sexta-feira, 1 de maio de 2020

Novidades no Now/VOD - Má Educação (Bad Education)

De: Cory Finley. Com Hugh Jackman, Allison Janney, Geraldine Viswanathan, Ray Romano e Annaleigh Ashford. Comédia / Drama, EUA, 2020, 103 minutos.

Sobre o filme da HBO Má Educação (Bad Education), a brincadeira é que já temos um Todos os Homens do Presidente (1976) do jornalzinho da escola. Não tanto pela grandiosidade do episódio, mas pelo exercício de reportagem de excelência, que desmantela um grande esquema de corrupção envolvendo desvio de dinheiro público que deveria ser destinado a escolas, quase 20 anos atrás. Quem desvenda? Uma adolescente de 15 anos. No periódico feito por um Grêmio Estudantil de um educandário de Long Island. Uma história tão excentricamente improvável que, não fossem os letreiros, quase não acreditaríamos ser baseada em eventos reais. O filme começa com o superintendente distrital de um coletivo de escolas recebendo uma honraria pelo excelente trabalho realizado no desenvolvimento do ensino de uma região. O homem em questão é Frank Tassone (Hugh Jackman), figura excêntrica e sempre bem vestida, que vai no limite entre a sociopatia, a cordialidade e a eficiência na hora de imprimir sua metodologia de trabalho.

Num certo dia, Frank recebe uma visita da já citada jovem estudante de uma das escolas, que pretende fazer uma reportagem para o jornalzinho do colégio a respeito de um novo empreendimento que devera sair do papel, assim que houver aporte de recursos públicos - trata-se de uma passarela que pretende facilitar o deslocamento dos alunos. Incentivada pelo próprio Tassone a exercitar um tipo de jornalismo mais aprofundado, a garota - seu nome é Rachel (Geraldine Viswanathan) -, resolve investigar um pouco mais a fundo os projetos anteriores realizados nas escolas do distrito e como se deu a aplicação das verbas que, afinal, saíram dos impostos dos americanos. Ao mesmo tempo, Frank e sua equipe transformarão a funcionária Pam Gluckin (Allison Janney) em uma espécie de "bode expiatório" para os crimes cometidos que começam a vir a tona antes da investigação jornalística, desligando-a de uma das mais promissoras escolas da região. E isto, claro, desencadeará uma série de outros eventos (uns dramáticos, e outros tantos divertidos).


Talvez seja meio repetitivo dizer isso mas trata-se, afinal, de uma obra que bebe na fonte do estilo dos Irmãos Coen, com o humor de costumes e a tragédia anunciada sendo divididos por uma linha muito tênue. Sem muita pressa, Rachel vai construindo seu trabalho investigativo - como na cena em que percebe uma grotesca goteira que verte água da sala da administração ou lendo uma série de documentos saídos do setor de contabilidade -, que tornarão sua descoberta digna dos maiores repórteres investigativos do The New York Times ou do Washington Post. E, mesmo vendo a casa cair a sua volta, Frank não perderá a fleuma, elaborando uma intricada estratégia de sobrevivência que envolve um relacionamento extraconjugal, um casamento jamais revelado e uma conveniente "viuvez" que serve de muleta. Já Pam, que inicialmente surge como grande vilã, terá seu status alterado conforme a narrativa avança - e conforme percebemos que o chefão dessa "máfia" está acima dela.

Com uma pitada de surrealismo, a obra tem em suas ótimas reviravoltas e em seu roteiro bem engendrado uma de suas fortalezas - ainda que eventualmente a cadência pudesse ser um pouco melhor resolvida. A outra, envolve a complexidade das personagens vistas - com virtudes e defeitos como qualquer pessoa. Afinal, como explicar a evolução do ensino das escolas de Long Island sob a gestão de Tassone, ao mesmo tempo em que assistimos o maior caso de corrupção envolvendo dinheiro público para as escolas americanas que se tem conhecimento? Esse tipo de insensatez até me fez lembrar o político Paulo Maluf, que elevou a frase "rouba, mas faz" a um outro patamar ao admitir que desviava verbas, mas por um bem maior. Se isso existe ou não, não deixa de ser divertido ver as máscaras dos bons moços do filme caindo aos poucos - um tipo de recurso que retira parte da obviedade do projeto, tornado-o melhor do que se investisse no mero maniqueísmo. Com boas interpretações - Janney é sempre ótima ao encarnar esse tipo de figura ambígua -, a película ainda conta com excelentes coadjuvantes (e eu não conseguia parar de rir a cada vez que a Annaleigh Ashford surgia em cena, com seu perfil dissimulada/ingênua). Não mudará o mundo, claro. Mas diverte.

Nota: 7,5

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Tesouros Cinéfilos - Em Um Mundo Melhor (Hævnen)

De: Susanne Bier. Com Mikael Persbrandt, Tryne Driholm, Markus Rygaard, William Jøhnk Nielsen e Ulrich Thomsen. Drama, Dinamarca / Suécia, 2010, 117 minutos.

Eu não sei qual é o mundo que vai ficar para as próximas gerações, mas confesso a vocês que não ando nada otimista. Guerras, pandemia, desigualdade social. Violência - gratuita em muitos casos. Ódio, preconceito, intolerância. Dificuldade generalizada de convívio em um cenário de globalização e de tecnologia e de diferenças - culturais, religiosas - que jamais são respeitadas. E o belíssimo Em Um Mundo Melhor (Hævnen) consegue quase abarcar todos esses temas, espreitando o microcosmo que envolve duas famílias dinamarquesas, com seus dilemas, anseios e filhos. Aliás, o que estamos, de fato, ensinando aos nossos filhos? Quais as lições que têm ficado? Talvez a diretora Susanne Bier (dos igualmente espetaculares Brother e Depois do Casamento) nem fosse assim tão ambiciosa, mas obras como esta conseguem fazer com que a gente reflita sobre quase tudo que nos rodeia. Sobre como estão as nossas relações. Se há gente doente ou passando fome. Se alguma criança sofre bullying - e qual será o reflexo disso no futuro. É uma obra grande em seus pequenos instantes. Que diz muito mesmo quando nem pareça querer dizer tanto.

Nesse sentido, uma das melhores sequências do filme é também uma das mais surpreendentemente dolorosas. Nela, o médico cirurgião Anton (Mikael Persbrandt) - um pacifista que atua em uma nação africana devastada pela guerra atendendo feridos -, é surpreendido por uma briga envolvendo seu filho de cinco anos e um outro menino da mesma idade, em uma pracinha qualquer da cidade. Quando o pai do outro garoto aparece, Anton é violentamente atacado. Aos gritos de "não encoste no meu filho", o outro sujeito lhe dá dois tapas na cara. Três. Um tipo de ataque imprevisível. Humilhante. Que dá conta de um universo em que falta o diálogo. Em que problemas relacionados à masculinidade frágil são resolvidos de forma estúpida, grosseira, boçal. Como se a vitória pudesse ser de quem agride mais, de quem grita mais. E, em choque por ter sido aviltado por um homem que ele nem conhecia, ele precisará ensinar os seus dois filhos - o outro é o adolescente Elias (Markus Rygaard), que NINGUÉM sairá ganhando com a violência. Ninguém vencerá se agredindo. Mas o mundo é bruto. E, especialmente, pessoas desse tipo são toscas, estúpidas. Sempre prontas a afrontar, como se a conversa para a resolução de conflitos pudesse ser uma iniciativa frágil ou menor.



É como quando ocorre uma briga no trânsito. Aliás, vocês já perceberam como muitos homens são machões no trânsito? E se tiverem uma arma consigo, serão ainda mais. Aliás, esse desejo bélico pelo revólver, essa síndrome da compensação que provavelmente nem Freud explicaria, esse negócio de resolver tudo na porrada, no tapa na cara - no tapa na cara desferido a um desconhecido. Um desconhecido que trabalha auxiliando pessoas pobres em um cenário de guerra que lutam para sobreviver, toda essa mistura que é fruto de um mundo globalizado e conectado que não conversa, é que o torna Em Um Mundo Melhor uma experiência cinematográfica daquelas que dilacera nosso coração. Enquanto Anton está empenhado em seu trabalho humanitário, seu filho Elias é acossado por um bando de valentões da escola apenas por ser mais retraído e ter os dentes mais proeminentes. Só que Elias fará amizade com Christian (William Jøhnk Nielsen), um coleguinha de escola que está revoltado por ter perdido a sua mãe para um câncer (essa doença inútil que não deixou de existir em meio à pandemia). Christian ajudará Elias a dar cabo dos valentões do bullying - usando a violência, de uma forma reprovável. E achará que, TAMBÉM ELE, pode auxiliar o afável Anton a resolver o problema com o valentão do parquinho. Dos dois, três tapas humilhantes, inexplicáveis.

O filme assim nos mostrará, da pior forma possível, com um prenúncio de tragédia anunciada, que a violência nunca será o melhor caminho. Que esta só poderá gerar mais violência. Mais dor. Mais sofrimento. Seja no País africano em que Anton trabalha - contexto em que ele tem de conviver com uma brutal milícia que estupra e dilacera mulheres -, seja no dia a dia, nas ruas, na escola, no trabalho e nas relações sociais. Tornar o mundo um lugar melhor é algo que os olhos azuis de Anton não conseguirão sozinhos. O mundo é bruto e o próprio Anton não é perfeito - há mágoas carregadas por sua ex-mulher Marianne (Tryne Driholm), que nos fazem questionar o comportamento do médico. Suas escolhas. Trata-se de uma obra que, do alto de sua complexidade, faturou não por acaso o Oscar de Filme Estrangeiro na cerimônia de 2011. É um filme, além de tudo, bonito, com sua fotografia granulada (e aconchegante) e bela trilha sonora, que acompanha cada personagem de perto. E que busca exaltar os pequenos e poderosos instantes de leveza, como forma de enfrentar essa crueldade toda - como na bela sequência em que pai e filhos se empenham em empinar uma pipa. Há esperança em meio ao caos. Ou sempre haverá alguém para não devolver um tapa dado. Fica a lição.


terça-feira, 28 de abril de 2020

Músicas (Tri)Gêmeas - The Hollies x Radiohead x Lana Del Rey

Como brincou um "internauta" comentando no Youtube: "Creep do Radiohead, é a minha música preferida da Lana Del Hollies". Bom, esse é um caso raro de plágio que atravessa gerações, em uma maçaroca de grandes canções e de melodias semelhantes. Até mesmo porque quando o The Hollies lançou The Air That I Breathe num longínquo 1973, jamais poderia imaginar que o Radiohead recuperasse o fraseado sonoro da canção para a composição de Creep, que integra o disco Pablo Honey. E como se já não bastasse o plágio - o tribunal obrigou a banda de Thom Yorke a pagar os royalties da música para Albert Hammond e Mike Hazlewood -, a cantora Lana Del Rey tratou de fazer o "plágio do plágio" ao incluir a música Get Free, no ótimo disco Lust For Life. Bom, o Radiohead que já estava pagando royalties pro Hollies exigiu de Lana 100% do faturamento sobre a canção, em um litígio que desobrigou a artista a creditar à canção a Yorke e companhia. Sobre as semelhanças entre as três composições? Bom, vocês que me digam - eu continuo gostando das três!




Pérolas da Netflix - O Mínimo Para Viver (To the Bone)

De: Marti Nixox. Com Lily Collins, Keanu Reeves, Alex Sharp e Liana Liberato. Drama / Comédia, EUA, 2017, 107 minutos.

A gente teria tudo para ter todos os pés atrás em um filme sobre anorexia - tema, aliás, pouco explorado no cinema, talvez também pelas dúvidas geradas em relação aos benefícios ou não desse tipo de debate em obras de ficção. A grande diferença, a meu ver, e que está presente no delicado O Mínimo Para Viver (To the Bone) é que a "curadoria" pôde ser feita pela própria Lily Collins, atriz que protagoniza o filme e que lutou contra a doença na adolescência. Para reviver a experiência, Lily participou de um programa de emagrecimento assistido, que buscava conferir mais realismo às cenas (doloridas, por sinal), em que o seu esquálido corpo aparecia. "No ano passado eu escrevi um livro e, uma semana antes de receber o script do filme, eu escrevi um capítulo sobre as minhas experiências [com a doença]. Foi como se o universo tivesse colocado estas coisas na minha esfera para me ajudar a encarar um medo que eu costumava ter e colocá-lo para fora como alguém que já passou por isso", revelou em entrevista, à época de lançamento da película.

A meu ver a experiência bastante particular de Lily confere mais força para um filme que mostra pessoas estigmatizadas por transtornos alimentares, em um tipo de batalha muito mais psicológica (ou emocional) do que necessariamente física - ainda que seja o corpo o afetado. É ele que o doente vê "distorcido", devendo a mente ser trabalhada no processo. É tudo muito complicado, mas a obra de estreia da diretora Marti Noxon olha com carinho para seus personagens, injetando drama e bom humor na medida certa no transcorrer da história e jogando luz para um assunto delicado, complexo, mas que precisa ser discutido. Na trama, Lily é a jovem Ellen que é enviada por sua família para uma clínica para pacientes com distúrbios alimentares diversos. Nessa clínica com procedimentos nada ortodoxos ela fará amizade com outros pacientes, com suas histórias vindo aos poucos à tona, estabelecendo uma realidade surpreendente em que pessoas bonitas e saudáveis destroem as suas vidas na busca pela aparência "perfeita".


É um filme nem sempre fácil e os mais sensíveis certamente terão muitos motivos para se emocionar no transcorrer da película. Eu mesmo conhecia pouquíssimo sobre o tema - aliás, para mim foi uma surpresa (vejam bem a minha falta de conhecimento sobre o assunto) saber que mulheres anoréxicas ou bulímicas não engravidam. Ou tem muito mais dificuldade de engravidar. E, tão difícil quanto, de manter uma gestação saudável durante a gravidez. E, bom, no filme há uma mulher com transtorno alimentar que está grávida e não é necessário ser nenhum expert para saber que isso não será nada fácil. Nesse contexto, a obra também se ocupa em mostrar que muitos desses distúrbios podem ser decorrentes de outros traumas psicológicos que teriam seu nascedouro nos primeiros anos de vida, sendo muitos deles ocasionados por comportamentos inadequados dos pais. E não estamos apenas falando de abusos sexuais e de violência física: o abuso psicológico, de pais que desejam filhos "perfeitos", também entra neste combo de possibilidades.

Na mesma entrevista, Lily Colins disse que admitir seu passado (agora visto, em partes, no filme), lhe fez se sentir livre. Com calafrios, mas me sentindo muito livre: "compartilhar minha história com distúrbios alimentares e o quão pessoal este filme é foi uma das melhores experiências da minha vida." Para algumas pessoas ligadas a saúde, o filme pode ter um efeito contrário por funcionar como uma espécie de "gatilho" para pessoas emocionalmente abaladas - ainda que eu acredite que só a possibilidade de debate sobre um tema tão espinhoso já faça vale a pena. E é uma obra que não é só chororô: há o Keanu Reeves que interpreta um médico excêntrico, há o jovem Alex Sharp como interesse romântico de Ellen - um garoto que é fã das artes e que serve como um divertido alívio cômico. E há a abordagem ao mesmo tempo repleta de sutilezas, de bom humor e de otimismo, o que em tempos tão brutos pode nos fazer bem. Eu não conhecia sobre o tema e saí da sessão com uma ótima impressão. Convido vocês a fazer o mesmo.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Grandes Filmes Nacionais - Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro

De: José Padilha. Com Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, André Mattos, Maria Ribeiro, Seu Jorge e Tainá Müller. Drama / Policial, Brasil, 2010, 114 minutos.

Em uma das cenas mais icônicas do cinema nacional moderno, o capitão Nascimento (Wagner Moura), ouve um áudio que é fruto de um grampo telefônico. O material é revelador: nele uma jornalista fala para o deputado estadual Fraga, um defensor dos direitos humanos (papel de Irandhir Santos) que o governador do Rio de Janeiro pode estar diretamente ligado à milícias que não apenas estão por trás de uma série de assassinatos, como participam ativamente do "jogo político". É uma sequência decisiva do sempre atual Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro e que, de certa forma, começa a fechar o arco dramático do icônico personagem de Moura que percebe, afinal, que o sistema é todo corrompido. Podre em todas as suas entranhas. E esse instante quase pequeno diante de tantos momentos inesquecíveis, dá conta do arrojo do roteiro perpetrado por José Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel. Sim, porque seria muito cômodo entregar um segundo filme que seria mais do mesmo, com Nascimento caçando bandidos, berrando seus bordões e saindo como herói nacional das famílias reacionárias de bem brasileiras. Mas o cinema não é feito para isso. É feito para colocar o dedo na ferida. Para questionar o status quo. E isso, o Tropa 2 faz como poucas obras.

E talvez seja por isso que muita gente não simpatize tanto com a sequência, como simpatizou com o primeiro filme. É no primeiro que "brota" o policial fascista e intempestivo, que não tem muito saco pra traficante, que mata primeiro pra perguntar depois. Que tá cagando para os direitos humanos ou para as circunstâncias que levam jovens de periferia ou em vulnerabilidade social a cometerem crimes. Para o Nascimento da obra de 2007 - que se passa, na verdade, em 1997 -, "bandido bom é bandido morto" e serão esses os ensinamentos que ele levará aos dois policiais que se candidatam para lhe suceder - no caso o Neto (Caio Junqueira) e o Matias (André Ramiro). No segundo filme, o capitão Nascimento surge em tela como uma figura já desgastada pelos cabelos brancos e numa pilha de nervos por causa de uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, que sai completamente do controle. Nela, Matias (agora um policial do Bope) avança para cima de bandidos que promoviam um motim na penitenciária de Bangu 1, promovendo uma chacina de presos. Um movimento desautorizado pelo capitão Nascimento, que culmina na morte do traficante Beirada (Seu Jorge). A ação desastrada seria a ideal para que a opinião pública caísse matando, né? Em partes. Em pouquíssimas partes, por sinal.


Apesar do burburinho na imprensa - ecoado pela voz do deputado Fraga -, Nascimento perceberá que, para a população, a operação em Bangu foi um sucesso. E que um ato quase fascista é saudado como uma ação bem sucedida - e a patética cena em que as famílias de bem aplaudem o capitão, de pé, quando ele entra em um restaurante de luxo, dá conta disso (aliás, isso continua tão atual). Esse fato alçará o capitão à condição de subsecretário da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que Matias será rebaixado - uma forma de tornar ele um bode expiatório que atende o clamor de alas da esquerda -, indo trabalhar para uma corporação da polícia militar que é corrupta até as suas entranhas e que se utiliza de sua influência para obter uma série de vantagens financeiras. A estes dois universos que, em tese, deveriam trabalhar para o mesmo lado, se juntará o apresentador de programa de TV sensacionalista e candidato a alpinista político Fortunato (o sempre ótimo André Mattos), o governador Gelino (Julio Adrião) e os policiais milicianos capitão Fábio (Milhem Cortaz) e, especialmente, o major Rocha (Sandro Rocha). Todos eles integram um sistema que aos poucos irá se corroer, conforme as comunidades são ocupadas por uma polícia fascista, que se aproveita de seu poder para exigir da população que, literalmente, PAGUE para sobreviver.

Um sistema que se desmantelará e culminará na sequência citada no começo desse texto, que retira parte do heroísmo e do idealismo que Nascimento depositava na polícia. Se o Bope não aceitava corruptos no primeiro filme, será no segundo que ele perceberá a brutalidade do universo em que está inserido - e não haverá Bope que salve a pele, inclusive, de seus protegidos (caso de Matias). Trata-se de um filme que, dez anos antes da existência da família Bolsonaro no poder, já se ocupava da Máfia das Milícias (e de sua CPI) como matéria-prima, denunciando o que de mais podre existe na natureza daqueles órgãos institucionais que deveriam defender o cidadão - e não matá-lo. Era divertido ver o capitão Nascimento esbofeteando um playboyzinho maconheiro e traficante de segunda linha no primeiro filme? Talvez fosse. Mas é no segundo que ele mergulha na podridão, trabalhando diretamente em uma instituição governamental. Demora um pouco pra cair a ficha - aliás, ela começa a cair em cenas prosaicas, como aquela em que ele tenta instruir seu filho de 10 anos a dar golpes corretos na escolinha de judô. "Eu não gosto de bater nas pessoas que nem você faz", devolve o menino, paralisando o capitão. Fazendo-o desabar, em uma cena das mais tocantes.


E é no poder desse debate que, afinal, reside a força do segundo Tropa de Elite: na discussão sobre a violência policial, seus exageros, sua falta de medida. Suas milícias que surgem como paladinas da justiça, na pretensão de fazer esta com as próprias mãos, matando inclusive figuras proeminentes de nossas política (e, aqui, me refiro especificamente ao caso Marielle, que aconteceria bem mais tarde). É ao jogar luz sobre estes temas, que Padilha torna esta segunda obra tão atemporal - ela sai do campo das ideias, do Vigiar e Punir do Foucault, para nos esfregar na cara uma realidade brutal que nos assombra e que ganha força no formato de uma narrativa que, vejam só que ironia, culmina no desligamento de um Ministro da Justiça que poderia estar muito perto de evidenciar um esquema envolvendo milicianos e uma das mais importantes famílias de políticos do País. É um filme dinâmico, bem montado, cheio de grandes interpretações que, não por acaso se tornou o 35º melhor da história, de acordo com votação feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Prestes a completar 10 anos de seu lançamento, Tropa 2 nunca esteve tão atual. E merece ser revisitado - até mesmo porque está na hora de as pessoas começarem a gostar da película pelo motivo CERTO. Não é presunção ou petulância. É apenas um fato. E só.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pérolas da Netflix - Tigertail (Tigertail)

De: Alan Yang. Com Tzi Ma, Christine Ko, Joan Chen, Fiona Fu e Kuei-Mei Yang. Drama, EUA, 2020, 91 minutos.

Existe uma sequência do filme Tigertail (Tigertail) que funciona mais ou menos como uma carta de intenções a respeito dos temas propostos pela película de Alan Yang (que dirigiu anteriormente episódios da série Parks and Recreation). Nela, um pai conversa com sua filha sobre as escolhas dela, especialmente na área dos relacionamentos, que poderão determinar o seu futuro. O pai está bastante preocupado com a parte financeira, com os bens materiais, em garantir uma boa casa, com conforto e segurança. A filha não parece muito afetada com isso: o que importa é que ela ama seu namorado (e candidato a marido), acreditando que o resto virá nessa "esteira". Só que a grande ironia deste filme é que, ao olharmos para as escolhas feitas pelo pai - seu nome é Grover e é interpretado na terceira idade pelo astro Tzi Ma - em sua existência será ele, agora, um paladino da moral no que diz respeito as decisões que serão tomadas pela filha Angela (Christine Ko) daqui para a frente?

Nesse sentido, a obra quase me fez lembrar a letra da canção O Velho e O Moço do Los Hermanos, em que numa espécie de reminiscência, o eu lírico de um idoso olha para o passado como quem suplica por uma nova chance para alterar aquilo que já está posto e quais seriam as consequências disso (E se eu fosse o primeiro / A voltar pra mudar / O que eu fiz / Quem então agora eu seria). Bom, o caso é que nós não temos como saber e como já foi dito em outras resenhas, somos o mais puro combo de imperfeições, procurando se adequar a um mundo complexo, recheado por convenções sociais questionáveis e padrões excentricamente estabelecidos. Quando jovem, bem jovem, no caso, Grover perde o pai em meio a um contexto de guerra em Taiwan, sendo criado pelos avós, em meio as lavouras de arroz. Já na idade adulta, reencontra a mãe e lhe faz a promessa de lhe garantir uma vida de qualidade, ao passo que deve encarar as novas responsabilidades que este momento lhe traz.


Para Grover, o símbolo de uma vida melhor - financeiramente, emocionalmente - está em migrar para os Estados Unidos. Enquanto não alcança esse objetivo, o rapaz trabalha em uma indústria (aliás a mesma em que sua mãe também é operária) e namora a jovem e Yuan (Joan Chen), sua verdadeira paixão. Só que quando sua mãe quase perde um braço em um acidente na indústria, Grover decide aceitar o convite de seu patrão para uma temporada trabalhando na Terra do Tio Sam. A condição: que case com sua filha Zhenzhen (Fiona Fu). Assim, o rapaz deixa uma vida simples no Oriente, local em que estaria perto de sua mãe e de sua verdadeira paixão, para investir em uma carreira que provavelmente lhe dará mais dinheiro, mais estabilidade, ainda que num casamento que claramente será infeliz, com uma pessoa que ele não gosta. E num local desconhecido, com barreiras de língua e todas as dificuldades iniciais em "projetos" do tipo. Preciso dizer a vocês se isso deu certo? Quando Grover aparece na versão idoso, brigando o tempo todo com sua filha e morando sozinho em um local ok, mas com pouca "vida" a gente já sabe que não.

Todos nós, afinal, fazemos escolhas erradas em nossas vidas - um emprego que escapa, uma paixão que poderia ter sido, uma viagem desperdiçada, pequenos instantes que não voltam mais. E o filme nos lembra o tempo todo que assim é a vida e não cabe a nós julgar. A própria Angela perderá o seu amor mais adiante e do que, afinal, terá adiantado as escolhas prévias? As brigas? Os desentendimentos? Nossos desejos parecem nunca ter fim e, em épocas de Instagram, as nossas vidas nunca parecerão tão suficientes quanto as demais. E Tigertail discute todos esses temas apostando na sutileza, em avanços pequenos e econômicos, em pequenos instantes que nos fazem largar um "aah, então é sobre isso que o filme está falando". Aliás, guardadas as proporções de estilo narrativo, esta obra me fez lembrar outro filme sobre pessoas que buscam ser felizes trocando a geografia, como se ela pudesse determinar a felicidade de alguém: o ótimo e melancólico Foi Apenas Um Sonho (2008), do Sam Mendes. Nele, o casal vivido por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio acredita que poderá salvar seu casamento que desmorona, se conseguirem se mudar para Paris. Demora um pouco para que eles percebam que o problema do relacionamento deles está NELES e não no local onde moram. Pode ser tarde para que a gente perceba as coisas de forma um pouco mais cristalina. Ou nem tão tarde assim, já que a vida é feita de imprevisibilidades. Melhor assim, afinal.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Tesouros Cinéfilos - Seven: Os Sete Crimes Capitais (Se7en)

De: David Fincher. Com Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey. Suspense / Policial, EUA, 1995, 126 minutos.

Dentro do subgênero dos "filmes de serial killer", é provável que poucos sejam tão queridos e lembrados pelo público quanto Seven: Os Sete Crimes Capitais (Se7en). Lançado em 1995 por David Fincher (que mais adiante dirigiria Clube da Luta e A Rede Social), a obra reuniria Morgan Freeman e Brad Pitt como dois policiais encarregados de uma investigação que envolve um assassino que pratica seus crimes tomando por base cada um dos pecados capitais. Uma ideia genial já na origem, vamos combinar. Não bastasse um criminoso de modos imprevisíveis e excêntricos e dois delegados de personalidades distintas - Freeman o sisudo, pessimista e quase niilista William Somerset (que está pronto pra se aposentar, claro), Pitt o impetuoso, idealista e expansivo David Mills (o novato, óbvio) -, o filme ainda tem um dos finais mais EXPLODIDORES DE CABEÇA do cinema moderno - daqueles que permanecem conosco assim que os créditos começam a subir. É amargo, é quase delirante e é cinema hollywoodiano de altíssima qualidade, diga-se.

Só que até esse final ocorrer, somos assombrados juntos com Somerset e Mills com as cenas bárbaras dos crimes cometidos a sangue frio, que vão se descortinando no espaço de uma semana. Tudo começa com o assassinato de um homem obeso (a gula) que é praticamente OBRIGADO a comer até morrer, num tipo de tortura lenta, mas calculada, que estabelece a natureza do assassino que começará a ser perseguido. A avareza, a preguiça, a luxúria e a soberba aparecem em seguida, em crimes tão impactantes quanto os anteriores. Aliás, a sequência envolvendo a preguiça e a luxúria são daquelas de embrulhar o estômago, com o serial killer demonstrando uma ausência total de compaixão, um tipo de sociopatia doentia que vai evoluindo conforme os dias passam e a dupla de investigadores vai sendo surpreendida. E a construção do suspense e da tensão nesse transcorrer é não menos do que espetacular, com a montagem (indicada ao Oscar) se alterando cenas de crimes bárbaros e escritórios em que documentos são analisados e pistas para a formação do quebra-cabeças vão sendo gestadas.


Nesse sentido, trata-se do famoso filme "que passa voando", já que mal temos tempo de respirar entre um assassinato e outro. A chuva proposital que cai desvairadamente durante toda a semana em que o filme transcorre, contribui para o clima de melancolia generalizada e de desalento que se estabelece durante a narrativa e que dialoga com o estado de espírito dos detetives, diante da brutalidade e do absurdo dos crimes cometidos. A fotografia escurecida, a claustrofobia dos ambientes sufocantes, a trilha sinuosa de Howard Shore, tudo isso somado às pistas que são inseridas em pequenas doses, em pequenas pílulas (uma frase tirada de um livro, um detalhe esquisito em uma foto, uma digital enganosa), vão estabelecendo uma condição de sufocamento que deveria servir de aula para qualquer aluno de cinema que tenha o desejo de escrever um suspense. Aliás, é tudo tão bem orquestrado, que até as sequências de ação são injetadas de forma imprevisível e surpreendente, como é o caso da perseguição a um potencial suspeito, bem no meio do filme.

Não bastasse todos esses predicados, o filme ainda estabelece o vilão John Doe (Kevin Spacey) como uma figura perturbada, que mistura religião, beligerância e literatura, utilizando citações a autores como Dante Alighieri, John Milton e Geoffrey Chaucer para espalhar pistas - o que torna uma sequência prosaica como a ida de Somerset a uma grande biblioteca, como uma das melhores da película (pela tensão no ar, pela imprevisibilidade, pela falta de conhecimento generalizado). É um filme que também se utiliza de pequenos recursos sonoros e visuais - repare a forma como Doe mergulha um simples saquinho de chá em uma xícara, quase ao final -, e que vai se tornando maior, conforme nos surpreende. Especialmente quando percebemos que a resolução do caso não se dará no tradicional modo detetives + perseguição + sujeito preso de filmes do gênero (e, vamos combinar que a cena em que Doe surge ensanguentado ao pé da da escada da delegacia se ENTREGANDO a Mills é ao mesmo tempo repugnante e aterradora, investindo em um plot twist que só aumenta a nossa curiosidade, ao passo que TAMBÉM nos assombra).



E, como cereja do bolo, a película ainda conta com personagens secundários relevantes - a esposa de Mills, Tracy (Gwyneth Paltrow) terá importância na reta final, especialmente a partir de uma gravidez revelada e do desejo da concretização do sonho americano, de preferência longe de um cenário de violência. Aliás, será nessas minúcias que passaremos a nos importar com os personagens, sendo a cena do jantar (aquela do metrô), uma das mais importantes nesse sentido. E se um metrô que "chacoalha" uma casa, uma vida, seria uma metáfora óbvia para o universo em que estão envolvidos aqueles investigadores (com a lógica de suas existência sendo balançada pelo criminoso que procuram), ela ainda serve para a inserção de um divertido alívio cômico que envolve uma "taça" de vinho entregue ao personagem de Freeman - e que também serve para denunciar a diferença de personalidade de ambos os investigadores. É o filme completo que, 25 anos depois de seu lançamento, segue valioso. Merece demais ser revisitado.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Novidades em Streaming - Fiona Apple (Disco)

Quem me conhece sabe que eu costumo brincar com a frase "este é o álbum do ano", que é proferida repetidamente, sempre que ouço algum disco novo que me agrade. Mas, em muitos casos, admito a vocês: trata-se de uma hipérbole, um tipo de exagero que visa apenas chamar a atenção para esse ou para aquele registro que, muitas vezes, nem é tanto assim. Mas eu tenho a impressão que com Fetch the Bolt Cutters, quinto disco da Fiona Apple, a frase em questão fará todo o sentido. O trabalho tem sido celebrado pela crítica e pelo público como o lançamento do ano! Um tipo de material raro, que condensa todas as experimentações testadas pela artista anteriormente, em uma coleção de músicas caóticas mas divertidas, experimentais mas acessíveis. Anárquica, Fiona adota a entropia como modus operandi, nos fazendo navegar por paisagens sonoras que saltam do piano delicado para a percussão nervosa em segundos - com o seu vocal (e o de seus cachorros) também servindo para a criação de melodias únicas, nunca óbvias, mas sempre instigantes. É aquele tipo de disco para ouvir, ouvir e ouvir e ir descobrindo, a cada nova audição, algum novo elemento, algum outro encaixe, uma diferente quebra de lógica - sendo o todo complementado pelas letras sarcásticas, debochadas, que tornam tudo ainda melhor. Quem quiser testar pode começar por Cosmonauts, Shameika ou Ladies. Vai ser uma bela porta de entrada.