segunda-feira, 11 de abril de 2022

Cinema - Tre Piani

De: Nanni Moretti. Com Ricardo Scamarcio, Alba Rohrwacher, Nanni Moretti e Margherita Buy. Drama, Itália / França, 2021, 116 minutos.

Quem acompanha de perto a carreira de Nanni Moretti sabe que o diretor italiano trafega muito bem entre a comédia de costumes e o drama familiar - ás vezes na mesma obra, como no caso do recente Mia Madre (2015). Em Tre Piani, mais recente trabalho do realizador e que está em cartaz nas salas do País, a narrativa é dominada muito mais pelas situações dolorosas do que por aquelas que envolvam algum tipo de "respiro". Centrada na história de três famílias que vivem no mesmo condomínio de classe alta, a trama parte de um evento traumático para todos ali: dirigindo alcoolizado, o jovem Andréa (Alessandro Sperduti) atropela uma mulher ao tentar desviar de Monica (Alba Rohrwacher), uma grávida que pedia socorro na rua após a sua bolsa ter estourado. Como se a catástrofe não fosse suficiente, o rapaz ainda bate o carro na sala de Lúcio (Ricardo Scamarcio), gerando uma série de outros prejuízos - financeiros e emocionais.

Sim, porque o acidente faz com que Lúcio e a esposa Sara (Elena Lietti) passem a precisar muito mais da ajuda do vizinho idoso Renato (Paolo Graziosi) para que este cuide da pequena filha Francesca (Chiara Abalsamo). Só que, próximo dos 80 anos, o homem está passando por crises de demência aparente - e quando ele desaparece junto com Francesca, Lúcio passa a ter a convicção de estar diante de um crime sexual envolvendo a filha. Em um primeiro momento pode parecer tudo meio embaralhado, mas a intenção de Moretti, ao nos apresentar esse microcosmo social tão conectado, parece ser exatamente esse: a vida é feita de uma coleção de situações complexas, eventualmente inusitadas, com decisões nem sempre acertadas - e que poderão influenciar (e transformar) decisivamente a vida de todos os envolvidos. Parentes, vizinhos, amigos.

Andréa, por exemplo, se sente abandonado pela própria família, a partir da decisão de seu pai Vittorio (Nanni Moretti), um renomado juiz de Roma, em não abusar de seu poder para ajudar o filho - o que acarretará o afastamento do jovem, que é julgado e preso de acordo com o que prevê a Lei. Já Lúcio é seduzido pela bela adolescente Charlotte (Denise Tantucci), que é neta de Renato - vendo-se ele mesmo envolvido em episódio de suposto estupro. No filme de Moretti não parece haver muito espaço para olhar para trás e reavaliar a trajetória feita até ali. A vida é para frente e será necessário para todos ali encarar seus próprios traumas, amadurecer a partir deles, aprender a perdoar (ou não). Ter empatia quando necessário. E outras habilidades sociais em meio a um contexto em que as crises pessoais são encaminhadas de forma solitária, com abnegação.

Nessa teia em que as relações entre os personagens vão no limite do amor e do ódio é possível fazer um recorte que envolve o nosso próprio tecido social - cheio de pessoas, de ocorrências, de imprevisibilidades. Hábil, Moretti utiliza a sua câmera para "eviscerar" aquele contexto de vizinhanças desconfiadas, de familiares desagradáveis, de olhares de lado, de paranoias generalizadas. Muitas são cenas internas no condomínio, com moradores batendo a porta uns dos outros, ocupando espaços, dialogando. E envelhecendo também - o que é evidenciado pelos diversos saltos temporais, em que as feridas são enfim saradas e que as voltas dadas tornam a reequilibrar tudo. No mesmo ano em que mundo viu Titane (2021) faturar a Palma de Ouro em Cannes, Moretti apresentou a sua visão singular da sociedade que avança, nesse novelão que foi adaptado do livro do israelense Eshkol Nevo. Não chega a ter o impacto de um O Quarto do Filho (2001). Mas nunca há desperdício na filmografia de Moretti.

Nota: 8,0

 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Pitaquinho Musical - Father John Misty (Chloë and the Next 20th Century)

Não sei explicar muito bem qual o efeito causado pelo Father John Misty, mas quase sempre começo não gostando tanto assim de seus novos trabalhos. Ouço uma vez, duas. Lá pela terceira já estou sendo absorvido pelo seu experimentalismo nunca óbvio, pelas curvas sinuosas de seus arranjos e pelas sempre ambiciosas e bem-humoradas letras. Ao cabo, Chloë and the Next 20th Century é, assim como seus outros registros, um disco que vai te ganhando aos poucos, meio que na persistência. Sim, em tempos tão acelerados de Tik Tok parece um contrassenso ouvir um álbum de mais de 50 minutos com melodias que evocam standards tocados em filmes antigos dos anos 40, que se mesclam a um pop que vai no limite entre a bossa nova e a fantasia lúdica e orquestral. Bem menos sério do que no ironicamente pessimista God's Favorite Customer (2018), Josh Tilman entrega aqui uma coleção de narrativas de amor meio tortas, de cotidianos inventados e de indulgência espalhafatosa. Um bom exemplo de todos esses recursos está na saborosa Goodbye Mr. Blues (Esta pode ser a última, a última vez que coloco meus sapatos / Desço até a esquina e compro para o maldito gato a ração mais cara). Mas há mais, muito mais. Quem se aventurar, certamente será recompensado!


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Tesouros Cinéfilos - Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Circulo Polar)

De: Julio Medem. Com Fele Martinez, Kristel Diaz, Peru Medem, Najwa Nimri, Nancho Novo e Beate Jensen. Drama / Romance, Espanha, 1998, 112 minutos.

Coincidências, acontecimentos aleatórios, situações inesperadas. O mundo que parece às vezes dar uma volta inteira pra retornar ao mesmo lugar. O tempo que dá a impressão de andar mais devagar nos dias frios. Em Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Circulo Polar), pequena joia disponível no Mubi, a região ártica surge frequentemente como uma metáfora para esse ciclo eterno que intercala inverno e verão, tristeza e felicidade, vida e morte. A imprevisibilidade, afinal, faz parte de nossa existência. Alguém que a gente conhece sem querer. Um desconhecido que passa pelo nosso dia e, ao final dele, é um novo amigo. Um interesse amoroso que, mesmo sem saber muito, já nos encanta. E é justamente isso o que ocorre com Otto (Peru Medem), um menino de apenas oito anos que é impactado pelo olhar de Ana (Najwa Nimri), após correr atrás de uma bola, em uma despretensiosa partida de futebol no pátio da escola.

Aquela bola que sobe e desce, esférica. Com três dimensões. Assim como o globo terrestre, o sol e muitos outros objetos que rimam perfeitamente com a ideia de volta, de ciclo, de completude. Enquanto cresce, Otto não entende porque seu pai Álvaro (Nancho Novo) deixou de amar a sua bela mãe (Beate Jensen). Só que quando um Otto já adolescente (Fele Martinez) vê seu amor por Ana consumado ele, de certa forma, também corta o laço que o unia a sua mãe. Com o desfecho dessa espécie de abandono involuntário sendo não menos do que trágico. Para a Ana adolescente (Kristel Diaz) também há um rompimento: Otto não é mais tido como uma figura masculina que substitui o pai. Ele tem voz própria. Que ecoará. Por anos, por mais de uma década. Em uma série de idas e vindas, de encontros e desencontros (ou de quase encontros, vá lá) em que tudo que parece ter sobrevivido é a memória do acontecido, a lembrança de algo arrebatador, a persistência de algo que nunca parece concluído de fato.

Otto e Ana. Ana e Otto. Dois nomes que podem ser lidos de trás pra frente como se lê de frente pra trás. Dois palíndromos. Dois fins que são começos, dois começos que são fins. Ou o contrário? Essa divagação filosófica que existe ali no andar de baixo da narrativa construída por Julio Medem se soma a outras extravagâncias visualmente metafóricas como o sol que, nos polos, nunca se põe, ou mesmo a ideia que a morte de alguém - mesmo de um ente querido - pode significar uma espécie de recomeço. Em outro local. Geográfico. Ou não. Enigmático, mas nunca pretensioso, o filme nos leva de lá pra cá como se estivéssemos diante de um filme de ficção científica dirigido por Pedro Almodóvar. Mas uma ficção discreta, não muito histriônica. Mas vibrante, ainda que a fotografia empalidecida, quase desbotada, possa sugerir o contrário.

Há, por exemplo, uma série de intervenções naturais ou não - seja de um vento forte e inesperado que aparece em um instante em que o coração acelera ou mesmo uma batida de carro meio boba, mas com enormes consequências -, que vão nos guiando de forma vertiginosa, em meio a instantes que flertam com o realismo fantástico (como no momento em que Otto, alucinando, tem a impressão de subir uma montanha gelada com esquis). Em outros segmentos a história de desenrola com uma fluidez plácida, com paciência, para que as coincidências possam ser melhor apreciadas pelo espectador - em meio a aviões de papel que, ali adiante, se converterão em um vôo real. Talvez não seja para todos os paladares, mas aqueles que se aventurarem encontrarão uma obra que fala de amor de uma forma nunca óbvia. E nos lembrando o tempo todo de que a vida, ao final, é essa grande coleção de fragmentos colados uns nos outros, recheados por situações inesperadas, caóticas, doces e amargas. tudo aquilo que converte a vida em uma experiência não menos do que mágica.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Pitaquinho Musical - Red Hot Chili Peppers (Unlimited Love)

Eu tentei, eu juro que tentei. Várias vezes, inclusive. Mas existe algo no novo disco do Red Hot Chili Peppers que faz com que tenhamos a impressão de que ele não ORNA com 2022. Sim, sabemos que a nostalgia vende, que há todo um clima "familiar" no retorno de John Frusciante depois de 15 anos longe da banda. Mas essa aura anos 90 de rádio rock em meio à fila de abastecimento no posto de gasolina (o combustível só aumenta, afinal) só parece meio deslocada no tempo. Até é muito provável que Unlimited Love, por mais inchado que seja com suas 17 faixas e 73 minutos de duração, não seja um trabalho desprezível - os fãs certamente se sentirão contemplados em bons hits como Aquatic Mouth Dance, Black Summer e These Are The Ways. Mas esse é o ano em que a gente assiste a Rosalía misturando música flamenca com jazz. Que o Big Thief converte o dream pop em uma espécie de mantra sobrenatural. E até que veteranos como o Tears for Fears se oxigenam para adentrar aos novos tempos. Assim, mesmo com quase 40 anos de existência, o RHCP soa apenas pálido com seu novo registro. Uma experiência que, por vezes, beira o marasmo. Por melhores que sejam as intenções.




Novidades em Streaming - Drive My Car (Doraibu Mai Ka)

De: Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima, Reika Kirishima, Masaki Okada e Toko Miura. Drama, Japão, 2021, 179 minutos.

Se Drive My Car (Doraibu Mai Ka) fosse uma torta daquelas bem vistosas que vemos nos balcões de padarias, certamente poderíamos compara-la com aquele doce coberto de merengue. E por mais que a gente não saiba exatamente o quê vai encontrar no recheio, vai saboreando com gosto cada garfada. Com calma, sem pressa. Sentindo a textura, tentando desvendar os ingredientes ou quais os sabores que aquela mistura evoca. Nas aparências, a obra do diretor Ryusuke Hamaguchi - vencedora do Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira nesse ano e que está disponível na plataforma Mubi -, é "apenas" mais uma grande reflexão existencialista que é salpicada por temas que envolvem arrependimentos, memórias, luto, persistência, destino e envelhecimento. Já em seu cerne, em suas vísceras, trata-se de um amplo tratado sobre a complexidade humana, sobre dores, anseios, desejos e frustrações. É, ao cabo, uma experiência cheia de nuances, de detalhes e de encaixes que mal parecem caber nas suas elásticas três horas de duração.

Como fio condutor temos a história de Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) um ator e diretor de teatro que, após uma bem sucedida temporada encenando o clássico de Beckett Esperando Godot, se prepara para as audições de uma adaptação de Tio Vânia, de Anton Tchekov (e aqui, na arrancada, só nos aspectos metalinguísticos dessas duas clássicas obras, já temos um sem fim de possibilidades intertextuais relacionadas à espera, paciência e desejo pelo desconhecido, banhadas em angústias, dúvidas e almas devastadas). Não por acaso, as longas e persistentes viagens de Yusufe à bordo de seu Saab 900, enquanto recria as falas da peça russa funcionam como uma espécie não apenas de expiação, mas também de manter a falecida esposa Oto (Reika Kirishima), como uma presença viva, palpável, diante da total impossibilidade de avançar para além do sentimento de culpa diante de decisões que podem ter contribuído para a morte da própria mulher.

Sim, Oto morre ainda no primeiro terço, quando os créditos iniciais ainda nem surgiram na tela, em decorrência de um aneurisma cerebral. Yusuke havia descoberto dias antes uma traição envolvendo um estagiário de Oto, que atuava em um dos programas de TV de grande sucesso roteirizado por ela. Ao optar por esconder o segredo que estava em seu conhecimento, o protagonista decide não confrontar esse passado que, invariavelmente, dialoga com o futuro de ambos. E ao retardar até o limite a possibilidade de diálogo, Yusuke enterra não apenas a esposa, mas também uma série de dúvidas e de questionamentos que, agora, serão praticamente impossíveis de serem acessados. Ou não. Já que quando o jovem Koji (Masaki Okada) ressurge na vida de Yusuke pleiteando uma vaga no elenco de Tio Vânia, esta poderá ser uma oportunidade de superar o luto e tentar entender o que pode ter acontecido dois anos antes.

Em paralelo a tudo isso, Yusuku precisa lidar ainda com a sua nova motorista - no caso a jovem Misaki (Toko Miura) - de quem, aos poucos, se aproximará. Dali, do inesperado, em meio as idas e vindas de carro entre o hotel e o local de trabalho, brotarão confissões a respeito de dores, de segredos e de uma série de outros sentimentos mútuos, que serão explorados sem pressa, de forma bastante sutil, estabelecendo a intimidade aos poucos, de maneira tópica. Aliás, assim como é a vida real. Assim como as mazelas não são arremessadas instantaneamente na nossa cara, as pequenas reconstruções de cacos envolvendo todos ali também não são - e é por isso que instantes comoventes como o do jantar mexem tanto conosco. São pequenas frações, detalhes minúsculos, que funcionam como uma grande colagem, montada em formato de quebra-cabeça. E é desse conjunto de sentimentos reprimidos, de sombras do passado que, aos poucos, vai se erguendo a força necessária para seguir adiante.

A vida, afinal, não é fácil. Ela é complexa, cheia de dores, de perdas, de conquistas, de acontecimentos aleatórios, inesperados, felizes e tristes. Cabe a nós todos termos a capacidade de elaborar em meio a tudo isso para uma convivência minimamente aceitável em sociedade. Segredos? Todos temos. Questões que nos invadem, nos incomodam, nos fazem sofrer. Mas como fazemos para prosseguir? Nas entrelinhas essas perguntas parecem martelar o tempo todo em Drive My Car e talvez seja por isso que sua metragem estendida pareça ainda mais longa do que o normal: é doloroso, mas magnífico, difícil mas libertador. Ao cabo trata-se de um filme monumental, gigante, que não alivia. Um road movie torto, sem muito espaço para exageros estilísticos. Que fica martelando dias depois. Direto, seco, mas saboroso. Assim como é aquele pedaço de torta que se revela por debaixo do merengue. Os prêmios não são por acaso. É um dos filmes do ano.

Nota: 9,5

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Novidades em Streaming - Turma da Mônica: Lições

De: Daniel Rezende. Com Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Monica Iozzi, Isabelle Drumond e Paulo Vilhena. Comédia / Aventura, Brasil, 2021, 90 minutos.

Vamos combinar que, pra galera que tá na faixa dos 40 anos - caso do jornalista aqui -, o que pega com a franquia Turma da Mônica, no cinema, é a nostalgia. Pura e simples. E isso torna praticamente impossível analisar esse Lições como analisaria qualquer outra obra. Porque aqui sou afetado por outro sentimento. Aliás, um sentimento que me faz abrir um sorriso de cinco em cinco minutos ao ser surpreendido pelo surgimento de algum personagem inesperado, por um easter egg ou por qualquer outro acontecimento que me faça retornar pra infância por alguns instantes. Poucas pessoas sabem, mas eu cresci acompanhado das revistinhas da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali. Talvez o Picanha só exista por causa deles, vai saber. O profissional de assessoria de imprensa sem dúvida que sim. Ler e, consequentemente, escrever, teve muito a ver com as histórias criadas por Mauricio de Souza.

Então, pessoal, entendam. É diferente. Já era no antecessor Laços. Segue sendo agora. O filme de Daniel Rezende é, afinal, só mais uma desculpinha qualquer pra reencontremos o carismático e inseparável quarteto formado por Mônica (Giulia Benitte), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo). Na trama, em meio a ensaios de uma peça baseada em Romeu e Julieta, os amigos se veem em maus lençóis quando, numa tentativa de escapar do escola, a Mônica tem uma queda de um muro alto, o que faz com que ela quebre o braço. O evento é o estopim para que os pais deles tomem uma drástica decisão que faz com que a dona do Sansão troque de colégio. É uma forma de tentar afastá-los um pouco, o que evitaria outras situações caóticas. Aos amigos que ficam resta a resignação - por mais que o Cebolinha agora tenha, efetivamente conquistado, o posto de "dono da lua". Quer dizer, isso quando ele não está sendo importunado pelo Tonhão da rua de cima.

Já para a Mônica em meio a uma tentativa e outra de amizade ela também é confrontada pelo valentão local, um certo Pedrão (Vitor Queiroz). Tudo piora quando o sujeito se apodera do Sansão e, bom, isso desperta sentimentos ambíguos no Cebolinha que, ao saber do caso, se vê impelido a resgatar o coelho de pelúcia da protagonista. Claro que tudo não passa de um belo pretexto pra uma série de mensagens sobre amizade, companheirismo, amadurecimento, respeito às diferenças. Em uma nova escola, Mônica precisa reaprender a se relacionar - já que está longe dos amigos de coração. Já no outro colégio, os demais tentam seguir em frente sem a liderança de Mônica. E conforme o filme se desenrola há um sem fim de situações que servem de desculpa para a inserção de outros personagens queridos pelo público - casos do Humberto, do Do Contra, da Marina, do Nimbus e até do Chico Bento (em uma inesperada aparição).

Contando com o apoio de rostos famosos no elenco adulto, como Monica Iozzi (Dona Luisa), Paulo Vilhena (Seu Cebola) e Felipe Castanhari (fotógrafo do bairro do Limoeiro), a obra também conta com a participação de Isabelle Drumond, que dá vida à Tina, em um dos segmentos mais simpáticos do filme - aliás, ela surge acompanhada do Rolo (com direito a cabelo azul e tudo), da Pipa e do Zecão, como um coletivo de hippies que primam pela sustentabilidade (outra mensagem). No mais, trata-se de uma obra que esbanja carisma e que é tratada por todos ali com muito carinho - inclusive pelo próprio Maurico de Souza que, do alto dos seus 86 anos, surge em uma ponta como o Tio da Cantina (e ver ele dizendo pra Magali, diante de sua inescapável voracidade, "quem foi que inventou essa menina?" é o tipo de piadinha tão boba quanto simpática). Pode reunir a família e dar o play sem erro. Tá disponível na Amazon Prime e todo o mundo vai curtir.

Nota: 8,0

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Pitaquinho Musical - Rosalía (Motomami)

Falar de relações de forma dramática, sexy, bem humorada, misturando reggaetown, jazz, samba, trap, flamenco e até canções de ninar. Parece tanta coisa ao mesmo tempo que, afirmar que Rosalía meio que reinventa a música pop com o elogiado Motomami, seu terceiro trabalho, não é exagero. Avançando um passo em relação ao já ótimo El Mal Querer - nosso 19º melhor na lista de 2018 -, a artista espanhola converte o registro em um amálgama de canções que se conectam ainda que, muitas vezes, pareçam tão diferentes entre si. Enquanto G3 N15 é uma pequena homenagem ao seu sobrinho - e sobre o mundo que ele enfrentará ao entrar na adolescência -, a envolvente Hentai fala de sexo de uma forma tão inesperadamente elegante (eu quero andar em você como ando na minha bicicleta [...] Eu quero te fazer hentai) que não é difícil entender porque ela é saudada como a vanguarda da música eletrônica. Ousado, classudo, global, esse é um disco que vai no limite entre a homenagem ao passado (Delirio de Grandeza) e o passeio pelo futuro (Saoko). Com uma parada exatamente aqui onde estamos: nesse mundo caótico, urgente e que clama por boa música.


Novidades em Streaming - Pequena Mamãe (Petite Maman)

De: Céline Sciamma. Com Joséphine Sanz, Nina Meurisse, Gabrielle Sanz e Margot Abascal. Drama, França, 2021, 72 minutos.

Existe uma cena no comecinho de Pequena Mamãe (Petite Maman), filme disponível na plataforma Amazon Prime, que dá o tom daquilo que encontraremos no novo filme da diretora Céline Sciamma (do incensado Retrato de Uma Jovem em Chamas). Nela, a pequena Nelly (Joséphine Sanz), de apenas oito anos, está no banco de trás do carro dirigido pela mãe (Nina Meurisse). Ambas estão retornando do funeral da avó da garota (Margot Abascal). Um momento de luto, portanto, para ambas. Como forma de tentar afagar a entristecida mãe, Nelly oferece a ela algumas unidades de salgadinho enquanto ela dirige. Lhe estica também até a sua boca, um gole de suco em caixinha. Um abraço envolve o pescoço da motorista, que esboça um sorriso. A forma ao mesmo tempo generosa e cheia de ternura com que Nelly se empenha em acarinhar a própria mãe comove. E estabelece um vínculo que permanecerá durante toda a narrativa.

Ao cabo, Pequena Mamãe é um filme, com o perdão do trocadilho, pequeno. São pouco mais de 70 minutos de uma jornada encantadora e lúdica sobre luto na infância, memória e formas de prosseguir. Após o falecimento da avó, Nelly vai com a sua mãe e o seu pai para a casa onde a primeira morou na juventude. Um local cheio de lembranças. Físicas, nostálgicas, em algum recanto do cérebro. Assim que chegam ao local, os adultos começam a arredar moveis, a mexer em objetos. Reconhecem uma pintura desgastada na parede que tinha algum significado. Riem. Quando vão dormir, a mãe comenta com a filha sobre os medos que tinha quando era pequena. De coisas desconhecidas, de aparições na beira da cama - ela cita uma pantera que surgiria aos seus pés. A menina adormece ao lado da mãe. Que no dia seguinte desaparece. A nós espectadores a incerteza. A mãe morreu? Ou apenas saiu dali?

Quem nunca passou, quando criança, pela curiosa situação de conviver com uma "mentirinha de adulto". Especialmente quando o assunto é a morte, alguém doente, um assunto qualquer que seja mais sério, mais duro. Ainda que necessário. Após o desaparecimento da mãe, Nelly vai para o mato ao redor da propriedade, onde pretende descobrir o local em que fica uma espécie de cabana junto a uma árvore, que havia sido construída por sua mãe na juventude. Quando identifica essa casa improvisada, Nelly encontra também a jovem Marion (Gabrielle Sanz), também uma menina de oito anos bastante parecida com ela. Ambas estabelecem uma amizade, brincam juntas, riem enquanto fazem panquecas ou ensaiam uma peça de teatro. Vida e arte se misturam, assim como passado, presente e futuro. Na imaginação das crianças não há muita lógica. Há apenas os caminhos percorridos que as permitem sobreviver nesse mundo tão cheio de dor.

Com sutileza, com elegância Céline Sciamma constroi uma obra de fotografia granulada, que se aproveita dos cômodos da casa para a criação de um ambiente labiríntico, mas que funciona como espaço físico que evoca memórias. O "segredo" talvez não seja assim tão complicado de se desvendar, mas isso é o de menos, já que o que importa aqui é a visão juvenil para suportar a dor, a doença, o luto. Pra nós nunca fica claro se Nelly está sonhando uma fantasia onírica, com Marion sendo uma espécie de amiga invisível que lhe permite a expiação. E os adultos, nessa equação, não ajudam muito, com seu comportamento discreto, pouco evidente. No final, Pequena Mamãe é um filme não tão fácil, mas que fica em nossa mente no momento em que os créditos sobem. A vida é complicada, afinal. E a forma como elaboramos as nossas mazelas é o que faz com que tenhamos motivação pra seguir em frente.

Nota: 8,5