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quinta-feira, 8 de junho de 2023

Livro do Mês - Kafka à Beira-Mar (Haruki Murakami)

Editora Alfaguara. Tradução Leiko Gotoda. 2002, 578 páginas.

Depois de Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar foi a minha segunda experiência de leitura com Haruki Murakami. Resumidamente é um livro muito bom, que tem uma boa dinâmica - até por ocorrer em duas linhas temporais distintas, o que minimiza a exaustão - ainda que exija um pouco mais do leitor, especialmente por conta das suas voluptuosas 578 páginas. Digamos que talvez não seria a obra que eu recomendaria pra quem está querendo adentrar no universo do escritor japonês. A menos que você já esteja acostumado com os "calhamaços". Assim como Norwegian é um livro fluído, mas talvez mais adulto. Ainda que, aqui e ali, aposte no realismo mágico, na fantasia, no subconsciente e no universo onírico em sua composição. "Uma viagem fabulosa através da identidade, da mitologia, da filosofia e dos sonhos", como resumiria o Boston Globe em sua resenha.

A trama, como já dito, envolve dois enredos distintos inter-relacionados que, inevitavelmente se cruzarão. Em capítulos alternados, conhecemos a história do jovem Kafka, um adolescente de 15 anos que, para tentar fugir de uma maldição familiar edipiana foge de casa meio que sem rumo, com o objetivo de tentar encontrar a mãe e a irmã. Em sua jornada, encontrará abrigo em uma suntuosa biblioteca particular na tranquila cidade de Takamatsu - espaço que é dirigido pela enigmática bibliotecária senhorita Saeki (mulher elegante, de modos discretos). No local, Kafka fará amizade com a esperta Oshima enquanto desvendará, paulatinamente, segredos que envolvem seu passado. Na outra linha temporal acompanharemos a história de Satoru Nakata, um homem idoso que, após passar por um trauma na infância, adquire excêntricos poderes sobrenaturais.


Um desses poderes envolve a capacidade de conversar com gatos. Habilidade que foi adquirida após Nakata acordar de um coma que envolve um estranho incidente ocorrido em uma floresta na província de Yamanashi, onde várias crianças teriam desmaiado sem muita explicação. Após o episódio, o homem acordou sem nenhuma memória e sendo incapaz de ler e escrever. As limitações o levaram a um trabalho como auxiliar de marcenaria. E em meio período como localizador de gatos perdidos. Situação que lhe conduzirá, em certa altura da trama à residência de um certo Johnny Walker (sim, na história são muitos os trocadilhos com nomes conhecidos e figuras da cultura geral), famoso por assassinar gatos. Nakata acaba matando Walker, o que lhe fará pegar a estrada pela primeira vez na vida, fazendo uma inesperada amizade com um generoso caminhoneiro de nome Hoshino. O destino da dupla depois de tantas andanças? A mesma Takamatsu, onde Kafka está morando de forma improvisada.

A narrativa cheia de situações inusitadas envolve de chuva de sanguessugas, passando por floresta "encantada", até a capacidade de ver o passado a partir de um quadro na biblioteca. É uma trama engenhosa que mescla referências do mundo pop com tragédias gregas, numa odisseia que aborda temas diversos como, luto, memória, destino e até mesmo o poder das artes (especialmente da música na comunicação) - e não é por acaso que uma sonata de Beethoven é utilizada como metáfora redentora para a vida daqueles que acompanhamos. Metafísico, o livro também aborda a natureza e a nossa relação com ela, sendo comoventes as descrições de Kafka de sua existência solitária e elegíaca em uma espécie de chalé, que é emprestado por Oshima quando o jovem passa a ser suspeito de um assassinato. Drama, mistério, romance torto, tudo com certo senso de humor, a obra nos leva ao limite entre o material e o abstrato, entre o mundano e o filosófico. Parece ser um mergulho em muitos temas que envolvem a obra de Murakami. O que não é pouco.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Livro do Mês - Norwegian Wood (Haruki Murakami)

Editora Alfaguara. Tradução Jefferson José Teixeira, 1987, 362 páginas.

Norwegian Wood foi o meu primeiro contato com a literatura fluída do japonês Haruki Murakami. E, admito, devorei as mais de 350 páginas em menos de uma semana, já ficando com aquele gostinho de quero mais. A moda de outros escritores que espalharam dilemas, incertezas, anseios e inseguranças do universo juvenil em suas páginas - casos de J. D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio e F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby, pra ficar em apenas dois exemplos -, aqui o autor parte de um evento trágico (no caso o suicídio de um adolescente de 17 anos) para revirar as memórias daqueles que ficaram: no caso, o protagonista Toru Watanabe, que era melhor amigo do jovem e a bela Naoko, a ex-namorada do falecido. Um reencontro entre os dois despertará uma paixão bem ao estilo das paixões adolescentes: difusa, muitas vezes complicada e, neste caso, ainda preenchida por uma espécie de dilema ético. Acolher a ex-namorada do melhor amigo pode ser uma fuga nesse momento. Mas desejá-la como como Watanabe nunca desejou nenhuma outra, será o certo?

Enquanto "enfrenta" o seu dilema, o protagonista vive a vida como um outro adolescente qualquer: estuda teatro, convive com amigos excêntricos da universidade - entre eles o exótico Nazista (sim, o apelido do rapaz é por conta de sua mania de organização), com quem divide o quarto - e trabalha meio período em uma loja de discos. Aliás, um parêntese: o livro é pincelado por um sem fim de referências culturais diversas, de obras e autores famosos, passando por filmes e canções e, sim, o livro leva esse título por causa da canção dos Beatles. E, sinceramente, é uma delícia acompanhar os descaminhos dos personagens, vendo seu estado de espírito sendo traduzido por uma música entoada no violão, ou por uma memória aleatória envolvendo, por exemplo, as letras de People Are Stranger do The Doors ou Up On the Roof dos Drifters. No fim é um elemento que dá cor a narrativa, tornando-a mais sedutora, mais próxima de quem lê.

Em suas andanças, Toru acaba se aproximando de uma encantadora, divertida e sexy colega de faculdade: a jovem Midori. Midori é o completo oposto de Naoko: tudo que a ex-namorada do amigo (e seu maior interesse romântico) tem de, obviamente, taciturna, fragilizada e de introvertida, a colega tem de vibrante, de primaveril e jovial. Sem papas na língua - as sequências em que falam com naturalidade (e curiosidade) sobre sexo, masturbação, fetiches, entre outros, estão entre as melhores -, Midori não tem vergonha alguma em verbalizar a sua paixão pelo protagonista. Aliás, ela dedica um carinho que pega Watanabe de surpresa, deixando-o indeciso entre esses dois "amores". Só que a paixão por Naoko parece falar mais alto, mesmo que ele sequer faça ideia se algum dia será correspondido. Enquanto convive no universo de incertezas, Toru anda pra lá e pra cá com o amigo intelectual Nagasawa, que se ocupa de utilizar sua inteligência para seduzir garotas com o objetivo de levá-las para a cama.

Só que Toru só pensa em Naoko. E depois de um breve envolvimento entre os dois ela some, deixando-lhe uma carta em que explica que está em uma espécie de casa de repouso junto às montanhas de Kyoto. Não é exatamente um hospital, mas um local que poderá contribuir para o tratamento de seus traumas psicológicos. No local os pacientes se ocupam com atividades corriqueiras que vão de cuidados com a horta e com os animais, passando por aulas de música até chegar à caminhadas junto a natureza. Tudo parece leve - sensação ampliada pela atitude amistosa de Reiko, a colega de quarto de Naoko que, a despeito de ter quase o dobro da idade de ambos, deixa ambos à vontade. A cada visita de Toru à Naoko as incertezas aumentarão. Ela se recuperará? Valerá a pena mesmo investir em um relacionamento com a ex-namorada do falecido melhor amigo? Midori não seria uma aposta mais segura? O que fazer afinal da vida, que avança inexoravelmente? Sem respostas fáceis, Murakami nos conduz com maestria por essa narrativa tão fascinante quanto nostálgica. Vale conferir.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Livro do Mês - O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação (Haruki Murakami)

A apreciação de uma obra de Arte depende muito do contexto em que esta se insere na vida das pessoas. Podemos não estar "no clima" ao assistirmos um filme, por exemplo. Podemos adormecer e deixar passar algo que poderia marcar de alguma forma a nossa existência. Às vezes, anos depois, ao nos reencontrarmos com ele, podemos perceber detalhes marcantes que não havíamos nos dado conta à época, fruto de nossas vivências até então limitadas que nos impediam a uma reflexão mais profunda. No entanto, algumas raras vezes temos a sorte de um livro cair em nossas mãos e, numa feliz coincidência, ter aquela sensação, epifania, de que algo ali é especial e parece feito pra gente. Como se estivesse narrando parte de nossas vidas, a leitura certa no momento certo: como se o autor me conhecesse. E isso aconteceu na leitura de O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, do japonês Harumi Murakami, lançado em 2014.

“Por mais grave que tenha sido o dano, será que não está na hora de superá-lo? Você precisa ver as coisas que precisa ver, e não as coisas que quer ver. Caso contrário, você vai viver o resto da vida carregando esse fardo”

Explico: assim como o personagem principal, eu também tinha 36 anos no momento em que lia o livro. As sensações vivenciadas pelo "incolor" Tsukuru Tazaki eram muito similares às minhas angústias. O vazio, a autodepreciação, a sensação de não pertencimento. Suas esperanças ou a falta delas. Na trama, Tsukuru é um engenheiro especializado em construir estações de trem que vive atualmente em Tóquio. Dotado de uma personalidade introspectiva, melancólica, de uma certa passividade diante das coisas, vê sua vida ganhar cor ao conhecer e começar a se relacionar com Sara Kimoto, mulher dois anos mais velha pela qual se descobre apaixonado e vislumbrando um futuro mais - com o perdão do trocadilho - colorido. Em uma conversa com Sara ele relata um acontecimento que ocorrera 16 anos antes: o seu abandono (expulsão seria a palavra mais apropriada) por parte de um grupo de amigos da época de escola, sem maiores explicações. Este fato deixa sua pretendente com uma pulga atrás da orelha (como ele seria capaz de seguir em frente sem saber de toda a história?) e estimula Tsukuru a reencontrar-se com os amigos para passar os fatos a limpo e, a partir daí, poder seguir em frente em uma possível relação. A partir do relato por Tsukuru das tentativas frustradas em reencontrá-los, Sara, como boa agente de viagens, promete ajudá-lo a localizar cada um do grupo e finalmente poder encontrá-los para uma conversa que, poderá ou não, trazer certas revelações.


Este grupo consistia de cinco amigos cujos nomes, cada um, significava uma cor em japonês: os meninos eram Amakatsu ("pinheiro vermelho" ou, simplesmente, Vermelho) e Ômi ("mar azul" ou Azul); as garotas Shirane ("raiz branca" ou, simplesmente, Branca) e Kurono ("campo preto", ou Preta). O único que não possuía cor no nome era justamente Tsukuru Tazaki, cujo nome significava "aquele que constrói coisas", o que acabou por refletir na sua profissão e a mudança de Nagoia, sua cidade natal e dos demais amigos, para Tóquio afim de estudar - afastando-o fisicamente do grupo que funcionara como uma irmandade durante muitos anos. O apelido cunhado para ele, "incolor", justamente por não ter nenhuma cor no nome, é uma metáfora bem empregada pelo autor Murakami ao relatar, em sua prosa de leitura simples e fluida, porém poética, todas as nuances de seu personagem principal e a busca por seu lugar no mundo. Acompanhado sempre pelas referências musicais (marca registrada do autor) que, neste livro, é a obra de Franz Liszt "Os Anos de Peregrinação", vemos o percurso do personagem em direção aos referidos encontros onde dores, arrependimentos, catarses, lembranças, virão à tona e contribuirão de variadas formas ao amadurecimento (e à tão fadada busca por autoconhecimento) do personagem.

“O coração das pessoas não está unido apenas pela harmonia. Pelo contrário, ele está unido profundamente pelas feridas. Está ligado pela dor, pela fragilidade. Não há silêncio sem grito desesperado, não há perdão sem derramamento de sangue, não há aceitação sem travessia por uma perda dolorosa”.

Bestseller no mundo todo, Haruki Murakami é um autor bastante cultuado. De extensa produção, pautada por elementos fantásticos, já foi cotado para o Nobel de Literatura. Esta é minha primeira incursão pela obra do autor, e escolhi este livro justamente por ter uma pegada (segundo havia lido) menos fantasiosa e mais "pé no chão" do que suas demais obras. Não me arrependi. Apesar do tema muitas vezes pesado (depressão, melancolia, vazio existencial) a leitura é extremamente agradável e te mantém envolvido e curioso pelos passos seguintes. Confesso que a identificação com o personagem principal contribuiu para a experiência se tornar completa, sendo este, certamente, um dos cinco melhores livros que marcaram minha vida. De passagens belíssimas e profundas (às quais me pego frequentemente relendo) embaladas em uma literatura aparentemente simples, é daquelas obras que te deixam com um calor no peito como se, ao encerrarmos a sua leitura, algo de muito especial permanecerá com a gente. E o final se completa em uma nota certeira: afinal, a vida segue e o que nos resta é a incerteza das coisas e, talvez por isso mesmo, a esperança de dias melhores e a (mesmo que remota) possibilidade de ser feliz. E é tão bom perceber que o crescimento de alguém, fictício ou não, possa nos tornar, consequentemente, alguém melhor.  

"Mas essa dor do peito era necessária, e a sensação asfixiante também era necessária. Ele precisava senti-las. Daqui para frente, ele precisava derreter esse núcleo gelado aos poucos. Talvez levasse tempo, mas era o que ele precisava fazer. E, para derreter esse solo congelado, Tsukuru precisava do calor de outra pessoa. O calor do corpo dele não era suficiente."