quinta-feira, 12 de maio de 2016

Pérolas do Netflix / Cine Baú - Paris, Texas

De: Wim Wenders. Com: Harry Dean Stanton, Natassja Kinski, Dean Stockwell, Aurore Clément e Hunter Carson. Drama, Alemanha/França/Inglaterra, 147 minutos.

Uma imagem aérea de um deserto em algum lugar dos Estados Unidos visualiza um homem que, de boné vermelho, paletó e gravata empoeirados, caminha sem rumo definido. Com a garrafa de água vazia o mesmo, visivelmente emagrecido e com lesões na face maltratada pelo sol, avista um boteco onde, na companhia de um único homem, cairá desmaiado. Encaminhado ao médico, será identificado pelo documento no bolso, cujo contato mais "próximo" será seu irmão Walt, que não o via há quatro anos (Stockwell), e que virá a seu encontro de Los Angeles até o Texas, lugar onde o filme se inicia. Ao tentar resgatar e se comunicar com o irmão Travis (Stanton), cujo estado catatônico o impede de falar e sequer se alimentar, Walt tenta entender o que aconteceu para o seu desaparecimento e consequente fuga da realidade, deixando a esposa Jane (Kinski) e o filho Hunter (Carson) para trás - este último aos cuidados do irmão e sua amável cunhada Anne (Clément), que acabaram por "adotar" o garoto, agora com 7 anos de idade.

A longa viagem até Los Angeles de avião não será possível. Vamos de avião, diz Walt, ao que Travis responde: Vamos tirar os pés do chão, porquê? negando-se veementemente a continuar. A discreta melhora de Travis que, após meia hora de película, começa discretamente a conversar com o irmão - e até a se alimentar - faz com que Walt, um empresário bem sucedido, renove suas esperanças em devolver o irmão a seu lar. Porém, a viagem deveria continuar no mesmo carro com que ambos chegaram até o aeroporto. E é essa sutileza e minimalismo que Wenders explora tão bem neste seu icônico trabalho, embalado pela evocativa trilha composta por Ry Cooder e a belíssima cinematografia. O andamento calmo, lento, revela aos poucos os conflitos internos de nosso personagem principal que, a partir dali, buscará retomar os rumos de sua vida até então dilacerada - e é sintomático que, ao arriscar dirigir, Travis saia da estrada em pleno deserto de Mojave. Carregando consigo uma fotografia de um lote de terra em uma localidade chamada Paris, em pleno deserto do Texas, Travis conta que adquiriu o terreno para construir a sua vida (e felicidade) lá. Ironicamente, Paris (capital da França) é um local luxuoso e sinônimo de romantismo e uma vida plena de realizações, o que, segundo Travis, era motivo de piada por parte de seu pai que sempre utilizava a história para afirmar que conhecera sua esposa em "Paris", lugar onde - segundo Travis - ele teria sido concebido. E pra lá que deseja retornar, às suas origens e um lugar onde o amor tenha sido (ou seja) possível.


Ao chegar em L.A., Travis tenta retomar o contato humano. Incapaz de abraçar a cunhada e o próprio filho, o mesmo tenta lentamente se aproximar de Hunter - que até o momento tem Walt e Anne como seus pais. Sem dormir, Travis passa as noites lavando louça e engraxando os calçados da cunhada, além de observar os aviões e veículos (sinônimo de movimento) de binóculo a uma distância em que o mesmo sinta-se confortável. A partir daí, continua e vagarosa busca de contato com seu filho, e é simbólico que o mesmo venha a usar as botas do irmão (em um número maior e, consequentemente, mais confortável que seus até então sapatos apertados) para buscar Hunter na escola a pé - caminhar e correr sempre foi a fuga terapêutica de nosso personagem principal. O que de início transforma-se em fracasso (o filho prefere voltar para casa de carro), vai tomando outras proporções a medida em que o pai troca suas vestimentas, ficando mais parecido com o "pai adotivo", Walt - o que leva o incrivelmente esperto Hunter a dizer em determinado momento: é legal poder ter dois pais. Caminhando em calçadas separadas, os mesmos se unirão ao pôr-do-sol e que, em determinada noite, culminará no ápice de assistirem juntos imagens em um projetor, da época em que a família estava completa e repleta de momentos felizes na praia, o que fará com que Travis tente retomar o contato com a mãe de seu filho, Jane, que havia abandonado-os há 3 anos de forma a trabalhar e mandar dinheiro para a criação do mesmo.

Eu não poderia ser uma mãe para ele
Era muito jovem
Queria algo que não sabia o que era - Jane

Não tenho medo de altura
Tenho medo de cair - Travis

Ao tentar descobrir o paradeiro de Jane, que a princípio estaria na cidade de Houston, devido ao recibo bancário dos depósitos feitos para a poupança de Hunter, Travis pedirá ao irmão ajuda para a empreitada que os levará (ele e o filho) em uma viagem de carro que aproximará os dois e, quem sabe, reencontrar-se com a ex-esposa e o passado a fim de realizar o seu objetivo até então pouco esclarecido. "O que aconteceu entre vocês?" É o que nos perguntamos o tempo todo, bem como Walt em determinado momento do filme. De aparente simplicidade, é sobre a comunicação (a falta ou a dificuldade de) entre as pessoas que esta magnífica obra trata, bem como a nossa capacidade em destruir aquilo que amamos. E é lindo notar o quanto a fala de Travis e Hunter fica mais fluente e leve, em um primeiro momento utilizando Walkie Talkies (alguém lembra?), no decorrer da viagem. E ao chegar na gigantesca Houston (não por coincidência cidade sede da estação espacial da NASA, que busca descobrir novas formas de vida e explorar possibilidades, em uma metáfora óbvia mas elegante), será improvável a tarefa de chegarem a seus objetivos.


O que interessa é saber que Wenders consegue realizar em Paris, Texas sua obra mais tocante e pungente (embora seja do mesmo autor o clássico Asas do Desejo) que, nos seus momentos finais, consegue desnudar a alma de seus personagens em uma maneira poucas vezes antes vista no cinema. As conversas na cabine, os reencontros, a resignação, a decisão da hora de partir - temas tão humanos e universais - tem um tratamento digno de uma verdadeira obra-prima com seu encerramento ao mesmo tempo doloroso e poético. Uma obra para ser apreciada, revisitada em cada detalhe, enfim... um clássico maravilhoso e exemplar do poder humanístico que a arte tem em nos emocionar.




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