quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Cinema - Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu)

De: Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Luàna Bajrami, Adèle Haenel e Valeria Golino. Drama/Romance, França, 2019, 121 minutos.

A paixão é um dos sentimentos mais fascinantes e contraditórios que a raça humana pode experimentar. Quando nos encantamos por uma pessoa, imediatamente criamos expectativas e idealizações em nossa mente e, por mais provavelmente errado que estejamos, é isso que torna aquilo que sentimos - e imaginamos - perfeito. Com todo o entusiasmo e a graça de se encontrar apaixonado existe também o seu efeito colateral: a ausência da pessoa amada causa angústia, dor, os minutos passam numa velocidade impressionantemente reduzida e a sensação de dependência torna-se quase patológica. Até que ponto vale a pena alimentar este sentimento que consome tanta energia de nossos corpos e dias? E mais, é possível evitar quando este se aproxima? Se num acaso do destino cruzamos e compartilhamos momentos com alguém, vale a pena deixar de se entregar às custas de evitar um sofrimento futuro, ou a beleza das memórias geradas compensam qualquer sacrifício?

Essas e muitas outras reflexões me vieram à mente no belíssimo e sensível Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu), escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma (Tomboy). Na trama, que se passa no século 18, a pintora Marianne (Merlant) é contratada por uma condessa (Golino) para ir até uma ilha pintar um retrato da filha Héloïse (Haenel), que está prometida em casamento para um rapaz italiano. Acontece que o retrato deverá ser feito sem ela saber, pois será enviado ao futuro marido - casamento este que, diga-se de passagem, vai contra o interesse de Héloïse. Com isso, Marianne é apresentada como companheira de passeios e, aos poucos, a amizade das duas se fortalecerá culminando no sentimento acima descrito. Junta-se a elas a jovem governanta Sophie e temos o núcleo central deste filme com ecos do cinema bergmaniano.


De ritmo lento, praticamente sem trilha sonora e com poucos diálogos, a diretora opta por tratar sua obra exatamente como uma pintura: seja pela fotografia majestosa nas tomadas externas, onde o mar revolto, as montanhas e esconderijos ajudam a ilustrar a turbulência interior das personagens (algo pouco original, mas eficaz em sua beleza plástica), ou nos closes e pequenas revelações que, de forma sutil, entregam muito mais do que diálogos expositivos - e é maravilhoso perceber o florescimento desta paixão em detalhes como um gesto de mão ou um sorriso inesperado. A quase onipresença do fogo em cena reforça ainda mais aquilo a que a dupla principal está destinada: se o calor da paixão acalenta, é a dor decorrente da proximidade que queimará seus corpos e almas, aqui representada pelo pouco tempo que resta (o que me lembrou do episódio Hang the DJ da série Black Mirror) para que ambas se separem e retornem à vida que a sociedade patriarcal exige (lembre que estamos no século 18, época de casamentos arranjados e onde mulheres não podiam retratar homens nas pinturas). Além disso a obra ainda trata de temas como depressão e aborto do ponto de vista da mulher (quase não aparecem homens durante o filme), o que confere uma carga dramática ainda maior para o que seria uma "simples" história de amor.

E o que torna o filme tão especial é justamente a forma de contar e transmitir algo tão universal e marcante para aqueles que tiveram a oportunidade de amar e, consequentemente, sofrer - não é à toa que o mito de Orfeu e Eurídice é citado literalmente, oferecendo uma boa dica sobre aquilo a que estamos assistindo. Ademais, as interpretações de Merlant e Haenel trazem a química necessária para que acreditemos naquilo que estamos vendo, e a cena em que ambas estão deitadas olhando uma para a outra é ainda mais tocante quando percebemos o quão difícil é querer guardar uma memória de algo que não sabemos se voltaremos a ter um dia e, na impossibilidade de congelar o tempo, sentir que os minutos correm ainda mais depressa na presença de quem amamos. Memórias essas que podem virar pinturas, que podem fazer parte de outras pinturas, de forma a eternizar um segredo íntimo de um sentimento tão raro de existir entre duas pessoas cuja sorte/acaso/destino/circunstância uniu, e cujo final dilacerante e belo deste filme faz questão de lembrar.

Nota: 9,5


Nenhum comentário:

Postar um comentário