quarta-feira, 28 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Entre Tempos (Ricordi?)

De: Valerio Mieli. Com Linda Caridi, Luca Marinelli e Giovanni Anzaldo. Drama / Romance, França / Itália, 2018, 106 minutos.

"Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!". A frase é antiga, atribuída ao escritor Miguel de Cervantes, mas encaixa como uma luva na narrativa que acompanhamos em Entre Tempos (Ricordi?) - um romance de estilo meio "pastoso" que segue disponível na Mubi (é a última semana em cartaz). Na trama temos uma experiência labiríntica, caleidoscópica, de idas e vindas e de como podemos ser traídos pelas nossas lembranças. Especialmente quando o assunto são os relacionamentos. Basta pensar como parece agir o nosso cérebro diante de um iminente rompimento: as recordações parecem floreadas, vívidas, primaveris. Como se houvesse um embate, uma luta capaz de apagar os piores momentos, fazendo com que nos foquemos nos instantes mais belos do amor. Sim, tudo pode estar desabando. Mas será que ainda assim não valeria a pena tentar? Quem nunca? A exceção de quem viveu grandes traumas quando o tema é a paixão, a impressão que temos é a de nos enganarmos por vezes. Ou não?

Quem não se lembra, por exemplo, do esforço homérico do personagem de Jim Carrey no ótimo Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) para simplesmente deletar de sua memória a sua tão amada Clementine (Kate Winslet)? No filme delirante, surrealista e divertido de Michel Gondry tudo corre mais ou menos bem na cabeça do protagonista. Ao menos até chegar a hora de apagar as primeiras memórias. Que nesse caso são as últimas. Como a engenhoca opera de trás pra frente, ela começa na pior parte de uma relação em frangalhos. Para retroceder até o princípio idílico onde rolam os primeiros encontros, a paixão, os pontos em comum, o tesão. No caso da obra italiana de Valerio Mieli a vida real não envolve tecnologias avançadas de apagamento de memórias. E elas estarão lá. Boas, ruins, nos atormentando ou nos fazendo sorrir. Mexendo conosco, com o nosso íntimo. Expondo as nossas fragilidades, com a sua completa falta de lógica.

Aqui, acompanhamos duas pessoas de personalidades completamente opostas que se aproximam em uma festa ao ar livre daquelas tipicamente bucólicas (e inadvertidamente italianas). Lui (Luca Marinelli) é o sujeito introspectivo, que parece ter uma predileção pela melancolia, pelo niilismo e até por certo pessimismo. Já Lei (Linda Caridi) é a jovem cheia de vida, sempre com um sorriso magnético no rosto, daquele tipo de garota que, por onde passa, parece contaminar a todos com seu otimismo irresistível. Duas almas tão distintas podem se apaixonar? Podem se amar e ter planos? Bom, não é preciso ser nenhum especialista pra saber que essas coisas não se escolhem. Elas simplesmente acontecem. Ainda que o que vá determinar a solidez ou não de uma relação sejam outros aspectos. Uma paixão pode esvanecer com o passar dos anos. Empalidecer. Pessoas podem deixar de amar. Mas não de gostar. Mieli, em sua narrativa fracionada, fragmentada, trata de todas essas complexidades. De uma forma pouco convencional.

Intercalando uma série de flashbacks com cenas mais atuais, assistimos as várias etapas que compõem a vida de um casal - a relação com as famílias, os planos juntos, mudanças, risos e choros, perdas, dores, anseios, sonhos compartilhados. É um filme bonito e triste e que jamais idealiza o amor ou olha para o passado com uma esperança inevitável de salvação. Utilizando uma série de recortes, de pequenas peças, o diretor forma uma verdadeira colcha de retalhos ao mesmo tempo em que brinca com a fotografia (que pode ir de ensolarada a acinzentada em segundos), com os figurinos (que se modificam às vezes na mesma cena) e até com as memórias em si - que podem ter seu ângulo alterado, de acordo com quem está narrando a história. Pode ser uma experiência não muito fácil e pouco convencional, mas que funciona por possibilitar um olhar carinhoso para as marcas deixadas por aqueles que percorrem as nossas existências - e não é por acaso que a dupla central também parece guardar na memória fragmentos de outras relações (que, inclusive, lhes confundem). Intensa, insinuante, não muito lógica, essa é daquelas produções eventualmente filosóficas e levemente experimentais, que tentam tratar seu tema para além do óbvio. É um mérito, inegavelmente.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Sobre Meninos e Lobos (Mystic River)

De: Clint Eastwood. Com Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Marcia Gay Harden, Laura Linney e Laurence Fishburne. Drama / Suspense / Policial, EUA / Austrália, 2003, 139 minutos.

"Você já pensou em como uma pequena escolha pode mudar uma vida inteira? Ouvi dizer que a mãe de Hitler queria aborta-lo. No último minuto ela mudou de ideia. Entende o que quero dizer?" A pergunta feita por Jimmy Markum (Sean Penn) ao policial Sean Devine (Kevin Bacon), após uma das mais brutais sequências do clássico moderno Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) é daquelas pra nos deixar no mínimo com uma pulguinha atrás da orelha. Quantas vezes já não pensamos em como certas atitudes nossas podem ter sido determinantes para que os fatos ocorressem desta ou daquela maneira? Quando Sean questiona a Jimmy o que, exatamente, ele está querendo afirmar, tem como resposta: "e se você ou eu tivéssemos entrado naquele carro em vez de Dave Boyle?" Essa, ao cabo, parece ser uma dúvida que acompanhará não apenas os protagonistas da obra dirigida por Clint Eastwood, mas também o espectador. As coisas poderiam ter sido diferentes?

A cena a que Jimmy se refere é vista ainda no começo do filme e se passa na juventude dos três meninos. O ano é 1975 e Jimmy, Sean e Dave estão jogando hóquei em uma rua isolada de um bairro de Boston. Após perderem a bola dentro de um bueiro, resolvem fazer uma galinhagem: escrever seus nomes com gravetos, em uma calçada recém concretada. É o instante em que surgem dois homens - supostamente policiais - que passam uma carraspana nos garotos. Pior do que isso: obrigam Dave a entrar no carro deles. Não demorará para que percebamos não se tratarem de agentes da lei e sim de sequestradores, que trancam o menino em um cafofo para cometer uma série de abusos sexuais. Após quatro dias Dave consegue fugir. Mas como levar uma vida de normalidade, depois de um trauma tão violento? A história salta no tempo, para 25 anos no futuro. Onde um novo evento, no caso um assassinato brutal de uma jovem de apenas 19 anos, fará com que suas vidas se cruzem novamente.


Resumir um filme como Sobre Meninos e Lobos em meia dúzia de palavras é complicado porque se trata de uma experiência muito completa, muito bem costurada. Muito rica do ponto de vista do suspense policial e do drama familiar - aqui, adaptado do livro de Dennis Lehane que, dizem, é ainda melhor (não li). Amadurecer em um contexto de violência é chegar na vida adulta com uma série de abalos emocionais que parecerão estar eternamente incrustados no inconsciente. Dave, por exemplo, tenta levar uma vida mais ou menos normal - é um operário casado com Celeste (Marcia Gay Harden) e tem um filho pequeno. Só que em certa madrugada chega em casa com as mãos ensanguentadas e ferido nas mãos e no peito. Desesperado, explica pra esposa que teria escapado de um assaltante, com quem entrou em luta corporal. Só que quando amanhece o dia há um novo problema: na mesma madrugada a filha de Jimmy, Katie (Emmy Rossum) é assassinada. Katie estava em um bar com as amigas na noite anterior. Dave estava no mesmo local. As coisas poderiam ser diferentes?

Sean entra em cena como um detetive do Estado que investigará o crime. E tentará montar o quebra-cabeças que envolve todos eles. Em meio a isso Jimmy está naturalmente furioso - e, como ex-presidiário com um pé na criminalidade, destaca alguns parceiros meio barra pesada para uma investigação paralela. Que os levará ao jovem Brendan (Tom Guiry), um candidato a namorado de Katie, com quem a jovem pretendia fugir dali. Parece tudo meio complexo e, de fato, são muitos os personagens. Mas a adaptação foi tão bem sucedida que não apenas receberia uma série de indicações ao Oscar de 2004, como ainda faturaria o prêmio nas categorias Ator (Penn), Ator Coadjuvante (Robbins) - e isso num ano em que a Academia só tinha olhos para Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei (2003). Tenso, revoltante e surpreendente (o final é daqueles pra explodir o cérebro), a obra ainda nos lembra o tempo todo de que a sanha punitivista e o senso de justiça a qualquer preço podem gerar equívocos irreparáveis. Méritos de Clint Eastwood, em mais uma grande produção sob seu comando.


Curta Um Curta - Big Bang

De: Carlos Segundo. Com Giovanni Venturini e Aryadne Amancio. Drama, Brasil / França, 2022, 14 minutos.

Nesse simpático curta-metragem dirigido por Carlos Segundo (de Sideral, 2021) a Teoria do Big Bang - aquela que versa sobre a expansão do Universo a partir de um ponto muito quente e denso em algum tempo do passado - é a metáfora perfeita para a história de Chico (Giovanni Venturini), um anão que trabalha consertando fornos. Como não poderia deixar de ser, esse carismático protagonista sofre todos os tipos de preconceitos - não apenas pela sua diminuta altura, mas também por seu ofício (ele só parece ser um indivíduo quando está a serviço de alguém). Um evento meio inusitado - um engavetamento de veículos em que ele se torna o único sobrevivente - será o ponto de partida para uma mudança de perspectiva para Chico. Especialmente após ele conhecer a diarista Marta (Aryadne Amancio), nos corredores do hospital em que ambos aguardam atendimento. Será o instante daquela faísca, que inicia a expansão. Big Bang, que está disponível na Mubi, faturaria o prêmio de Melhor Curta de Autor no Festival de Locarno. Não foi por acaso.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

Novidades em Streaming - Beau Tem Medo (Beau Is Afraid)

De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Parker Posey, Patty LuPone e Amy Ryan. Comédia / Drama, EUA / Canadá / Finlândia, 2022, 179 minutos.

Joaquin Phoenix interpretando um adulto infantilizado mergulhado em traumas edipianos, tentando superar uma série de tragédias familiares - entre elas as que envolvem a conturbada relação com a própria mãe. E, como se não bastasse tudo isso, uma experiência filmada por Ari Aster - de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019). Tem como dar errado? Bom, aí vai de cada fã de cinema. Afinal são três horas extravagantes, divertidas, excêntricas e ousadas. Com um tipo de narrativa menos convencional que o habitual - o que talvez exija uma paciência um pouco maior. Ao cabo, Beau Tem Medo (Beau Is Afraid) é aquele tipo de obra que costuma dividir opiniões. Quem gostar vai considerar essa uma excelente alegoria para as manifestações psicológicas e os consequentes transtornos mentais que decorrem de uma mãe castradora e narcisista. Já aqueles que não simpatizarem tenderão a achar apenas entediante ou presunçoso. Um meio termo? Talvez.

Na trama, Beau Wassermann (Phoenix) é o sujeito solitário, filho de uma ricaça, que reside em um bairro tomado pela criminalidade (o caos do entorno é tão sufocante que o simples ato de entrar em seu apartamento é um desafio). Em meio a visitas ao psiquiatra e uma rotina de poucas novidades, Beau programa uma viagem para visitar a mãe, como forma de "comemorar" o aniversário de morte do próprio pai. Só que depois de uma madrugada mal dormida em que Beau é confundido com o vizinho que está com o som alto no prédio, o protagonista perde não apenas o voo, mas também a sua bagagem e as chaves de casa, que são roubadas na cara dura. Quando Beau liga pra sua mãe pra explicar todo esse contexto, ela faz pouco caso. Mais do que isso, inicia um processo de chantagem emocional que apenas ampliará o sentimento de ansiedade de Beau. Com tudo piorando no dia seguinte quando, em nova ligação, Beau descobrir que sua genitora está morta. Em um trágico acidente doméstico envolvendo a queda de um lustre.


Nessa altura do campeonato a gente já não sabe mais o que é coisa da cabeça de Beau, o que é trauma, ou o que é o simples desejo de fuga dos conflitos familiares. Para Mona Wasserman (Patti LuPonne) seu filho parece ser sempre alguém em dívida com ela. Ela lhe deu a vida, o que talvez lhei deixe na obrigação de atender seus desejos de forma incondicional. Mesmo que esse "desejo" seja uma simples visita. A mala e as chaves perdidas por Beau, assim como a demora pra acordar e pegar o voo no dia da viagem podem ser apenas uma desculpa verdadeira de quem efetivamente não conseguiu cumprir o combinado. Mas será mesmo? Será que no inconsciente desse sujeito tão perturbado, seus traumas que envolvem quartos escuros e uma mãe que sequer lhe deixava namorar sob a desculpa de ele ter uma grave doença no coração -, não são apenas a manifestação mais concreta de quem simplesmente não quer ir ao encontro da própria mãe? Por quê, se ele vai simplesmente sofrer - ou ser cobrado - ele iria?

Sim, a narrativa é cheia de buracos pra gente preencher com as nossas percepções, com a nossa bagagem, com a nossa história. Relações complexas com a mãe? Que chame Freud quem nunca teve alguma dificuldade. No percurso de Beau ele passará por tudo quanto é dissabor - que vão de um atropelamento, passando por uma fuga desesperada até chegar a um encontro inusitado com um grupo de atores itinerantes no meio da floresta. Todos esses elementos parecem se converter em pequenas pecinhas do quebra-cabeças que nos ajudarão a compreender não apenas o que aconteceu de fato com o pai de Beau em sua juventude, mas também como se comportava verdadeiramente a sua mãe no período. O que fará com que a gente entenda, ao menos em partes, os motivos de Beau querer fugir o tempo todo de Mona. Ou ao menos fugir dessa visita. E depois se arrepender. E tentar ir ao seu encontro de qualquer maneira. E se sentir livre. E viver. Não é uma experiência fácil e a impressão que se tem é que cada um que assistir vai dar ao filme uma interpretação. Isso não é ruim - ainda que possa sugerir que as ideias estão apenas espalhadas. Mas é uma obra que tem seu ponto, soberbamente executada do ponto de vista técnico, e que nos deixa em suspense em boa parte do tempo. Mesmo que esse tempo dure três horas.

Nota: 8,0


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Picanha em Série - Black Mirror (6ª Temporada)

Vamos combinar que talvez desde a terceira temporada a série Black Mirror já não nos comove tanto. Provavelmente a realidade anda tão dura, tão no limite do absurdo - em meio a guerras, pandemia e ascensão de grupos extremistas de direita -, que uma antologia que debate os limites do uso da tecnologia e na discussão de questões éticas, políticas e sociais da contemporaneidade, talvez não seja mais nenhuma novidade. Em meio a inovações como o Chat GPT, assistentes virtuais com recomendações personalizadas, deepfake, realidade aumentada e até mesmo stalkerwares (que permitem monitorar pessoas a distância), a impressão que temos nesta sexta temporada da série idealizada por Charlie Brooker foi a de que alguns episódios foram "menos Black Mirror que o padrão Black Mirror". É divertido de assistir? É. Dá pra passar sem ver? Talvez. Nós do Picanha assistimos aos cinco episódios e aqui damos o nosso veredicto.

Joan is Awful: esse aqui tem uma premissa sensacional que, infelizmente, na reta final soa meio apressado e até mesmo, vá lá, excessivamente debochado (ok, fazer graça pode ser uma boa, mas eu senti falta de uma imersão maior que nos conduzisse para além do rasinho em relação as consequências do que assistimos). Na trama Joan é uma CEO de uma empresa de tecnologia que é surpreendida quando percebe que os eventos de sua vida estão, literalmente, sendo recontados em uma série de uma plataforma de streaming (um certo Streamberry, que parece tanto a própria Netflix, que tem até o tradicional "tudum"). Ao contatar sua advogada, Joan descobre que essa bizarra experiência está acontecendo com ela, pelo simples fato de ela ter assinado os termos de uso da plataforma sem ter lido. Assim, uma espécie de computador quântico recria a sua história praticamente em tempo real, a partir dos dados fornecidos por ela nos seus dispositivos. É um episódio com o DNA Black Mirror, estrelado por Salma Hayek e Annie Murphy, que se estivesse na primeira temporada da antologia, talvez fosse ainda melhor. Nota: 8,0



Loch Henry: esse aqui tem um climinha de suspense adolescente genérico que não chega a empolgar tanto assim. É ok, só não inesquecível. Na história acompanhamos um casal de estudantes de Cinema, seus nomes são Davis e Pia, que, em visita a familiares em uma isolada cidade rural da Inglaterra tomam conhecimento da existência, no passado, de um certo Iain Adair - um notório serial killer que era famoso por torturar turistas. Como eles são acadêmicos da área, Pia sugere que seria legal fazer, quem sabe, um documentário, sobre esse episódio macabro. Em meio ao trabalho, a dupla descobre uma série de fitas VHS que contém segredos escabrosos que mudarão completamente o rumo da história que estão contando. Há uma surpresinha no final que subverte a ideia simples de suspense rural de horror com começo, meio e fim. Mas tudo fica meio que no quase. Nota: 6,5



Beyond the Sea: disparado o melhor episódio da temporada e, talvez se tivesse um pouco mais de metragem, poderia ser um filme isolado, descolado da antologia, talvez até com direito a elogios da crítica. Também é o mais Black Mirror de todos os episódios, ao misturar uma narrativa de viagens espaciais e réplicas robóticas de seres humanos na Terra. Na trama, os astronautas Cliff e David (Aaron Paul e Josh Hartnett) estão em uma missão espacial de seis anos, deixando nas suas casas cópias mecânicas de seus corpos, que lhes permite interagir, minimamente, com suas esposas e filhos. Só que a coisa desanda quando David fica preso na nave após a sua versão robô e a sua família serem assassinados por extremistas ligados a algum tipo de culto religioso. Incapaz de ver seu parceiro em estado catatônico dentro da nave, Cliff oferece a ele a oportunidade de ir a Terra utilizando o seu corpo - uma experiência que poderia ser terapêutica, já que David poderia "respirar" outros ares, pintar e... interagir com a esposa de Cliff. Claro que a coisa vai desandar e será impossível ficar alheio a um desfecho tão brutalmente impactante. Nota: 9,0



Mazey Day: o episódio mais curtinho da temporada mistura história de horror com tintas de realismo mágico, em meio a crítica ao universo sempre caótico de culto as celebridades e de clickbaits em páginas sensacionalistas. É uma trama meio convencional onde acompanhamos uma paparazzi que vê sua vida virar do avesso quando um famoso se suicida após ter fotos que revelavam um caso extraconjugal, vazadas. Disposta a abandonar a carreira, a fotógrafa Bo se vê atraída por um novo trabalho, que envolve a busca por um click que seja de uma certa Mazey Day, uma atriz que desapareceu após um atropelamento ocorrido na República Tcheca. Os limites éticos da profissão serão testados quando Bo decide ir até a clínica de reabilitação em que Mazey está internada. E será lá que ela será surpreendida por um acontecimento bizarro que alterará a vida de muitos. Nota: 6,5



Demon 79: sinceramente esse aqui eu penei pra concluir porque ôôô troço bem chato. Além de longo, o episódio não tem absolutamente nada de Black Mirror sendo apenas uma história de tintas políticas - essa parte é ok, gostei -, que envereda para o terror setentista. Na trama uma vendedora de loja que sofre com casos explícitos de racismo, encontra uma espécie de talismã do subsolo do departamento que trabalho. Após esfregar o amuleto, ele libera um demônio de nome Gaap, que surge vestido como Boney M. O sujeito diz a ela que será preciso assassinar três pessoas no intervalo de três dias para evitar que a Terra sofra uma espécie de apocalipse nuclear. A ideia é boa, mas por fim acaba sendo mal executada. Especialmente por apostar em um senso e humor meio excêntrico, que reduz o impacto dos temas que o episódio pretende discutir. Nota: 5,0




Média geral: 7,0

terça-feira, 20 de junho de 2023

Pitaquinho Musical - Janelle Monáe (The Age of Pleasure)

Talvez seja apenas a vida imitando a arte. Ou mesmo a Janelle Monáe "se guardando pra quando o carnaval chegar". E o carnaval, já diria Chico Buarque por aqui, há de chegar. Também nos Estados Unidos. No caso da artista americana, esse desejo de libertação de sistemas opressores que parecia estar no centro da narrativa de discos como o elogiado Dirty Computer (2018) - nosso quinto colocado na lista de melhores internacionais daquele ano -, aqui dá espaço para um senso de vitória. De exaltação. Sim, é hora de festejar. De deixar para trás a distopia capaz de evocar cenários de ficção científica, para mergulhar em uma temporada de amor, de paixão, de autodescoberta, de tesão (de muito tesão), de hedonismo. Sonhar com um mundo melhor em tempos de guerra, de pandemia e de extrema direita sempre rondando? Vem pra cá que Janelle não coloca o cropped e reage. Ela tira o cropped e arremessa ele pra longe. Se libera dele. Pra iniciar uma "era do prazer".


Sim, aquela parcela da mídia especializada essencialmente conservadora tem considerado pouco interessante esse The Age of Pleasure - o quarto trabalho da cantora - justamente por esse caráter menos cabeçudo (ou conceitual) do registro. Pra quem se acostumou a ver a artista vestida como se fosse uma deusa de um universo futurista que parece saída de alguma obra de Isaac Asimov, talvez estranhe essa desinibição toda. Essa ausência de roupa. Esse fogo, que parece fazer lembrar o tempo todo que o corpo também é político. E que com ele a mulher faz o que bem entender. "Estou me sentindo tão sexy" sussurra ela em Haute para, logo em seguida, na deliciosamente quente Water Slide, ela emendar um "se eu pudesse me comer agora mesmo eu faria isso". O disco em resumo é todo safado. O conceito aqui é a safadeza.  Com suas letras provocantes e seus ritmos que misturam dancehall, R&B, reggae e ritmos africanos. "Eu definitivamente tive uma oportunidade de evoluir, crescer e explorar as coisas que me dão prazer", resumiu em entrevistas de divulgação. 

Nota: 8,0


Novidades em Streaming - Till: A Busca por Justiça (Till)

De: Chinonye Chukwu. Com Danielle Deadwyler, Jalyn Hall, Haley Bennett e Sean Patrick Thomas. Drama, EUA, 2022, 131 minutos.

"Este é o cheiro do meu filho. Fedendo a ódio racial." (Mamie Till, educadora e ativista norte-americana)

Um dos crimes motivados por ódio racial mais brutalmente repugnantes da história dos Estados Unidos. Assim podemos chamar o assassinato à sangue frio de Emmett Till, um jovem de 14 anos nascido em Chicago, que foi linchado por homens (brancos, claro), que supostamente pretendiam vingar uma ofensa dirigida a uma certa Carolyn Bryant, moradora de Money, Mississipi. Os eventos que desencadeariam nesse ato atroz, bárbaro e invariavelmente estúpido são narrados no comovente Till: A Busca por Justiça (Till), obra dirigida por Chinonye Chukwu (de Clemência, 2019), que está disponível na plataforma Amazon Prime. Na trama retornamos ao ano de 1955, período em que os estados do Sul dos Estados Unidos ainda naturalizavam práticas segregacionistas que visavam a separar negros e brancos em ônibus, hospitais, escolas, parques e outros estabelecimentos públicos e privados. 

Sim, nos anos 50, há pouco mais de meio século, era considerado normal - e até legal -, manter brancos e negros separados em certos locais, com as leis antimiscigenação proibindo, inclusive, casamentos interraciais. Só que Emmett (Jalyn Hall) residia em Chicago, onde parecia haver uma abertura maior no que dizia respeito às questões raciais (a família havia se mudado do Mississipi durante a chamada Grande Migração, período em que centenas de milhares de norte-americanos se mudariam para os Estados do Norte, especialmente no começo do século passado). A própria mãe de Till, Mamie (Danielle Deadwyler) era a única empregada negra de uma refinaria da região, tendo se estabelecido no bairro afro-americano de Argo. O que para os padrões do preconceito do período quase possibilitava uma vida dentro de certa "normalidade". Só que Emmett queria passar férias de verão com seus primos em Money. E Mamie mal sabia que o abraço na estação de trem seria o último em seu filho.

 


Assistir a Till em um época de tanto ódio e de tanta intolerância - não há uma semana que seja que não somos impactados por alguma notícia que envolva crimes motivados por ódio racial -, torna tudo ainda mais revoltante. Durante a viagem ao Sul, Emmett é convidado a mudar de lugar ainda dentro do trem, o que já lhe gera certa estranheza. Os negros não ficam no mesmo vagão que os brancos, afinal. Só que mesmo assim ele não imaginava que uma simples cantada (um elogio seguido de um assobio, por assim dizer) dirigido a Carolyn (Haley Bennett) seria o estopim que resultaria em seu sequestro, seguido de linchamento e morte. O ódio pelo ódio, pura e simplesmente - que parece ser ampliado pela facilidade com que os americanos apontam armas uns para os outros (e isso que não estamos falando do Velho Oeste). Tudo se torna ainda mais asqueroso, mais nauseabundo, quando a dupla acusada do crime é simplesmente absolvida pelo júri (formado por aquele coletivo de homens brancos, velhos e conservadores). Crime que seria admitido pelos próprios assassinos mais tarde.

O sentimento de injustiça é tão revoltante, que Mamie resolve adotar uma medida drástica durante o velório do filho: mostrar o corpo do jovem  totalmente desfigurado, em caixão aberto. Uma atitude que não apenas confrontaria o patético sistema jurídico (e político) da época, como chamaria atenção de todo o País, com as manchetes circulando pelos principais jornais dos Estados Unidos. Em meio a questionamentos sobre o ativismo - que brotam do entorno - e a mentiras proferidas pela defesa durante o julgamento, Mamie encamparia essa luta até o limite do suportável, se convertendo em um verdadeiro símbolo da luta pelos direitos civis dos negros americanos (uma discussão que evoluiria por todos os anos 60). Ao cabo trata-se de uma obra histórica, conduzida com elegância (o desenho de produção e os figurinos são caprichados) e de grande relevância. Especialmente pelo fato de o debate sobre este tema, em pleno ano de 2023, seguir mais do que atual.

Nota: 8,5


segunda-feira, 19 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Um Plano Simples (A Simple Plan)

De: Sam Raimi. Com Bill Paxton, Billy Bob Thornton, Bridget Fonda e Brent Briscoe. Suspense / Drama, EUA / Alemanha / França / Reino Unido / Japão, 1998, 121 minutos.

"Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela." (Maquiavel)

Se tem um subgênero do cinema hollywoodiano que considero fascinante é o do suspense policial que tem como cenário a área rural dos Estados Unidos. Aquele ambiente que se supõe habitado por "famílias de bem" - aquela classe média trabalhadora, de moral ilibada, que tem o seu cotidiano resumido a uma vida doméstica satisfatória (de casamento, filhos, encontros familiares) que se soma às idas dominicais à Igreja e às caçadas como forma de entretenimento. Esse País do interior, ao cabo, não se difere muito do nosso no que diz respeito ao conservadorismo e ao ideal de perpetuação de certas tradições. E talvez seja por isso que as obras que desvendam as vísceras, os meandros dessas comunidades mais fechadas, em alguns casos até retrógradas, são tão fascinantes. Afinal de contas até onde vai a retidão ética? A capacidade de fazer o certo? De não ser incorruptível?

No caso de Um Plano Simples (A Simple Plan), talvez o melhor filme do diretor Sam Raimi - que tem uma carreira meio irregular entre filmes de terror e produções baseadas em quadrinhos -, esse limite é testado quando Hank (Bill Paxton) e o seu irmão mais velho Jacob (Billy Bob Thornton, em atuação comovente) e mais o vizinho Lou (Brent Briscoe), encontram por acaso, numa região isolada do condado de Wright County, em Minnesota, um avião acidentado (escondido embaixo de uma grossa camada de neve). Até aí tudo bem, ao menos até o momento em que o trio resolve investigar o interior da aeronave e descobrem que o piloto não apenas está morto, como deixou uma enorme mala de dinheiro, contendo nada menos do que US$ 4,4 milhões de dólares. Tudo em notas de cem. A atitude mais correta seria a de avisar a polícia, claro - no filme representada pelo xerife Carl (Chelcie Ross). Bom, mas aí não haveria filme se tudo fosse tão simples né?



Voto vencido, Hank, um modesto contador de uma fábrica de rações que está esperando junto com a sua mulher Sarah (Bridget Fonda) - uma bibliotecária local - o primeiro filho, aceita que eles retenham a bolada, mas desde que o dinheiro fique em sua posse. O sujeito teme que nas mãos de Lou, um desempregado beberrão (e que adota fazer confusão) ou mesmo com Jacob, seu irmão que parece ter algum grau leve de deficiência (talvez esteja no espectro autista, nunca fica exatamente claro), possa dar alguma m**** que lhes incrimine. A ideia é aguardar o inverno passar para, ao final da estação, com a neve derretendo, esperar pela natural localização do avião. E, se ninguém falar uma linha que seja sobre o dinheiro, ficar com ele. É claro que a gente sabe que nem tudo será tão simples quanto parece e o roteiro é muito engenhoso em manter o interesse mesmo estando diante de um fiapo de história.

Hank, por exemplo, é convencido por Sarah a levar uma certa quantia de dinheiro de volta ao avião, pra não dar tão "na cara" assim em relação às autoridades locais. Só que tudo dá errado quando o homem convida Jacob pra ir junto - com eles sendo encontrados, por acaso, por um outro vizinho. O comportamento de Lou, desesperado por conseguir algum dinheiro em meio a ruína financeira e a um casamento em frangalhos também complicará tudo. E tudo piora quando Sarah descobre uma notícia no jornal que dá conta da história que envolve o sequestro de uma herdeira milionária (a origem do dinheiro, ao cabo). E tudo é absurdamente bem costurado, com a tensão sendo mantida com estratégias inteligentes, que vão desde a utilização de abutres que insistem em sobrevoar o local do acidente (há uma sequência bem no início que envolve o piloto do avião que é simplesmente notável) até chegar ao sentimento palpável de frio da alma e de desolamento proporcionado pela nevasca constante e pelos cenários desalentadores. É uma obra simples, mas extremamente bem executada e que ainda possui uma das mais devastadoras conclusões do cinema recente.