e do vocal) combina bem com o aspecto bucólico do vídeo, fotografado em um belo preto e branco - ao estilo Chris Isaak em Wicked Games (mas sem as supermodelos, e com muita natureza no lugar). Vale clicar e conferir!

terça-feira, 26 de julho de 2016

Encontro com a Professora - Batman, Superman e Loki (Que Não Tem Nada a Ver Com Isso)

Sempre gostei de super-heróis. Embora tenha me deliciado muito com Tio Patinhas, Mônica e Cebolinha, o que curtia mesmo eram as pilhas de gibis da Liga da Justiça e, principalmente, as do Homem-Aranha e do Batman, meus preferidos. Gosto de pensar que o que me encantava no “Cabeça de teia” e no Morcego era a humanidade deles, no primeiro mais sarcástica e, no segundo, absolutamente sombria. Esses gibis eram a minha leitura clandestina, primeiro roubados do meu irmão, depois comprados, escondido da mãe. E aí, começam os filmes, já que Hollywood nunca perde tempo com a possibilidade de lucro. Foram décadas de produções de êxito, mas relativamente esporádicas, até o boom da DC Comics e, sobretudo, da Marvel, nos anos 2000. Atualmente, creio que as melhores são as que envolvem os Vingadores, com destaque para os filmes homônimos e para a excelente franquia do Capitão América, herói que jamais encantou a minha infância e adolescência.

Ele e o Super-Homem sempre me pareceram insossos demais, naquele fervor patriótico (apesar de um deles ser alienígena). Os uniformes entregam a principal missão deles: salvar o mundo, leia-se EUA, do perigo que vem de fora – o que soa completamente irônico em relação ao Superman, mas que, ao mesmo tempo, revela o “inevitável” amor pela América. E sabemos todos de que América se está falando. A atual franquia do Capitão rompeu um pouco com isso: manteve a disciplina, mas acrescentou personalidade. Gostei mesmo e, no geral, adoro estabelecer as relações entre os filmes e os quadrinhos, lembrar as genealogias, se se pode chamar assim, dos vilões e a trajetória dos heróis. Coisa de nostálgicos.



Mas, quando tudo parece perfeito, eis que surge Batman versus Super-Homem – a Origem da Justiça (2016), dirigido por Zack Snyder. O filme é incoerente do começo ao fim e peca, principalmente, por fazer o que a franquia do Homem-Aranha fez. Ou seja, encher o enredo de vilões, tornando todos subaproveitados. Não é novidade para ninguém a importância que tem um bom vilão, com o perdão do trocadilho. Loki que o diga...

Eis que Batman odeia Superman que odeia Bruce Wayne. Para mediar a birra entre os dois meninos, surge a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) que, aliás, lembra muito a Lynda Carter do seriado entre 1975 e 1979. O ódio entre os dois heróis nasce de forma inverossímil, transformado Wayne em alguém que não pensa e fixa as próprias frustrações no oponente. Ora, Bruce sempre um personagem complexo, não obtuso. E, ainda que saibamos pouco sobre os possíveis tormentos psicológicos de Clark Kent, é fácil perceber que conhece as agruras de ser herói. Portanto, a briga deles poderia ser facilmente resolvida numa conversa de bar. Dando-se conta disso, finalmente, Snyder começa a encher o filme de inimigos de ambos os heróis. E, aí, só podemos esperar que o filme termine logo. Ou que Loki apareça...


Na trama, Ben Affleck volta a atuar como nos primeiros tempos, isto é, sem expressão. A boa notícia é que agora sabemos que não houve trauma com Daredevil, de 2003. Henry Cavill se confirma como um dos rostos mais simétricos do cinema. E só. E ainda tem o Jesse Eisenberg, compondo um histriônico Lex Luthor, o que, mais uma vez, detona com o tempero de um bom anti-herói. No final, quando assume a feição careca, como é conhecido, a cena a la Darth Vader é de matar! Enfim, falar mal de Batman versus Super-Homem renderia laudas, mas ninguém precisa perder tempo com cinema ruim. E sempre resta algo. No meio dessa confusão toda, escondidinho, está Jeremy Irons – que deve ter uma dívida enorme para pagar – com seu sotaque britânico maravilhoso, deixando saudade em cada aparição. E, só para repetir, também senti falta de Loki. Muita falta.

Texto: Rosane Cardoso

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Pérolas do Netflix - Em Nome de Deus (The Magdalene Sisters)

De: Peter Mullan. Com Anne-Marie Duff, Nora-Jane Noone, Dorothy Duffy, Geraldine McEwan e Eileen Walsh. Drama / Terror, Irlanda / Reino Unido, 2001, 122 minutos.

Margaret (Duff), Bernadette (Noone) e Rose (Duffy) são três criminosas da pesada. Margaret, a primeira meliante em questão, cometeu o absurdo de ser estuprada por um primo durante um casamento em família. Pode um negócio desses? Bernadette não fica atrás, no quesito pouca vergonha, já que andava pela escola flertando com os meninos - e isso pelo simples fato de ser uma garota jovem e bonita. Não é estarrecedor? E, não sei dizer se o caso de Rose não é ainda pior, já que a danada teve um filho - pensem vocês - fora do casamento. Fora do casamento! Uma barbaridade! Dado esse cenário, não haveria outra alternativa para as criminosas que não o envio obrigatório, por parte das famílias de cada uma delas, para a prisão, certo?

É evidente que estou ironizando neste primeiro parágrafo, mas se essa sinopse parece coisa de algum roteirista tresloucado que estudou a fundo o papel da mulher em algum lugar muito distante - talvez a Idade Média - saiba que este é apenas o retrato da Irlanda patriarcal dos anos 60. Sim, anos 60, há pouco mais de 50 anos atrás. A "prisão" em questão eram asilos católicos em que as jovens eram enviadas - normalmente pelos pais - para receber todo o "amor de Deus" em forma de humilhações variadas, castigos físicos e trabalho escravo por tempo indeterminado. O objetivo era fazer elas "pagarem os seus pecados". Sem discussão, sem revisão de pena, sem abonos de quaisquer tipos, era lá que centenas de milhares de moças tinham não apenas a juventude, mas as suas vidas cerceadas. Tudo com vistas a obter a redenção pelos pecados da carne - com anulação de qualquer tipo de prazer em vida, com trabalho além do limite humano e proibições de todos os tipos. O tipo de sofrimento experienciado, muito provavelmente, pelos escravos.



O que mais surpreende no filme muito bem construído pelo ator Peter Mullan - em sua segunda e, até o momento, última, incursão como diretor - é saber que a obra é baseada em fatos reais. As instituições das Irmãs Madalenas existiram de verdade, tendo por base a história da própria Maria Madalena  - discípula tida como pecadora pelo fato de vender o seu corpo aos "depravados". Estima-se que mais de 30 mil mulheres tenham sido aprisionadas em asilos desse tipo - sendo a última lavanderia que se tem conhecimento, fechada em 1996. E só esse contexto histórico-religioso, muito bem construído - além de pesado, dramático, melancólico - já é digno de nota na hora de avaliar essa verdadeira Pérola perdida pelos cantos do Netflix. É um filme sufocante, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, e que certamente permanece por horas conosco, após o final da projeção.

Apresentando o microcosmo da instituição como um cenário verdadeiramente opressor, com salas pequenas, apertadas e quentes, a obra ainda investe em uma fotografia azulada e empalidecida, como forma de ressaltar o sentimento permanente de terror vivido pelo grupo de jovens que, cheias de vida, sequer tem o direito de conversar enquanto executam suas tarefas. Nesse sentido, não deixa de ser marcante a cena em que uma das internas "descobre" uma porta aberta para o exterior, onde ela se depara com a natureza cheia de vida e colorida, provavelmente, como nunca ela havia percebido durante a sua existência, até o momento de passar pela clausura. E o fato de retornar para o pátio da entidade, ainda que houvesse essa brecha - ampliada pelo desastroso encontro com um homem que não poderia ser mais machista e preconceituoso - serve para dar conta do medo que rondava as "detentas", que poderiam sofrer severas punições por esse tipo de mau comportamento.


Ainda que tenha pesado um pouco a mão ao apresentar a madre superiora (McEwan) e todas as demais madres como se fossem "o diabo em pessoa" - não posso crer que nenhum delas tivesse um mínimo de piedade ou sentimento de fraternidade para com essas "almas pecadoras" - o filme aposta ainda em pequenas sutilezas para demonstrar o poder da Igreja nas comunidades católicas tementes à Deus. E, nesse sentido, não deixam de ser sintomáticas as sequências em que a madre superiora conta o (farto) dinheiro recebido para manter a lavanderia ou mesmo aquelas que mostram a diferença "nutricional" entre os cafés de ambas as classes - a das madres e a das internas. Em uma época em que a intolerância e a violência contra a mulher ainda reinam - e parecem ganhar força com discursos misóginos internet afora, legitimados por aberrações políticas como o deputado Jair Bolsonaro - um filme como Em Nome de Deus não é apenas uma aula de bom cinema. É também um documento histórico sobre tempos obscuros que, esperamos, jamais retornem.

sábado, 23 de julho de 2016

Disco da Semana - The Avalanches (Wildflower)

Tente imaginar como seria uma parceria musical envolvendo Kendrick Lamar e Jamie XX. Agora some a isso a imagem de um filme dirigido por Spike Lee em que, num daqueles impensáveis paradoxos, seus personagens passam o dia curtindo a vida na beira da praia, ao som de Beach Boys - ou qualquer outra com espírito litorâneo. Dentro das casas, o burburinho das pessoas se mistura ao do gramofone - que toca algum álbum clássico do The Supremes, lançado nos anos 60 -, com o da TV ligada em algum desenho animado, como aqueles que (pensamos que) não são mais feitos hoje em dia. Nas ruas um vendedor opera o realejo com o objetivo de chamar a atenção do grupo de estudantes que aguarda a entrada na matinê, enquanto artistas performáticos utilizam-se de roupas multicoloridas, com a intenção de se destacar em meio a multidão. Coloque todos estes referenciais em um liquidificador - adicionando ainda um amontoado de outras pitadas de "cultura pop", escondidas em algum canto de nossos cérebros nostálgicos - e está feito o caldeirão que (tenta) definir o que significa o recém lançado disco Wildflower, dos australianos do The Avalanches.

Esse verdadeiro caleidoscópio sonoro - recheado de samplers, efeitos, reverbs e outras programações eletrônicas - já era o que ocorria, em alguma medida, no hoje já clássico e único registro anterior disponibilizado pelo grupo, intitulado Since I Left You. Recheado de idas e vindas no tempo, recortes musicais (e fílmicos) variados e sonoridades perdidas que parecem suplicar para serem encontradas, a obra ainda possibilitava, à época, as sobreposições diversas que chegavam a beirar a aquilo que poderia ser considerado uma espécie de "esquizofrenia musical". Sem medo de brincar com estilos diversos, como o trip hop, o house, a música eletrônica, o jazz, o R&B, a surf music e até mesmo o synthpop, o trio - hoje formado por Robbie Chater (teclados e guitarra), Tony Di Blasi (teclado, baixo e vocal de apoio) e James Dela Cruz (toca-discos, teclados) - logo alcançou, com o registro inaugural, o sucesso não apenas de público, mas de crítica, o que fez com que o trabalho figurasse em todas as listas de melhores do ano 2000.



O longo hiato de 16 anos - explicado pelo fato de um dos integrantes (Etoh) ter sido deportado -, nem parece ter relevância, tamanha a capacidade absolutamente natural do coletivo, em dar continuidade ao tipo de material apresentado ao mundo em Since I Left You. Tendo como diferenciais um uso maior do hip hop - algo que pode ser percebido já no ótimo single Frankie Sinatra - e uma busca por uma sonoridade aparentemente mais acessível, os australianos buscam, com Wildfower, claramente se adequar a lógica de consumo atual, certamente diferente daquela existente há 16 anos. E que conta com ouvintes que, num mundo urgente, caótico e cheio de informação, parecem estar acostumados ao esquema estrofe-refrão-estrofe - o que talvez explique a adoção, em um maior número, de canções que contenham letras ou versos amparados por uma espécie de charme-retrô, ou mesmo que sejam perfumadas por uma ambientação litorânea próxima da de vertentes psicodélicas e acolhedoras - e que muito encontramos em bandas atuais. Tudo isso sem abandonar as suas origens, claro.

Como forma de consolidar este modelo, os australianos contam com uma série de participações especiais, como Jonathan Donahue do Mercury Rev (Colours), Toro Y Moi (If I Was a Folkstar), Father John Misty (Saturday Night Inside Out) e Ariel Pink (Live a Lifetime Love). Algo que serve também para dar uma ideia da importância do conjunto, do espírito colaborativo utilizado e da atenção àquilo que se está produzindo de melhor em termos de musical atual. Se com a sessentista Because I'm Me, o The Avalanches tem uma das prováveis melhores músicas do ano, com outras, como a psicodélica Wildflower a adocicada e oitentista Colours, a intoxicante Stepkids e a efervescente Subways, o trio - e seus colaboradores - parece dar conta da multiplicidade de possibilidades e do espírito democrático que parece prevalecer em suas construções - que, de quebra, nunca parecem isoladas em si. I feel in love for sunshine, canta a banda durante s singular Sunshine. Pra nós ouvintes é um resumo do sentimento, ao escutar este Wildflower.

Nota: 9,1


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cinema - Marguerite (Marguerite)

De: Xavier Giannoli. Com Catherine Frot, André Marcon, Michel Fau, Christa Théret e Sylvain Dieuaide. Drama / Comédia, França / Bélgica / República Tcheca, 2015, 129 minutos.

Existe uma frase atribuída ao escritor George Bernard Shaw que bem poderia definir aquilo que assistimos no ótimo Marguerite (Marguerite), esse verdadeiro achado do cinema francês que está em cartaz pelas salas do País: "os espelhos são usados para ver o rosto, a arte para ver a alma". Baseado em fatos reais, o filme do diretor Xavier Giannoli conta a história da baronesa Marguerite Dumont (Catherine Frot), que costuma organizar saraus e outros eventos artísticos privados, em sua mansão, com objetivo de levantar fundos para crianças órfãs ou outras entidades em vulnerabilidade social. Por acreditar ter uma boa voz, a ricaça eventualmente "presenteia" o público que lhe prestigia com exibições de música clássica. O problema é que ela canta mal. Aliás, mal não. MUITO MAL. E, dada a sua generosidade e inegável interesse pessoal, claro, ninguém parece estar muito disposto a dizer a ela a verdade sobre o seu "talento" (ou falta de) musical.

A situação piora quando o jornalista pé-rapado Lucien (o ótimo Sylvain Dieuaide) resolve fazer o contrário e publicar, no jornal em que trabalha, uma resenha elogiosa à uma das apresentações de Marguerite. Reanimada, após uma noite de dúvidas acerca de suas performances, a baronesa decide levar a "carreira" adiante, programando uma apresentação em público para o futuro. Diga-se de passagem, o contato com Lucien, que lhe apresentará o submundo da produção cultural, com cantores, atores e escritores a margem da sociedade, além de outras personas burlescas da Paris dos anos 20, representará uma reviravolta para a baronesa. Algo como uma espécie de A Princesa e o Plebeu artístico, em que uma mulher rica conhecerá a efervescência e o turbilhão cultural, político e ideológico vivido pela França naquela época - e que culminará em uma desastrosa apresentação de Marguerite em um cabaré decadente do subúrbio.



Nesse sentido, a obra se torna inspiradora inicialmente por "pincelar" o momento político vivido pelo País, no período, mas também por fugir daquilo que seria o arco dramático mais óbvio - a representação do elemento cômico nas insistentes tentativas da baronesa em se tornar uma cantora de verdade. Circunstância que amplia a relevância do debate, costurando a trama com ambiguidades e elipses que nos fazem, permanentemente, questionar sobre aquilo que pudesse ser considerado "arte de verdade". Inegavelmente Marguerite, de acordo com as convenções - especialmente as burguesas, do início do século passado - é uma péssima cantora. Mas, num contraponto, ela não é um espírito que busca se transformar (e se elevar) por meio da arte? Ignorando inclusive o marido "mala" que insiste que ela não prossiga com as suas tentativas frustradas? Assim, na persistência de Marguerite não encontramos apenas libertação e empoderamento, mas também alma, esperança, e até mesmo alguma visceralidade e dedicação a um propósito. (alguém aí lembrou do punk rock?)

É evidente que o filme não deixa de lado o viés cômico - e as cenas com o improvável professor Atos Pezzini (vivido pelo ator Michel Fau) estão, desde já, entre as mais engraçadas do ano - e é com gosto que admito ter CHORADO DE RIR na primeira cena em que Marguerite apresenta seus dotes a ele. Ainda assim, como numa espécie de contraponto, tudo é tratado de uma forma solene e elegante e, mesmo as curvas fora do tom, o desafinamento e a dificuldade com as notas mais agudas da baronesa, são tratadas com respeito e até mesmo com um tom suntuoso pela produção - algo ampliado pela seriedade com que ela encara as suas apresentações, com direito a álbum de fotos surrealista e figurinos luxuosíssimos. (e, mesmo assim, é quase impossível não lembrar da personagem de Gloria Swanson no clássico hollywoodiano Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), dado o caráter expressionista das manifestações ou mesmo o espírito esquizofrênico da composição da protagonista, especialmente a partir do terço final)



Com personagens riquíssimos e ambíguos - até o fim do filme não temos a exata certeza sobre as reais intenções de Lucien, ainda que reconheçamos seu espírito anárquico e disposto a destruir convenções ou mesmo desmascarar a hipocrisia reinante na burguesia -, a obra ainda capricha no desenho de produção, com uma riqueza cênica digna de nota. A trilha sonora invariavelmente recheada de grande mestres da música clássica - Mozart, Vivaldi, Verdi, Bach - certamente contribuirá para a construção da história. Pecando apenas no uso de alguns coadjuvantes mal aproveitados - a cantora Hazel (Christa Théret) e o cartunista Kyrill (Aubert Fenoy), apenas para citar esses dois exemplos que poderiam acrescentar outras camadas à obra - esta comédia dramática burlesca (e maravilhosa) ainda reserva para o final alguns momentos de tensão dignos dos melhores suspenses da atualidade. Até que ponto estamos dispostos a trilhar nossos caminhos, por aquilo que gostamos? Marguerite, com seus modos sutis, sua persistência tocante e sua alma artística - a seu modo - chega próxima de nos revelar. O que não é pouco.

Nota: 9,1

PS: o filme é baseado na história real da ricaça Florence Foster Jenkins, que teria verdadeiramente tentado a carreira de cantora de ópera no começo do século passado. Para quem se interessar, a versão hollywoodiana - tendo Meryl Streep como protagonista - também circula em circuito comercial. O filme se chama Florence: Quem É Essa Mulher, e é dirigido por Stephen Frears.

Na Espera - Wilco (Disco)

Os fãs do Wilco tiveram uma ótima notícia nesta semana, com o anúncio de um novo registro - intitulado Schmilco - apenas um ano após o lançamento do ótimo Star Wars, que chegou de surpresa, em 2015, sendo um dos melhores internacionais do ano, aqui pra nós do Picanha. A exceção deste, há quem diga que a qualidade dos álbuns mais recentes dos norte-americanos possa ser questionada - nós somos suspeitos, pois gostamos demais da banda de Jeff Tweedy e companhia. Mas ainda assim, há algo que não se pode negar: a banda voltou muito a fim de mostrar trabalho e tenta resgatar a qualidade já mostrada em discos fundamentais como Being There (1996) e Yankee Hotel Foxtrot (2002).


O novo trabalho, décimo da carreira de Tweedy e seus parceiros de banda, teve a capa divulgada - uma divertida série de desenhos elaboradas pelo cartunista espanhol Joan Cornellà -, bem como a lista de canções (serão doze no total). O disco chega ao mercado no próximo dia 09 de setembro - mas os fãs mais ansiosos já podem aproveitar a pré-venda no iTunes para adquirir o álbum, que contará com os singles Locator e If I Ever Was a Child, divulgados entre a última e esta semana. De antemão, o que pode-se depreender das canções é que o Wilco parece promover um retorno a uma musicalidade mais "pura" do country alternativo - sem tantas invencionices, como em Star Wars - remetendo a registros anteriores, como Sky Blue Sky (2007) e o já citado Yankee Hotel Foxtrot. Por aqui, nem é preciso dizer: estamos MUITO Na Espera!