quarta-feira, 29 de maio de 2019

Pérolas da Netflix - My Happy Family (Chemi Bednieri Ojakhi)

De: Nana Ekvtimishvili, Simon Groß. Com Ia Shugliashvili, Merab Ninidze, Berta Khapava e Dmitri Oragvelidze. Drama, Geórgia, 2017, 118 minutos.

Quando o espetacular My Happy Family (Chemi Bednieri Ojakhi) começa, a protagonista Manana (Ia Shugliashvili) está de aniversário - completa 52 anos. De presente? Uma casa apertada, caótica, atrolhada de gente. Gritos para todos os lados, reclamações, mal estar. Não há diálogo. Dois filhos - um deles desempregado, fica o dia inteiro no computador. O pai doente e a mãe preocupada com uma janta para convidados, que Manana não deseja. Um buquê de flores protocolar do marido Soso (Merab Ninidze). Mais um dia de trabalho. De vida vazia. De solidão em meio a multidão. "O que aconteceu? Até parece que morreu alguém", pergunta o marido lá pelas tantas, enquanto uma cantoria melancólica é a trilha sonora para uma festa de aniversário desajeitada. Manana não responde. Ninguém morreu fisicamente, claro. Quem está morta é a própria, naquele microcosmo que só existe por causa das convenções sociais. Ainda mais em uma sociedade patriarcal como a da Geórgia.

Mas Manana está disposta a quebrar a lógica dessas convenções e resolve, simplesmente, sair de casa. Ela é professora de literatura, gosta de artes, deseja um pouco de paz agora que os filhos já são adultos e podem se virar. Um casamento infeliz? Pra que continuar. Em sua nova casa - um simpático apartamento que dá de frente para um arvoredo bucólico, revigorante - organiza as coisas. Arruma tudo. Senta com um pedaço de bolo, enquanto uma sonata de Mozart toca ao fundo. O livro em cima da mesa aguarda para ser lido. A ventania iluminada da rua é a metáfora perfeita para uma vida que reinicia. Ou que ao menos tenta reiniciar, já que nenhum de seus parentes entende a decisão tomada por Manana. A sua mãe Lamara (a ótima Berta Khapava), fala na vergonha que a situação gerará para todos. O irmão Rezo (Dmitri Oragvelidze) está preocupado com o futuro da irmã recém separada. Mas ninguém parece preocupado (ou pergunta, que seja), o que Manana está sentindo. Sim, é difícil, mas ela vai superar, com certeza.


A comoção causada pela ruptura de um elo familiar desgastante, histriônico, com seis, sete pessoas convivendo as turras debaixo do mesmo teto, gerará uma série de constrangimentos futuros para Manana. Qualquer motivo besta será ocasião para um reencontro desnecessário, com tios, pais e outros passando por verdadeiros papelões dramáticos, na intenção de fazer a protagonista retornar ao tal "lar feliz" do título. Manana saiu de casa mas não se mudou. Ela apenas não quer mais aquela vida. Não precisa ser vilã - ainda que muitos tentem lega-la a esse papel. E acaba vendo na sua jovem filha Nino (Tsisia Qumsisvili) um espelho dela própria. Nino deseja casar, ter filhos e seguir o papel destinado as mulheres de sua sociedade. Aliás, se angustia com a gravidez que não chega, enquanto Manana tenta alertá-la para as outras possibilidades existentes na vida, para além de simplesmente ser dona de casa e ter um filho: estudar, trabalhar, viajar, ter independência. Pequenas conquistas que, agora desamarrada, 35 anos após, a protagonista está também alcançando.

Quem defende a família acima de todas as coisas talvez se incomode com a naturalidade com que o roteiro da dupla de diretores se ocupa de desnovelar o sonho da realização familiar que nem sempre chega. "Não há famílias sem problemas no mundo", argumenta um dos personagens em meio a uma discussão que tenta demover Manana de sua decisão, ao que ela responde divertida "não sabia que meu marido tinha tantos fãs, de uma hora pra outra, na família". É uma obra pequena, mas conduzida com inteligência, desenvoltura. Os longos planos sequência transformam o espectador em uma figura íntima daqueles que assistimos - e, diga-se, bastam apenas três minutos de filme para desejarmos fazer o mesmo que Manana faz. As cores inicialmente empalidecidas, melancolicamente amareladas da vida da mulher, vão aos poucos dando lugar a tons mais quentes, a vestidos mais bonitos, coloridos. É uma frase antiga aquela de que nunca é tarde para ser feliz. Mas se fosse resumir o filme a uma sentença, seria essa. Não significa abandonar ninguém, ser vilão e sim apenas revisar algumas tomadas de decisão. E procurar fazer melhor dali pra frente. Vale o mesmo para o marido, como atesta a ambígua cena final.

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