segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Cine Baú - Taxi Driver (Taxi Driver)

De: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Jodie Foster, Cybil Shepherd e Harvey Keitel. Drama / Policial, EUA, 1976, 115 minutos.

Poucas vezes a transformação de um desajustado social em um sujeito reacionário, intolerante e fascista foi tão marcante - e, de alguma forma, sutil - como no caso de Taxi Driver, primeiro grande filme do diretor Martin Scorsese. O homem em questão é um veterano da Guerra do Vietnã, que responde pelo nome de Travis Bickle (Robert De Niro). Sofrendo de uma intermitente insônia, Travis, um sujeito solitário em meio a grande metrópole, consegue trabalho como taxista no turno da madrugada nova-iorquina - atividade que possibilitará um contato maior com prostitutas, drag queens, bichas, maconheiros, viciados, cafetões, sodomitas, insanos, corruptos e toda a sorte de sujeitos que vivem a margem da sociedade. E que compõem a fervilhante vida noturna da cidade - a qual ele considera, em suas palavras, a escória, ou mesmo o esgoto a céu aberto, que deveria ser limpo pelas "famílias de bem" ou mesmo pelos governantes.

Conforme os dias vão passando e o contato com todo o tipo de miséria humana, de vício e de violência vai aumentando, também o sentimento de revolta e de conflito interno se intensifica a cada nova curva moribunda ou claustrofóbica feita pelo taxista. Os encontros com os colegas de profissão em um restaurante 24 horas da periferia, ou mesmo os dias de solidão em que o sujeito rabisca as suas vivências em uma espécie de diário, jamais servem para que a ansiedade seja amenizada. Não à toa, em uma das mais famosas cenas dessa verdadeira obra-prima, Bickle pede um sal de frutas, para que as disfunções do sistema digestivo - tão diretamente ligadas a problemas emocionais - possam ser controladas. A tomada em close do copo, enquanto a pastilha borbulha pelo contato com a água, nada pode representar de diferente, do ponto de vista da metáfora, do que o sentimento do taxista diante daquilo que ele presencia em cada uma de suas imprevisíveis noites de trabalho.



A situação piora quando Travis conhece - e se apaixona - pela bela Betsy (Cybill Shepherd), que trabalha na campanha de um senador que pretende concorrer para o cargo de presidente. Um convite desastroso para uma sessão de cinema pornô logo no primeiro encontro é o gatilho para que venha à tona, também, toda a raiva, o ódio, a misoginia e o machismo do sujeito - incapaz de lidar com a negativa de uma mulher, por mais óbvia que esta fosse, diante de sua proposta um tanto quanto desqualificada. Sozinho, sem amigos de verdade, ou com uma namorada para chamar de sua, o homem, a beira do delírio e da esquizofrenia, resolve fazer o que qualquer pessoa (a)normal faria numa situação dessas: comprar quatro armas na América livre. Sim, Travis está de saco cheio do mundo - e com os sujeitos erráticos que nele vivem e o cercam - e resolve criar um "grupo de extermínio de um homem só", para tentar limpar a cidade.

Diga-se de passagem, a cena em que De Niro aparece transformado nesse "novo sujeito" - utilizando um cabelo moicano, aliado a roupa de militar (ao estilo "futuro adepto de Donald Trump") e ao comportamento obviamente tomado pela perturbação mental - está, desde sempre, entre as mais famosas do cinema. A propósito, a famosa sequência do you talking to me?, tão parodiada e imitada, foi totalmente improvisada pelo ator - em mais um dos pequenos momentos de grandeza em sua caracterização, capaz de equilibrar energia e insanidade, torpor e violência. Mesmo nas horas em que Travis resolve fazer "justiça com as próprias mãos", tentando resgatar uma jovem prostituta (Jodie Foster, aos 13 anos de idade) das mãos de um cafetão (Harvey Keitel), o ato de heroísmo (!) é feito de maneira torta, insensata e extremista - e que deixará um rastro de sangue por onde quer que passe o sujeito. (e não deixa de ser interessante o ponto de vista dado ao ato pela mídia, quase ao final do filme, o que dá uma dimensão de como pensam os veículos de comunicação que compactuam com a lógica do "bandido bom é bandido morto", tão presente até os dias de hoje)



Pra quem gosta de filmes que tenham um certo charme-retrô não deixa de ser fascinante assistir, ainda, as andanças de Travis pela madrugada, em que o seu silêncio (e seu rosto taciturno mostrado em close pelo espelho retrovisor) funciona como um contraponto ao barulho e a balbúrdia das movimentadas noites da cidade - com seus bares, cinemas, casas noturnas e livrarias. E a se a fotografia amarela e granulada contribui para esse sentimento, também a trilha sonora de Bernard Hermann - em seu último trabalho, antes de falecer em dezembro daquele ano - funciona, com suas notas onipresentes e abafadas, que conferem vida a cada instante da existência caótica de Travis. Scorsese, que mais tarde viria a filmar uma série de obras-primas - entre elas Touro Indovável (1980), Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995) - faturaria com Taxi Driver - e seu estilo cru e cheio de personalidade - a Palma de Ouro na categoria Melhor Diretor, pavimentando o caminho para uma das mais sólidas e duradouras carreiras do universo cinematográfico. Já o filme, segue sendo um dos mais queridos não apenas pelo público, mas também pela crítica, com presença em listas diversas, como a da Sight and Sound Magazine ou mesmo entre os 100 Filmes Fundamentais do American Film Institute (AFI). Um verdadeiro Cine Baú!

Um comentário:

  1. Tiago, este eu ainda não assisti. Mais um para a quilométrica lista.

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