Mostrando postagens com marcador Wilco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wilco. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Pitaquinho Musical - Wilco (Cruel Country)

Acho que uma das coisas que mais gosto no Wilco é a capacidade de se apropriar de um estilo ligado à temas (e regiões) mais classicamente conservadores - no caso o country rock - para criticar justamente a hipocrisia de certos extratos sociais tão comunitários, tão unidos e tão problemáticos. No Brasil, talvez exagerando um pouco, seria mais ou menos como se houvesse algum artista de sertanejo universitário, um que fosse, que se manifestasse de forma não tão favorável ao tipo de política perpetrada pelo atual presidente. Do título ambíguo - estamos falando de um "País Cruel" ou de uma vertente musical banhada em metáforas, como bem pontuou a Pitchfork em sua análise -, passando pela capa de ares tradicionalistas, tudo em Cruel Country, o décimo quinto trabalho de estúdio de Jeff Tweedy e companhia, parece remeter a essas convenções - e contradições.

Uma escuta despretensiosa talvez passe batida pelos temas que aparecem, aqui e ali, nas 21 músicas, que alcançam mais de 75 minutos de duração. Não significa necessariamente renegar o tempo todo a Terra do Tio Sam. Mas sim conseguir enxergar que, em meio a beleza evocativa que parte das paisagens rurais, bucólicas, também se esconde uma Nação que flerta com o que de pior pode haver na humanidade. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na própria faixa-título, onde em meio a uma serena melodia de cordas Tweedy canta sobre como "ama seu País estúpido e cruel". Há outros instantes que são puro lirismo, numa mistura que vai do soturno à luminosidade, caso da maravilhosa Hearts Hard to Find (A realidade arruína tudo / Eu gosto de uma brisa / Balançando suavemente a árvore). Ambiguidade é a palavra-chave aqui. Não por acaso tudo parece econômico, modesto. Ainda que o resultado seja gigante.

sábado, 29 de outubro de 2016

Lançamento de Videoclipe - Wilco (Someone to Lose)

O Wilco anda produtivo desde o ano passado e, assim, sem fazer muito alarde, lançou um dos discos mais simpáticos do ano até o momento, o elogiado Schmilco. Com o registro, que possui uma sonoridade mais acústica do que barulhenta, a banda de Jeff Tweedy marca aquilo que pode ser considerado uma espécie de retorno as origens e a uma musicalidade mais "pura" no que diz respeito ao country alternativo - e não chegam a ser por acaso e nem exageradas as comparações com o clássico moderno Yankee Hotel Foxtrot (2002). E como forma de seguir divulgando o álbum, o grupo de Chicago disponibilizou, na tarde de ontem, um clipe muito legal para a canção Someone to Lose. Todo gravado em stop motion (a famosa técnica da massinha de modelar), o vídeo - dirigido por Joseph Baughman - narra a curiosa história da invasão de um bolo de casamento por um ser rastejante. Sim, acredite! Ficou curioso? Clica pra conferir, que é bem legal!



quinta-feira, 21 de julho de 2016

Na Espera - Wilco (Disco)

Os fãs do Wilco tiveram uma ótima notícia nesta semana, com o anúncio de um novo registro - intitulado Schmilco - apenas um ano após o lançamento do ótimo Star Wars, que chegou de surpresa, em 2015, sendo um dos melhores internacionais do ano, aqui pra nós do Picanha. A exceção deste, há quem diga que a qualidade dos álbuns mais recentes dos norte-americanos possa ser questionada - nós somos suspeitos, pois gostamos demais da banda de Jeff Tweedy e companhia. Mas ainda assim, há algo que não se pode negar: a banda voltou muito a fim de mostrar trabalho e tenta resgatar a qualidade já mostrada em discos fundamentais como Being There (1996) e Yankee Hotel Foxtrot (2002).


O novo trabalho, décimo da carreira de Tweedy e seus parceiros de banda, teve a capa divulgada - uma divertida série de desenhos elaboradas pelo cartunista espanhol Joan Cornellà -, bem como a lista de canções (serão doze no total). O disco chega ao mercado no próximo dia 09 de setembro - mas os fãs mais ansiosos já podem aproveitar a pré-venda no iTunes para adquirir o álbum, que contará com os singles Locator e If I Ever Was a Child, divulgados entre a última e esta semana. De antemão, o que pode-se depreender das canções é que o Wilco parece promover um retorno a uma musicalidade mais "pura" do country alternativo - sem tantas invencionices, como em Star Wars - remetendo a registros anteriores, como Sky Blue Sky (2007) e o já citado Yankee Hotel Foxtrot. Por aqui, nem é preciso dizer: estamos MUITO Na Espera!


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Disco da Semana - Wilco (Star Wars)

O Wilco, não se pode negar, parece ser uma banda atenta àquilo que determinam as novas ferramentas tecnológicas, as redes sociais ou mesmo os formatos modernos de se consumir música. Ao menos foi essa a impressão que o lançamento de Star Wars, nono registro de inéditas dos americanos, deixou. Pra começar, o álbum foi disponibilizado no último mês de julho sem muito alarde, da noite para o dia, no site dos caras. Estando, logo depois, também apto a ser apreciado em plataformas de streaming, como Deezer e Spotify. Nada de videoclipe de divulgação, de single para apresentação prévia do novo trabalho, de anúncio de data de lançamento, de título, de nome do disco ou mesmo de ordem de colocação das faixas. Nenhuma imagem. Nada. Um disquinho novo na praça, sem blablablá.

Depois, o grupo ainda se prestou a chamar o registro de Star Wars, evidentemente uma clara galhofa relativa a ansiedade nerd que ronda o lançamento do sétimo filme da série comandada por George Lucas, e que deve dar as caras por aqui no mês de dezembro. De quebra, a capa ainda conta com uma imagem de um gatinho branco dos mais peludos. Quem nunca encontrou em sua timeline do Facebook algum vídeo ou foto engraçadinha dos felinos, sem muito esforço? Pois é, como já disse antes, é muito provável que haja aí uma uma dose de brincadeira (e de ironia, claro) em todo esse referencial proposto por Jeff Tweedy e companhia. E o que dizer do tempo de duração do disco, que não ultrapassa os 34 minutos? Só o duplo (e clássico) Being There, de 1996, possuía quase 1h20. Mas quem tem tempo de ouvir um álbum dessa envergadura nos dias de hoje?


Proposital ou não, atento ou não a toda a velocidade com que a rede e as pessoas navegam e consomem tudo o que está ao seu redor nos dias de hoje, é preciso que se diga que apenas um detalhe não mudou em relação ao sexteto de Chicago: a qualidade sonora. Se, no início da carreira, discos como AM (1995) e, mais especificamente, o próprio Being There seriam fundamentais para o fortalecimento do estilo que ficaria conhecido como Alt Country - e que já vinha sendo propagado no passado por veteranos como Neil Young, The Byrds e Big Star - atualmente, o Wilco parece ampliar o seu arcabouço de referências, se aproximando de grupos oitentistas como Echo and the Bunnymen, Pixies (já viu mais Pixies do que o fechamento com Magnetized?) e REM. Parte desse caminho levemente modificado, já pôde ser percebido em trabalhos anteriores, caso por exemplo, do irregular A Ghost Is Born (2004).

O mais curioso é perceber que, justamente aquilo que talvez pudesse soar como um movimento desastroso e retrógrado, é o que se apresenta como uma guinada importante da banda em direção a uma sonoridade ainda mais moderna, complexa e completa do que aquela feita anteriormente. Evidentemente que Star Wars não é um disco melhor do que o clássico e irretocável Yankee Hotel Foxtrot (2001), por exemplo. Mas chega muito perto ao se apresentar como um registro honesto, de qualidade instrumental e vocal e que nos coloca diante de uma banda em grande forma. Não à toa, a energia vibrante exibida nas dinâmicas More..., Random Name Generator e The Joke Explained, nos faz ter a impressão de estarmos diante de um grupo ainda em início de carreira e não ouvindo sujeitos que se aproximam dos 50 anos, com passo desacelerado e sem apresentar o mesmo vigor de antes. Talvez hoje ninguém ouça álbuns de 1h20. Mas prepare-se pra escutar Star Wars no repeat uma, duas, sete vezes. Vale muito a pena.

Nota: 8,0

sábado, 7 de março de 2015

PicanhaCast 05/03/2015

No PicanhaCast do dia 05/03 falamos um pouco do quadro Lado B Classe A, cujo destaque foi o disco Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, além de dar uma pincelada nos destaques da semana. É só clicar abaixo e ouvir!

terça-feira, 3 de março de 2015

Lado B Classe A - Wilco (Yankee Hotel Foxtrot)

Das cinzas da banda norte-americana de country-rock Uncle Tupelo (1987-1994) nasceram duas bandas: Son Volt, comandada por Jay Farrar, e o Wilco, por Jeff Tweedy. Esta última acabou por ser mais bem sucedida no meio musical, o que não invalida de forma alguma o belo trabalho de Farrar e seus comparsas. No entanto, o Wilco, com sua discografia sem pontos fora da reta, acabou por se tornar uma das bandas favoritas deste que vos fala. Inclusive, o presidente norte-americano Barack Obama já demonstrou publicamente por diversas vezes o seu apreço pelo grupo de Chicago.

O primeiro álbum (A.M., de 1995), é country-rock na sua forma mais pura, com o Wilco representando o que atualmente conhecemos por Alt. Country ("country alternativo"), tendo como referência artistas da música tradicional americana, porém atualizando e introduzindo toques do rock alternativo que tanto gerou obras influentes nos anos 90. No segundo álbum (Being There, de 1996), a banda dá um passo além, com fortes influências ainda do country e do folk, mais uma certa dose de experimentalismo em faixas mais longas - o que acabou por tornar este um álbum duplo. Com Summerteeth (1999) o apreço por efeitos eletrônicos e o power pop acabam por elevar o som do grupo a outro patamar, mas sem perder por completo as características dos álbuns anteriores. Mas é com o já clássico Yankee Hotel Foxtrot, de 2002, que a banda viria a cravar de vez o seu nome na história da música.


Explico: durante as gravações do disco, o líder Jeff Tweedy se desentendeu com Jay Bennet, guitarrista/tecladista e um dos principais compositores, por divergências em relação à produção e roupagem das canções - ocasionando a demissão de Bennet. Com todo o instrumental gravado, Tweedy achou que as canções estavam "retinhas" demais - o que repercutiu na contratação do produtor Jim O'Rourke, famoso por seu trabalho solo e por produzir bandas como Sonic Youth, que acabou por desconstruir completamente a obra. Com toda a mixagem refeita, as canções do disco obtiveram uma sonoridade bem mais experimental e desafiadora, uma receita bastante original diga-se de passagem, com o uso de violões (sem guitarras elétricas) misturados a efeitos eletrônicos, ruídos, microfonias, que viriam a complementar o conceito do álbum: a falta de comunicação.

Wilco, na época da divulgação do álbum, já sem Jay Bennet

Yankee Hotel Foxtrot é um código utilizado em rádio amador que, aqui, serve de metáfora para os problemas de comunicação dos tempos modernos, principalmente quanto aos relacionamentos - tanto amorosos quanto interpessoais. O álbum, influenciado por discos como Third/Sister Lovers, do Big Star, e Blood on the Tracks, de Bob Dylan, é triste, desesperançoso, e muito pessoal. Logo na primeira faixa, Tweedy avisa: I Am Trying to Break Your Heart ("Estou tentando partir seu coração") para na sequência, em Kamera pedir: Phone my family / tell them I'm lost on the sidewalk / and no, it's not ok ("ligue pra minha família, diga-lhes que estou perdido no acostamento e, não, não está tudo bem"). Radio Cure fala da impossibilidade dos relacionamentos à distância, enquanto War on War versa sobre nossas derrotas diárias e aconselha: You have to learn how to die / If you wanna be alive ("você precisa aprender a morrer, se quiser continuar vivo"). Jesus, etc é uma linda canção, que foi escolhida como single sendo, inclusive, considerada uma das 100 melhores canções dos anos 2000 pela revista Rolling Stone. Ashes of American Flags é uma faixa mais política, densa - por sinal, a capa do disco faz alusão às torres gêmeas que foram atacadas no ano anterior ao lançamento.

Com Heavy Metal Drummer o disco dá uma respirada, em sua faixa mais animada porém de teor nostálgico. I'm the Man Who Loves You também mantem o pique, com sua bela letra e declaração de amor: If I could you know I would just hold your hand and you'll understand / I'm the man who loves you ("se eu pudesse apenas seguraria sua mão e você entenderia: eu sou o homem que te ama"). Pot Kettle Black tem cara de hit, enquanto Poor Places é triste e lenta, com um final experimental. Reservations encerra esta obra-prima de forma bela e melancólica, cantando sob orquestrações: I got reservations / about so many things / but not about you ("eu possuo reservas sobre muitas coisas, mas não sobre você").

A gravadora, na época, pediu para que o álbum fosse refeito por considerá-lo "anti-comercial". Tweedy e cia negaram o pedido, o que resultou no não lançamento pela gravadora e a ruptura do contrato. A banda obteve os direitos do disco e optou por lançá-lo na internet, o que simultaneamente acabou por fazer com que o mesmo fosse alçado à categoria de clássico instantâneo - ganhando elogios fartos tanto dos fãs quanto da crítica especializada, que atualmente o considera um dos grandes da década passada. Com o sucesso de Yankee Hotel Foxtrot, a gravadora voltou atrás, comprando os direitos da obra e lançando-o comercialmente, numa belíssima ironia do destino (eles acabaram pagando, na verdade, duas vezes pelo disco), onde a arte não cedeu a interesses comerciais e, mesmo assim, obteve sucesso em ambas as instâncias. Um disco fundamental!

P.S.: Toda a saga sobre a gravação e conflitos com a gravadora foram retratados no belíssimo documentário de Sam Jones, I Am Trying to Break Your Heart. Se você é fã da banda, corra atrás!

Ouça: