De: Tatiana Huezo. Com Ana Cristina Ordóñez González, Mayra Batalla e Guillermo Villegas. Drama, México / Argentina / Alemanha / Brasil / EUA / Qatar / Suiça, 2021, 110 minutos.
Aos 13 anos, Ana passa a ser alvo dos grupos dos bandidos que dominam o local - e que parecem ter algum interesse não apenas na jovem, mas em outras, como suas duas amigas Paula (Camila Gaal e Alejandra Camacho) e María (Blanca Itzel Pérez e Giselle Barrera Sánchez). Protegida pela mãe Rita (Mayra Batalla), Ana se torna uma jovem invisível, com o corpo sempre coberto por vestes largas, de cabelo curto e sem qualquer tipo de maquiagem. É preciso esconder a sua existência, num processo de quebra de inocência doloroso e forçado. Como espectadores, no empenhamos em nos colocar no lugar daquelas meninas: meio perdidas, sem saber o por quê de as coisas serem como são. Há a escola, mas mesmo lá o clima de tensão parece estar no ar. Professores ameaçados, militares empunhando armas pelas ruas, as dificuldades de comunicação, o dinheiro que não chega. A pobreza, a sujeira, a vida pouco digna.
Tradicional no cinema latino, esse recorte mais árido vai ganhando sustentação aos poucos, sem pressa. Para a diretora Tatiana Huezo, que adapta aqui o livro de Jennifer Clement, não parece interessar muito o sentido mais direto já que ela pontua, aqui e ali, a narrativa com instantes repletos de significados, de simbolismos que, algumas vezes, parecem saltar da tela. Há, por exemplo, uma estranha sequência em que Ana se esconde embaixo de um lençol vermelhíssimo, em uma casa da vizinhança. Há uma apreensão no ar, uma aflição. Quem a persegue? O estratagema funcionará? As cores fortes, a respiração sufocada, a fotografia claustrofóbica, tudo é feito para gerar desconforto. E ainda que não passasse de um jogo entre as crianças, na nossa mente não deixa de permanecer a ideia de aquilo poderia ser parte do aprendizado, da rotina de camuflagem que Ana, como um não ser, precisa ter. O que forma uma rima visual melancólica, que evidencia a violência a que todos estão expostos, mas sem escancará-la.
Aliás, essa também é uma das marcas da obra, que está na pré-lista do Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira: a de mostrar a dor e o sofrimento sem necessariamente apelar. Um corpo encontrado no mato, um sino que bate no campanário, uma barreira militar, um avião que passa - e que espalha agrotóxicos de forma descontrolada nas lavouras de papoula, cultivadas junto a Serra. Viver assim é estar permanentemente no limite. E talvez não seja por acaso o fato de, em uma das mais tocantes sequências, Ana colocar um escorpião em sua "barriga", no momento em que o cativante professor Leonardo (Guillermo Villegas) estimula os alunos a construírem a representação de um corpo humano apenas com objetos. Um escorpião. Que envenena, que consome as entranhas, que dói. Não há saída fácil em um cenário como esse e Tatiana não faz questão de aliviar - ainda que dê algumas mostras da importância da educação como processo libertador. É uma experiência completa, complexa. Desalentadora. E que merece ser descoberta.
Nota: 9,0
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