Feel good movies. Aqueles filmes que nos dão um "quentinho no coração". Que nos fazem sair da sessão com um sorriso no rosto e com a esperança renovada por tempos melhores, menos sombrios, menos desalentadores. Quem não gosta? Em tempos de pandemia, então, esse tipo de obra parece ser ainda mais bem-vinda, já que estamos tendo poucos motivos para dar risada. Então, de alguma forma, o episódio do Podcast do Picanha Cultural dessa semana tem até um caráter meio terapêutico. Não se trata da simples comédia e sim daquela película cheia de personagens carismáticos lutando para ser feliz em meio a esse turbilhão chamado MUNDO. De Medianeras (2011) a Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2003), passando ainda por Se Enlouquecer Não Se Apaixone (2010) e Jamaica Abaixo de Zero (1993), o Bernardo, o Henrique e eu listamos um Top 10 e mais algumas menções honrosas, só com aquelas obras que nos trazem algum conforto, em meio a aspereza de tudo. Bora clicar e sextar, que o final de semana será de chuva, de pandemia e, novamente, de sofá.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Novidades no Now/VOD - Três Verões
De: Sandra Kogut. Com Regina Casé, Otávio Müller, Gisele Fróes, Jéssica Ellen e Rogério Fróes. Comédia dramática, Brasil / França, 2020, 93 minutos.
Imagine uma mistura de Que Horas Ela Volta? (2015) com Casa Grande (2014) e talvez tenhamos algo mais ou menos aproximado da proposta levada à tela pela diretora Sandra Kogut neste Três Verões. Não é um filme tão escancarado na análise do espectro social da classe média decadente - há até um certo humor meio deslocado, às vezes até estranho -, mas é o tipo de obra que passa o recado, além de ser bem amarrada, redondinha. Na trama, Regina Casé encarna a persona à qual ela tem meio que se especializado: a da empregada bem cotada de um casal rico, que fica no limite entre o respeito a hierarquia e o deboche fácil diante e um contexto que pode estar desmoronando. Seu nome é Madá. Na abertura do filme, ela e os outros empregados estão fazendo os preparativos para a festa de Ano Novo dos patrões Edgar (Otávio Müller) e Marta (Gisele Fróes), em uma bela mansão à beira mar. Com família, DJ, karaokê, enfeites, parentada bem vestida, elogios ao governo Bolsonaro e comida boa.
Esta é a primeira parte. O primeiro verão, no caso. E que se passa em dezembro de 2015. Na temporada seguinte, no final de 2016, o que se instala é um clima de mistério que perpassará praticamente todo o segmento. Nele, os empregados estão agitados porque a festa de Ano Novo foi cancelada de última hora. Pior, após Madá sair para resolver algumas questões burocráticas relativas a um empreendimento que ela pretende instalar junto a beira da praia - um quiosque para venda de produtos -, ela se depara com uma inesperada visita de integrantes da Polícia Federal. Edgar está sendo preso e, de posse de um mandado de busca e apreensão, os oficiais vasculham a casa. De cima a baixo. O que gerará constrangimentos inclusive com o idoso seu Lira (Rogério Fróes), o pai de Edgar. A investigação não será esclarecida totalmente - parece envolver algum tipo de corrupção - e o que está acontecendo é que os patrões de Madá foram pegos pela Operação Lava Jato.
No terceiro segmento um novo salto no tempo: em meio a lutas para que os empregados consigam receber os valores pendentes ao trabalho, em meio a uma intensa disputa judicial, Madá tem a ideia de colocar os objetos que ficaram na casa a venda para levantar uma grana. Aliás, a própria casa, lindamente mobiliada, vira alternativa de luxo em sites do tipo Airbnb. Enquanto o imbróglio não se resolve, a equipe de funcionários vai se virando. Até a piscina fica a disposição - e se Madá quiser tomar um banho, estará autorizada, muito provavelmente. Sem que isso represente um tipo de quebra efetiva do status quo. No caso de Três Verões a casa cai num estilo quase literal, com um forte esquema de corrupção vindo à tona, com direito a prisões e um coletivo de empregados meio sem saber o que fazer. Aliás, até uma propaganda de Natal será gravada na casa, com equipe de produção e tudo: e quem brilhará na melhor cena da obra será a própria Madá, que resumirá a sua condição de uma forma quase inesperada.
Resumo da ópera: é um filme bom? É. Tem sensibilidade, passa voando, a gente dá risada. Mas o clima acaba sendo, muitas vezes, tão leve, que a eventual crítica social acaba meio que diluída em meio a uma grande quantidade de piadas bobas (como na sequência em que Madá insiste em vender um "buda"). Ainda assim, a interface com as redes sociais na atualidade é um achado - como na cena em que a governanta se surpreende com a completa ausência de postagens no Instagram no verão em que se desencadeará a tragédia. Aqui e ali é uma obra que fará o comentário num formato de pequenas "pitadas", menos interessado em formar um grande painel do contexto social e político pós Impeachment da Dilma e muito mais preocupado em lançar um olhar para quem fica e precisa tocar a vida em um cenário de Brasil que se desmantela - e que se reorganiza ali adiante. E, nesse sentido, o que resta é o espaço para a esperança, por um Ano Novo que novamente chega, com seus foguetes, taças cheias de espumante, sorrisos e festa. O brasileiro, afinal, a gente sabe: não desiste.
Nota: 7,5
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Lançamento de Videoclipe - Matt Berninger (One More Second)
Se tem uma banda que é favoritaça da casa é o The National - e quem acompanha o Picanha sabe o quanto apreciamos o enfumaçado e caudaloso clima soturno da banda de Cincinatti, Ohio. E se há uma boa notícia para quem aguarda o primeiro trabalho solo do vocalista Matt Berninger - que será lançado no dia 16 de outubro, com o nome de Serpentine Prison -, é que dificilmente o álbum sairá do padrão daquilo que já foi apresentado anteriormente pelo coletivo, em discos como Boxer (2007) e High Violet (2010). E isto pode ser comprovado pelos já lançados singles Distant Axis e a faixa-título, além de One More Second, que recebeu um clipe de divulgação. No vídeo o clima de calmaria lânguida amparada pela melodia econômica, vai dando espaço aos poucos para um tecladinho um pouco mais iluminado e um riff agitado, que culminam no refrão grudento, bem construído. Berninger sai da cadeira, ensaia uma dança solo meio "tímida", enquanto o parça Booker T. Jones encaixa as paisagens sonoras bem adequadas ao perfil do artista. Não queremos nos precipitar, mas achamos que vem coisa boa por aí. Enquanto aguardamos, bora dar o play no videoclipe!
Picanha em Série - Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere)
De: Lynn Shelton, Michael Weaver e Nzingha Stewart. Com Kerry Washington, Reese Whiterspoon e Joshua Jackson. Drama, EUA, 2020, 465 minutos.
Não li o incensado livro Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere), mas a minissérie que adapta a obra da escritora norte-americana Celeste Ng - e que está disponível na plataforma de streaming da Amazon Prime -, é simplesmente imperdível. Trata-se de mais um daqueles dramas familiares, com uma narrativa que intercala idas e vindas no tempo, que revelarão personagens tomando decisões moralmente duvidosas praticamente o tempo inteiro. Tudo embalado por uma forte carga emocional, que vem a reboque de traumas do passado que precisarão ser superados, enquanto temas relevantes como racismo, sororidade, contrastes sociais, romantização da maternidade, xenofobia, poder transformador das artes e bullying são discutidos. E tudo isso sendo apresentado de forma fluída, com o impacto sendo gerado aos poucos e conforme a história distribuída em oito episódios se desenrola.
Tudo começa com um... incêndio. Os bombeiros explicam o caráter excêntrico da origem do fogo: pequenos focos por toda a parte. Como se gerado deliberadamente, premeditadamente. Enquanto os familiares se compadecem entre si, a história volta quatro meses no tempo para nos apresentar a Elena Richardson (Reese Whiterspoon), dondoquinha que vive uma vida de luxo e de abundância, numa espécie de híbrido de dona de casa - que precisa cuidar de quatro filhos já na adolescência -, com jornalista ocasional, que escreve histórias para um semanário local. Com uma suntuosa casa em Shaker Heights, que ela divide com o marido, o advogado Bill (Joshua Jackson), ela resolve alugar por um preço mais baixo do que o do mercado a outra residência da família. A locatária é a artista itinerante Mia Warren (Kerry Washington), que mora em um carro velho com a filha Pearl (Lexi Underwood). Aquilo que ela acredita ser um gesto quase filantrópico, será o início de uma escalada vertiginosa de acontecimentos que, aos poucos, abalarão o idílio que todos pretendiam estar envolvidos.
Figura misteriosa, Mia parece ter uma série de segredos relacionados ao passado. Mesmo sendo artista plástica de talento, parece nunca ter "acontecido". E por quê a insistência em viver uma vida nômade? Do que exatamente ela "foge"? Quem é o pai de Pearl e o que teria acontecido com ele? De alguma forma, essas dúvidas instigarão Elena a fazer uma verdadeira investigação sobre o passado de sua mais nova locatária. Pior, como forma de se aproximar ainda mais dela, a convidará para trabalhar em sua casa, dando a desculpa da oportunidade de ampliar os rendimentos. E os trabalhos poderão ser diversos: da preparação prosaica de refeições até a realização de fotografias em eventos bem típicos da burguesia (caso do aniversário de um ano da filha de uma amiga de Elena). Aliás, o aniversário em questão será simplesmente bombástico, o que nos arremessará para o passado de todos ali envolvidos, nos apresentando ainda uma personagem importante dentro da narrativa - no caso, a jovem garçonete Bebe Chow (Lu Huang), uma imigrante ilegal que trabalha no mesmo restaurante de Mia (ela intercala turnos).
E enquanto os "adultos" vão desnovelando um verdadeiro rocambole de fatos escabrosos que culminarão no inacreditável episódio final - com direito a cenas em um tribunal -. os jovens também vão vivendo seus dramas. Pearl respeita a sua mãe, mas não entende muitas coisas que acontecem em sua vida, o que lhe colocará em pé de guerra com ela um sem fim de vezes. Já a jovem Izzy (a ótima Megan Stott) não suporta a vidinha de faz de contas, organizadinha, com direito a fotinho de família padronizada que Elena pretende que todos ali vivam. Aliás, Izzy sonha em ser artista, em usar as roupas e o cabelo como queira e em viver sua sexualidade da forma que bem entender. Aliás, nenhum dos filhos de Elena pode viver como quer. E talvez nem ela, com seus quatro filhos e uma vida luxuosíssima, mas cheia de frustrações, talvez tenha vivido como efetivamente tenha sonhado. E os eventuais encontros com um namorado do passado, poderão ser o indicativo de pendências emocionais difíceis de serem superadas.
Trata-se ao final de uma série cheia de complexidades, bem conduzida, sem nenhum tempo para a "encheção de linguiça". Ao contrário, praticamente todas as sequências têm significado, mesmo que ela envolva a aparição aleatória de alguma personagem inesperada - como o homem que aparece nos pesadelos misteriosos de Mia -, ou algum tipo de provocação artística como aquela envolvendo bonecas e pretendida por Izzy na escola. Quem gosta de dramas familiares vai se deleitar. Aliás, a série caiu nas graças também da crítica e, mesmo tendo saído de mãos abanando da mais recente edição do Emmy, viu Kerry sendo indicadas na categoria Atriz em Minissérie ou Filme Para a TV. Já Reese, depois de Big Little Lies, parece que se especializou em interpretar a bitchiezinha fútil, que quer ver o circo pegar fogo. Ou a casa pegar fogo. Ou tudo incendiar. Afinal, o fogo, o ardor, a tensão das chamas, real ou não, pode ser também uma bela metáfora para o caos que parecerá sempre pronto a se instalar em Shaker Heights.
terça-feira, 29 de setembro de 2020
Tesouros Cinéfilos - Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine)
De: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Com Abigail Breslin, Toni Collette, Greg Kinnear, Steve Carell, Alan Arkin, Paul Dano e Bryan Cranston. Comédia dramática, EUA, 2006, 101 minutos.
Drama familiar com pitadas de humor cínico + elenco fantástico e perfeitamente entrosado + roteiro primoroso e cheio de diálogos espertos + história tão curiosa quanto divertida = eis a forma de Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), um dos mais simpáticos filmes do agora (quase) longínquo 2006. De obra de baixo orçamento que vinha fazendo uma temporada bonita nas premiações alternativas - caso do Independent Spirit Awards - à chegada ao Oscar foi um passo. E não apenas isso, a película de Jonathan Dayton e Valerie Faris (do recente e mediano Guerra dos Sexos, de 2017) cairia tanto nas graças da crítica e do público, que faturaria a estatueta dourada (de forma merecida, por sinal), nas categorias Roteiro Original (Michael Arndt) e Ator Coadjuvante (Alan Arkin, que interpretou o avô viciado em heroína - e em pornografia -, híbrido de neonazista conservador com "herói" de guerra frustrado).
E a meu ver o sucesso da película pode ter a ver com o inusitado da coisa toda, uma mistura que nos fará rir em muitos momentos, refletir em outros tantos e, inevitavelmente, se emocionar. Especialmente com a inocência desajeitada e o amor transbordante da pequena Olive Hoover (e não por acaso, a Abigail Breslin, à época com apenas sete anos, receberia uma indicação ao Oscar na categoria Atriz Coadjuvante) que, de uma forma meio torta fará com que toda a família se alie por uma mesma "causa". Por causa, leia-se um convite meio aleatório para participar de um concurso de beleza para meninas pré-adolescentes em um outro Estado, distante mais de mil quilômetros de onde moram. Com pouca grana para viajar de avião, o jeito é enfiar toda a família dentro de uma kombi amarela velha e enferrujda, que transformará o filme em um road movie de autoconhecimento e de profundas reflexões sobre o significado de "família" - aquele grupo de pessoas que a gente não escolhe, tolera, ama, eventualmente odeia. E ama de novo e que provavelmente estará em nosso lado nos momentos mais difíceis e sempre.
Aliás, se os Hoover não fossem tão disfuncionais, talvez essa viagem não necessitasse a presença de todos os integrantes. Aliás, talvez eles nem FIZESSEM a tal viagem. Mas o caso é que o evento acaba sendo uma espécie de retiro para todos que estão ali, tão desconectados entre si que precisarão, na marra se reaproximar. Pai de Olive, Richard (Greg Kinnear) é um palestrante de autoajuda fracassado, que desenvolveu um método que envolve algo tipo "nove passos para o sucesso", mas que não consegue vendê-lo para ninguém. Já Dwayne (Paul Dano), o filho mais velho é um adolescente niilista que fez voto de silêncio. O tio, o professor universitário Frank Ginsberg (Steve Carell) acaba de sair de uma clínica psiquiátrica por ter tentado se matar. E, Toni Colette é Sheryl, a mãe de Olive que tenta não surtar no meio de todo mundo, enquanto se esforça para ver o desejo de miss da irmã caçula ser atendido.
No trajeto, o grupo passará por uma série de percalços, de problemas mecânicos até "problemas médicos", mas avançarão aos trancos e barrancos, até chegar no tal concurso. Obra bem humorada, primaveril, com ótima trilha sonora e grandes atuações, Pequena Miss Sunshine não deixa de fazer a crítica ao absurdo do culto a beleza - com meninas pequenas sendo levadas a esse universo desde muito novas -, reforçando ainda a importância de sermos apenas nós mesmos, em um mundo tão cheio de padrões, de convenções. E talvez por isso seja tão bonitinha a cena em que Olive pergunta a uma miss da vida real se ela come sorvete porque, oras, ela só quer ser feliz e comer um sorvete e não viver em um mundo de "ditadura da magreza" e de mídia vendendo corpos perfeitos e inalcançáveis o tempo todo. E, também pouco importa se ela perder o concurso hipócrita que se esforçou para entrar. No coração de todos - inclusive da família - ela venceu uma outra competição: a da autenticidade. O que combina direitinho com essa pequena obra-prima moderna.
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
Cinemúsica - Três É Demais (Rushmore)
De: Wes Anderson. Com Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Luke Wilson. Comédia, EUA, 1998, 93 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor Wes Anderson sabe que a trilha sonora, em seus filmes, tem grande importância. E talvez seja TAMBÉM por causa de suas escolhas musicais que a gente tenha aprendido a amar tanto os esquisitões, nerds e desajustados que sempre povoaram as suas histórias. Três É Demais (Rushmore), por exemplo, poderia ser apenas mais um filme de formação boboca, com um adolescente que não vê a hora de efetivamente "crescer", chegar a vida adulta. Mas uma coisa é o espírito juvenil carregado pela força de alguma composição descartável e urgente. A outra são as sequências que dão uma carregada nas tintas da profundidade, algo ampliado pelo nosso tamborilar de dedos ao som de Oh Yoko! de John Lennon, The Wind de Cat Stevens ou ainda A Quick One, While He's Away do The Who. A impressão, com tanta música bacana, é que o fiapo de história que estamos acompanhando se torna maior. Mais relevante. Ainda que inadiavelmente divertido.
Nesse sentido, acho que escolher trilha sonora é algum tipo de mérito que pode ser definidor até mesmo para o futuro de um cineasta. Será que Wes Anderson se sentiria, por exemplo, tão à vontade para escalar o Seu Jorge para recriar canções de David Bowie no absurdamente delicioso A Vida Marinha de Steve Zissou (2004) se não tivesse acertado em cheio da na seleção musical de Três É Demais? A segurança para isso certamente partiu de suas escolhas nessas obras já do final dos anos 90, quando tinha pouco mais do que 25 anos. Período em que seus filmes ainda não tinham o colorido tão ostensivo quase saído de experiências oníricas, abstratas e abundantemente vivas e a excentricidade de seus personagens ainda estava em fase "experimental". Hoje, Anderson é uma verdadeira marca e filmes como A Crônica Francesa (The French Dispatch), que estreia por aqui no dia 15 de outubro, são aguardadíssimos pelos fãs. Por nós, inclusive!
Já em Três É Demais, acompanhamos a rotina do esquisito Max Fischer (Jason Schwartzman), um jovem de quinze anos que possui uma bolsa de estudos no prestigioso colégio Rushmore e que só não é expulso do local porque participa de um sem fim de atividades extracurriculares - que envolvem grupo de prática de esgrima até envolvimento com a associação de apicultores. O caso é que, a despeito da criatividade para se meter em tudo quanto é coisa as suas notas são muito baixas. E a situação piora quando ele se apaixona pela professora Rosemary Cross (Olivia Williams), quase vinte anos mais velha do que ele. Tentando impressioná-la de todas as formas, Max se aproximará ainda do magnata Herman Blume (Bill Murray, quem mais seria?), um homem de meia idade que sofre de depressão e que também tem dificuldade de se "conectar" com outras pessoas. Nesse contexto, Rosemary obviamente considerará Max muito novo para ela. E terá um caso com Blume, o que iniciará uma disputa divertidíssima entre os dois "rivais".
No fim das contas a película é o mais improvável romance de formação que se tem conhecimento e a capacidade de Max em transformar o entorno para tentar chamar a atenção de sua amada renderá alguns dos melhores momentos da obra - como na parte em que ele moverá mundos e fundos para construir uma espécie de aquário junto a um campo de baseball. Incapaz de converter a paixão em algo para além do platônico, o protagonista se desgastará com todos a seu redor - de Blume ao seu melhor amigo, o pequeno Dirk (Mason Gamble). Povoando as sequências com uma série de piadas sobre amadurecimento e sobre a dificuldade de se encaixar em um mundo cheio de padrões, Anderson constrói uma saborosa comédia, que tem uma leveza palpável, que contrasta com o peso das canções escolhidas para a já citada trilha sonora. Não por acaso, será praticamente impossível não abrir um largo sorriso quando Ooh La La dos Faces surgir, já nos créditos finais, com as coisas meio que se "encaixando", de forma quase inesperada. Sensacional é pouco!
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
Podcast do Picanha Cultural #22 - Top 9 Com Dicas do Catálogo da Amazon Prime
Aqui a gente não fica em cima do muro, então já começo o post com um comentário FORTE: o catálogo da Amazon Prime é MELHOR do que o da Netflix. Aliás, diria até BEM MELHOR. São menos títulos, mas muitos títulos certeiros, além das ótimas produções originais. Algo bem longe da esquizofrenia da concorrente, que parece se pautar muito mais pela quantidade do que pela qualidade - o que torna bem complicada a escavação. E mesmo sem receber UM PILA SEQUER do Jeff Bezos a gente resolveu fazer uma "mini curadoria" na relação de filmes e séries da Amazon pra lançar um Top 9 com a nata daquilo que indicamos a vocês com toda a força. Assim, o Bernardo, o Henrique e eu selecionamos, juntos, três séries e seis filmes para começar a curtir o ótimo material disponibilizado pela plataforma de streaming que, de quebra, ainda possui um precinho bem camarada. O final de semana pandêmico, vocês já sabem fica melhor com séries e filmes de qualidade. E o sextou, bom, este não pode acontecer sem vocês darem play aqui no podcast! Bora?
Tesouros Cinéfilos - Billy Elliot (Billy Elliot)
É mais ou menos quando está começando o terço final de Billy Elliot (Billy Elliot), que o protagonista vivido com todo o carisma do mundo por um Jamie Bell ainda jovem, confronta seu severo pai com a única arma possível naquele momento: a dança. O balé. A arte. A arte que ele sonha, que ele deseja e que ele mantém secretamente, em aulas realizadas às escondidas com a excêntrica professora Mrs. Wilkinson (Julie Walters). Que dá cor aos seus dias sem graça na acinzentada pequena cidade inglesa em que mora com a família. É uma sequência bonita, comovente, que faz a ficha finalmente cair naquele pai tão linha dura (encarnado com vigor pelo ótimo Gary Lewis). É um ponto de virada dentro desse pequeno clássico moderno dirigido por Stephen Daldry (que dirigiria mais tarde os excelentes As Horas e O Leitor). É no ginásio local que aquilo que imaginávamos ser uma provável surra, se converte em apoio irrestrito quando o progenitor percebe o talento de seu filho. É difícil não se emocionar.
Na essência o filme, que chegou a receber algumas indicações ao Oscar na edição daquele ano, é mais um daqueles que faz com maestria o elogio ao poder da arte. E ainda o faz mesclando um tipo de "cinema social" que faz lembrar as películas dirigidas pelo Ken Loach (do recente Você Não Estava Aqui). Tanto o pai de Billie - um viúvo de nome Jackie - quanto seu irmão Tony (Jamie Draven) são mineiros de carvão que estão em greve, reivindicando melhores condições de trabalho - era algo recorrente no contexto político-social da Inglaterra do meio dos anos 80. Ao trio junta-se a avó, uma idosa praticamente inválida (Jean Heywood). Para ocupar os seus dias, o pai de Billie o envia para a academia local para aprender boxe. Ocorre que ele não gosta do esporte. Pior, por acaso, acaba entrando na aula de balé que está ocorrendo no mesmo local - já que o estúdio oficial foi improvisado para ocupação dos mineiros em greve. A paixão pela dança é imediata. Mas como o menino explicará para o seu pai que não está frequentando as aulas de boxe e sim as de balé?
É um arco dramático enxuto, mas que promove uma série de reflexões relevantes para a época - e que seguem, em partes, relevantes para os dias de hoje. Existem esportes exclusivamente de meninas? Ou de meninos? Os pais deveriam incentivar mais os talentos de seus filhos, independentemente de quais sejam? É o tipo de batalha a ser comprada juntos? E se não há dinheiro para esse tipo de investimento - aulas de balé certamente são caras -, como reivindicá-lo? Daldry utiliza com inteligência o microcosmo visto nesta cidade e que serve, por que não, como pano de fundo para discussões maiores que envolvem todo o tecido social - e que podem ir de reivindicações trabalhistas, a luta por igualdade de direitos. Não são poucas as cenas em que o pai e o irmão de Billy estão em luta com a polícia (ou as autoridades) - eles estão do lado dos grevistas. Há os "furadores" da greve, que aceitam trabalhar por valores irrisórios, certamente. Mas e quando Jackie vê a necessidade apertar mesmo, como conseguir algum tipo de vitória financeira?
Bom, a obra não pretende oferecer respostas fáceis, afinal de contas não se trata de uma tese política e sim um filme sobre, como já disse, o poder da arte. Organizada em uma estrutura hollywoodiana bem estabelecida - em que o encantamento inicial, da lugar a um conflito intermediário até chegar a um final otimista - a película tem uma dinâmica interessante em sua montagem, capaz de unir de formas bastante peculiares os universos das artes e dos confrontos entre policiais e grevistas. Há uma cena, por exemplo, em que Billy e uma colega passeiam por entre policiais à paisana, batucando em seus "escudos". Em outra, o pai de Billy é amparado pelos colegas após ceder a tenção de ceder a greve para poder auxiliar seu filho. É tudo muito bem conduzido, com um senso de humor meio cínico e aleatório - a cena em que o jovem de apenas 12 anos pergunta se a instrutora está dando em cima dele é uma joia -, que é embalado ainda pelas ótimas canções de bandas como T. Rex, The Clash e The Jam. Esse foi apenas o primeiro filme de Daldry, mas o posicionou entre os grandes realizadores do Reino Unido.






