terça-feira, 7 de julho de 2020

Cine Baú - Rashomon (Rashomon)

De: Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Machiko Kyô e Kichijiro Ueda. Drama, Japão, 1950, 88 minutos.

Um dos roteiros mais engenhosos da história do cinema, o clássico Rashomon (Rashomon), de Akira Kurosawa, segue, 70 anos depois de seu lançamento, como um formidável exercício de estilo que brinca o tempo todo com a nossa percepção a respeito do que verdadeiramente teria acontecido no cenário de um assassinato. Trata-se de uma obra em que a lógica daquilo que assistimos se modifica o tempo todo, nos gerando incertezas que podem ser fruto de conclusões precipitadas - ou não. Ao cabo, é uma película que analisa o próprio fazer cinematográfico a partir do deslocamento da narrativa, com seus vários ângulos sendo sutilmente explorados. Na trama, um casal - um samurai e sua esposa -, são atacados por um bandido, que estupra a mulher. Pior, os motivos da morte do homem jamais ficam claras: ele foi realmente assassinado? Ou se suicidou? Pior ainda, teria a própria mulher investido contra ele, incapaz de lidar com a desonra praticada ao matrimônio?

Curioso, divertido e até exagerado, o filme começa com um encontro inusitado entre um lenhador (Takashi Shimura), um padre (Minoru Chiaki) e um plebeu (Kichigiro Ueda) que, impossibilitados de sair das ruínas de um tempo por causa de uma tempestade, resolvem divagar sobre a perturbadora história da morte relatada acima. Contada pelo lenhador, a história da conta de um tenebroso ataque em meio a floresta: sobram apenas alguns apetrechos da mulher que teve sua vida invadida, um chapéu, um sapato, um pedaço de corda. Em frente a uma espécie de tribunal, o relato impacta, mas não convence. Há outras possibilidades, outros caminhos, que mudam totalmente a perspectiva. Mudam, inclusive, o comportamento dos envolvidos, que podem sair de figuras alucinadas e irracionais (como é o caso do bandido Tajomaru, vivido por Toshiro Mifune), que em outros momentos surge como uma figura de modos plácidos e seguros.


Até mesmo o morto ressurge no formato de contato mediúnico através de uma "encarnação" feita pela própria ex-mulher, pra dar a sua versão do ocorrido. Há discrepâncias e incertezas que se movimentam o tempo todo e que nos impedem de, efetivamente, conhecer a verdade dos fatos. Quando o filme termina, o que permanece muito mais é a abordagem das possibilidades narrativas, do que qualquer certeza que possa ser redentora para aqueles que assistimos. E é ao retratar às personagens sem julgamentos ou maniqueísmos, que a trucagem ganha força. Nem todo mundo é bom e mal o tempo inteiro. Um homem pode cometer um roubo, se arrepender e se reintegrar a vida em sociedade. Nesse sentido, vítimas inocentes podem passar à figuras frívolas em um instante, o mesmo valendo para os corajosos guerreiros que, diante da iminência de uma batalha, podem se reconfigurar em figuras covardes e patéticas.

Utilizando a parte técnica em favor da narrativa, Kurosawa preenche cada cena com um bucolismo que contrasta com a violência dos acontecimentos. Em meio à floresta, a fotografia em preto e branco confunde a nossa visão - as vezes às personagens quase somem em meio a folhas e galhos -, ao passo que o calor escaldante é materializado no suor constante e nos ataques de insetos, especialmente a Tajomaru, que passa boa parte do tempo tentando matar mosquitos que lhe atacam. Aliás, Mifune, tradicional colaborador do diretor, dá mais uma aula de atuação, mesclando loucura e placidez, contribuindo para a confusão e para a neurose narrativa que se estabelece - e que nos enche de incertezas. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme pavimentaria o caminho para que o diretor japonês realizasse os seus grandes clássicos, casos de Os Sete Samurais (1954), Kagemusha (1980) e Ran (1985), que formariam, junto com tantos outros grandes títulos, uma das mais consagradas filmografias de todos os tempos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário