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terça-feira, 6 de junho de 2023

Pitaquinho Musical - Foo Fighters (But Here We Are)

Frida Kahlo já dizia que "a arte mais poderosa da vida é fazer da dor um talismã que cura" - e, bom, não dá pra negar que But Here We Are parece ter sido o veículo ideal para que Dave Grohl, o vocalista do Foo Fighters, tentasse exorcizar a tristeza não apenas pelo falecimento de seu companheiro de banda, o baterista Taylor Hawkins, mas também de sua mãe, Virginia. Foram quatro meses entre uma morte e outra e, pro bem ou pro mal, os episódios trágicos parecem ter contribuído para que viesse à tona o melhor Foo Fighters dos últimos tempos. Não, não há nenhuma revolução aqui. E muito provavelmente ninguém vai se tornar fã de Grohl e companhia por conta desse décimo primeiro trabalho. Mas, em alguma medida, essa também parece ser uma forma de afagar os fãs. De lembrá-los de que eles ainda estão ali. E de que talvez continuar possa ser o caminho pra que as perdas sejam superadas.



De forma discreta, a banda não concedeu muitas entrevistas sobre o disco ou deu detalhes sobre as letras e seus significados. Mas não é preciso ser nenhum expert pra perceber que temas como luto, memórias, saudade e outros se espalham por todos os cantos. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido em singles como Under You, que tem aquele quezinho de Foo Fighters das antigas, com direito a ponte que leva pro refrão ganchudo, que se soma a barulheira agridoce que não faria feio em meio a canções do álbum There Is Nothing Left to Lose. A letra autoexplicativa (Alguém me disse que nunca mais veria seu rosto / Parte de mim não consegue acreditar que é verdade) é daquelas capazes de unir plateias mundo afora, afinal de contas, quem nunca lidou com perdas? Talvez desde Wasting Light (2011) os Foos não lançassem um disco tão vigoroso, límpido, liricamente belo e até esperançoso - daquele tipo que todos os atos parecem fazer sentido, como atestam as ótimas Show Me How e Rescued.

Nota: 8,5


quinta-feira, 26 de maio de 2022

Foi Um Disco Que Passou Em Minha Vida - Foo Fighters (The Colour & the Shape)

Mil novecentos e noventa e sete. Se paramos pra pensar nas nossas próprias vidas muito provavelmente existirão alguns anos que são mais relevantes do que outros. Com acontecimentos marcantes - ou nem tanto, mas que pra nós têm significado. O ano da formatura, da carteira de motorista, do primeiro emprego. Do primeiro beijo, do primeiro namoro, da primeira transa. A primeira bebedeira, o primeiro porre para além dos limites da cidade de origem. De tudo um pouco em meio a risadas nas escadas do colégio católico. Mil novecentos e noventa e sete marca alguma coisa no meio do caminho pra esse jornalista que, hoje, aos 41 anos, vos "tecla". Com quinze para dezesseis anos a gente costuma ser uma espécie de nada descobrindo meio que tudo. No final dos anos 90 a tecnologia ainda se resumia a uns celulares em formato tijolão que os pais dos colegas mais playboys utilizavam. Ou um Super Nintendo com Top Gear torando. Era o ano de filmes como Homens de Preto ou Gênio Indomável que, a sua maneira, dialogavam com a moçada, enquanto as acirradas disputas entre os Berdinazi e os Mezenga agitavam o folhetim da noite.

E aí eu me lembro como se fosse hoje da primeira vez em que assisti ao clipe de Monkey Wrench do Foo Fighters, na antiga televisão de tubo da época. A TV a cabo era uma novidade, um luxo recém chegado - e minhas tardes passaram a ser regadas à programas como o Gás Total e o Disk, ambos da MTV. Ver a Sabrina Parlatore anunciando o vídeo da banda de Dave Grohl e companhia era uma espécie de prazer que se mesclava com outras coisas que costumam deleitar os adolescentes. E eu me tornei meio que obcecado por aquela banda. Tão ruidosa mas ao mesmo tempo tão "assobiável". O clipe tinha fúria e doçura na mesma medida - era algo completamente novo pra quem convivia apenas com o que tocava nas rádios ou com apresentações de bandas de pagode aleatórias em shows de auditório dominicais. E não seria por acaso que The Colour & The Shape, disco que completou 25 anos de vida na última semana, se tornaria o primeiro CD adquirido da minha história.

Sim, porque ouvir música em 1997 não era como hoje, onde basta dar play no Deezer ou no Spotify que temos praticamente qualquer música ao nosso alcance. Bendita tecnologia! Mas naquela época, encontrar um disco que nos apaixonava e, mais do que isso, conseguir o dinheiro para comprá-lo, era uma espécie de pequena epopeia, digna de um livro sobre cultura pop que mistura Nick Hornby com Haruki Murakami. Lembro bem que revirei a cidade de Lajeado para ver se encontrava o disquinho da capa azul. Por "revirar a cidade" leia-se ir nas duas ou três lojas que comercializavam discos (uma no shopping local, talvez duas no centro) na tentativa de encontrar o trabalho. Foi em vão, o que fez a missão migrar para outras cidades - e fui encontrar o álbum na vizinha Encantado onde, com o apoio do colega Luciano Girardi (hoje um renomado dentista do citado município), consegui uma edição. Foram meses de espera, é bom mencionar. Mas que valeram a pena.

Ter esse ou aquele CD em 1997 era quase uma conquista pessoal. Se fosse importado então, era uma espécie de vitória em relação aos demais mortais. The Colour & the Shape tinha edição nacional, mas a banda de Dave Grohl e do recém-falecido Taylor Hawkins ainda era um recorte embrionário do grupo gigante que, muito mais tarde, viria a se tornar. Mas na raiz de tudo estavam aquelas músicas - Everlong, Wind Up, My Hero, Up in Arms - uns rockões animados e furiosos, envolventes e porrudos. Ok, hoje em dia a música avançou de tal maneira que o FF quase se tornou uma espécie pálida em meio a profusão de estilos da modernidade. Muitos deles com uma aura mais roqueira que o próprio rock. Ao menos em matéria de atitude. Mas esse disco foi, pra mim, o começo de tudo. Que ampliou meus horizontes - para o britpop, para o grunge realizado anteriormente, para outras vertentes. Pra quem já tinha a paixão pelos Beatles no sangue, esse foi um passo meio que natural. E que foi muito transformador. Em partes, sou quem sou hoje, gosto do que gosto, também por causa do The Colour... E esse passado, eu não posso renegar jamais.


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Lançamento de Videoclipe - Foo Fighters (Waiting On a War)

I've been waiting on a war since I was young / Since I was a little boy with a toy gun. Eu não sei se vocês chegam a se empolgar com a ideia de um novo disco do Foo Fighters, mas o caso é que o décimo álbum de estúdio de Dave Grohl e companhia já tem data de lançamento marcada: 05 de fevereiro. Com o título de Medicine At Midnight, o trabalho contará com nove faixas e explorará de forma mais explícita, ao menos de aparentemente, temas modernos, como a péssima política armamentista dos Estados Unidos - sentimento reforçado pelo videoclipe da canção Waiting On a War, que foi disponibilizado hoje. Funcionando como um pequeno libelo antiguerra - e que vem bem a calhar no final da Era Trump -, a canção tem letra autoexplicativa e uma melodia grudenta que inicia como uma balada evocativa, até alcançar a urgência roqueira de sua parte final. Dirigido por Paola Kudacki, o clipe passa aquele sentimento de conflito permanentemente à espreita, como se a violência estivesse pronta a explodir a qualquer momento - mesmo nos instantes de serenidade. É o Foo Fighters abandonando, ao menos em partes, o componente mais divertido do rock pra falar um pouco mais sério. Legal? Vocês decidem.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Disco da Semana - Foo Fighters (Concrete and Gold)

Em época de Rock In Rio, muito se ouve falar "cadê o rock no festival?". É uma pergunta que pode ser ampliada para além do espectro do evento que está sendo realizado no Rio de Janeiro. Cadê o rock? Onde ele se esconde? Como vive? De espírito transgressor e anárquico num passado ainda recente, hoje, o rock parece relegado a ser escutado por aquele seu tiozão cheirando a naftalina que, nas mesas de domingo, se regojiza das "novidades políticas" por aí apresentadas, deixando transbordar um indelével espírito reacionário, intolerante e conservador. Sim, hoje o rock parece muito mais datado do que qualquer outra vertente - e sujeitos de ideias anacrônicas como o Lobão e o Roger Moreira (aquele do Ultraje a Rigor, caso você não esteja ligando o nome a pessoa) contribuem e muito para essa impressão. Com tanta música boa e plural o rock parece, enfim, agonizar.

Não por acaso, grandes figuras do mundo da música, com ideias muito mais modernas, revigorantes e adequadas aos tempos em que vivemos - como por exemplo, a cantora Lady Gaga -, possuem uma atitude muito mais rock and roll do que qualquer outro desses que empunha(va) uma guitarra, como se fazer barulho com tal instrumento, representasse um tipo de subversão última, que faria corar os fãs do Bolsonaro, da panela ou da camisetinha da CBF. Aliás, vejam só, normalmente esses caras SÃO FÃS do Bolsonaro, da panela e da camisetinha da CBF. Ou você acha que reaça ouve funk? Ouve eletronices cheias de loops e sintetizadores? Ou abre o Spotify pra ouvir o Liniker? Não é regra, mas experimente observar isso no seu círculo de amizades. O Lemmy Kilmister, finado ex-vocalista do Motörhead, mantinha em sua casa um bizarro museu de objetos nazistas. Aliás, ele usava quepes com imagens de suásticas nos shows da banda. Nada de novo, então.



Bom, posto todo esse preâmbulo, será que o rock ainda tem salvação? Será que eu estou exagerando nessa minha resenha bem meia-boca? Será que alguma banda (ou algumas) ainda conseguem imprimir o espírito que já nos trouxe ao mundo sujeitos como Jimi Hendrix, David Bowie ou John Lennon? Bom, o causo é que, para o bem ou para o mal, talvez o Foo Fighters (pasme)  ainda seja essa banda. Afinal de contas, Dave Grohl e companhia poucas vezes fizeram um rock tão certeiro, tão visceral, tão ao mesmo tempo pesado e pop como no mais recente registro Concrete and Gold. E o melhor de tudo: em praticamente todas as entrevistas prévias, o vocalista Dave Grohl fez duras críticas ao misógino e xenófobo governo Trump, transformando a chegada deste nono trabalho em uma espécie de pequeno líbelo para uma América desesperançosa, pessimista e afundada em um sistema político que privilegia poucos. (e que, para nós brasileiros, é impossível não se identificar)

"Estamos de frente a um sujeito que tem um claro desprezo pelo futuro do meio ambiente e pelos direitos das mulheres, diplomaticamente... Eu tenho três filhas que vão viver mais décadas do que eu - como elas vão continuar se não há nenhuma mudança positiva ou progressista?" comentou Grohl em entrevista recente à revista britânica Kerrang. As preocupações com o sistema político adotado pelo líder da mais importante nação do mundo também estão nas letras das canções do novo disco. Mind is a battlefield / All hope is gone (a mente é um campo de batalha / toda a esperança se foi) canta o vocalista no single niilista The Sky is a Neighbourhood. O expediente se repete em outras, como no grudento hit Run - I need some space to breathe / You can stay asleep / If you wanted to (Eu preciso espaço pra respirar / Você pode ficar adormecido / Se você quiser).


Representando ainda uma natural evolução desde o dispensável álbum anterior (o conceitual e fraco Sonic Highways), o Foo Fighters, com Concrete and Gold, volta a se reposicionar como uma das mais relevantes bandas de rock da atualidade, talvez ao lado do Queens Of The Stone Age. (e, não por acaso, ambas as bandas excursionarão juntas no próximo ano, com direito a parada em Porto Alegre) Equilibrando ainda momentos mais pesados e roqueiros (como no petardo La Dee Da) com outras mais intimistas e sutis (como no caso da excelente Dirty Water) Grohl e companhia nos lembram que, no fim das contas, esse estilo musical tão maltratado hoje em dia, ou mesmo tão alinhado a idéias retrógradas de um passado que insiste em reaparecer, ainda está aí para que todos possam se divertir. Petralhas, coxinhas, reacionários, progressistas. Se puder ser em um mundo com menos Trump, menos Bolsonaro, menos ódio, intolerância e preconceito de todos os tipos, ou mesmo com mais empatia e respeito as diferenças - bem a moda do espírito questionador ligado a essa vertente, no passado -, ainda melhor!

Nota: 7,9