quarta-feira, 12 de julho de 2023
Novidades em Streaming - Falsos Milionários (Kajillionaire)
terça-feira, 11 de julho de 2023
Tesouros Cinéfilos - O Trabalho Dela (I Douleia Tis)
De: Nikos Labôt. Com Marisha Triantafyllidou, Maria Filini e Dimitris Imellos. Drama, Grécia / França / Sérvia, 2018, 89 minutos.
"Você já trabalhou com isso alguma vez? Só em casa." A resposta de Panayiota (Marisha Triantafyllidou) à pergunta da colega de trabalho Maria (Maria Filini) é sintomática do que significa uma rotina de afazeres domésticos jamais reconhecidos e, muito menos, remunerados. E isso talvez explique a sua empolgação quando é contratada por uma empresa terceirizada para trabalhar como faxineira em um shopping que está prestes a ser inaugurado. Afinal, o que é passar o dia em meio a baldes, vassouras e panos e ainda poder receber por isso? Para Panayiota não parece haver problemas em realizar horas extras abusivas ou conviver com assédios variados em seu ambiente de trabalho. Ela está satisfeita com aquela que, ao cabo, é a sua primeira experiência do tipo. O cenário é o da crise financeira da Grécia. E, portanto, trabalhar é preciso. O que envolve se submeter a praticamente qualquer coisa pra tentar manter o cargo.
Disponível na plataforma Mubi, O Trabalho Dela (I Douleia Tis) faz lembrar, em alguma medida, o clássico de Élio Petri A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971). Tratada de forma cortês e com certa reverência por seus empregadores, Panayiota é uma espécie de "funcionária padrão". Dificilmente diz não para os patrões. Independentemente de qual seja a pedida. Quando um grupo de colegas é sumariamente demitida sem muita explicação, não parece muito disposta a enveredar para o lado da greve ou dos protestos que rondam o "lado de fora". O que importa para a nossa protagonista é o seu mundinho. É a renda que vai entrar no final do mês. É o senso de independência meio tardio de quem pode, finalmente e à beira da meia idade, ter um pouco de autonomia, se livrando das garras autoritárias do marido - um sujeito incapaz de colocar a sua própria comida no prato ou despejar um café em sua xícara (mesmo estando desempregado).
Nesse sentido, a obra do diretor Nikos Labôt gera no espectador um sentimento meio ambíguo. Afinal, há que se valorizar a conquista de espaços da mulher, especialmente quando o assunto é o mercado de trabalho e a consequente fuga de certa dependência de homens em geral. Mas e quando o preço disso é muito alto? Sem experiência, Panayiota começa de baixo. Semianalfabeta, incapaz de operar o equipamento aspirador e inequivocamente submissa, ela se torna, com seu espírito subserviente, a operária ideal. Não questiona. Só baixa a cabeça e faz. Dez, doze, catorze horas diárias. O que faz com que, de forma paradoxal, o ambiente doméstico passe a funcionar melhor já que, sem a esposa para fazer absolutamente todas as funções, seu marido Kostas (Dimitris Imellos) se vê obrigado a trabalhar em casa. E a sua filha adolescente e rebelde a estudar. O único que parece sofrer mais e, genuinamente, é seu filho mais novo, que adoece com a ausência da mãe.
Com um aceno à obra sempre política de Ken Loach, o filme adota um tom naturalista, de planos mais fechados, intimistas, sendo comovente a expressão de permanente desencanto de Panayiota - que dificilmente consegue abrir um sorriso e verdade, ainda que ela vá se soltando aos poucos (como fica bastante explícito na sequência em que ela compra um elegante vestido vermelho). Em geral as intenções da produção são boas e, a despeito da descrença, o final libertador pode ter um sentido um pouco maior do que parece, quando as coisas aparentemente dão errado pra protagonista. Em suma a gente tende a julgar as ações daqueles que acompanhamos. Mas não podemos perder de vista que Panayiota é uma vítima. Alguém vulnerável. Em uma sociedade patriarcal e com profundas fraturas no capitalismo - com aumento da pobreza, políticas de austeridade e desemprego galopante, como foi o caso da Grécia recente. Ao cabo, um emprego é uma necessidade. E o sistema sempre estará pronto à explorar os que menos contestam.
segunda-feira, 10 de julho de 2023
Cinemúsica - Eduardo e Mônica
De: René Sampaio. Com Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha e Bruna Spínola. Comédia romântica / Drama, Brasil, 2022, 119 minutos.
Em uma das tantas sequências bonitas do ótimo Eduardo e Mônica - adaptação de René Sampaio para a clássica canção da Legião Urbana - está o momento em que Eduardo (Gabriel Leone), em meio a uma "festa estranha com gente esquisita", sobe no palco do karaokê para cantar o hino irresistivelmente brega de Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. É um recurso bonito da narrativa porque foge das possíveis armadilhas do filme homenagem e da música tema do filme em si, para derivar para outros campos na hora de aproximar o jovem que jogava futebol de botão com seu avô e Mônica (Alice Braga), uma garota mais velha, estudante de medicina mas totalmente conectada com o mundo das artes - e fã de Godard, de Bandeira, de Bauhaus, Caetano e Rimbaud. E a meu ver esse é um dos grandes méritos da produção: o de que não é necessário ficar lembrando o público o tempo todo, por meio de trucagens baratas, que essa é uma obra baseada em uma música de Renato Russo e companhia.
Nesse sentido, há uma fluidez natural. Tão natural que o fã de cinema desavisado talvez nem notasse esse "detalhe" sobre a matéria-prima do filme. De onde ele se origina. Para o desatento, essa talvez fosse apenas uma comédia romântica por excelência, com dois jovens enfrentando as numerosas diferenças na tentativa de ficar juntos. De fazer acontecer, a despeito de todas os poréns. Mônica e Eduardo, a gente sabe, em um mundo como o nosso, de tão pouca responsabilidade afetiva e em um cenário em que encontrar uma tampa de panela para chamar de sua parece cada vez mais difícil, parecem trafegar no campo do improvável. O que não impede a gente de se conectar. E é justamente isso que, muitas vezes, torna uma comédia romântica eficiente: o quanto a gente se importa. De que maneira mergulhamos naquilo. Claro, há o elemento nostálgico. Há os acenos aos fãs inadiáveis da música da Legião. Mas há também um filmão muito bem sucedido naquilo que se propõe.
E, acompanhando a jornada dos nossos protagonistas, eu fiquei com a impressão de que parte do brilho tem a ver com as escolhas da trilha sonora. O filme, como não poderia deixar de ser, se passa nos anos 80. Assim não há celulares, não há Spotify ou Deezer. O que há é uma fitinha cassete com as melhores do rock inglês - aquele tipo de coletânea que os 40+ amavam juntar nas estantes e gavetas da juventude e que será a porta de entrada para um novo universo para Eduardo. Um jovem até então acostumado apenas a uma rotina alienante e sem muitas novidades ao lado do avô, o Seu Bira (Otávio Augusto), um militar da reserva que parece mais orgulhoso do que nunca da Ditadura Militar - provavelmente ele seria um adorador de Ustra e votante do inelegível, que está até agora aguardando mais 72 horas. Esses elementos políticos, culturais e sociais são um outro acerto. Dá pra olhar pro passado sem ignorar o futuro. Dá pra reverenciar os artistas de outrora - da música especialmente - sem deixar de lado o poder transformador e de vanguarda das artes, com sua iconoclastia e consequente quebra do status quo.
Mônica, afinal, é tudo aquilo que Eduardo ainda não é - seja pelo excesso de juventude ou pela imaturidade que respinga pelas frestas, como no instante em que ele genuinamente admite não fazer ideia do que diabos é a Nouvelle Vague (novela?). Uma artista plástica determinada que mora em um galpão espaçoso que também funciona como ateliê, ao mesmo tempo em que faz um turno extra como estudante de medicina - sendo vigiada por sua severa mãe (a sempre ótima Juliana Carneiro da Cunha). Em alguma medida há um choque entre o experimentalismo do cotidiano da Mônica - e suas divagações sobre meditação, fotografia, existencialismo e baladas estranhas - e o conservadorismo do entorno de Eduardo, com sua rotina que varia da escola para casa e da casa para a escola. E em meio a isso tudo há a música. As canções que acompanham. De artistas diversos como Soft Cell, A-Ha, The Pretenders, Titãs, B-52's, Clash, Mutantes, Tim Maia... É um filme baseado numa música da Legião? A gente quase esquece. A arte é maior e une tudo isso. Como comprova o comovente ato final.
sexta-feira, 7 de julho de 2023
Pitaquinho Musical - Marcelo D2 (IBORU)
quinta-feira, 6 de julho de 2023
A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Sick of Myself (Noruega)
quarta-feira, 5 de julho de 2023
Livro do Mês - Salvar o Fogo (Itamar Vieira Júnior)
Cine Baú - Terra de Ninguém (Badlands)
segunda-feira, 3 de julho de 2023
Novidades em Streaming - Contratempos (À Plein Temps)
De: Eric Gravel. Com Laure Calamy, Lucie Gallo, Cyril Gueï e Anne Suarez. Drama, França, 2021, 87 minutos.
Em uma das cenas centrais de Contratempos (À Plein Temps), a protagonista Julie (a sempre ótima Laure Calamy) está em uma importante entrevista de emprego. Durante a conversa, a recrutadora estranha o fato de ela morar em um bairro afastado do centro de Paris e, mesmo sendo mãe de duas crianças, estar pleiteando um emprego ali. "Você poderia passar longos dias por semanas por aqui, mesmo morando tão longe?" questiona a funcionária do RH. Julie nem titubeia em afirmar que isso não lhe preocupa. A avaliadora prossegue, tentando compreender uma lacuna existente no currículo da candidata - quatro anos sem trabalhar, o que evidencia também um processo de precarização (já que ela possui um emprego em um hotel, como supervisora de serviços gerais). O que se soma a perguntas sobre ela estar buscando uma vaga que está claramente abaixo das capacidades dela. Ela afirma que não. Que está focada na realização de seus projetos "a longo prazo".
Julie tenta não demonstrar, mas no momento da entrevista ela está devastada por dentro. Está em um trabalho que lhe consome física e psicologicamente - não bastassem as horas e horas dentro de ônibus e trens, ainda precisa lidar com o assédio moral constante de sua chefe e com os caprichos excêntricos dos hóspedes do hotel de luxo em que atua (em uma sequência ela precisa, literalmente, limpar a merda que foi deixada em um dos cômodos por um desses visitantes). Aliás, só mais uma das tantas e ótimas metáforas apresentadas nessa pequena joia dirigida por Eric Gravel - e que foi exibida (e elogiada) no Festival Varilux do ano passado. Depois, há a angústia de, como mãe solo, ter de articular de forma permanente a estada de seus filhos em babás improvisadas - caso de uma vizinha - para que ela consiga cumprir as suas exaustivas jornadas. Julie está sempre correndo. Correndo literalmente. Sem dinheiro, sem ânimo, sem forças, sem vida.
Ao cabo, esse é um filme pequeno mas de grande força sobre como o capitalismo pode destroçar a cabeça do cidadão comum - que acorda de madrugada e retorna já para sua casa noite adentro, depois de andar de condução em condução até desejar apenas a sua cama. Dia após dia, indefinidamente. É uma produção que exaure - um sentimento ampliado pela câmera sempre urgente, meio trôpega, quase documental e pela trilha sonora caótica, invasiva, que acompanham as andanças de Julie entre cômodos do hotel, ruas atabalhoadas, assédios diversos (inclusive sexuais), humilhações recorrentes e a sensação completa de solidão e de desesperança em meio a tudo. Aqui, não vemos a Paris glamourosa que nos acostumamos a enxergar nos cartões postais. É tudo sufocante, claustrofóbico, cansativo. Quando a protagonista chega em casa já exaurida, precisa encarar o terceiro turno, a janta das crianças, o banho, brincar. Para, de madrugada, reiniciar tudo de novo.
E de alguma forma não deixa de ser meio simbólico o fato de, durante toda a via crúcis de Julie nessa uma hora e meia, ela ser "atrapalhada" por uma greve dos metroviários que parece estar ocorrendo no entorno. O filme nunca se ocupa das reivindicações dos trabalhadores, quais as pautas, por quê estão paralisando os serviços. Para nós, espectadores, talvez seja cômodo pensar que Julie poderia se unir a estes operários. Lutar contra o sistema que lhes oprime (ela está junto nesse combo). Mas ela não tem tempo de pensar nisso. Em política. Em economia. Em caos social. Em disputas de classes. Em governos. Ela tem duas bocas pra alimentar. Uma pensão pra reivindicar - outro ponto que lhe extenua. Um trabalho para manter - em meio a camas pra arrumar, quartos pra limpar, horários a cumprir. É um ciclo infinito, que não parece se encerrar na suposta "boa notícia" que ocorre no instante derradeiro da projeção. A roda seguirá girando. Pode até não parecer, mas o sorriso comovido não simboliza final feliz. E aqui está a grande sacada dessa história toda. Sensacional é pouco.
Nota: 9,0







