terça-feira, 8 de setembro de 2020

Curta Um Curta - John à Procura de Aliens (John Was Trying to Contact Aliens)

Quando John à Procura de Aliens (John Was Trying to Contact Aliens) começa, a gente pode até ter a impressão de que se tratará de um documentário sobre os mistérios do espaço e sobre a permanente busca da ciência em tentar desvendá-los. Mas não. A pequena obra de apenas 16 minutos, disponível na Netflix e dirigida por Matthew Killip, é a verdadeira jornada da autodescoberta, com um desfecho não menos do que maravilhoso. Na trama, acompanhamos a excêntrica história de John Shepherd, que dedicou mais de 30 anos de sua vida a tentar fazer contato com alienígenas. Morador da zona rural do conservador Estado de Michigan, John foi criado pelos avós, transformando a casa deles em um verdadeiro laboratório experimental, com uma série de máquinas e equipamentos que pudessem transmitir mensagens - especialmente mensagens musicais -, ao espaço. Com uma trilha sonora envolvente, a curta-metragem tem uma mensagem otimista sobre o poder dos nossos sonhos e sobre como eles podem transformar as nossas vidas. Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas já cravaria aí um potencial indicado na categoria Documentário em Curta. Vale conferir!

Grandes Cenas do Cinema - Náufrago (Cast Away)

Cena: a dolorosa perda do único e melhor "amigo".

Eu tenho a impressão de que alguns papéis só são possíveis com o Tom Hanks. Como exercício, tente imaginar o personagem Chuck Noland, de Náufrago (Cast Away) sendo interpretado por Brad Pitt, George Clooney ou, vá lá, Mark Rufallo. Não é que não seria possível. Óbvio, são atores muito talentosos e que certamente entregariam uma boa caracterização. Mas Hanks tem aquela "coisa" meio difícil de explicar, aquela capacidade de transmitir força e vulnerabilidade em uma mesma medida e que parece ideal em alguns filmes. E a meu ver esse combinado serve direitinho para que cenas como aquela em que o protagonista da obra dirigida por Robert Zemeckis perde a sua bola de vôlei - ou, no caso, o seu melhor e único "amigo" Wilson. Precisa haver aí algum tipo de desprendimento: algo que torne a sequência que poderia soar apenas boba, em algo mais crível. E o astro vencedor do Oscar por Philadelphia (1993) e Forrest Gump (1994) consegue esse efeito. Aliás, eu sempre choro copiosamente nessa parte.

Wilson surge no filme em uma parte crucial para o andamento da narrativa: após o acidente em que Noland vai parar numa ilha desabitada, no meio do nada, ele está literalmente reaprendendo a viver. Junto do seu abatido corpo, as ondas oceânicas levaram para a borda da ilha dezenas de pacotes da FeDex, empresa onde o protagonista cumpria suas atribuições de uma forma absurdamente meticulosa. Aliás, ele era aquele cara todo certinho, que tinha a pontualidade como regra - o que, claro, a vida na ilha vai quebrar. Relutando inicialmente em abrir as embalagens, Noland tem uma longa e desgastante sequência em que tenta fazer fogo para que possa não apenas chamar a atenção para a sua causa - vai que uma embarcação passe por ali -, mas também para aquecer os peixes, o seu alimento oficial. Enfadado pelo insucesso, abre todos os pacotes. O conteúdo é variado, e aparentemente inútil: um par de patins, um amontado de fitas VHS e... uma bola de vôlei da marca Wilson.


Interessante notar como, naquele contexto, praticamente todos os objetos terão alguma utilidade. As lâminas do patins se transformarão em afiadas facas - servindo também como improvisados espelhos. Os rolos das fitas poderão servir de amarras. Mas a bola de vôlei se transformará em algo maior: um amigo involuntário. Alguém com quem Noland passa a dividir suas impressões sobre tudo, seus objetivos, angústias e anseios. Inserindo na bola um rosto - feito com seu sangue -, o protagonista concede à ela o cargo de confidente. Praticamente nada acontecerá sem uma "troca de ideias" com Wilson. E mesmo quando a narrativa avança quatro anos e a bola, inevitavelmente murcha, o náufrago a reconfigura, recheando-a com galhos (que até parecem "cabelos"), o que a faz ser um tipo de seu semelhante. Com quase 1500 dias na ilha, Noland também está barbudo, cabeludo, exaurido. E resolve tentar sair da ilha construindo uma jangada e improvisando um tipo de vela, com uma estrutura metálica também "entregue" pelo oceano.

E será mar adentro, num ato desesperado, que Wilson inesperadamente terá seu trágico destino selado. Após uma tempestade que deixa a jangada em frangalhos, Noland está adormecido no instante em que a bola se desprende da estrutura instalada para que ela permanecesse em segurança. Quando o protagonista percebe que seu amigo já está a deriva, é tarde demais: tenta entrar no oceano, mas não pode perder a jangada de vista. Wilson, assim, vai se afastando, enquanto o náufrago grita dolorosos pedidos de desculpa pela "desatenção". E, assim, estaria criada para o imaginário cinéfilo uma das mais inesquecíveis histórias de separação entre amigos do cinema. Para além de uma obra sobre sobrevivência ou sobre recomeços - o final da história toda também dá conta disso -, O Naufrago é um conto improvisado de amizade, triste e curioso, que talvez só Hanks, com o seu talento único para a composição do sujeito comum em situações limite, consiga. Aliás, o astro chegou a ser indicado ao Oscar naquele ano, por esse papel. Num filme pequeno, escapista, quase com aquele clima Sessão da Tarde, é um feito e tanto!

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Novidades no Now/VOD - Estou Pensando em Acabar com Tudo

De: Charlie Kaufman. Com Jessie Buckley, Jessie Plemons, Toni Colette e David Thewlis. Drama / Suspense, EUA, 2020, 134 minutos.

Já deve ter acontecido para vocês mais de uma vez: o ideal de um relacionamento era muito melhor do que o relacionamento em si. O sonho, o plano. O que ia ser mas não foi por que a vida real, bom, a vida real é REAL. Nesse universo, a gente pode optar por sermos apenas nós mesmos. Ou sermos quem o outro desejaria que fôssemos. Há um chavão que diz que não há relacionamento sem "ceder". E é cedendo aqui e cedendo ali que a gente perde a nossa essência. A nossa natureza se esvai. Os nossos sonhos e escolhas ficam pelo caminho. Tudo para que a gente viva a vida pensando pelo outro. Para o outro. Reflita agora por um instante em quantos casais miseravelmente infelizes você conhece? Dois, três, cinco? Talvez você mesmo seja essa pessoa: solitária em um mundo a dois. Isolada daquilo que se sempre desejou. Mas incapaz de modificar o entorno porque, né, a gente está acomodado. Pai, mãe, filhos. Rotina, tédio, repetição. Monotonia, vazio. Ruminação em cima de frustrações que, invariavelmente, vão se manifestar. Porque, na vida, somos eternos insatisfeitos. Todos nós. Ansiosos pela grama do vizinho ser sempre mais verde. E nós sermos incapazes de lidar com isso.

Na essência, Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things), mais recente trabalho de Charlie Kaufman, baseado em obra de Iain Reid, versa sobre o completo fracasso dessa instituição que conhecemos como "relacionamento idealizado". Aquele absurdo delirante que assistimos em filmes de comédia romântica e que, no fim das contas, só existe mesmo em comédias românticas. A vida é pura imperfeição e não é que isso seja ruim: mas o problema parece estar na nossa dificuldade em lidar com o outro, sem estabelecer uma vida que seja baseada na mera convenção social. Aliás, provavelmente seríamos mais felizes em relações que não precisassem apenas seguir padrões. Na trama, a jovem vivida por Jessie Buckley está indo conhecer pela primeira vez os pais do namorado (Jesse Plemons), na isolada fazenda em que vivem. No caminho ela já está em dúvida sobre o futuro daquilo tudo: gosta do namorado, talvez até o ame. Mas, até quando? Com inegável pessimismo, o filme não pega leve na constatação de que a vida a dois não é garantia de felicidade. Pior, concebe a ideia de que a sensação de vazio estabelecida pelo avanço dos anos pode ser ainda mais dolorida quando estamos acompanhados. Nada, absolutamente nada, é definitivo, afinal.


E essa discussão toda sobre relacionamentos, permanência, afeto, longevidade, velhice, paixões e planos feitos ou desfeitos vem com uma bem organizada edição, que descortina na tela, primeiro, diálogos arrebatadores, cheios de referências e citações culturais, que podem ir de Guy Debord (escritor do atualíssimo A Sociedade do Espetáculo), passar por David Foster Wallace e chegar a filmes como Uma Mulher Sob Influência (1974) de John Cassavetes. As divagações sobre o mundo, as pessoas, o pessimismo que salta da tela em cada verso que constata a nossa incapacidade de conviver normalmente em sociedade, são não menos do que soberbas. Há algo na condução da narrativa que parece colocá-la sempre no limite de um sonho onírico e melancólico, em que a neve persistente dá conta do clima taciturno de abatimento que envolve aqueles que assistimos. Ao mesmo tempo, a propriedade grande e sombria em que boa parte do filme se passa, nos envolve num clima de assustadora opressão, como se alguma coisa séria, pesada, estivesse sempre pronta a acontecer - e mesmo um simples cachorro se chacoalhando por estar apenas molhado, pode ser um convite à tensão.

E há ainda as metáforas. Toneladas delas, aliás, saltando na tela o tempo todo. A gente não consegue ter a certeza exata do que significa tudo aquilo que assistimos, mas podemos inferir que, no geral, o que se descortina na nossa frente é o retrato de uma vida inteira. Com o que foi e com que poderia ter sido. Com os sonhos concretizados ou não. Há um zelador que aparece o tempo todo e que, simbolicamente, nos devolve para a realidade - e uma realidade que pode ser dura. Há uma ambiguidade do isso que poderia ser aquilo, como na parte em que a namorada parece se VER em um dos quadros que está na casa dos pais do namorado. Num universo de incertezas, há a forte tendência de que a gente busque se adequar a este ou àquele padrão, o que não evitará a frustração. Há caminhos no meio disso tudo? Sim, provavelmente há. E o que o filme parece nos sugerir é aquele que envolve escolhas que dialoguem exclusivamente com as nossas vontades reais. As nossas vontades. Não as dos nossos pais. Não a dos namorados, dos maridos, das esposas. As nossas vontades. Nós. Sendo nós mesmos. O que talvez nos permita ser a melhor versão de nós mesmos. Amenizando as dores futuras. E olhando com menos tristeza para o passado de sonhos nunca alcançados. E o que certamente melhorará uma possível vida a dois.

Nota: 9,5

sábado, 5 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #19 - Filmes Superestimados

Vamos combinar que é inacreditável que um filme como Shakespeare Apaixonado (1999) que, hoje em dia ninguém mais sequer lembre da existência, tenha ganhado o Oscar de Melhor Filme naquele ano. Exagero midiático? Campanha bem sucedida na temporada de premiações? Ou apenas mais uma obra superestimada pela crítica? Bom, na história do cinema foram muitos os filmes que, talvez, tenham gerado um burburinho (ou um hype) um pouco mais exagerado do que verdadeiramente mereciam. E que talvez não fossem tuuuudo aquilo que se propagava. É claro que essa história não tem a ver apenas com os festivais: há aqueles filmes tão presunçosos que  talvez também merecessem esse "carimbo". Titanic (1997), por exemplo, merecia tantas estatuetas douradas? Donnie Darko (2001) é apenas uma bobajada viajandona? Mãe (2017) é confuso demais nos temas que pretende abordar? No episódio dessa semana o Henrique, o Bernardo e eu citamos outros exemplos de obras que mereciam apenas um "meeeenos, bem menos". Bora sabadar?


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pérolas da Netflix - A Prima Sofia (Une Fille Facile)

De: Rebecca Zlotowski. Com Mina Farid, Zahia Dehar, Lakdhar Dridi, Nino Lopes e Clotilde Courau. Drama, França, 2019, 92 minutos.

Se tem uma coisa que o ser humano é especialista nesse mundo é em julgar o rabo alheio. No Brasil de Bolsonaro, então, nem se fala: aqui, a hipocrisia reinante fala mais alto, em um Governo que pretende tomar decisões sobre o corpo do outro, suas liberdades e vontades. Aliás, liberdade é uma palavra-chave para o ótimo A Prima Sofia (Une Fille Facile), filme despretensioso que estreou recentemente na Netflix. Exibido na quinzena dos realizadores do Festival de Cannes, é a típica "obra de amadurecimento". Na trama, Naïma (Mina Farid) é a jovem que, durante as férias escolares, recebe a bem resolvida prima do título em português (e que é encarnada de forma hipnotizante por Zahia Dehar). É verão, o clima é primaveril, as pessoas estão livres e dispostas e o que a diretora Rebecca Zlotowski faz, de alguma maneira, é mostrar que, na nossa vida, devemos ser apenas nós mesmos. E ser felizes. Sem julgamentos. Sem olhar o outro com preconceitos por não ser parte do padrão vigente.

Sofia é, ao cabo, um espírito "livre". E talvez seja um espírito mesmo: que assim como vem, vai, deixando marcas, influenciando vidas, modificando ideais. Eu diria até que a jovem, guardadas as proporções, é como aquele livro que a gente lê, desvenda, e que nos abre os horizontes. Nos desperta para que saiamos da letargia de nossos dias, em busca de algo mais palpável e que tenha significado para nós. Sofia, por exemplo, encara o sexo, o corpo, com naturalidade. Se utiliza dele, inclusive, para se aproximar de outras pessoas. Mas o corpo é dela, afinal. Ela decide. É ela que, aos poucos, mostrará isso para Naïma que, perto da prima, parece uma menininha que ainda não desabrochou. Que segue presa numa infância em que é paparicada pela mãe e que tem sonhos juvenis que são como as peças de teatro encenadas com o amigo Dodo (Lakdhar Dridi). E isso também não é problema, afinal de contas cada um tem seu tempo. E este não só pode, como deve ser respeitado.


É um filme sobre muitos "nadas" que significam bastante coisa - e a formação na juventude passa por muitas provações, muitas inseguranças a serem superadas e, quem vai mentir que nunca encarnou uma personagem daquilo que não era nessa fase da vida? Sensual, o filme tem na liberdade sexual uma forma de expressar suas intenções. E com cenas de transa reais, em que a conexão entre os corpos é um prazer, um deleite - diferentemente do que ocorre nas cenas de sexo de filmes hollywoodianos em que, invariavelmente, transar é um sofrimento. Aliás, a obra é toda sexy: de seus cenários quase paradisíacos, passando pelas enigmáticas sequências de flerte junto a barcos, até chegar as boates classudas e as praias aconchegantes. Na rotina dessa quinzena de férias, Sofia e Naïma se juntam para formar uma espécie de contraponto entre duas jovens: uma ambientada a uma vida hedonista, de luxo e de sexo e outra que tem a sua rotina abalada justamente por esse combo.

Diga-se de passagem, acredite, o público mais careta, mais conservador tem se queixado das liberdades tomadas pela película. Onde já se viu, afinal de contas, uma obra em que uma jovem curte, transa, vive a vida sem se preocupar com o futuro, família, filhos, carreira? Sim, é uma espécie de idílio nem sempre aceitável - e os consumidores da Netflix alegam não estar encontrando sentido na narrativa. Nesse caso, eu costumo ir na regra oposta: se a juventude anacrônica e lacradora não está gostando, há chance de estarmos diante de um bom filme. Aliás, a obra me fez lembrar outra, que foi tão criticada quanto esta, pelas cenas de nudez e pelas liberdades tomadas: Swimming Pool: A Beira da Piscina (2003), também de um diretor francês, no caso o ótimo François Ozon. Em ambos os casos há uma protagonista misteriosa, que parece saída de algum universo alternativo, mas que deixará profundas marcas naqueles que ficam. Viver a vida sem julgamentos, ser feliz, fazer aquilo que gosta. Me parece ser esse o recado de A Prima Sofia. Pena que os jovens da idade das protagonistas, não pareçam compreender isso.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Tesouros Cinéfilos - Gênio Indomável (Good Will Hunting)

De: Gus Van Sant. Com Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Minnie Driver e Casey Affleck. Drama, EUA, 1997, 126 minutos.

Nas aparências, Gênio Indomável (Good Will Hunting) sempre foi o filme sobre o adolescente rebelde com um talento único, que é incapaz de lidar com o mundo como este se apresenta. Sim, é TAMBÉM sobre isso. Mas é uma obra de muitas camadas - e talvez este seja um dos aspectos que mais me agrade na película de Gus Van Sant (Milk: A Voz da Igualdade). No caso o fato de sempre perceber algum outro detalhe, uma ou outra nuance capaz de tornar a obra um pouquinho maior do que ela é. E a meu ver o aspecto que mais me salta aos olhos, nesse sentido, é o fato de a narrativa propor uma grande reflexão sobre escolhas. Escolhas mesmo.Aquelas que faremos na vida, certas ou erradas, que nos farão quebrar a cabeça, nos decepcionar, gerar ansiedade. Na juventude - especialmente -, decidir, muitas vezes movidos pelo entorno, pelo meio em que nos encontramos, pelas circunstâncias, não é tarefa fácil. Conosco está uma bagagem ainda pequena, que deixará para a trás a inocência da infância fazendo um aceno para a vida adulta.

E, de alguma forma, Gênio Indomável é também uma obra de "formação". De amadurecimento. De nos fazer refletir sobre o que devemos fazer. De como (e se) devemos utilizar as nossas habilidades a nosso favor. Ser feliz? Todos queremos. Mas qual o percurso para isso? Will Hunting (Matt Damon) tem um dom que o faz ser uma espécie de "gênio involuntário": ele é capaz de resolver equações matemáticas complexas, com meia dúzia de rabiscos, num piscar de olhos. É um tipo de talento nato que quase foge de uma explicação racional. Vale a mesma lógica para Mozart na frente de um piano: enquanto para nós o instrumento não passa de uma grande caixa de maneira com teclas - numa divagação semiótica -, para o precoce compositor era a forma de fazer a sua mágica acontecer. Não era questão de treino, de estudo, de persistência. Era natural. Sabe aquele garotinho que, com sete ou oito anos de idade, deita e rola no futebolzinho do bairro? E que será o novo Messi? É isso.


Só que na volta de Will, todos acham que ele pode fazer algo MELHOR com a sua habilidade do que aquilo que ele efetivamente faz. O jovem teve uma infância difícil, o que fez com que ele crescesse embrutecido, raivoso. Dá um dedo para, com seus comparsas, arrumar confusão na rua, brigar por bobagem. E é numa dessas brigas aleatórias que vai parar em um reformatório que lhe impõe uma condição: ou faz algum tipo de tratamento psiquiátrico que possa fazer com que expulse os demônios que estão dentro do armário, ou é xadrez. As turras brigará também com os psicólogos indicados pelo professor Gerald (Stellan Skarsgard) - que naquela altura já está sabendo de seu talento matemético. A única solução? Um antigo ex-colega que também atua na área da psiquiatria, um certo Sean Maguire (Robin Williams). Com uma metodologia bastante excêntrica, Sean compreenderá o que se passa na mente de Will - especialmente no que diz respeito às pressões que sofre para que resolva as coisas que dizem respeito à potência de suas aptidões. Arrumar um trabalho? Ganhar bastante dinheiro? Ser "feliz", mas numa vida não desejada?

Nesse sentido, Will me faz lembrar bastante a personagem Charlie, da espetacular distopia Flores Para Algernon, do escritor Daniel Keyes. Quando participa de um experimento científico que não apenas lhe cura de uma severa deficiência intelectual, como lhe torna absurdamente inteligente, Charlie se torna incapaz de suportar a dureza do mundo. Algo que num universo de alienação e ignorância não existia: ao contrário, sentia-se feliz em seu mundinho de poucos amigos e de amor familiar bastante torto. Will tem algo excepcional ao seu alcance: mas aceitar seu destino e adentrar naquele universo - que talvez seja o universo que as demais pessoas esperam dele -, o tornará realizado? Ou uma vida simples, justa e de amor pode ser suficiente? A carta deixada para Sean, no último instante dá uma pista. E, como a cereja do bolo, a "amizade" entre Sean e Gerald deixa uma pista ainda maior: a de que seremos tristes e felizes, inevitavelmente e independentemente de nossas escolhas. A vida, afinal, não é uma ciência exata. Não é uma equação como aquelas tão facilmente resolvidas por Will. E, vamos combinar, é nisso que está a beleza de tudo. No imprevisível, no imponderável, no aleatório.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Na Espera - Ammonite (Filme)

Conforme o ano avança vão ficando mais claros quais as obras que deverão ter uma campanha mais pesada para a próxima edição do Oscar - e esse parece ser justamente o caso de Ammonite (Ammonite), filme do diretor Francis Lee (de O Reino de Deus), que tem estreia prevista para o dia 13 de novembro de 2020 no Estados Unidos (por aqui a data ainda não foi definida). É daquelas obras que tem toda a cara de que vai arrebanhar indicações na premiação máxima do cinema. Começa pelas atrizes que protagonizam: no caso Kate Winslet e Saoirse Ronan. Depois, tem a trama de época com direito a relacionamento homoafetivo - o que o trailer entrega. E já toda aquela ambientação, cenários, um clima acinzentado, suntuoso, imponente. É filme que, pode escrever, no mínimo vai conseguir colocar as suas estrelas nas categorias de Atriz e Atriz Coadjuvante, podendo pintar ainda categorias técnicas, como Figurino e, Filme claro.


Divulgado na última semana, o trailer nos joga para o começo do Século 19 onde, no Reino Unido, uma paleontóloga de nome Mary Anning (Kate Winslet) trabalha sozinha em uma companhia, catando fósseis comuns para vender para turistas com a intenção de cuidar de si mesma e de sua mãe doente - seus dias de glória já ficaram para trás. Lá pelas tantas, um homem rico lhe oferece um trabalho, que envolverá uma jovem londrina e uma grande amizade. Em tempo, o amonite é um tipo de molusco fossilizado que ocorre junto ao Canal da Mancha. O trailer é classudo, a história parece instigante, cheia de ótimas reflexões e nós por aqui já estamos Na Espera por essa produção!

Grandes Cenas do Cinema - Os Pássaros (The Birds)

Cena: um ataque que se desenha na escola.

Quem já assistiu a Os Pássaros (The Birds), clássico do diretor Alfred Hitchcock, sabe que a obra é uma verdadeira coleção de sequências vertiginosamente aflitivas. Aliás, o filme é todo tenso, num efeito meio curioso que faz com que sintamos alguns calafrios até mesmo nas cenas mais prosaicas - como as que ocorrem no restaurante ou em um eventual barquinho que atravessa a baía. A meu ver é nessa obra-prima que o Mestre aprimora todas as trucagens que lhe consagraram. E o melhor: diferentemente daquilo que ocorre em suas películas anteriores, aqui temos o terror instaurado por uma força da natureza que é, portanto, imprevisível, mais complicada de lidar. O que farão efetivamente os pássaros a cada passo dado pelos habitantes da pequena Bodega Bay ninguém sabe: é diferente de um assassino com uma arma na mão e uma ideia fixa. É tudo imprevisível, cáustico, barulhento, aleatório. A violência vindo do ar, do nada, gratuita, implacável. Um terror incontrolável, pode-se dizer.

E escolher apenas uma sequência que resuma essa catarse aérea que assistimos transpirando da tela, também não é tarefa fácil. Mas existe uma que é tensa não apenas por aquilo que assistimos: mas por aquilo que NÃO enxergamos. E era dessa forma que Hitchcock conseguia, muitas vezes, estabelecer a sua magia. O suspense e o terror pareciam brotar de onde menos se esperava, de uma forma meio contrastante, angulosa, com as acontecimentos se descortinando de forma tópica, mas não menos inquietante. Na cena da escola, a jovem Melanie Daniels (Tippi Hedren) pretende conversar com a professora (vivida por Suzanne Pleshette), para lhe alertar sobre os perigos que podem estar rondando não apenas a pacata cidade, mas o educandário. Se aproxima de uma cerca, fuma um cigarro, enquanto escuta a cantoria dos alunos, uma espécie de música folclórica hipnotizante, que vibra lá de dentro. Há um silêncio no ar. Aparece um pássaro que pousa no trepa-trepa. Mais um. E outro. Ela fuma, a música segue. A escola tem um silêncio plácido. Mais alguns pássaros se movem e...


...bom, é nessa sequência que a gente lembra os motivos de Hitchcock ser considerado um Mestre. A composição dos quadros, os jogos de câmera, as idas e vindas. A música, os contrastes entre a tensão e a calmaria e um trepa-trepa que surge LOTADO de pássaros. Um tipo de sadismo com o espectador que beira o delírio: a gente sabe que algo muito sério está pra acontecer. Percebemos, sentimos. A tensão já vem crescendo. Já houve um ataque. E mais outro, previamente. A cidade está sendo "invadida" por aves frenéticas que atacam, sem lógica. Querem apenas matar o que está pela frente. E resta as demais pessoas fugir. Correr. E lutar pela vida. A cena é demorada, angustiante. Os alunos sofrem com bicadas, sangram, gritam. Os guinchos dos pássaros perturbam, agridem, assim como o bater de asas. Tudo é atordoante, delirante. É como o livro A Pomba, do escritor Patrick Suskind elevado a enésima potência.

Talvez não seja tão simples identificar as metáforas propostas pelo diretor inglês, a partir da obra de Daphne Du Maurier. Há um subtexto permanente que envolve uma mãe "castradora" - no caso a do protagonista Mitch Brenner (Rod Taylor), sempre observado de perto pela matriarca Lydia (Jessica Tandy) -, com um Complexo de Édipo que parece "gritar" para sair da tela. Hitchcock se sentia assim, na vida real, e utilizava a sua obra para expulsar alguns demônios do armário - o que certamente explica a grande quantidade de femmes fatales em suas obras (e ele não faz nenhuma questão de esconder isso). Se os pássaros desse clássico são uma forma de confrontar essa "força da natureza", não temos como saber. Deixando de lado as metáforas, o que se pode afirmar é que este é o último grande filme do inglês. E que levou os seus atores ao limite da tolerância já que, reza a lenda, para conferir realismo à produção, ele chegou a GRUDAR pássaros de verdade ao corpo das vítimas, que saíram, de fato, machucadas). Perturbador é pouco.