terça-feira, 9 de junho de 2020

Tesouros Cinéfilos - Coração Valente (Braveheart)

De: Mel Gibson. Com Mel Gibson, Brendan Gleeson, Catherine McCormack e Patrick McGoohan. Drama / Aventura / História, EUA, 1995, 177 minutos.

Tem um pouco de tudo no clássico moderno Coração Valente (Braveheart), que completa 25 anos de seu lançamento agora em julho de 2020: ação, aventura, romance, drama, suspense, humor... é o cinemão por excelência na tradição das grandes obras concebidas por Hollywood e que numa rara equação, ao menos para os dias de hoje, alcançaria sucesso não apenas de público, mas também de crítica. Não é por acaso que a obra sairia como a grande vencedora do Oscar de 1996, com Mel Gibson consagrado não apenas como Diretor, mas também como Produtor. O filme, que volta no tempo pra contar a história do nobre caveleiro William Wallace que liderou uma rebelião no final do Século 13 que culminaria em uma grande guerra pela independência da Escócia, levou ainda para a casa as estatuetas de Fotografia, Efeitos Sonoros e Maquiagem (todo o mundo lembra da icônica pintura em branco e azul no rosto de Gibson).

Na internet há muitas críticas sobre as "liberdades criativas" tomadas por Gibson para a realização da película mas, bom, não teríamos uma obra de ficção que toma por base os fatos reais se tudo fosse seguido ao pé da letra. Um dos principais questionamentos envolve a personagens de Murron (Catherine McCormack) que, de acordo com historiadores, sequer teria existido. Mas para o filme ela é peça importante, por ser esposa de Wallace (Gibson), em um casamento ocorrido às escondidas, já que os pais da moça eram contrários à união. Após Murron ser brutalmente assassinada por integrantes do exército inglês liderados pelo tirano Rei Eduardo I (Patrick McGoohan), em uma emboscada em um vilarejo, é que tem início a jornada do herói. Wallace literalmente se alia ao povo indignado pela opressão da monarquia da época para reivindicar a liberdade suprimida, em meio aos temores reais de caos social que poderiam ser provocados por uma guerra civil.


É um contexto não muito fácil de ser compreendido, mas, sinceramente, isso é o de menos para a apreciação da obra. Há um mal representado por um Império militar que age de forma arbitrária, abusando do poder que tem sobre os clãs escoceses - o que pode ser visto em "políticas" absurdas como a da Prima Nocte, em que senhores de terra se davam ao direito de desvirginar jovens recém casadas, como forma de referendar um casamento entre servos. E há por outro lado um povo cansado de um sem fim de sofrimento - que no caso de Wallace existe desde a sua infância, já que seu pai morre em batalhas com a barbárie se espalhando pelos pequenos povoados (como no caso da cena em que dezenas de pessoas surgem enforcadas). Wallace fica emputecido com tanta injustiça, sendo a morte de Murron a gosta da água. De forma meio desorganizada, mas muito unida e apaixonada, o grupo de camponeses organizado pelo sujeito vai avançando, vencendo algumas campanhas, perdendo em outras, como no caso da Batalha de Falkirk. Destituir, afinal, um Governo tirano e autoritário não é tarefa fácil e isso, definitivamente, não será possível sem o derramamento de um caminhão de sangue.

Nesse sentido, a obra e Gibson é pródiga: as coreografias de batalhas são impressionantes, assim como a edição de som, com os barulhos de cavalos galopando, de espadas brandindo e de gritos ecoando, se misturando em meio a vastas planícies bem fotografadas. Aliás, o desenho de produção é também impressionante não apenas na recriação dos cenários da época (é divertido ver cidades como Edimburgo reimaginadas para o período), o mesmo valendo para o figurino, com o espectador reconhecendo facilmente as diferenças entre os imponentes trajes militares e as roupas quase esfarrapadas dos camponeses (numa metáfora para a situação real da Escócia na época, que chegava ao seu limite). Para quem gosta de filmes de ação e aventura, em que a "jornada do herói" fica claramente estabelecida - meio maniqueísta, mas é parte da diversão -, a obra é uma joia que vale a pena ser redescoberta. O drama relativo ao conceito de "vitória" também é subvertido dentro da narrativa, em meio a traições, gestos de amizade e camaradagem - e confesso que gosto muito de ver o Brendan Gleeson atuando. É filme de capa, de espada, de sangue, de suor, de lágrimas. E que nos deixa presos à cadeira nas três horas de duração. Que passam voando, por sinal.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Quatrilho

De: Fábio Barreto. Com Patrícia Pillar, Glória Pires, Alexandre Peternost, Patricia Pillar, Gianfracesco Guarnieri e Cecil Thiré. Drama / Romance, Brasil, 1995, 113 minutos.

Por causa do filme O Quatrilho, o Brasil esteve entre os indicados na cerimônia do Oscar de 1996 na categoria Filme em Língua Estrangeira - viria a perder para o holandês A Excêntrica Família de Antônia (1995). Era a época da retomada do cinema nacional, com as produções voltando a figurar em festivais estrangeiros. Ganhando visibilidade. E consolidando a força de nossos filmes por pelo menos mais duas décadas, até a chegada do massacre à cultura que ocorre no atual governo - ainda que, paradoxalmente, as nossas produções sigam em alta conta no exterior, vide as vitórias de Bacurau e A Vida Invisível de Eurídice Gusmão no mais recente Festival de Cannes. Sobre O Quatrilho, é possível afirmar que o filme de Fábio Barreto, baseado no livro escrito por José Clemente Pozenato, envelheceu relativamente bem. Há um quê de nostalgia naquele cenário do começo do século passado, no Rio Grande do Sul que, afinal, parece nunca sair de moda.

A trama nos joga para uma pequena comunidade da Serra Gaúcha, local em que imigrantes italianos iniciam as suas vidas - centrando as suas forças no trabalho e na manutenção da família. É lá que dois casais de "compadres" se unirão para adquirir uma área de terras com a intenção de cultivar milho, soja e uvas. Apesar do alto investimento, acreditam que com a construção de um moinho, poderão ter um retorno financeiro mais rápido. Do ponto de vista dos negócios, tudo parece fluir muito bem. O problema são as outras tensões. O que em uma comunidade fechada, conservadora, funcionará como um verdadeiro barril de pólvora pronto a explodir. O filme começa com o casamento de Angelo Gardone (Alexandre Paternost) com Teresa (Patricia Pillar). Eles se dão bem como amigos, mas na intimidade a coisa parece não ser das melhores. E quando Massimo (Bruno Campos) e Pierina (Gloria Pires) se juntam a eles em sociedade, bom, será questão de tempo para que as coisas saiam dos trilhos. Ou, dependendo do ponto de vista, se realinhem.


Como no popular jogo do quatrilho, em que ocorre uma troca de cartas a cada rodada, com a intenção de ficar com o naipe mais alto, Angelo a Massimo acabarão por fazer um intercâmbio meio "forçado" de esposas. A realidade é que Massimo e Teresa se apaixonam bem debaixo do nariz de Angelo e Pierina, que só percebem a traição quando o trem já partiu levando os adúlteros. Assim como no jogo de cartas jogados pelos imigrantes, é preciso buscar forças para recuperar aquilo que se foi perdido. O que Angelo e Pierina farão com persistência e carinho, sob o olhar desacreditado da comunidade. Aliás, o falatório alheio servirá para dar conta da hipocrisia não apenas da sociedade, mas também da Igreja. Considerados impuros, Angelo e Pierina se tornam abnegados. Renegados pelos demais. O que não lhes impedirá de crescer, especialmente com o apoio de parceiros de negócios como Batiston (Claudio Mamberti), Sichoppa (Arcangelo Zorzi) e o ótimo anarquista Iscariot (Pedro Parenti).

Sobre Iscariot, é interessante notar como o filme passa de raspão pelas questões políticas, mas sem julgar o certo e ou errado. Aliás, o filme até se permite um elogio à perseverança dos empresários do meio rural e sua luta pelo fortalecimento das comunidades do interior. Com uma belíssima fotografia, a obra toma de assalto as belas paisagens do interior gaúcho - as filmagens foram em municípios como Antônio Prado e Caxias do Sul -, utilizando-as em seu favor. O mesmo vale para o desenho de produção, que recria o período à perfeição, alternando o bucolismo do mato, das lavouras e das campinas com a cidade emergente, ainda de barro, em que modestas construções de madeira se sobressaem. No fim das contas O Quatrilho segue sendo uma obra simpática, bem humorada e sensual e que se empenha em desconstruir as convenções sociais estabelecidas pelas "famílias de bem". Hoje em dia a gente sabe, um casamento talvez não seja para sempre. Naquela época era um desafio que envolvia um mal estar comunitário. Ainda que o resultado final fosse a simples busca pela felicidade. Algo que, também nós, desejamos para as nossas vidas.

sábado, 6 de junho de 2020

Podcast do Picanha Cultural #6 - Não Basta Não Ser Racista: O Cinema e a Importância do Debate

"Numa sociedade racista não basta não ser racista. É preciso ser antirracista". Neste episódio a gente resolveu pegar a frase de filósofa, escritora e ativista Angela Davis, como o ponto de partida para um debate não apenas atual, mas extremamente necessário, afinal de contas, o racismo saiu efetivamente do armário - sendo "legitimado" por figuras políticas como Trump e Bolsonaro, que propagam ódio e preconceito em praticamente TODAS as suas manifestações. Nossa intenção não é discutir o tema propriamente dito - como homens brancos não temos nem lugar de fala para isso -, mas estabelecer um debate a partir da arte. Mais especificamente sobre o cinema e sobre como ele pode nos auxiliar a compreender a sociedade em que vivemos, gerando empatia, promovendo a reflexão e valorizando o respeito às diferenças. A ideia é pensar sobre o assunto. De alguma forma se apropriar dele, para que possamos estar do lado de quem, diariamente, luta por essa causa. Uma causa que deveria ser a de todos nós.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Cinemúsica - Fantasia (Fantasia)

Hoje em dia essa história é mais do que conhecida: foi uma ideia de JERICO a do Walt Disney a de juntar música clássica e animação no começo dos anos 40, em uma obra que receberia o nome de Fantasia (Fantasia). A intenção era nobre. Nobríssima! Tentar popularizar peças eruditas de Beethoven, Schubert e Stravinsky, juntando-as ao rato mais famoso daquela época - no caso, o Mickey. Foi um fiasco de bilheteria, com os poucos espectadores que se arriscaram, saindo enfastiados da experiência lisérgica, cheia de cores, formas e paisagens que poderiam vir acompanhadas de segmentos do Quebra Nozes, de Tchaikovsky ou de Uma Noite na Montanha Calma, de Mussorgsky. A regência, que ocorria em tempo "real", como parte integrante da película, ficou a cargo do maestro Leopold Stokowsky.

Nas oito histórias, os mais variados "formatos". O mais conhecido, como não poderia deixar de ser é, é aquele que evoca O Aprendiz de Feiticeiro, enquanto o Mickey se esforça para ensinar um grupo de vassouras (!) a levar baldes de água de um lado para o outro. A experiência com magia dá errado, claro, e Mickey quase se afoga enquanto as vassouras vilanescas se replicam de forma intermitente, inundando todo o cenário, ao mesmo tempo em que a música avança, com suas notas cheias de intensidade e volúpia. Aliás, está aí uma das mágicas do filme que contou com um coletivo de diretores e que viria a ser resgatado anos depois, por uma plateia de cinéfilos apaixonada: a de nos fazer pensar em quais as imagens mentais que "enxergamos", ao ouvir certa música. Que formas ou desenhos que se descortinam quando escutamos as notas econômicas da Dança da Fada Açucarada, de Tchaikovsky, por exemplo? Ou a Pastoral de Beethoven?


Bom, no caso da peça que integra o Quebra Nozes, o que vemos é um cenário aquático em que flores, algas e fadas se alternam de forma delicada, em um coletivo de cores reforçado por um brilho impactante. Em outras etapas do balé de Tchaikovsky - aliás, o próprio compositor russo detestava a sua criação, considerando-a excessivamente popularesca -, o que se veem são flores, cogumelos, cachoeiras e peixes, numa dinâmica que equilibra placidez e energia. A suíte se encerra com a primaveril Valsa das Flores, que nos força a um tipo de imagem mental quase óbvia. Já na Pastoral quem invade a tela são personagens da mitologia - de unicórnios a centauros, passando por deuses como Apollo, Baco e Zeus. A suíte, bucólica e onírica, se encerra com querubins de formas bem desenhadas que se misturam com deusas de um paraíso imaginário.

Imaginar. Essa foi a brincadeira de Disney que pretendia fazer um filme por ano nesse estilo, após o lançamento de Fantasia - o que não foi possível, dado o fracasso retumbante de bilheteria e o altíssimo custo de produção. O que ficou da experiência foi o vibrante caráter experimental da iniciativa que, vista hoje com distanciamento, se torna de certa forma compreensível. Disney vinha de dois sucessos, no caso Branca de Neve e Os Sete Anões (1937) e Pinóquio (1940). Se havia hora para arriscar, era aquela. Nunca mais repetiria a ideia. Ao contrário, investiria nos anos seguintes em obras que se tornariam clássicos instantâneos, como Dumbo (1941) e Bambi (1942), que permanecem até hoje no imaginário dos cinéfilos. Já o desfile de paisagens abstratas, com alternância de hipopótamos bailarinos, avestruzes que dançam, flores silvestres, deuses ecumênicos e vulcões que explodem em meio a dinossauros agressivos e danças tribais virou peça de excêntrica curiosidade, mas que foi resgatada em 1999, sendo redescoberta por um séquito de fãs.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Lasquinha do Bernardo - A Primeira Vez de Um Homem ou (Punk Mesmo é Falar de Amor)

Texto: Bernardo Siqueira

Há certos chamados do destino que não podemos ignorar. Não lembro com exatidão o dia, o mês ou até mesmo o ano, mas lembro do local e das pessoas. Antigamente, quando nos era permitida a liberdade, havia um cantinho especial em Lajeado, hoje já revitalizado e frequentado por outro público. Antes da construção do teatro da Univates, alguns amigos se encontravam ali com frequência quase religiosa. Vou preservar o nome das personagens, poderia revelar suas identidades, contudo, fica aqui apenas o capricho do autor. O pequeno grupo de pessoas tinha uma finalidade nobre com fim em si mesmo, a amizade. Não é preciso descrever os encontros, a não ser um aspecto comum entre tantos outros encontros: o violão, o cantor e as músicas. O repertório era diverso e imprevisível, lembro-me de uma famosa versão de Dívida do Ultramen declamada (isso mesmo, declamada) com muita propriedade em espanhol, em tradução livre, como os leitores podem imaginar. Não raro, porém, recebíamos alguma “estrela móvel”, um pedestre que por ali passava, alguém que saíra do trabalho ou um amigo de outro amigo que não conhecíamos. Em uma dessas inúmeras noites às margens da Avelino Talini, conheci o homem com o violão, mas não era nosso cantor oficial, nem o mesmo violão e muito menos a mesma música.

A letra que capturou a minha atenção contava sobre um triângulo amoroso e uma flor. Nada mais clichê do que canções de amor, mas essa não era apenas uma canção de amor. Era dramática, era triste, era a minha cara. A dor de um foi a glória do outro. Quando a música acabou, meu primeiro reflexo foi perguntar se aquela era uma obra autoral, não era. O leitor mais próximo já deve ter percebido que escrevo sobre A Flor da banda carioca Los Hermanos que, a partir daquele primeiro acorde, é figurinha mais do que carimbada na minha vida. O resto é história. Comprar os quatro álbuns, ganhar DVDs dos amigos, baixar toda a discografia (aqui não escondo minha idade) e fazer todo o esforço possível para ir ao show, anos depois, em Porto Alegre no Pepsi On Stage. Aquele domingo foi marcante, como toda primeira vez.


No último dia 14, a banda liderada por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante lançou nas plataformas de streaming um álbum contendo músicas ao vivo executadas durante os shows de 2019, celebrando os vinte anos de lançamento do seu primeiro disco. Foi a desculpa perfeita para ouvir e vibrar novamente com toda a poesia, sentimentalismo e melancolia que são características dos quatro barbudos. Dia desses, após um episódio do podcast do Picanha sobre Guilty Pleasures a questão retornou das cinzas: é vergonhoso gostar de Los Hermanos? É certo que banda carrega uma legião de fãs pelo Brasil, mas percebo muitos amigos e muitos desconhecidos pelos confins da internet desmerecendo o trabalho ou pior, reduzindo toda obra construída em Anna Júlia que, justiça seja feita, é uma ótima música.

A primeira análise óbvia é que há pessoas que não gostam das músicas e ponto final. Não é nesta direção que me dirijo. Uma possível explicação para o demérito seja a própria trajetória da banda, que surge com um ska-punk-rock romântico para fazer inveja aos ultrarromânticos no primeiro disco e vai, aos poucos, se tornando mais intimista, mais reflexiva e mais madura, nas composições e nas narrativas. Talvez encontremos ainda alguém que encha os pulmões para dizer que “eles traíram o movimento!”. Outra tentativa de explicarmos o hate seja a complexidade das letras que foram se modificando à medida que a banda traçava sua trajetória. O fato é que sempre vai ter alguém para proferir o tal “Loser-manos”. Deixar de lado o som frenético, incorporar sensibilidade, ressignificar o amor romântico nas composições não são características de um perdedor, mas sempre haverá aquele que ainda não está pronto para ter essa conversa.


E aqui fica o acerto de contas. Punk mesmo é ter coragem para falar de amor. Atitude rock’n’roll de verdade é poder sentir, é entender que podemos estar tristes e, tudo bem. E não tem problema não entender aquela letra, é estranha mesmo. Há beleza também na dor. Um dia acordarás acreditando ser a pessoa mais sentimental do mundo e podes ficar tranquilo. Olharás o espelho e verás um cara estranho, deslocado, sem saber para onde ir. Não é preciso correr atrás da aprovação dos outros vencedores, seja rebelde, seja punk de verdade. Teu machismo, disfarçado de preconceito musical, precisa acabar.

Afinal, todo carnaval tem seu fim. 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Na Espera - Destacamento Blood (Filme)

E por falar em Spike Lee - ali embaixo tem texto sobre o Faça a Coisa Certa (1989) -, é para a semana que vem que está previsto o lançamento do novo filme do diretor. Intitulada Destacamento Blood (Da 5 Bloods), a obra será disponibilizada diretamente na Netflix, no dia 12 de junho (está aí um belo programa para o Dia dos Namorados). Como já é de praxe em sua filmografia, o realizador de Infiltrado na Klan (2018) volta a tratar da questão racial dessa vez durante a Guerra do Vietnã, onde acompanhamos quatro veteranos que retornam ao País para resgatar os restos mortais do líder do esquadrão (vivido por Chadwick Boseman, visto em Pantera Negra) e também para tentar localizar um tesouro escondido.



No trailer podemos ver a habitual profusão de cores dos filmes do diretor, em meio a uma recriação de época perfeita, com seus figurinos, cenários e músicas. No elenco também estão Delroy Lindo, Clarke Peters, Norm Lewis e Isaiah Whitlock Jr. Sobre a próxima cerimônia do Oscar, por mais que não haja ainda uma definição da data (é provável que a premiação ocorra entre os meses de março e abril), a presença de Lee é dada como praticamente certa na bolsa de apostas, na categoria Diretor. Outras categorias como Filme e, especialmente, ator coadjuvante (para Delroy Lindo) já estão com campanhas em andamento, o mesmo valendo para Roteiro Original e categorias técnicas (como as de som). Tudo ainda indefinido.

Cine Baú - Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing)

De: Spike Lee. Com Danny Aiello, Spike Lee, Giancarlo Esposito, Bill Nunn, Ruby Dee e John Turturro. Drama, EUA, 1989, 119 minutos.

[ATENÇÃO: ESSA RESENHA POSSUI SPOILERS]

É quase lá no final de Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing) que uma briga em uma pizzaria do Brooklyn, em Nova York, motivada por um rádio quebrado, acaba em uma ação completamente desastrada da polícia - pra dizer o mínimo. A consequência da abordagem violenta é a morte de um homem negro por asfixia. Sim, por asfixia. Você já viu essa história. Você vê essa história a toda hora, porque hoje em dia o racismo - que saiu oficialmente do "armário", sendo legitimado pelo voto em aberrações políticas como Bolsonaro e Trump -, é filmado. A gente tem, portanto, praticamente todos os dias um "caso George Floyd" diferente em algum lugar do mundo, sendo registrado, num processo inacreditável de banalização da morte. E o que o diretor Spike Lee fazia, já no final de 1989, com seu cinema tão cáustico quanto colorido, era chamar a atenção para esse tipo de abuso absurdo. Que acontece a toda a hora, em tudo quando é lugar.

O personagem negro que morre pelas mãos da polícia é Radio Raheem (Bill Nunn). Na cena mais dilacerante dessa obra-prima de Lee, Radio entra na pizzaria do ítalo-americano Sal (Danny Aiello) ouvindo hip hop em um daqueles antigos aparelhos portáteis. Grandes, barulhentos. Radio entra no estabelecimento acompanhado por Buggin Out (Giancarlo Esposito, que mais tarde ficaria conhecido como o Gus, de Breaking Bad). Buggin havia passado o filme inteiro em uma cruzada contra Sal e seus filhos Pino (John Turturro) e Vito (Richard Edson) implicando com o empresário para que ele colocasse na parede de seu estabelecimento a foto de alguma figura representativa para a comunidade afro, que era frequentadora assídua do local. Na parede da pizzaria de Sal, figuras como Al Pacino, John Travolta e Sylvester Stallone tinha suas caras à mostra em uma espécie de coleção de imagens. Buggin Out sentia que não se identificava com o local em que consumia suas pizzas. Sal argumentava que no estabelecimento dele, era ele quem decidia sobre a decoração. E a vida seguia.


É dessas pequenas tensões entre os mais variados núcleos - há ainda os latinos, os orientais, um ou outro branquelo perdido, além de um grupo de idosos e de jovens negros -, que se faz o filme de Lee. Todos convivem de forma aparentemente harmoniosa, em meio a uma Nova York escaldantemente palpável, fotografada de forma ao mesmo tempo colorida e saturada. Mas a gente parece saber, conforme a película avança, e a cada saída de Mookie (o próprio Lee) para alguma entrega de pizza pelo bairro, que algo parece prestes a explodir. Há uma tensão latente, que se sobressai em pequenas discussões em que temas como racismo, gentrificação e misoginia são expostos de uma forma aparentemente sem lógica, meio desconexa, quase indireta. mas que no fim das contas forma uma teia social de um coletivo de pessoas que parece sempre no limite. Sensação ampliada conforme os contrastes aumentam e as fronteiras de espaço vão sendo amargamente extrapoladas.

Na sequência em que um ricaço passa com um carrão conversível pelo bairro enquanto os jovens se divertem extraindo água de um hidrante, a preocupação do sujeito é com o bom material, ao passo que para as famílias negras da região a pequena conquista cotidiana é o banho ao ar livre. Quando a polícia chega e enxota o sujeito que despeja um rosário de ofensas racistas, a vida segue. Mas o racismo ficou. O ataque permaneceu. Alguém viu. Alguém se ofendeu. Há um histórico de luta negra por direitos no pós-escravidão. De desejo pela liberdade que, de forma velada, ainda não chegou. E essa animosidade está sempre prestes a explodir. E explode quando Sal se enfurece com Radio Raheem e todo mundo briga de maneira generalizada. Quando a polícia chega, os negros são afastados com violência. Radio é imobilizado. Estrangulado, não consegue respirar. As pessoas tentam avisá-lo de que ele não está conseguindo respirar. Tarde demais: a polícia já assassinou mais um homem. Negro. Pobre. Da periferia. Introspectivo. Na dele. Fã de hip hop. Que teve seu rádio quebrado pelo dono da pizzaria neurótico. E que morreu por isso.



Quando foi lançada, a obra de Lee foi acusada de incitar a insurreição e a violência, por que no filme a comunidade fica tão emputecida com Sal que DETONA a pizzaria toda, com a catarse sendo completa quando Smiley (Roger Guenveur Smith) pendura a foto de Martin Luther King e Malcolm X nas paredes arruinadas do local. Eu, sinceramente, não sei se a violência resolve, mas o caso é que o racismo já deu no saco e a reação dos norte-americanos à mais uma ação totalmente equivocada da polícia é a mostra disso. Era pra já ter dado, mas o que se vê são as "famílias de bem" achando bonito um bando de lunáticos vestido como a Ku Klux Klan. Tomando leite. Usando bandeira da Ucrânia fascista. Matando negros. Eu preferiria muito mais falar sobre como Faça a Coisa Certa influenciaria toda uma geração que viveu a MTV dos anos 90, suas roupas, acessórios, gírias, músicas, estilo, cores e enquadramentos, permanecendo relevante também por isso até hoje. Mas enquanto negros seguem morrendo EXATAMENTE como morreu Radio Raheem em uma obra de ficção, só fica a dor, o luto, a morte. Tristes tempos que esse clássico moderno (e a vida real) não nos fazem esquecer.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Picanha.doc - A 13ª Emenda (13th)

De: Ava DuVernay. Documentário / Policial, EUA, 2016, 105 minutos.

Ah, os Estados Unidos. A "Terra da Liberdade". De preferência se você for branco, rico e bem nascido. Por que se você for negro e pobre, terá uma grande chance de, em algum momento de sua vida, ser preso. Ou morto. Pela polícia, pelo Estado. Muitas vezes injustamente ou por algum motivo fútil. Outras tantas pela cor de sua pele. Sim, pela cor da sua pele. Nós, brancos, não temos como saber o que é levantar todos os dias pensando que você pode morrer porque o agente da lei confundiu o teu guarda chuva com uma arma. Ou que você vai ser perseguido pela polícia simplesmente porque está em alguma "atitude suspeita". Atitude suspeita? Talvez usando um moletom com capuz. Uma mochila. Em tempos de Trump e de Bolsonaro o ódio, o preconceito e a intolerância saíram definitivamente do armário. Foram legitimados, bizarramente, pelo voto. Saíram para as ruas, livres, tomando leite, carregando cruzes e capuzes, num cenário pós-apocalíptico que nem o escritor da mais absurda das distopias poderia imaginar.

E é justamente por isso, por praticamente todos os dias haver um "caso George Floyd", que a obra de Ava DuVernay segue sendo tão necessária. Tão relevante. Diretora de Selma (2014) e da série Olhos Que Condenam (2019), a realizadora consegue um feito histórico com o documentário indicado ao Oscar 13ª Emenda (13th): praticamente COMPROVAR que a escravidão não deixou de existir. Ela apenas mudou a forma como acontece - numa equação que mistura brechas absurdas na legislação, financiamento de grandes empresas em segurança pública (naturalmente ligadas ao partido Republicano) e uma ampla campanha de demonização da comunidade negra, retratada na mídia de forma incansavelmente maniqueísta na chamada Guerra às Drogas. O resultado disso tudo? Hoje a população carcerária dos Estados Unidos corresponde a 25% do número de presos no mundo. Sim, é isso que você leu. E desse número, 40% dos presos são negros - mesmo a população afrodescendente masculina sendo de pouco mais de 6% do total de americanos no País.


Mas para entender um pouco melhor esses números, é preciso voltar no tempo. Quando foi promulgada lá em 1865, pelo então presidente Abraham Lincoln, a 13ª Emenda tornava inconstitucional a escravidão. Uma conquista, evidentemente, que tornou "livres" cerca de quatro milhões de americanos. Só que isso gerou insatisfação entre os proprietários de terras e uma espécie de caos social imediato, com a necessidade de realocação de toda essa população - em postos de trabalho, em moradias, em outros espaços. Uma das soluções encontradas? Tornar a escravidão "legal" dentro do sistema prisional - uma brecha da 13ª Emenda. Assim,os presos - de preferência os negros - poderiam trabalhar de forma intermitente, sem remuneração, atendendo uma demanda do Estado e sem ferir nenhuma legislação. Um tipo de escravidão legitimada. Este contexto fez com que se intensificassem as lutas pelos direitos civis dos negros. Especialmente pelo fato de a segregação e o racismo jamais terem deixado de existir naqueles anos pós Guerra da Secessão. Era um período turbulento. E que segue sendo turbulento, com a violência institucionalizada, atingindo números alarmentes.

Com habilidade, Ava volta no tempo para mostrar como o filme O Nascimento de Uma Nação (1915) era racista, servindo de documento de seu tempo. E de como a campanha de vilanização dos negros a partir do aumento da criminalidade no pós-guerras prosseguiu, fazendo surgir em meados do século passado lideranças como Martin Luther King e Malcolm X e movimentos como o dos Panteras Negras - todos aniquilados com o apoio de políticos e da aristocracia norte-americana branca, sob a desculpa de representarem um risco para a sociedade. Por lutarem por direitos civis, direitos iguais, tais figuras foram perseguidas, mortas, o que consolida a ideia de que a segregação jamais deixou de existir. No decorrer do filme, pesquisadores, professores, escritores, ativistas e executivos de empresas, analisam essa sucessão de fatos encadeados na Terra do Tio Sam, com uma grande riqueza de materiais de arquivo, que dão conta de uma política que estabeleceu o medo na população americana, especialmente a partir da consolidação do estereótipo do negro com o uma figura violenta, deturpada, que vive a margem da sociedade. E que está pronta para matar, assassinar e cometer outros crimes, que só poderiam ser parados com conservadores tão "durões" quanto eles. É dessa forma que o fascismo permanece, afinal: sob o manto da desculpa da defesa da família, da propriedade, da moral e dos "bons costumes".


O resultado disso? Políticos como os já citados Nixon e Reagan, além de Bush e até do democrata Bill Clinton foram quem ditaram as regras nas campanhas contra a violência, num combo que amplificou a caçada a "criminosos" que eram presos simplesmente por estarem carregando alguns gramas de maconha. Ou por estarem andando despreocupadamente na rua. E sem muita chance de conseguir a liberdade - a menos que fosse num acordo injusto. Lembra do começo lá do texto? Dos 25% de população carcerária do mundo estarem nos Estados Unidos? Tem um dado ainda pior: o que dá conta de que o número de presos saltou de 300 mil no começo dos anos 70 para 2,3 milhões de pessoas atrás das grandes nos dias de hoje, somente nos Estados Unidos. Prender, matar, humilhar. É isso que o Estado norte-americano faz com a população negra. É isso que o documentário de Ava Duvernay mostra. Quase ao final, um dos pesquisadores afirma que alguém teria perguntado "como as pessoas do passado aceitavam tão passivamente a escravidão, naquela época? Como toleravam?" A resposta: "seguimos vivendo nessa época. E seguimos tolerando." Que campanhas como o #blacklivesmatter, somadas a protestos pacíficos (ou não) possam mudar esse cenário. Afinal de contas, fascistas não passarão. E nós estamos também nessa luta.