terça-feira, 13 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - O Retorno (Vozvrashchenie)

De Andrei Zvyagintsev. Com Ivan Dobronravov, Vladimir Garin e Konstantin Lavrolenko. Drama / Suspense, Rússia, 2003, 105 minutos.

Quando assistimos a um filme como O Retorno (Vozvrashchenie), parece que somos permanentemente instigados a encontrar um algo a mais - que nos leve para além da simples história doméstica sobre um pai ausente que reaparece de forma inesperada para alegria (e desespero) de seus filhos. Alegoria para questões políticas da Rússia moderna? Metáfora religiosa que alude ao patriarcalismo e aos sacrifícios para a eventual sobrevivência da prole? Obra enigmática sobre o desafio do amadurecimento em um mundo violento e embrutecido? Não sei, talvez um pouco de tudo. Quem acompanha a carreira do diretor Andrei Zvyagintsev - que mais tarde seria aclamado por obras como Leviatã (2014) e Sem Amor (2017) - sabe que a mescla de temas políticos e sociais que parecem emergir de um microcosmo familiar, muitas vezes compõe a matéria-prima de suas histórias. E não foi diferente em seu elogiado filme de estreia que, não por acaso, faturaria o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Na trama somos apresentados a dois irmãos - o pequeno Ivan (Ivan Dobronravov) e seu irmão mais velho Andrei (Vladimir Garin). Ivan ainda é jovem o suficiente para ter um medo genuíno de altura que ele não esconde - como vemos na primeira cena em que ele sobe, ao lado de um grupo de garotos, em uma torre que lhe possibilitará pular em um riacho. Incapaz de saltar, ele é amparado pela mãe (Natalia Vdovina) que vem em seu socorro, antes que a noite chegue (com o frio já se tornando palpável). Já Andrei é aquele que já entrou na adolescência e não parece ter muito pudor em debochar do próprio irmão por sua suposta covardia. Em resumo: uma rotina que não difere muito da de outros garotos de idade próxima. Só que a coisa muda de figura quando, ao retornarem pra casa no dia seguinte, são alertados pela mãe para que façam silêncio. Seu pai (vivido por Konstantin Lavrolenko) está de volta, depois de mais de uma década sem dar as caras. E está dormindo.

Os meninos ficam num misto entre eufóricos e petrificados, curiosos mas desconfiados. Vão até o porão e encontram uma foto antiga do pai, em família. "É ele" garante o irmão mais velho. Mas será mesmo? Como forma de tentar uma aproximação, o pai resolve os levar para uma viagem de três dias sob a desculpa de uma pescaria. Uma maneira de se conectar? Mas é tudo muito estranho. E misterioso. Sensação ampliada pela fotografia permanentemente cinzenta, de tons que puxam para o azul escuro. E pela chuva insistente que cai. Aliás, a umidade é tão palpável que quase parece ser possível senti-la. Tudo parece dialogar com o comportamento do pai, que vai no limite entre o cuidado e a rispidez, o zombeteiro e o rígido nunca hesitando em tratá-los de modo rude. Por vezes até violento. Testando seus limites em meio a perturbadoras sequências de agressão - física e psicológica. Mas que mais adiante se converterão em inesperados "afagos" (ou algo perto disso).

Em linhas gerais não é um filme fácil, por mais simples que ele seja. Há um quê de primitivo naquilo tudo que vemos - de pescarias a embarcações, de chuvas e de praias, passando por ilhas isoladas e casas meio abandonadas. O espectador, de alguma maneira, parece tão perdido quanto os meninos. Doze anos ausente não seriam motivo suficiente para maiores demonstrações de carinho? De afeto? Mas quais os traumas que esse pai carrega em meio a essa Rússia contemporânea e politicamente complexa? Não parece haver explicações (nem caminhos) fáceis. Ao cabo é possível afirmar ainda que a obra é um excelente suspense - sombrio, austero, imprevisível - que é ancorado por excelentes e comoventes atuações de todo o elenco envolvido (aliás, o pequeno Dobronravov é um achado, com seu rosto anguloso, extremamente expressivo). E que ainda conta um desfecho surpreendente, que parece nos lembrar o tempo todo do quão doloroso pode ser o processo de amadurecimento.


Pitaquinho Musical - Christine and the Queens (Paranoïa, Angels, True Love)

Existe um problema meio inevitável nos discos "inchados" que é o fato de eles não terem como ser 100% bons o tempo todo. É um risco que certos artistas correm. E uma verdadeira ousadia em tempos de consumo rápido, de tik tok, de instantaneidade e de dispersão em meio a tanta oferta. Tudo isso não impediu o Christine and the Queens de lançar o seu mais ambicioso projeto. Dividido em três segmentos, Paranoïa, Angels, True Love - o quarto trabalho de estúdio de Héloïse Letissier - possui 20 músicas distribuídas em (quase) inacreditáveis 96 minutos. A empreitada pode parecer meio excessiva, mas quem se aventurar nela encontrará uma coleção de canções magnéticas, divinas, teatrais e operísticas que levam o pop experimental da artista a um limite que parece avançar para além dos sintetizadores transcendentais (e dançantes) testados anteriormente.


Aqui, parece haver um diálogo mais permanente com uma atmosfera mais etérea - algo como um encontro entre o trip hop, a new age e o jazz. É desafiador e nem sempre fácil. Enigmático e eventualmente ausente de refrão. Mas é completamente satisfatório em seus melhores momentos. Tears Can Be Soft, por exemplo, parece uma canção extraída de álbuns como Mezzanine (1998) do Massive Attack. Já A Day in the Water, com seu refrão pegajoso e letra contemplativa sobre a sensação de estar imerso sob a água nos momentos de dor (ele perdeu a mãe em 2019), vai na borda do acessível. E isso que estamos apenas no primeiro terço! Uma leve esranheza segue em cada curva dos dois seguintes atos - e mesmo a presença de Madonna em três canções e do rapper 070 Shake em outras duas, não reduz esse sentimento. Sofisticado mas caótico, artístico mas compreensível, esse é daquelas trabalhos que jamais imaginaríamos precisar em pleno 2023. E veio bem.

Nota: 8,5


segunda-feira, 12 de junho de 2023

Cine Baú - Levada da Breca (Bringing Up Baby)

De: Howard Hawks. Com Katharine Hepburn, Cary Grant, Adeline Ashbury, May Robson e Barry Fitzgerald. Comédia / Romance, EUA, 1938, 102 minutos.

Histriônica. Divertida. Caótica. Verborrágica. Talvez, em alguma medida, até meio a frente de seu tempo. Assim podemos considerar a saborosa comédia romântica Levada da Breca (Bringing Up Baby) de Howard Hawks. Afinal de contas, não são poucos os instantes que a gente para e pensa "uau, nem parece um filme dos anos 30". E principalmente por causa de Susan (Katharine Hepburn), uma protagonista determinada, forte e carismática - ainda que bastante atrapalhada -, que fará de tudo para conquistar o paleontólogo meio quadradão David (Cary Grant), um sujeito que está com casamento marcado mas que vê sua vida virar do avesso a partir do primeiro encontro com Susan. David trabalha em um museu de ciências naturais que está na expectativa de receber uma voluptuosa doação de US$ 1 milhão de um investidor interessado. E Susan? Bom, Susan, saberemos mais tarde, é uma das herdeiras da família ricaça que pretende fornecer o dinheiro para o museu.

Só que, a moda das comédias românticas dos anos 30 - o clássico Aconteceu Naquela Noite (1934), só pra ficar em um exemplo, vai na mesma levada -, tudo não passará de uma grande desculpa para um engenhoso roteiro onde figuras diametralmente opostas, se aproximarão em circunstâncias aleatórias. David conhece Susan justamente no dia em que vai jogar golfe com o advogado de seu futuro investidor. A ideia é dar uma paparicada no sujeito pra que a transação se desenrole sem muitos percalços. Só que Susan aparece. Primeiro batendo no carro de David. Depois praticamente o "sequestrando" de uma maneira que ele não consegue se livrar dela. E, a partir daí a anarquia toma conta! Ao cabo, Susan é o espírito livre que não parece se adequar a qualquer lógica. Em um dos primeiros segmentos da trama, Susan recebe de seu irmão um leopardo domesticado - e aqui dá pra ver de onde sai a ideia da inclusão desse tipo de animal em comédias como Se Beber Não Case (2009).



A presença inesperada do felino acaba sendo a deixa mais que perfeita para que Susan convide David, que ela acredita ser um zoólogo, até a sua propriedade em Connecticut. Detalhe: no dia casamento do sujeito. Claro que esse será o subterfúgio ideal pra manter o homem próximo a ela - aos poucos perceberemos que ela está apaixonada pelo rapaz. E aí para atrapalhá-lo na ideia de retornar pra cidade, ela fará e tudo um pouco: desde esconder as suas roupas durante o banho (a cena em que David usa uma camisola emprestada é hilária), passando por tombos e batidas de todos os tipos até chegar a uma inesperada prisão. E como se não bastasse todos os desencontros, David ainda perde no meio do caminho um osso de brontossauro - que seria uma peça fundamental na construção de um esqueleto no museu (ela havia sido enviada pelo correio após um trabalho exaustivo de cinco anos de escavação e é capturada por George, o irritante cachorro da protagonista).

Mal recebida pela crítica à época e totalmente esnobada no Oscar de 1939, a obra viveria um período de ostracismo até ser redescoberta nos anos 50. Anos depois, o crítico do New York Times Anthony Oliver Scott destacaria o "brilho e o vigor surpreendentes e que permaneceriam inalterados mais de sessenta e cinco anos depois". Já o historiador e crítico do cinema americano Leonard Maltin afirmaria que esta é "considerada a comédia maluca definitiva e um dos filmes mais rápidos e engraçados já feitos, com grandes atuações de todos". Todos esses predicados fariam com que a obra fosse mais tarde inclusa em diversas listas do American Film Institute (AFI), casos da relação de 100 Melhores Filmes Americanos de Todos os Tempos (na 97ª posição) e de uma honrosa 14ª colocação entre as comédias mais engraçadas da história. Livros como os 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer também incluem a produção que pavimentaria o caminho para que Hawks se tornasse um dos maiores diretores da história, como comprovariam o romance de aventura Uma Aventura na Martinica (1944), o faroeste Rio Vermelho (1948) e o musical Os Homens Preferem as Loiras (1953), entre outros. Pra quem procura uma comédia romântica menos óbvia no Dia dos Namorados, tá disponível na HBO Max.



quinta-feira, 8 de junho de 2023

Livro do Mês - Kafka à Beira-Mar (Haruki Murakami)

Editora Alfaguara. Tradução Leiko Gotoda. 2002, 578 páginas.

Depois de Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar foi a minha segunda experiência de leitura com Haruki Murakami. Resumidamente é um livro muito bom, que tem uma boa dinâmica - até por ocorrer em duas linhas temporais distintas, o que minimiza a exaustão - ainda que exija um pouco mais do leitor, especialmente por conta das suas voluptuosas 578 páginas. Digamos que talvez não seria a obra que eu recomendaria pra quem está querendo adentrar no universo do escritor japonês. A menos que você já esteja acostumado com os "calhamaços". Assim como Norwegian é um livro fluído, mas talvez mais adulto. Ainda que, aqui e ali, aposte no realismo mágico, na fantasia, no subconsciente e no universo onírico em sua composição. "Uma viagem fabulosa através da identidade, da mitologia, da filosofia e dos sonhos", como resumiria o Boston Globe em sua resenha.

A trama, como já dito, envolve dois enredos distintos inter-relacionados que, inevitavelmente se cruzarão. Em capítulos alternados, conhecemos a história do jovem Kafka, um adolescente de 15 anos que, para tentar fugir de uma maldição familiar edipiana foge de casa meio que sem rumo, com o objetivo de tentar encontrar a mãe e a irmã. Em sua jornada, encontrará abrigo em uma suntuosa biblioteca particular na tranquila cidade de Takamatsu - espaço que é dirigido pela enigmática bibliotecária senhorita Saeki (mulher elegante, de modos discretos). No local, Kafka fará amizade com a esperta Oshima enquanto desvendará, paulatinamente, segredos que envolvem seu passado. Na outra linha temporal acompanharemos a história de Satoru Nakata, um homem idoso que, após passar por um trauma na infância, adquire excêntricos poderes sobrenaturais.


Um desses poderes envolve a capacidade de conversar com gatos. Habilidade que foi adquirida após Nakata acordar de um coma que envolve um estranho incidente ocorrido em uma floresta na província de Yamanashi, onde várias crianças teriam desmaiado sem muita explicação. Após o episódio, o homem acordou sem nenhuma memória e sendo incapaz de ler e escrever. As limitações o levaram a um trabalho como auxiliar de marcenaria. E em meio período como localizador de gatos perdidos. Situação que lhe conduzirá, em certa altura da trama à residência de um certo Johnny Walker (sim, na história são muitos os trocadilhos com nomes conhecidos e figuras da cultura geral), famoso por assassinar gatos. Nakata acaba matando Walker, o que lhe fará pegar a estrada pela primeira vez na vida, fazendo uma inesperada amizade com um generoso caminhoneiro de nome Hoshino. O destino da dupla depois de tantas andanças? A mesma Takamatsu, onde Kafka está morando de forma improvisada.

A narrativa cheia de situações inusitadas envolve de chuva de sanguessugas, passando por floresta "encantada", até a capacidade de ver o passado a partir de um quadro na biblioteca. É uma trama engenhosa que mescla referências do mundo pop com tragédias gregas, numa odisseia que aborda temas diversos como, luto, memória, destino e até mesmo o poder das artes (especialmente da música na comunicação) - e não é por acaso que uma sonata de Beethoven é utilizada como metáfora redentora para a vida daqueles que acompanhamos. Metafísico, o livro também aborda a natureza e a nossa relação com ela, sendo comoventes as descrições de Kafka de sua existência solitária e elegíaca em uma espécie de chalé, que é emprestado por Oshima quando o jovem passa a ser suspeito de um assassinato. Drama, mistério, romance torto, tudo com certo senso de humor, a obra nos leva ao limite entre o material e o abstrato, entre o mundano e o filosófico. Parece ser um mergulho em muitos temas que envolvem a obra de Murakami. O que não é pouco.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Pitaquinho Musical - Foo Fighters (But Here We Are)

Frida Kahlo já dizia que "a arte mais poderosa da vida é fazer da dor um talismã que cura" - e, bom, não dá pra negar que But Here We Are parece ter sido o veículo ideal para que Dave Grohl, o vocalista do Foo Fighters, tentasse exorcizar a tristeza não apenas pelo falecimento de seu companheiro de banda, o baterista Taylor Hawkins, mas também de sua mãe, Virginia. Foram quatro meses entre uma morte e outra e, pro bem ou pro mal, os episódios trágicos parecem ter contribuído para que viesse à tona o melhor Foo Fighters dos últimos tempos. Não, não há nenhuma revolução aqui. E muito provavelmente ninguém vai se tornar fã de Grohl e companhia por conta desse décimo primeiro trabalho. Mas, em alguma medida, essa também parece ser uma forma de afagar os fãs. De lembrá-los de que eles ainda estão ali. E de que talvez continuar possa ser o caminho pra que as perdas sejam superadas.



De forma discreta, a banda não concedeu muitas entrevistas sobre o disco ou deu detalhes sobre as letras e seus significados. Mas não é preciso ser nenhum expert pra perceber que temas como luto, memórias, saudade e outros se espalham por todos os cantos. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido em singles como Under You, que tem aquele quezinho de Foo Fighters das antigas, com direito a ponte que leva pro refrão ganchudo, que se soma a barulheira agridoce que não faria feio em meio a canções do álbum There Is Nothing Left to Lose. A letra autoexplicativa (Alguém me disse que nunca mais veria seu rosto / Parte de mim não consegue acreditar que é verdade) é daquelas capazes de unir plateias mundo afora, afinal de contas, quem nunca lidou com perdas? Talvez desde Wasting Light (2011) os Foos não lançassem um disco tão vigoroso, límpido, liricamente belo e até esperançoso - daquele tipo que todos os atos parecem fazer sentido, como atestam as ótimas Show Me How e Rescued.

Nota: 8,5


A Volta ao Mundo em 80 Filmes - A Lancheira (Índia)

De: Ritesh Batra. Com Irrfan Khan, Nimrat Kaur e Nawazzudin Siddiqui. Drama / Romance, Índia / França / EUA / Alemanha, 2013, 104 minutos.

Vamos combinar: a gente vive tempos tão individualistas que, por mais sonhadores e improváveis que filmes como A Lancheira (Dabba) sejam, eles ainda parecem renovar as nossas esperanças. Nem que seja em partes. O ato de almoçar, afinal, pode ser bastante solitário para o funcionário público Sajaan Fernandes (Irrfan Khan) que, em meio a papelada e as burocracias cotidianas, recebe a sua marmita deixada por um tradicional serviço de entregas de Mumbai (o Mumbai Dabbawallahs que, pelo que entendi não apenas existe de verdade, como é bem famoso). Em outro ponto da cidade, a dona de casa Ila (Nimrat Kaur) ocupa as manhãs no preparo do almoço do marido que, mais adiante, descobriremos que talvez a esteja traindo. O capricho dela na preparação do farnel tem a ver com isso: por meio do estômago, Ila pretende reconquistá-lo. A comida saborosa é o caminho, talvez. O aroma, o gosto, o visual, o amor. Tudo parece estar lá dentro naquela marmita metalizada envolta em uma sacola verde.

Só que um problema acontece quando a entrega vai para o destino errado - e a marmita enviada por Ila vai parar na mesa de Sajaan. Que a devora literalmente limpando o prato! Com trinta e cinco anos dedicados ao trabalho, Sajaan está para se aposentar. E comunica o serviço de entregas sobre não ser mais necessário o envio do almoço no próximo mês. Com gentileza, ele informa o atendente sobre a qualidade do preparo do dia. O preparo feito por Ila - não percamos de vista. No dia seguinte o equívoco se repete. Em meio aos esforços do protagonista em treinar o seu substituto - o expansivo e carismático Shaikh (Nawazzudin Siddiqui) -, a marmita é recebida. Só que dessa vez ela está levemente apimentada (a tia de Ila havia lhe dito algo sobre o ingrediente e sobre como deixar as coisas mais quentes em relação ao marido). Sajaan resolve enviar um bilhete para Ila. Sendo esse o instante em que eles iniciarão uma improvável amizade. Construída por meio de bilhetes subsequentes. Enviados por meio da marmita do dia.

Evidentemente, Ila perceberá que há um equívoco e que o alimento não está chegando ao marido. Só que, de um completo desconhecido, ela passará a receber o carinho que está, grosseiramente, em falta em casa. Ao passo que para Sajaan, as conversas com Ila darão cor (e sabor, claro) aos seus dias acinzentados em meio a arquivos, fichários e mesas abarrotadas. Pode parecer apenas inusitado, mas não deixa de ser simpático. Charmoso. A sensação de calor humano é ampliada pelo completo senso de solidão vivido mesmo quando se está em meio a multidão - com seus trens lotados, tráfego lento, arranha-céus intermináveis e outros elementos que formam uma paisagem sem vida, fria, apática, caótica. Na varanda de casa, Sajaan acende um cigarro atrás do outro enquanto observa o movimento da vizinhança. "Seria legal se você parasse de fumar", lembra Ila em uma das carinhosas cartas. Parecem migalhas que, para aquele homem tão traumatizado - um viúvo a caminho do ocaso de sua existência -, serão tudo.

Em alguma medida, é possível afirmar que esse romance epistolar dos tempos modernos funciona direitinho - ainda que, para o espectador, a ansiedade para um possível encontro só aumente a cada nova troca. Mas a obra do diretor Ritesh Batra (de Retrato do Amor, 2019) parece ter muito mais a ver com coincidências e com o compartilhamento de experiências do que necessariamente com o sonho de um grande amor. "Esquecemos as coisas que não temos a quem contar" comenta Sajaan a Ila em certa altura. Às vezes não precisamos muito para termos motivação para levantar da cama e prosseguir. Um afago, um carinho, o reconhecimento por algo, uma nova amizade ou um amor. Uma boa refeição com quem se gosta. Uma refeição enviada carinhosamente por quem se gosta. O filme não dará soluções óbvias ou fáceis como seria se essa fosse uma simples comédia romântica hollywoodiana. Melancólica e doce, sutil mas labiríntica, essa é daquelas experiências pequenas, mas que nos acompanham. Como se fosse um almoço gostoso demais. Tá no Mubi. É só saborear.


quinta-feira, 1 de junho de 2023

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (My Soft Machine)

A maciez e a sofisticação dos arranjos. Um jeito de cantar sussurrante, que aconchega. As letras repletas de citações culturais e de histórias cotidianas - de amor, de amizades, de relações familiares - tornam Arlo Parks uma das artistas mais interessantes da atualidade. Não por acaso seu primeiro disco, Collapsed in Sunbeans foi o segundo colocado na nossa lista de melhores internacionais de 2021. E ainda que My Soft Machine, a aguardada sequência, não tenha o brilho do trabalho inaugural, não dá pra negar que se trata de uma nova coleção de canções acima da média. Apostando novamente na mistura de R&B, jazz, pop e eletrônica, a artista britânica utiliza sua poética simples e criativa como veículo para íntimas composições, que parecem se revelar aos poucos, sem pressa. O resultado é um trabalho cativante, que se alterna entre sintetizadores primaveris e guitarras eficientes.


Um bom exemplo dessa mescla pode ser percebida na saborosa Weightless, uma canção ao mesmo tempo açucarada e dolorosa sobre a experiência de amar alguém, mas receber de volta apenas migalhas de afeto (Você está tão fechado, eu estou esgotada / Mas eu brilho no caso raro / De você me dizer que eu sou seu raio de sol / Eu estou faminta por sua afeição). Ao cabo, é o tipo de música que nos faz abrir um sorriso, mesmo com o coração devastado - tudo isso pela beleza ecumênica dos versos, que se junta a uma melodia estranhamente dançante. Há outros instantes luminosos, como no caso de Pegasus, feita em parceria com a sempre ótima Phoebe Bridgers. Indo pro lado contrário, a música fala sobre a pureza e a raridade de um amor verdadeiro. "Aquele sentimento de solidez de encontrar um verdadeiro lar em outro ser humano", resumiria a britânica nas entrevistas de divulgação. É difícil ficar alheio.

Nota: 8,5


Grandes Cenas do Cinema - O Pagamento Final (Carlito's Way)

De: Brian De Palma. Com Al Pacino, Sean Penn, John Leguizamo, Penelope Ann Miller e Luiz Guzman. Drama / Policial, EUA, 1993, 144 minutos.

[ATENÇÃO: SPOILERS EM TODA A PARTE!]

Tão impactante quanto aleatória. Tão inesperada quanto simbólica. Assim pode ser resumida a última cena do clássico moderno O Pagamento Final (Carlito's Way), filme de Brian De Palma que completa trinta anos de lançamento em 2023 (e que pode ser alugado na plataforma da Amazon). Na famosa sequência, o personagem Carlito Brigante (Al Pacino) é surpreendido por Benny Blanco (o excelente John Leguizamo), que lhe faz a derradeira pergunta: "remember me, Benny Blanco from the Bronx?". Sem dar um segundo para que seu interlocutor pense, ele simplesmente saca a arma a dispara. Em pleno dia. Na estação de metrô. E tudo depois de uma tentativa desesperada de escapada do protagonista, que andava sendo vigiado de perto por mafiosos barra pesada, após seu advogado David Kleinfeld (Sean Penn) assassinar um chefão do tráfico de drogas local. Foi por um milésimo de segundo que a fuga de Carlito não foi consolidada. E talvez seja por isso que essa conclusão - por mais moralista que seja - me pareça tão perfeita. É um arco narrativo que se fecha de forma soberba.

Ao cabo, o que De Palma parece estar querendo dizer para seu público é que, no fim das contas, como diz o velho chavão, "o crime não compensa". E Carlito parece saber disso. O ano é 1975. E após uma manobra arrojada de Kleinfeld, Carlito é liberado da prisão depois de cumprir cinco anos por tráfico de heroína (sua pena original era de 30 anos). Quando é solto, o sujeito está decidido: não quer se envolver com nada que envolva ilegalidades. Quer arrumar um trabalho, quitar suas dívidas e talvez ir morar em algum lugar idílico, tipo as Bahamas (ele tem uma proposta para uma sociedade em um negócio de aluguel de veículos). Só que quando alguém tão relevante no mundo do crime sai da prisão - e a importância de Carlito em seu meio fica óbvia já nos primeiros segundos de filme - é quase impossível impedir que o rastro de violência, de vingança, de morte e de sangue lhe acompanhe. Não são necessárias muitas horas para que Carlito presencie o assassinato de um primo. Tendo que voltar a matar para salvar a própria pele.

Ok, Carlito até tenta mudar de ares. A morte do primo faz com que o protagonista "herde" um valor financeiro da negociação mal sucedida, o que lhe permite entrar como sócio em uma boate. A ideia segue sendo levantar a grana para fugir dali. Daquele contexto inundado de violência. Só que o problema é que a casa noturna é mantida por Saso (Jorge Porcel), um bonachão que é viciado em jogos de azar. E pra piorar a situação, o espaço ainda é frequentado por candidatos a ocupar a vaga de chefão do crime, deixada por Carlito. É o caso do próprio Benny Blanco que, por mais que se comporte como um trombadinha metido, é mais impetuoso do que aparenta. A ponto de Benny desafiar Carlito permanentemente. Com tudo piorando quando Kleinfeld passa a se relacionar com Steffie (Ingrid Rogers), uma garçonete do clube que funciona como interesse amoroso de Benny. Lá pelo meio do filme, um rebu faz com que Carlito expulse Benny da boate. Um episódio humilhante para o novato. Em outros tempos talvez Carlito não o deixasse sair com vida dali. Mas ele deixa. E, bom, quem se lembraria de Benny até os instantes finais?

Parte da diversão dessa trama rocambolesca sobre mafiosos querendo fazer justiça pelas próprias mãos envolve o fato de Carlito jamais se preocupar com Benny. Ele na realidade está ocupado tentando fugir de todas as formas dos capangas de Anthony Taglialucci (Frank Minucci), o chefão do tráfico que é morto por Kleinsfeld. É gente da pesada e Carlito sabe que a retaliação é inevitável. E é por isso que ele pega parte de sua grana pra tentar fugir junto com Gail (Penelope Ann Miller), uma antiga namorada que, atualmente, trabalha como stripper em uma boate. E tudo parecia que ia dar certo pra Carlito. A polícia havia interpelado os homens de Taglialucci em meio ao metrô. O caminho estava livre. Até aparecer Benny. O Benny Blanco. From the Bronx. Que enfia a bala no protagonista. Uma forma de reparar o vexame passado semanas atrás na boate de Carlito. Pelo próprio Carlito. Que lhe expulsou. Lhe agrediu. Ninguém lembrava mais de Benny naquela altura. Já fazia uma hora que ele não dava as caras na história. Mas nesse ambiente masculinista e trágico não há vencedores. Carlito perceberá tardiamente que foi traído. Que foi tudo inútil, afinal. Num dos desfechos mais desconcertantes e devastadores do cinema dos anos 90.