quarta-feira, 12 de julho de 2023

Novidades em Streaming - Falsos Milionários (Kajillionaire)

De: Miranda July. Com Evan Rachel Wood, Gina Rodriguez, Ricnard Jenkins e Debra Winger. Comédia / Drama, EUA, 2020, 104 minutos.

Nas aparências uma história sobre uma família de vigaristas que vive de (tentar) aplicar pequenos golpes como forma de sobreviver. No seu âmago um filme sobre uma jovem que convive com pais manipuladores e emocionalmente distantes, que a utilizam apenas como cúmplice de seus trambiques. Assim podemos considerar a comédia dramática Falsos Milionários (Kajillionaire) - obra dirigida por Miranda July (do clássico indie Eu, Você e Todos Nós, de 2005), que acaba de chegar à Netflix. Com aquela carinha de obra que costuma agradar nos festivais alternativos, esse é aquele tipo de experiência que se utiliza de um recorte pequeno para uma análise mais ampla, até mais psicológica. Com uma presença física opressora e constante, Robert (Richard Jenkins) e Theresa (Debra Winger) não poderiam ser mais ausentes em matéria de afeto, quando o assunto é Old Dolio (Evan Rachel Wood), a sua filha já em idade adulta.

E isso talvez explique o seu comportamento bastante reticente quando, ainda no começo do filme, ela sinta um desconforto na alma ao receber uma massagem. Aliás, a massagem havia sido ofertada à família em mais uma de suas falcatruas - que envolvia oferecer na paróquia local um relógio previamente furtado. A ideia era tentar receber alguma compensação financeira, sendo a sessão de massoterapia a moeda de troca. Só que para Old Dolio parece ser estranho ter alguém encostando nela. Passando as mãos de forma carinhosa e terapêutica em seu corpo. Não demora para que percebamos que foi assim que ela foi "criada" em casa (ou no que parece ser uma casa, meio improvisada): sem abraços, sem palavras de afeto ou de incentivo. Sem amparo algum. Old Dolio, com sua pele alva e cabelos loiros, funcionou a vida toda como um simples veículo para colocar em prática estratagemas furadas. Trabalhar? Estudar? Nada. A vida é aos bicos e assim vai ser.



E talvez seja por isso que Old Dolio considere tão estranho o fato de seus pais apadrinharem outra jovem, no caso Melanie (Gina Rodriguez) - que eles conhecem em um vôo para Nova York que, claro, faz parte de um outro esquema. A ida para a Big Apple é conquistada em uma maracutaia em que eles vencem um concurso cujo prêmio era a viagem. O objetivo durante o trajeto era dar sumiço às malas de Old Dolio (sem perdê-las, efetivamente, claro) para tentar obter da companhia aérea um valor de cerca de US$ 1.500 de seguro, e que serviria para quitar três meses de aluguel atrasado. Aliás, detalhe: aluguel de uma suposta casa que funciona em um anexo de uma fábrica de sabão, que exige do trio central um trabalho permanente de contenção de vazamentos de espuma (em uma espécie de alegoria meio aleatória do caráter um tanto abstrato daquele tipo de vida). É preciso enxugar espuma a toda hora. Em uma casa úmida, instável.

Melanie se junta ao grupo sabe-se lá bem por quê e, diante das burocracias para a obtenção do dinheiro da companhia aérea, sugere a eles um novo golpe: visitar clientes idosos da ótica em que ela trabalhava, na intenção de obter futuros roubos. Tudo se aproveitando da boa vontade e da solidão de idosos que, a qualquer custo, anseiam por algum tipo de companhia. Sim, parece uma viagem esquisitona e é, mas não dá pra perder de vista o fato de que os pais de Old Dolio ficam encantados com o carisma irresistível de Melanie. O que talvez os faça se converter em pessoas melhores? Nem tanto. Com tintas otimistas, quase num limite do flerte com o realismo fantástico, a obra nos faz pensar sobre a importância dos bens materiais, do dinheiro, de como ele nos molda e de como muitas pessoas são capazes de qualquer coisa para se dar bem. Nem que para isso seja necessário enganar ou ludibriar pessoas bem próximas. Familiares inclusive. Claro, nunca vai ser tarde pra perceber que na vida há outros valores. Outros elementos que dão cor à nossa existência. É a valiosa lição que fica.

Nota: 8,0


terça-feira, 11 de julho de 2023

Tesouros Cinéfilos - O Trabalho Dela (I Douleia Tis)

De: Nikos Labôt. Com Marisha Triantafyllidou, Maria Filini e Dimitris Imellos. Drama, Grécia / França / Sérvia, 2018, 89 minutos.

"Você já trabalhou com isso alguma vez? Só em casa." A resposta de Panayiota (Marisha Triantafyllidou) à pergunta da colega de trabalho Maria (Maria Filini) é sintomática do que significa uma rotina de afazeres domésticos jamais reconhecidos e, muito menos, remunerados. E isso talvez explique a sua empolgação quando é contratada por uma empresa terceirizada para trabalhar como faxineira em um shopping que está prestes a ser inaugurado. Afinal, o que é passar o dia em meio a baldes, vassouras e panos e ainda poder receber por isso? Para Panayiota não parece haver problemas em realizar horas extras abusivas ou conviver com assédios variados em seu ambiente de trabalho. Ela está satisfeita com aquela que, ao cabo, é a sua primeira experiência do tipo. O cenário é o da crise financeira da Grécia. E, portanto, trabalhar é preciso. O que envolve se submeter a praticamente qualquer coisa pra tentar manter o cargo.

Disponível na plataforma Mubi, O Trabalho Dela (I Douleia Tis) faz lembrar, em alguma medida, o clássico de Élio Petri A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971). Tratada de forma cortês e com certa reverência por seus empregadores, Panayiota é uma espécie de "funcionária padrão". Dificilmente diz não para os patrões. Independentemente de qual seja a pedida. Quando um grupo de colegas é sumariamente demitida sem muita explicação, não parece muito disposta a enveredar para o lado da greve ou dos protestos que rondam o "lado de fora". O que importa para a nossa protagonista é o seu mundinho. É a renda que vai entrar no final do mês. É o senso de independência meio tardio de quem pode, finalmente e à beira da meia idade, ter um pouco de autonomia, se livrando das garras autoritárias do marido - um sujeito incapaz de colocar a sua própria comida no prato ou despejar um café em sua xícara (mesmo estando desempregado).


Nesse sentido, a obra do diretor Nikos Labôt gera no espectador um sentimento meio ambíguo. Afinal, há que se valorizar a conquista de espaços da mulher, especialmente quando o assunto é o mercado de trabalho e a consequente fuga de certa dependência de homens em geral. Mas e quando o preço disso é muito alto? Sem experiência, Panayiota começa de baixo. Semianalfabeta, incapaz de operar o equipamento aspirador e inequivocamente submissa, ela se torna, com seu espírito subserviente, a operária ideal. Não questiona. Só baixa a cabeça e faz. Dez, doze, catorze horas diárias. O que faz com que, de forma paradoxal, o ambiente doméstico passe a funcionar melhor já que, sem a esposa para fazer absolutamente todas as funções, seu marido Kostas (Dimitris Imellos) se vê obrigado a trabalhar em casa. E a sua filha adolescente e rebelde a estudar. O único que parece sofrer mais e, genuinamente, é seu filho mais novo, que adoece com a ausência da mãe.

Com um aceno à obra sempre política de Ken Loach, o filme adota um tom naturalista, de planos mais fechados, intimistas, sendo comovente a expressão de permanente desencanto de Panayiota - que dificilmente consegue abrir um sorriso e verdade, ainda que ela vá se soltando aos poucos (como fica bastante explícito na sequência em que ela compra um elegante vestido vermelho). Em geral as intenções da produção são boas e, a despeito da descrença, o final libertador pode ter um sentido um pouco maior do que parece, quando as coisas aparentemente dão errado pra protagonista. Em suma a gente tende a julgar as ações daqueles que acompanhamos. Mas não podemos perder de vista que Panayiota é uma vítima. Alguém vulnerável. Em uma sociedade patriarcal e com profundas fraturas no capitalismo - com aumento da pobreza, políticas de austeridade e desemprego galopante, como foi o caso da Grécia recente. Ao cabo, um emprego é uma necessidade. E o sistema sempre estará pronto à explorar os que menos contestam.


segunda-feira, 10 de julho de 2023

Cinemúsica - Eduardo e Mônica

De: René Sampaio. Com Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha e Bruna Spínola. Comédia romântica / Drama, Brasil, 2022, 119 minutos.

Em uma das tantas sequências bonitas do ótimo Eduardo e Mônica - adaptação de René Sampaio para a clássica canção da Legião Urbana - está o momento em que Eduardo (Gabriel Leone), em meio a uma "festa estranha com gente esquisita", sobe no palco do karaokê para cantar o hino irresistivelmente brega de Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. É um recurso bonito da narrativa porque foge das possíveis armadilhas do filme homenagem e da música tema do filme em si, para derivar para outros campos na hora de aproximar o jovem que jogava futebol de botão com seu avô e Mônica (Alice Braga), uma garota mais velha, estudante de medicina mas totalmente conectada com o mundo das artes - e fã de Godard, de Bandeira, de Bauhaus, Caetano e Rimbaud. E a meu ver esse é um dos grandes méritos da produção: o de que não é necessário ficar lembrando o público o tempo todo, por meio de trucagens baratas, que essa é uma obra baseada em uma música de Renato Russo e companhia.

Nesse sentido, há uma fluidez natural. Tão natural que o fã de cinema desavisado talvez nem notasse esse "detalhe" sobre a matéria-prima do filme. De onde ele se origina. Para o desatento, essa talvez fosse apenas uma comédia romântica por excelência, com dois jovens enfrentando as numerosas diferenças na tentativa de ficar juntos. De fazer acontecer, a despeito de todas os poréns. Mônica e Eduardo, a gente sabe, em um mundo como o nosso, de tão pouca responsabilidade afetiva e em um cenário em que encontrar uma tampa de panela para chamar de sua parece cada vez mais difícil, parecem trafegar no campo do improvável. O que não impede a gente de se conectar. E é justamente isso que, muitas vezes, torna uma comédia romântica eficiente: o quanto a gente se importa. De que maneira mergulhamos naquilo. Claro, há o elemento nostálgico. Há os acenos aos fãs inadiáveis da música da Legião. Mas há também um filmão muito bem sucedido naquilo que se propõe.

 

E, acompanhando a jornada dos nossos protagonistas, eu fiquei com a impressão de que parte do brilho tem a ver com as escolhas da trilha sonora. O filme, como não poderia deixar de ser, se passa nos anos 80. Assim não há celulares, não há Spotify ou Deezer. O que há é uma fitinha cassete com as melhores do rock inglês - aquele tipo de coletânea que os 40+ amavam juntar nas estantes e gavetas da juventude e que será a porta de entrada para um novo universo para Eduardo. Um jovem até então acostumado apenas a uma rotina alienante e sem muitas novidades ao lado do avô, o Seu Bira (Otávio Augusto), um militar da reserva que parece mais orgulhoso do que nunca da Ditadura Militar - provavelmente ele seria um adorador de Ustra e votante do inelegível, que está até agora aguardando mais 72 horas. Esses elementos políticos, culturais e sociais são um outro acerto. Dá pra olhar pro passado sem ignorar o futuro. Dá pra reverenciar os artistas de outrora - da música especialmente - sem deixar de lado o poder transformador e de vanguarda das artes, com sua iconoclastia e consequente quebra do status quo.

Mônica, afinal, é tudo aquilo que Eduardo ainda não é - seja pelo excesso de juventude ou pela imaturidade que respinga pelas frestas, como no instante em que ele genuinamente admite não fazer ideia do que diabos é a Nouvelle Vague (novela?). Uma artista plástica determinada que mora em um galpão espaçoso que também funciona como ateliê, ao mesmo tempo em que faz um turno extra como estudante de medicina - sendo vigiada por sua severa mãe (a sempre ótima Juliana Carneiro da Cunha). Em alguma medida há um choque entre o experimentalismo do cotidiano da Mônica - e suas divagações sobre meditação, fotografia, existencialismo e baladas estranhas - e o conservadorismo do entorno de Eduardo, com sua rotina que varia da escola para casa e da casa para a escola. E em meio a isso tudo há a música. As canções que acompanham. De artistas diversos como Soft Cell, A-Ha, The Pretenders, Titãs, B-52's, Clash, Mutantes, Tim Maia... É um filme baseado numa música da Legião? A gente quase esquece. A arte é maior e une tudo isso. Como comprova o comovente ato final.


sexta-feira, 7 de julho de 2023

Pitaquinho Musical - Marcelo D2 (IBORU)

"Agora tem esse caminho sem volta para o samba. É mais sobre a minha carreira do que sobre o disco. Ele tem a ver com o que vem pela frente". Foi dessa maneira que Marcelo D2 resumiu, em entrevista à Carta Capital ainda no começo do ano, como seria a sua experiência com o espetacular IBORU que, a época, ainda estava sendo finalizado. Com uma proposta de ser "mais samba e menos rap", o artista carioca realiza uma retomada de temas ligados à ancestralidade, a resistência e a cultura popular entregando uma coleção de canções que atualizam o samba, ao mesmo tempo em que reverenciam o passado e os expoentes do estilo. Dividido em três atos, o álbum inicia com uma maravilhosa sequência de samba mais tradicional, em que se sobressaem canções como Povo de Fé, Até Clarear e Só Quando Meu Samba Morrer - e sinceramente é impossível não abrir um largo sorriso nessa entrada.



No segundo terço, D2 vai para a Bahia, para um samba mais experimental, saído do terreiro de candomblé, em que ritmos e batidas africanas se juntam a bases eletrônicas modernas e cheias de personalidade - sendo o melhor exemplo a visceral Tambor de Aço, um rap comovente que, de acordo com o artista, ajudou-o a se reconectar com Ogum. Na última parte, a música popular se torna mais festiva, como sugerem músicas de título autoexplicativo como O Samba Falará + Alto e Bundalelê. Com participações de nomes diversos como Zeca Pagodinho, Alcione, Mateus Aleluia, Mumuzinho e BNegão, o projeto acerta em cheio no encontro da arte popular com a religião, sem deixar de lado assuntos políticos. "Eu via o rap, o punk e o rock muito mais como resistência e luta do que o samba. Até o momento que eu comecei a compreender que o samba é resistência pra caramba", resumiu em conversa com o UOL. O resultado: talvez o melhor disco de 2023.

Nota: 10


quinta-feira, 6 de julho de 2023

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Sick of Myself (Noruega)

De: Kristoffer Borgli. Com Kristine Kujath Thorp, Eirik Sæther e Fanny Vaager. Comédia / Drama, Noruega / Suécia, 2022, 95 minutos.

Uma metáfora perfeita para o transtorno da personalidade narcisista - que parece estar bem em alta em uma era de individualismo, de baixa responsabilidade afetiva e de busca permanente por atenção a qualquer custo (especialmente nas redes sociais). Assim podemos resumir a experiência com o excêntrico Sick of Myself (Syk Pike), filme norueguês dirigido por Kristoffer Borgli e que leva até o limite a ideia de fama e de vaidade a qualquer preço. Misturando a sátira do comportamento mesquinho das classes abastadas à moda Ruben Ostlund com o body horror implacável de David Cronenberg, a obra nos apresenta ao casal Signe (Kristine Kujath Thorp) e Thomas (Eirik Sæther) - ela funcionária de um bar de Oslo, ele um artista plástico especializado em produzir esculturas feitas com móveis e outros materiais roubados. 

Só que o problema é que Signe está ficando com ciúmes da atenção que Thomas tem recebido pelo seu trabalho. E a oportunidade de atrair algum "holofote" pra si surge da forma mais aleatória possível: no caso, em um dia convencional de trabalho no bar, quando uma mulher é atacada por um cachorro sendo a protagonista a primeira a socorrê-la. Com sua roupa manchada de sangue, a jovem vaga pela cidade, enquanto relata aos amigos a história do salvamento épico - uma narrativa que vai ganhando tintas a cada dia mais exageradas, quase folclóricas (para estranhamento de amigos e conhecidos). Em meio a isso, Thomas consegue uma exposição em um renomado ateliê e, para não ficar pra trás, Signe finge estar tendo uma severa reação alérgica motivada pelo consumo de nozes. É nesse cenário que a barista percebe haver uma brecha: ficar doente poderá ser a desculpa perfeita para que ela se torne oficialmente o centro das atenções. Tendo algum tipo de admiração dos demais.



Mas como não é possível adoecer do nada, Signe vai pra internet. E descobre a existência de um medicamento para controle da ansiedade chamado Lidexol - que seria trazido da Rússia, via deep web, com um amigo traficante. Em doses cavalares, a droga tem severos efeitos colaterais que iniciam como manchas vermelhas na pele e avançam para verdadeiras deformidades no corpo. Bom, se a ideia da protagonista era chamar a atenção, talvez a medida drástica ajude? Em partes. O caso é que na atual máquina infinita de informação que vivemos, um assunto é simplesmente atropelado por outro - às vezes no mesmo dia. De nada adianta Signe fotografar a si própria como uma pessoa debilitada, que padece de uma doença desconhecida. Sair em um portal de notícias? De tarde, as manchetes já mudaram. E mesmo quando a jovem obtém um contrato para trabalhar com moda inclusiva, seu segredo parece sempre prestes a vir à tona (na mesma medida em que sua saúde se esfacela).

Em tempos em que influencers fazem de tudo para chamar a atenção - como no caso do youtuber que engordou 100 quilos enquanto era saudado por seus milhões de seguidores - pensar em uma alegoria do tipo nem parece ser um exagero. Uma pesquisa no Google e a gente localiza as mais variadas "personalidade de mídia" com seus comportamentos exóticos travestidos de iconoclastia. Vale tudo pela fama? Por aqueles quinze minutos de holofotes que alimentam o ego? Na produção de Borgli o que percebemos é que o comportamento perturbado de Signe pode ser ao mesmo tempo repugnante e patético em sua busca desenfreada por migalhas em formato de cliques. Com tudo piorando quando a disputa com Thomas se torna algo pessoal - a ponto de ela jamais conseguir celebrar as conquistas do parceiro. Você já viu alguém assim no seu entorno?  Alguém que se acha especial? Que exagera suas conquistas? Que não tem empatia? Que tá sempre atrás de aplausos? Que apenas explora os outros sem nenhuma reciprocidade? Que se vitimiza? Que só fala a linguagem do "eu, eu, eu"? Sim, tem bastante por aí. Talvez até nós mesmos sejamos essa pessoa. Vai saber. 


quarta-feira, 5 de julho de 2023

Livro do Mês - Salvar o Fogo (Itamar Vieira Júnior)

A cada novo livro de Itamar Vieira Júnior uma ideia parece cada vez mais consolidada: a de que seus trabalhos buscam dar voz às minorias, aos vulneráveis sociais, aos marginalizados. Aqui não temos mulheres de classe média em seus dilemas suburbanos ou homens de meia idade em crise existencial - um tipo de literatura que alcançaria talvez sem muita dificuldade uma boa comunidade de leitores. Ao contrário, agindo quase como um Guimarães Rosa da nova geração - guardadas todas as proporções, naturalmente -, o autor baiano aposta no microcosmo que parte de narrativas familiares para uma análise do todo. O texto aqui é o do chão batido, da natureza em simbiose com o homem, dos conflitos territoriais, das instituições poderosas - seja o Estado ou a Igreja - que tentam silenciar o gritos dos excluídos. Das tradições, do folclore, da religião. Da luta. Da política. Do corpo. Foi assim com o elogiadíssimo Torto Arado - nosso livro favorito de 2020. É assim com o recém chegado Salvar o Fogo.

Publicado pela Todavia, Salvar o Fogo é mais uma daquelas tramas de Brasil profundo. Que abraça com carinho a odisseia diária daqueles que não se sentem representados - ainda que isso signifique expor as suas vísceras. O seu íntimo. Em entrevistas de divulgação, o escritor lembrou que os invisibilizados, ao cabo, estão no entorno, no cotidiano. "E estão ’em silêncio’ o tempo todo, nos lugares onde a gente transita. Quem está dirigindo os ônibus? Quem está fazendo aquele trabalho cotidiano de limpeza, muitas vezes, de forma quase mecânica? As pessoas passam por elas e nem as cumprimentam", comentou, salientando ainda que todo mundo tem bagagem, tem história. Em muitos casos ricas histórias. "Se a gente observar as suas vidas, vai descobrir um mundo interior rico, imenso", afirmou ao site Culturadoria. Romper o muro do silêncio e fazer reverberar vozes. Esse parece ser o foco da sua literatura sinuosa, poética, envolvente.



A narrativa caleidoscópica, de idas e vindas e de voltas ao passado - que parecem sempre assombrar o presente - conta com quatro capítulos, com os três primeiros destacando os irmãos Moisés, Luzia e Mariinha, com o último aglutinando todos os pontos a partir de um trágico evento: a morte de seu Mundinho, o patriarca. Numerosa, a família conta com outros irmãos - Joaquim, Zazau, Raimundo. Todos eles já saíram da localidade conhecida como Tapera, pra tentar a vida fora. Invariavelmente todos passam por dificuldades. Não é diferente por exemplo com Luzia, que é motivo de chacota na comunidade por possuir uma corcunda - uma deficiência que é tida como maldita pelos habitantes do local. Sua tragédia se completa quando ela é estuprada e tem um filho que é resultado desse ato de violência. Esse menino irá parar na Igreja, como uma espécie de coroinha - sua mãe é lavadeira no local. 

Tudo vai mais ou menos aos trancos e barrancos dentro desse cenário, até o jovem presenciar um caso de pedofilia envolvendo o abade do mosteiro. O que faz com que ele simplesmente fuja dali e passe também a tentar a vida na cidade.  Ao cabo, trata-se de uma literatura que se vale do mundano ainda que tenha suas complexidades. E que vai se revelando sem pressa para o leitor. A presença de outros personagens, de figuras relevantes - sejam elas vizinhas, uma bisavó, professores, prostitutas e até cobradores de impostos - ajudarão a compreender ou mesmo verbalizar angústias, anseios, sofrimentos, sonhos. A vida é dura, é árdua, mas todos ali parecem estar em busca de algo. De uma vida melhor. De um futuro. De um romance. De trabalho. De terra pra plantar. O fogo se espalha e funciona como metáfora para uma existência que queima - e não é à toa que ele é o catalisador de tragédias. Mas também esse fogaréu parece ecoar a libertação. A reimaginação. De gestos e gritos sufocados. É um livro imperdível.

Cine Baú - Terra de Ninguém (Badlands)

De: Terrence Mallick. Com Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates e Ramon Bieri. Drama / Policial, EUA, 1973, 94 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM SPOILERS]

Muito antes de apostar num cinema mais contemplativo, quase elegíaco, que se tornaria uma espécie de marca registrada, Terrence Mallick filmou, no comecinho de sua carreira, o elogiado Terra de Ninguém (Badlands). É um filme pequeno sobre a violência que brota de forma meio inesperada em regiões inóspitas - nesse caso o meio oeste americano -, se alastra deixando uma trilha de sangue e que funciona como uma alegoria mais do que perfeita para a desesperança e para o niilismo que se espalha pelo terreno arenoso do local. Afinal de contas é esse certo pessimismo de quem não sabe muito bem para onde ir, que parece mover o intempestivo Kit Carruthers (Martin Sheen, fazendo cosplay de James Dean), um lixeiro da Dakota do Sul, metido a machão. Em suas andanças ele cruzará com a jovem Holly Sargis (Sissy Spacek), uma adolescente que tem um relacionamento conturbado com seu pai (Warren Oates).

Como nas mais tradicionais histórias de "amor" - ou algo nesse sentido -, o pai desaprova esse relacionamento, naturalmente. Kit é dez anos mais velho do que Holly. Só que Kit também se parece muito com James Dean - inclusive no estilo sedutor e levemente descompromissado. Quando o pai de Holly descobre que ela está se encontrando com Kit as escondidas, lhe dá uma punição exagerada: mata o cachorro da própria garota com um tiro. Esse é só o primeiro indicativo de que as coisas não serão boas. Na tentativa de buscar uma espécie de compensação, Kit resolve confrontar o pai da adolescente. Após uma discussão e a ameaça de ir a polícia, o rapaz abre fogo contra o homem. Tudo com a conivência de uma desolada Holly. Como forma de tentar acobertar o crime, a dupla coloca fogo na casa. Deixando uma gravação que dá a entender que houve um assassinato seguido de suicídio. Enquanto pegam o carro e fogem para uma região isolada do Estado de Montana.




Terra de Ninguém pode não ter o estilo absorto de filmes como A Árvore da Vida (2011) ou Uma Vida Oculta (2020). Ainda assim as seguidas narrações em off feitas por Holly, combinadas com um estilo meio bucólico do enredo - especialmente na segunda parte, quando a dupla busca abrigo no meio do mato, com direito à construção de uma casa improvisada nas árvores, rodeada por riachos, montanhas, caçadas e pescarias - dão o tom que aproximaria a obra das futuras produções de Mallick. Há um quê de novela policial no contexto todo, já que Kit e Holly, como se fossem uma espécie de Bonnie e Clyde dos anos 70, estão sempre em fuga. Quando são encontrados por acaso na floresta, são ameaçados por um trio de caçadores armados. Só que Kit arma uma emboscada e consegue matar os três. A trilha de sangue segue a pleno. Mesmo quando, em rota de fuga, o casal central se encontra com um antigo colega e amigo de Kit, de nome Cato (Ramon Dieri).

Em sua trama, Mallick não parece muito preocupado em evidenciar de onde vem tanta violência - nem as ligações com política, religião ou outros temas. A brutalidade é apenas... a brutalidade. Pior do que tudo isso é assistir a derrocada da personagem de Spacek que, na busca de um amor paternal (um substituto para o próprio pai), se alia a um sociopata perturbado que, de quebra, ainda parece padecer de uma síndrome narcísica (a sequência do terço final em que ele encanta a polícia que está lhe prendendo é trágica e cômica em igual medida). Árido, desesperançoso, de alguma maneira até perturbador, o filme seria elogiado pela crítica em seu lançamento, aparecendo em listas de melhores como a dos 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Mais do que isso, pavimentaria o caminho para que Mallick se tornasse um dos grandes diretores de seu tempo.


segunda-feira, 3 de julho de 2023

Novidades em Streaming - Contratempos (À Plein Temps)

De: Eric Gravel. Com Laure Calamy, Lucie Gallo, Cyril Gueï e Anne Suarez. Drama, França, 2021, 87 minutos.

Em uma das cenas centrais de Contratempos (À Plein Temps), a protagonista Julie (a sempre ótima Laure Calamy) está em uma importante entrevista de emprego. Durante a conversa, a recrutadora estranha o fato de ela morar em um bairro afastado do centro de Paris e, mesmo sendo mãe de duas crianças, estar pleiteando um emprego ali. "Você poderia passar longos dias por semanas por aqui, mesmo morando tão longe?" questiona a funcionária do RH. Julie nem titubeia em afirmar que isso não lhe preocupa. A avaliadora prossegue, tentando compreender uma lacuna existente no currículo da candidata - quatro anos sem trabalhar, o que evidencia também um processo de precarização (já que ela possui um emprego em um hotel, como supervisora de serviços gerais). O que se soma a perguntas sobre ela estar buscando uma vaga que está claramente abaixo das capacidades dela. Ela afirma que não. Que está focada na realização de seus projetos "a longo prazo".

Julie tenta não demonstrar, mas no momento da entrevista ela está devastada por dentro. Está em um trabalho que lhe consome física e psicologicamente - não bastassem as horas e horas dentro de ônibus e trens, ainda precisa lidar com o assédio moral constante de sua chefe e com os caprichos excêntricos dos hóspedes do hotel de luxo em que atua (em uma sequência ela precisa, literalmente, limpar a merda que foi deixada em um dos cômodos por um desses visitantes). Aliás, só mais uma das tantas e ótimas metáforas apresentadas nessa pequena joia dirigida por Eric Gravel - e que foi exibida (e elogiada) no Festival Varilux do ano passado. Depois, há a angústia de, como mãe solo, ter de articular de forma permanente a estada de seus filhos em babás improvisadas - caso de uma vizinha - para que ela consiga cumprir as suas exaustivas jornadas. Julie está sempre correndo. Correndo literalmente. Sem dinheiro, sem ânimo, sem forças, sem vida.

Ao cabo, esse é um filme pequeno mas de grande força sobre como o capitalismo pode destroçar a cabeça do cidadão comum - que acorda de madrugada e retorna já para sua casa noite adentro, depois de andar de condução em condução até desejar apenas a sua cama. Dia após dia, indefinidamente. É uma produção que exaure - um sentimento ampliado pela câmera sempre urgente, meio trôpega, quase documental e pela trilha sonora caótica, invasiva, que acompanham as andanças de Julie entre cômodos do hotel, ruas atabalhoadas, assédios diversos (inclusive sexuais), humilhações recorrentes e a sensação completa de solidão e de desesperança em meio a tudo. Aqui, não vemos a Paris glamourosa que nos acostumamos a enxergar nos cartões postais. É tudo sufocante, claustrofóbico, cansativo. Quando a protagonista chega em casa já exaurida, precisa encarar o terceiro turno, a janta das crianças, o banho, brincar. Para, de madrugada, reiniciar tudo de novo.

E de alguma forma não deixa de ser meio simbólico o fato de, durante toda a via crúcis de Julie nessa uma hora e meia, ela ser "atrapalhada" por uma greve dos metroviários que parece estar ocorrendo no entorno. O filme nunca se ocupa das reivindicações dos trabalhadores, quais as pautas, por quê estão paralisando os serviços. Para nós, espectadores, talvez seja cômodo pensar que Julie poderia se unir a estes operários. Lutar contra o sistema que lhes oprime (ela está junto nesse combo). Mas ela não tem tempo de pensar nisso. Em política. Em economia. Em caos social. Em disputas de classes. Em governos. Ela tem duas bocas pra alimentar. Uma pensão pra reivindicar - outro ponto que lhe extenua. Um trabalho para manter - em meio a camas pra arrumar, quartos pra limpar, horários a cumprir. É um ciclo infinito, que não parece se encerrar na suposta "boa notícia" que ocorre no instante derradeiro da projeção. A roda seguirá girando. Pode até não parecer, mas o sorriso comovido não simboliza final feliz. E aqui está a grande sacada dessa história toda. Sensacional é pouco.

Nota: 9,0